Roger Waters quer levar show “The Wall” à fronteira dos EUA com México

do UOL

Chris Pizzello/Invision/AP
9.out.2016 – Roger Waters se apresenta à plateia do Desert Trip no show que abriu a noite de domingo imagem: Chris Pizzello/Invision/AP

Do UOL, em São Paulo

Um dos fundadores do Pink Floyd, o baixista e compositor Roger Waters está considerando tocar o álbum “The Wall”, um dos grandes clássicos de sua antiga banda, em uma apresentação na fronteira dos Estados Unidos com o México, em protesto contra o presidente americano Donald Trump. A informação foi revelada por ele à agência France Press.

 

Na entrevista, Waters afirma que o álbum lançado em 1979, que vendeu mais de 30 milhões de cópias no mundo, continua extremamente atual “com o Sr. Trump e toda essa conversa de construir muros e criar tanta inimizade quanto possível entre raças e religiões”.

Conceitual, “The Wall” conta a história de um astro da música que, com problemas psicológicos, acaba se afastando da família, amigos e sociedade. O muro aparece como metáfora desse isolamento, que é tema de clássicos como “Another Brick in the Wall” e “Comfortably Numb”.

“O disco mostra como construir muros pode ser prejudicial em nível pessoal, mas também em níveis mais amplos”, diz Waters, que acredita que “haverá um despertar contra essas políticas de extrema-direita”.

“Esgotos têm sido despejados por homens gananciosos e poderosos enquanto eu falo com você”, dispara. “A música é um lugar legítimo para expressar protestos, e os músicos têm o direito absoluto e o dever de abrir a boca para falar sobre isso.”

Histórico político

Em 1990, Rogers Waters, que é defensor da criação do Estado Palestino, já havia abraçado a política ao apresentar o show do álbum “The Wall” em Berlim, celebrando a queda do muro que por quase trinta anos separou a Alemanha em duas.

Com forte teor político, a turnê inspirada no álbum foi relançada em 2010, passando pelo Brasil em 2012 com shows em Porto Alegre, Rio e São Paulo.

Atualmente, o ex-Pink Floyd é uma das vozes mais ativas na música a protestar contra as polêmicas medidas segregacionistas do novo presidente americano. Entre elas, a construção de um novo muro separando os EUA do México.

Em shows recentes, o músico tem lançado ao ar seu tradicional porco inflável com a inscrição “Dane-se Trump e o muro”. As alfinetadas também incluem outras mensagens nada amistosas e imagens de Trump no telão ao lado de membros do movimento racista Ku Klux Klan.

Trump e o enigma chinês

Da Carta Capital

por Delfim Neto

É imperdoável demonizar o país oriental pelos maus resultados da globalização

Globalização
Globalização: em 2015, líderes de países definem acordos

Conta a lenda que Paul Samuelson, grande economista do século XX, desafiado numa reunião de cientistas a apresentar uma proposição não evidente da teoria econômica, respondeu: a teoria das vantagens comparativas, exposta por David Ricardo em 1817. Mas o que significa “vantagens comparativas”? Para entendê-la, suponhamos dois náufragos numa ilha, John e Manuel. Experimentando, John descobriu que, se durante um dia se dedicasse à pesca, conseguiria, em média, 12 peixes e, se colhesse frutos, recolheria 4 cocos. Manuel, em um dia, pescava, em média, 10 peixes e, quanto aos cocos, recolheria 8.

Cada um precisa de uma dieta de peixe e coco. Se dividissem ao meio o seu dia, John comeria 6 peixes e 2 cocos e Manuel comeria 5 peixes e 4 cocos.

Mas John, que tinha alguma familiaridade com relações, percebeu que no tempo necessário para pescar um peixe recolheria um terço de um coco. Se Manuel sacrificasse a pesca de um peixe, recolheria quatro quintos de um coco. Manuel tinha uma “vantagem relativa” sobre ele na colheita de cocos. Não foi muito difícil convencê-lo a concentrar-se na colheita de cocos, enquanto ele se concentraria na pesca. Produziriam, então, conjuntamente, 12 peixes e 8 cocos que, divididos “igualmente” (esta é uma hipótese sempre esquecida), levariam à nova situação: John comeria 6 peixes e 4 cocos e Manuel comeria 6 peixes e 4 cocos, melhor para os dois.

A explicação é simples: o custo de oportunidade, isto é, quantos cocos é possível colher sacrificando um peixe, é de um terço para John e quatro quintos para Manuel. A cooperação entre os dois é a essência da teoria das vantagens comparativas. Trata-se da generalização dessa verdade física: os países especializariam-se na produção dos bens nos quais têm “vantagem comparativa”. A cooperação entre eles, isto é, a liberdade de comércio, melhora a situação (a disponibilidade de bens) de todos.

O problema é que John não é a Inglaterra, nem Manuel é Portugal! A generalização acima envolve outra hipótese implícita. No caso dos dois indivíduos, eles continuaram ocupando o mesmo tempo, faziam as duas atividades e apenas mudaram a ênfase em cada uma delas. Mantiveram-se plenamente empregados, sem maiores inconvenientes!

A especialização de cada país exigida pela liberdade de comércio e o consequente aumento do bem-estar geral que produzirá levará tempo e exigirá sacrifícios para materializar-se. Implicará a transferência, às vezes até locacional, da força de trabalho de outras atividades para aquelas em que ele revelou suas “vantagens comparativas”.

No médio prazo, significa desemprego e graves inconvenientes para segmentos específicos da população. Isso exige políticas públicas adequadas que lhes deem suporte, até que encontrem acomodação no futuro, quando eles (ou seus filhos ou netos!) colherem os benefícios produzidos pela globalização apoiada nas “vantagens comparativas”.

Quando os “perdedores” são empoderados pelo sufrágio universal e podem se defender nas urnas, como acontece nas democracias, a ausência de tais políticas pode tornar a rápida e descuidada globalização politicamente inaceitável, como está ocorrendo hoje em quase todas as democracias do Ocidente.

A sua última manifestação foi a trágica eleição de Trump nos EUA. Isso não tem nada a ver com “direita” ou “esquerda”, ou com “luta de classe”, como sugerem fanáticos prisioneiros de arcaicas visões do mundo. Tem a ver com a insensibilidade do poder político conquistado nos EUA e na Inglaterra no início dos anos 80 do século passado, apoiado numa perversão do liberalismo econômico que acreditou na mágica dos “mercados perfeitos”.

É imperdoável demonizar a China pelos maus resultados da globalização. Ela manipulou com inteligência e grande sucesso o governo dos EUA desde 1980, quando recebeu dele a condição de “nação mais favorecida”, denominada na lei americana Permanent Normal Trade Relations, que até o ano 2000 tinha de ser aprovada anualmente pelo Congresso.

É preciso lembrar o patético discurso do presidente Bill Clinton reproduzido pelo New York Times de 9 de março de 2000, quando sugeriu ao Congresso a aprovação definitiva da condição de PNTR às relações com a China porque a sua entrada na OMC seria um “xeque de rainha” no jogo do comércio entre os dois países.

A única dúvida de Clinton era se a China seria “o próximo tigre capitalista com o maior mercado do mundo, ou o último grande dragão comunista e uma ameaça à estabilidade da Ásia”. Hoje sabemos que é os dois! Não menos trágico é deixar de reconhecer que a China não é e, provavelmente, nem será, no horizonte visível, uma “economia de mercado”, o que torna ridículo acreditar que seu sucesso se deveu às vantagens comparativas. 

Maconha, a grande vencedora das eleições americanas

Da Carta Capital

por Débora Melo

California
Americanos celebram a aprovação do uso recreativo de maconha na Califórnia

Com o ‘sim’ de Califórnia, Massachusetts, Nevada e Maine, 63 milhões de americanos vivem hoje em locais onde uso recreativo da erva é legal

Na mesma eleição que deu a vitória a Donald Trump e mergulhou os Estados Unidos no desconhecido, norte-americanos de oito Estados deram sinal verde para a legalização da maconha. Califórnia, Massachusetts, Nevada e Maine autorizaram o uso recreativo da erva, algo que já era realidade na capital e nos Estados do Colorado, Oregon, Washington e Alasca

Com isso, mais de 63 milhões de norte-americanos (20% da população) vivem agora em Estados onde o uso recreativo de cannabisé legal para maiores de 21 anos. Dos que levaram o tema a referendo, apenas o Arizona rejeitou a proposta. Quanto ao uso medicinal, eleitores de Flórida, Arkansas, Montana e Dakota do Norte disseram “sim” à legalização, que hoje alcança 29 dos 50 Estados do país.

“Isso representa uma vitória monumental para o movimento da reforma da maconha. Com a liderança da Califórnia, o fim da proibição se aproxima rapidamente no país e até mesmo no mundo”, disse em um comunicado Ethan Nadelmann, diretor-executivo da Drug Policy Alliance, organização sem fins lucrativos que defende o fim da guerra às drogas.

A Califórnia foi pioneira em legalizar o uso medicinal da maconha nos EUA, em 1996. O Estado, o mais populoso e mais rico do país, faz fronteira com o México e tem potencial para impactar o debate sobre drogas em toda a América Latina.

De acordo com projeções do Arcview Group, companhia que faz a ponte entre investidores e empresas de cannabis, o mercado regulado de maconha movimenta 6,8 bilhões de dólares por ano nos EUA e, com a adesão da Califórnia no segmento recreativo, em quatro anos esse valor deverá saltar para 22 bilhões.

A proposta aprovada por 56% dos californianos permite que cidadãos com mais de 21 anos portem até uma onça (equivalente a 28 gramas) de maconha para uso pessoal, mas o consumo em locais públicos não será permitido. Também foi autorizado o cultivo de até seis plantas por residência.

As licenças para lojas, os chamados dispensários, deverão ser emitidas a partir de janeiro de 2017, e a previsão é que as vendas para uso recreativo sejam liberadas no segundo semestre ou apenas em 2018.

Os recursos obtidos com o comércio regular de cannabis na Califórnia serão destinados a estudos sobre maconha medicinal, pesquisas sobre as consequências de dirigir sob efeito da substância, campanhas de educação preventiva e estudos contra danos ambientais provocados pela produção em larga escala.

O avanço da onda verde na nação que é a maior patrocinadora da guerra às drogas foi detectado em pesquisa realizada em outubro pelo Instituto Gallup, segundo a qual 60% dos americanos defendiam a legalização do consumo de maconha, maior índice registrado em 47 anos. Em 1969, quando essa pergunta foi feita pela primeira vez, apenas 12% apoiavam a medida.

O contato com as experiências inovadoras do Colorado e de Washington a partir de 2012 pode ter contribuído com essa maior aceitação da cannabis pela população. Na Califórnia, por exemplo, a legalização do uso recreativo havia sido rejeitada duas vezes, em 1972 e em 2010.

“Essa é a primeira votação que se faz já conhecendo experiências de legalização. Os americanos sabem como foi no Colorado, então não é mais um tiro no escuro”, afirma Pedro Abramovay, diretor para a América Latina da Open Society Foundations, organização que financia pesquisas em diversos países e foi fundada pelo megainvestidor George Soros. “E lá funcionou. O Estado arrecadou centenas de milhares de dólares em impostos e o consumo de maconha não aumentou. O grande mito da discussão da regulação é o aumento do consumo”, continua.

Florida
A Flórida elegeu Trump e autorizou a maconha medicinal (Foto: Claudia Wizner/Alamy Stock Photo/Latinstock)

Para Abramovay, é essencial deixar claro que não se trata de liberação, mas de regulação. “As drogas são liberadas hoje, quem quer tem acesso livre às drogas. Não importa se é menor de idade, não importa se é rico ou se é pobre, é sempre muito fácil conseguir drogas. Mas as drogas não devem ser algo fácil de conseguir, não devem ter propaganda na televisão. É preciso ter um controle bastante rígido.”

Relatório publicado em outubro pela Drug Policy Alliance aponta que o consumo de maconha entre adolescentes não aumentou nos Estados que autorizaram o uso recreativo. O estudo cita, por exemplo, pesquisa realizada pelo Departamento de Saúde Pública do Colorado com 17 mil estudantes que indica ligeira queda no consumo em 2015.

Questionados sobre o uso de maconha nos 30 dias anteriores à pesquisa, 21,2% dos adolescentes afirmaram ter consumido a erva. Em 2009, três anos antes da legalização no Colorado, esse índice era de 25%. O mesmo levantamento apontou, ainda, que 43% dos estudantes admitiram ter usado cannabis pelo menos uma vez na vida em 2009, índice que baixou para 38% em 2015.

O relatório aponta, ainda, que o mercado formal de cannabis rendeu ao Colorado 129 milhões de dólares em impostos no último ano fiscal e que as prisões por posse, cultivo e distribuição irregular de maconha foram reduzidas pela metade. A legalização é frequentemente apontada por seus defensores como um instrumento capaz de corrigir injustiças contra as minorias, hoje muito mais suscetíveis a prisões e condenações por crimes de drogas.

Independentemente do que acontece em nível estadual, a cannabis continua ilegal no âmbito federal e está enquadrada na categoria reservada às drogas mais perigosas, conforme classificação do DEA (Drug Enforcement Administration), órgão responsável pela repressão e controle de narcóticos nos Estados Unidos.

Se em 2013 o governo Barack Obama anunciou que respeitava a decisão dos Estados sobre a legalização da maconha, os norte-americanos não sabem o que esperar de Donald Trump, que não se posicionou claramente sobre o tema durante a campanha eleitoral.

Embora tenha defendido a autonomia dos Estados e dado declarações favoráveis ao uso medicinal da erva, o republicano fez críticas à legalização do uso recreativo. À imprensa norte-americana, o diretor-executivo da Drug Policy Alliance resumiu o sentimento: “Ter Donald Trump como presidente me preocupa profundamente”, disse Nadelmann.

Brasil

O avanço da legalização da maconha nos EUA pode impulsionar o debate sobre a descriminalização do porte e consumo de maconha no Brasil. O julgamento do tema está parado desde setembro de 2015 no Supremo Tribunal Federal, quando o ministro Teori Zavascki pediu vista do processo (RE 635659). O placar, por enquanto, está 3 a 0 a favor descriminalização, com votos de Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin.

Para Abramovay, os ministros devem levar em conta as experiências bem sucedidas de outros países. “Acho que tudo isso influencia o debate. A ideia de que a criminalização é algo absolutamente ineficiente e que existem outros modelos permite uma discussão mais qualificada”, afirma.

No que diz respeito à classe política, porém, Abramovay não enxerga mudanças no curto prazo. “Ainda temos muita gente que ganha votos com a ideia de guerra às drogas, de semear o medo para colher repressão.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 927 de CartaCapital, com o título “O alento da erva”