Artista que pichou “Dória” é convidado a sair de casa

da Ponte/cartacapital

Iaco Viana entrou na mira da polícia após fazer pichação em protesto contra o prefeito João Doria na Avenida 23 de Maio, em São PaulO
Com esta pichação, Iaco obrigou o prefeito a apagar o próprio nome | Foto; Instagram @iaco_art

Depois do Carnaval, o artista plástico, pichador e grafiteiro Iaco Viana, 34 anos, pretende montar uma “exposição beneficente” dos seus trabalhos. A causa beneficiada é o próprio artista. “Vou vender alguns quadros e arranjar dinheiro para poder alugar um lugar para morar”, explica. Iaco está morando de favor na casa de uma amiga há duas semanas, quando as pessoas com quem dividia apartamento pediram sua saída. O motivo: não gostaram de receber a “visita” de uma viatura da Polícia Civil, que apareceu no local para convocar o artista a depor no Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais).

Especializado em investigar crimes graves como roubo a banco, lavagem de dinheiro e facções criminosas, o Deic passou também a caçar pichadores, depois que o prefeito João Doria, aliado politico do governador Geraldo Alckmin (ambos do PSDB), declarou “guerra” às pichações na cidade de São Paulo. Iaco tornou-se um dos primeiros suspeitos ouvidos por um inquérito do Deic que busca enquadrar os artistas por associação criminosa, crime que pode dar em até três anos de reclusão. Com isso, a polícia paulista segue os passos das autoridades de Minas Gerais, que em 2015 passaram a prender pichadores com base na mesma lei. Até então, a prática mais comum era enquadrá-los na Lei de Crimes Ambientais, que prevê até um ano de detenção — possível de ser substituído, na Justiça, pelo pagamento de uma cesta básica.

Foto: Instagram @iaco_art

Nome conhecido da arte de rua em São Paulo, Iaco protagonizou um dos protestos mais emblemáticos feitos contra o prefeito Doria por conta do apagamento dos grafites da Avenida 23 de Maio, no final de janeiro. Sobre a tinta cinza deixada nos muros pela prefeitura, o pichador escreveu 12 vezes o nome do prefeito. “Nada melhor do que escrever o nome da pessoa que está proibindo algo. Quando alguém manda apagar o próprio nome é como se estivesse apagando a si mesmo, destruindo seu ego”, explicou na época. À Ponte, Iaco faz questão de ressaltar que seu trabalho vai além das pichações e grafites. “Eu sou um artista plástico. A parede é só um suporte para mim. Eu faço milhares de outras coisas”, diz.

Fotos da pichação “Doria” na 23 de Maio, ao lado de várias outras, faziam parte de um dossiê com mais de 400 páginas com imagens do seu trabalho que Iaco viu nas mãos dos policiais ao ser interrogado na 1ª Delegacia de Policia de Investigações sobre Propriedade Imaterial do Deic, no último dia 7. Após ser ouvido, foi liberado sem indiciamento. “Eles estavam tentando me enquadrar em associação criminosa, mas ficou bastante óbvio que nunca tive nenhum intuito de participar de gangue nem de nada parecido”, conta.

A advogada do artista, Adriana Gregorut, lembra que “o crime de associação criminosa precisa de pelo menos três pessoas para sua tipificação e Iaco deixou muito claro em seu depoimento que fez a escrita no muro da Avenida 23 de maio sozinho, de forma autônoma, bem como não integra e nunca integrou qualquer ‘grupo de pichadores’”.

Foto: Instagram @iaco_art

Logo depois do depoimento à polícia, mesmo sem ter sido indiciado, Iaco foi convidado pelos antigos colegas de apartamento a deixar o local. Ele não insistiu para ficar. “As pessoas [com quem eu morava] me pediram para sair e eu também, depois que a polícia apareceu lá, me sinto mais seguro morando em outro lugar”, explica.

Para a advogada, a saída de Iaco da própria casa foi “uma consequência gravíssima” da investigação do Deic, que se mostra “ainda mais desproporcional” quando se pensa “na baixa ofensividade do crime ao qual ele pode eventualmente vir a ser indiciado ou denunciado”. Nas palavras de Adriana, “essa situação mostra como o estigma que a nossa sociedade impõe aos indivíduos que passam pelo sistema penal (sejam eles investigados, acusados ou condenados) faz com que sofram penas além daquelas previstas na lei”.

SOBRE JOÃO DÓRIA, MBL, A ESQUERDA E NÓS NEGRAS E NEGROS

Do Negro Belchior

15s-neoliberalismo

A campanha de João Dória, do PSDB em São Paulo, foi honesta.

Ele disse que não era político. De fato, nunca foi um político no conceito ao qual a maioria da população percebe.

Ele disse ser trabalhador. Eu também discordo. Mas há na sociedade a hegemonia de uma lógica meritocrática que valoriza o empenho e a prosperidade, logo, se ele enriqueceu dentro das regras do capital – a da exploração do homem pelo homem, tá tudo certo. Isso é sim honesto. Todos desejam. Se ele conseguiu, parabéns!

Ele se disse ultra-liberal, anti-PT (que tem o significado, por mais que discordemos, anti-esquerda); Ele prometeu privatizar ao máximo, diminuir o tamanho físico do estado, aumentar a repressão e acabar com secretarias “desnecessárias”, tais como Igualdade Racial, Mulheres, LGBT e Direitos Humanos. Ignorante que é, não se deu conta de que as de mulheres e Lgbts sequer são secretarias, e que Direitos Humanos e Igualdade Racial, sempre foram mais simbólicas que efetivamente valorizadas (do ponto da destinação de recursos) mesmo pelo atual governo. Ele, João Dória, disse e repetiu isso tudo. E conseguiu mais da metade dos votos válidos no pleito eleitoral. Bom reiterar: Maioria dos votos válidos, e não maioria em apoio popular, visto que votos brancos, nulos e abstenções superaram sua votação, dado este que merece reflexão exclusiva, mas em outro texto.

A Câmara de vereadores seguiu a mesma onda. A bancada fundamentalista, a bancada da bala e a bancada da especulação imobiliária e dos grandes interesses corporativos aumentou. Nossos inimigos de classe estão explícitos ali, tanto na nova Câmara quanto no novo executivo municipal, caçula do tripé dos infernos, Temer/Alckmin/Dória.

O rapaz do MBL, eleito em São Paulo, é só mais um no jogo. Estridente, barulhento, sarcástico e com marcas físicas que o aproxima ao grupo racial majoritário da classe trabalhadora. Tudo que a direita sempre quis ter. Paciência. Eles tem, nós não temos. Agora é enfrentar!

A direita entende muito mais de luta de classes que nós. Desde o fim da escravidão, cooptaram lideranças, movimentos, e iniciativas negras. Não há novidades nisso. Cabe perguntar porque a direita forjou, nesse momento político do Brasil, a sua liderança negra, cujo papel é o diálogo direto com a maioria da classe trabalhadora (negra que é), e a esquerda não.

No Brasil, a dominação de classe por parte dos ricos sempre se deu a partir das relações raciais. Somos um país fruto de quase 400 anos de escravidão. Eles sempre souberam que a manutenção do poder dependeria da continuidade da lógica escravocrata, mesmo no período pós escravidão. Eles a fizeram. Daí a importância do racismo estrutural para a sua permanência no poder. Do lado canhoto, no entanto, nunca se deu importância aos negros enquanto agentes e lideranças políticas, apesar de seu explícito potencial mobilizador.

O rapaz do MBL estará na Câmara Municipal de SP para desestabilizar, para fazer barulho, para provocar. Ele é uma encomenda. Deve ser enfrentado na política e não desqualificado por ser “um negro de direita”. Ele foi eleito a partir da defesa de uma plataforma ultra-liberal, de defesa do interesse privado e de crítica às bandeiras históricas dos diversos movimentos populares e de direitos humanos. É de se lamentar, mas tal deformação também é um direito. Há mulheres de direita, homossexuais de direita, nordestinos e pobres de direita. A questão central não é o fato de ele, sendo quem é, defender as pautas que defende. A questão central é, como enfrentaremos o projeto político nazi-fascista, racista, patriarcal e radicalmente liberal que, de tão eficaz, usa e convence o povo pobre, trabalhador, periférico e negro a cerrar fileiras nas redes, ruas e urnas juntos aos seus algozes. E convence mesmo, de maneira generalizada, não apenas os negros. E mais: o quanto interessa a branquitude de esquerda levar esse debate a sério e à prática.

Ou não aprendemos nada com a História.

Em tempo: Áurea Carolina e Mirielle Franco, BH e RJ, pretas e de esquerda, eleitas vereadoras pelo Psol, nos fazem ter fé no futuro. A sobrevida da esquerda brasileira é preta e periférica, ou não será!