1º de Maio – Secretaria da Cultura passa o chapéu.

Os sindicatos de trabalhadores de nossa cidade receberam alguns dias atrás ofício encaminhado pela Secretaria de Cultura da cidade convidando-os para uma parceria na realização do 1º de Maio deste ano.

Afirma que o dia 1º de Maio, “Dia do Trabalho”, será realizado na Praça XV de Novembro, com várias atrações, como passeio ciclístico, shows artísticos, feira de artesanato, com brinquedos infláveis, feira de adoção de animais, corte de cabelos, manicure, pedicure, etc.…etc….

No parágrafo seguinte conclama aos sindicatos uma parceria para poder realizar o evento, “Devido às dificuldades financeiras encontradas atualmente pelo poder público, bem como pelos demais setores…” “Por esse motivo, gostaríamos de contar com o apoio dessa entidade…”.

Em anexo ao ofício uma projeção dos gastos com o referido evento: $ 13.960,00.

Não entrarei na discussão do teor do evento. Há muito tempo que a preocupação com a data histórica, o que ela representa para os trabalhadores e as reflexões do mundo do trabalho não existe. Um número cada vez maior de sindicalistas prefere a festa do que a comemoração histórica. Isso porque, segundo eles, as pessoas “não estão nem aí para a história”. Talvez por isso estejamos vivendo o que vivemos na atualidade do país.

Também não ficarei tecendo inúmeros comentários do porquê o dia 1º de Maio é o DIA DO TRABALHADOR e não o dia do trabalho. São mais argumentos que exigem profundidade e aparentemente esta palavra não está na moda.

O que efetivamente não dá para entender é o “passar o chapéu” que o secretário de cultura insiste em fazer diante da situação financeira da prefeitura. Já discorri aqui dos números que compõe o orçamento da cultura e o que até aquele momento havia sido gasto. Vamos então atualizar:

No artigo anterior dissemos que 78% do orçamento da cultura estava reservado para folha de pagamento. Portanto, 22% para outros gastos e investimentos. Ainda naquele artigo dizíamos que entre janeiro e fevereiro havia sido aplicado na cultura $ 685 mil. Uma conta rápida de percentagem nos dá o valor de $ 150 mil aplicados em atividades e manutenção da secretaria.

Até o dia 13 de abril a cultura havia pago $ 1.102.777,31, segundo o Portal da Transparência. Se até fevereiro foram gastos $ 685 mil, temos um acréscimo de $ 417 mil. Novamente fazendo a conta rápida de percentual: 22% de $ 1.102.777,31 é $ 243 mil.

No orçamento estão previstos para manutenção e outras atividades, $ 1,2 milhões.

Isso nos dá uma sobra orçamentária de $ 957 mil.

Na mesma data (13/04) o Portal da Transparência mostra que a Prefeitura gastou $ 64.764.537 e arrecadou $ 101.113.131, ou seja, um superávit de $ 36.348.594.

Nos meses de janeiro e fevereiro esse superávit era de $ 27,6 milhões. Um acréscimo de 32% no superávit da prefeitura.

Ai, o secretário de cultura que tem disponível em seu orçamento algo em torno de $ 957 mil e faz parte de uma administração que mantem um superávit financeiro maior que $ 36 milhões, chega até os sindicatos de trabalhadores e pede $ 13 mil para realizar o 1º de Maio na Praça XV!

Estou maluco ou algo não está encaixando nessa lógica?

Qual a justificativa para não investir, passar o chapéu e “guardar dinheiro”?

Qual é ou quais são os projetos de médio e longo prazos que estão guardados na cartola e até agora não foram explicitados? Afinal, $ 36 milhões é maior que a arrecadação média de um mês da prefeitura.

Impossível entender ou mesmo tentar encontrar lógica sem um esclarecimento dos objetivos futuros dessa administração, se existem.

O que não fica difícil de descrever é essa fala incessante de que não existem recursos para nada e verificar nos próprios números do Portal da Transparência que muito recurso está guardado. Tanto que no mês de março a receita advinda de aplicações financeiras foi bastante alta: mais de 300 mil reais (quase duas Paixões de Cristo).

Continuamos na expectativa do que ocorrerá e até quando os secretários terão esse papel de chorões sem lágrimas, já que não se encontra motivos para isso.

Quanto ao 1º de maio, certamente alguns sindicatos serão solícitos aos pedidos feitos, já que aparentemente o discurso pega mais fácil que a frieza dos números.

A confirmar.

A Paixão de Cristo em Salto

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Encenação de 2014

Em nossa cidade temos algumas tradições que mobilizam milhares de pessoas.

Uma delas, sem dúvida nenhuma, é a encenação da Paixão de Cristo às vésperas da Semana Santa. Até o ano de 2016 foram 22 apresentações realizadas. Toda sua estrutura, montagem e execução acontecem com pessoas da cidade: atores, atrizes, bailarinos e bailarinas, artistas em geral, diretores, coreógrafos, maquiadores, figurinistas, dentre outros, juntam-se para proporcionar um espetáculo grandioso e esperado por toda a população da cidade e também da região. Já é um marco na cultura do estado.

À Prefeitura sempre coube o papel de organizar, coordenar e investir os recursos necessários para que o evento acontecesse, a partir da Secretaria da Cultura.

Semana passada uma nota da prefeitura jogou um balde de água fria em todos aqueles e aquelas que aguardavam ansiosamente por esse evento, seja para participar da execução do espetáculo, seja para “descer” até o Pavilhão das Artes a fim de assistir o magnífico espetáculo. A nota resumidamente dizia que neste ano não teremos a Paixão de Cristo por dificuldades financeiras. Na nota um número que não deixa de ser coerente para sua execução: $ 170.000,00.

Depois da nota várias manifestações se observaram em todos os cantos da cidade. Apesar da pouca divulgação da imprensa local (que parece ter “assumido” o atual governo…) muitas foram as pessoas que não se conformaram com essa atitude. O atual secretário da cultura em algumas manifestações se diz muito chateado com tudo isso, que não gostaria de ser o portador dessa triste notícia, mas enquanto gestor não poderia fugir a realidade da falta de recursos.

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Falta de recursos é um discurso que neste ano cola muito bem. Afinal nosso país vive uma crise como nunca tivemos. No acumulado dos dois últimos anos o PIB (Produto Interno Bruto) já caiu 7,6%, o que demonstra uma recessão profunda sentida na pele por todos nós.

A falta de recursos definitivamente mobiliza a gestão municipal para priorizar aquilo que é fundamental e importante para a cidade, procurando fazer com que isso caiba nos poucos recursos existentes. Isso é fato.

Agora, é fato também que não pode ser inibidora de ações, não pode ser muleta para ostracismos, nem justificativas para paralisia de realizações.

A secretaria da cultura tem um orçamento previsto para esse ano da ordem de $ 5,4 milhões. Desse valor 78% está reservado para folha de pagamentos ($ 4,2 milhões). Os demais 22% podem ser ajustados, remanejados, realocados para onde bem entender o gestor e, em alguns casos, assim aprovar a Câmara Municipal.

Estamos falando de algo em torno de $ 1,2 milhões.

Se quisermos ser mais específicos, podemos olhar o orçamento e verificar que $ 731 mil estão reservados para pagamentos de pessoas jurídicas; $ 50 mil para pagamentos de pessoas físicas; $ 28 mil para equipamentos e materiais permanentes e mais $ 81 mil para materiais de consumo. Temos ainda $ 152 mil reservados para o pagamento dos projetos culturais via editais de cultura (esperamos que aconteçam).

Poderão dizer os pessimistas: mas isso é orçamento! Não é dinheiro em caixa! Perfeitamente.

Então vamos ao “dinheiro em caixa”.

Entre janeiro e fevereiro os recursos recebidos pela prefeitura somaram $ 65,6 milhões ($ 31 em janeiro e $ 34 em fevereiro), já descontados os valores que vão para o FUNDEB. Nos mesmos meses a prefeitura gastou $ 38 milhões ($ 16 em janeiro e $ 22 em fevereiro).

Isso nos dá um superávit nos dois meses da ordem de $ 27,6 milhões.

E aqui não estamos considerando o que o governo anterior deixou em caixa ($ 7 milhões em recursos próprios e $ 21 milhões em recursos de emendas).

Isso quer dizer que da receita arrecadada em dois meses a prefeitura investiu somente 58% dela.

Quanto disso foi para a Cultura? $ 685 mil!!! 13% do orçamento da cultura!!!

Desses dados (que estão disponíveis no Portal da Transparência), muitas perguntas podem ser feitas, mas que aqui vamos limitar a questão da cultura.

No carnaval foi feito um estardalhaço para dizer que as poucas atrações que tivemos na cidade foram bancadas pela iniciativa privada. Aplausos!!!

Agora, no evento seguinte, a Paixão de Cristo, a nota diz que por falta de recursos ela não acontecerá.

Como assim falta de recursos se até agora a prefeitura investiu somente 685 mil reais na cultura e tem em caixa 27 milhões de reais?

Qual a prioridade que está sendo preservada e que nós míseros mortais não sabemos?

O que justifica nenhum investimento em ações da cultura e um superávit de 27 milhões de reais nas receitas (sem considerar o que já estava em caixa)?

O valor estimado pelo secretário de cultura para a realização da Paixão de Cristo (170 mil reais) representa 23% do que está reservado para pagamento de pessoas jurídicas na cultura. Representa 3% do orçamento total da cultura. Representa 0,7% do que a prefeitura ainda tem em caixa dos meses de janeiro e fevereiro.

A conclusão não pode ser outra: a prefeitura não quer fazer a Paixão de Cristo, assim como não quis manter o transporte universitário, o cartão material escolar e o cartão do servidor.

Não é uma questão de falta de recursos, mas uma questão de escolhas. Uma escolha que priva toda a população da cidade de momentos de encantamento na apresentação da Paixão de Cristo. Uma escolha que priva inúmeros artistas e fazedores de cultura de mostrarem seus trabalhos. Uma escolha que empobrece nossa cidade em suas tradições e cultura.

Fácil jogar na crise a culpa pelas escolhas. Difícil é fazer da crise momentos de superação e de realizações.

Dinheiro tem. Não menosprezem a inteligência de nosso povo.