Jânio: o jato do Moro é lerdo

do Conversa Afiada

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O Conversa Afiada reproduz artigo da Fel-lha de Janio de Freitas, cujo potencial de destruição corre na velocidade da luz!

Jato lerdo é mais uma originalidade da produção nacional. Como o nome sugere, criada nos laboratórios da Lava Jato, que também deu (com a colaboração de peessedebistas) muitas provas da eficácia do invento. Sujeita, no entanto, a frequentes contestações. Todas, é verdade, relegadas ao descaso, que é a vala comum reservada aos argumentos e evidências inconvenientes ao poder. Por acaso ou por contingências incontornáveis, porém, a criação de repente se autodenuncia.

Detidos nos Estados Unidos, os brasileiros Jorge Luz e seu filho, Bruno Luz, entram na Lava Jato com rapidez, em relação ao pedido do juiz Sérgio Moro de que fossem localizados pela Interpol. Já a Lava Jato levou quase três anos até dar aos dois a atenção que trabalharam muito para merecer. Não é que fossem desconhecidos ou mal conhecidos dos coletores de delações. Bem ao contrário. Já o delator dos delatores, Paulo Roberto Costa, apontou-lhes o dedo ainda no início de sua nova e logo bem sucedida carreira.

Além disso, Jorge Luz tem dezenas de anos de serviço e de respeito no seu meio profissional, pela extensão da sua área de operações e pelo domínio das técnicas de sua especialidade –lobby e intermediação de negócios ilícitos. Em particular, nas fraudes em concorrências públicas. Jorge Luz –um nome fácil de guardar para sempre– está na ativa desde os tempos da ditadura.

Experiência e memória extensos demais para um plano de ação com jatos concentrados em área delimitada. Quem vem de longe passa pelos anos 80 e 90, não só pelos de 2000. Lembrança puxa lembrança, uma citação desavisada, um nome referido só como ilustração –e pronto, está extrapolada a delimitação. Um risco.

Jorge Luz e sua atividade baixaram ao limbo. Mesmo que, depois de Paulo Roberto, outros o mencionassem lá por 2014. Mas só em janeiro deste ano lhe chegaram sinais de perigo, levando-o ao encontro do filho já morador de Miami.

Jorge Luz não pôde escapar da Lava Jato. Mas a Lava Jato não pôde escapar de Jorge Luz.

​(…)​

Xadrez da teoria que sustenta o golpe

Do Luiz Nassif

da sério O Xadrez do Golpe

Peça 1 – as ideias e a conspiração

Nessa geleia geral em que se transformou o golpe, uma boa análise estratégica exige a tipificação mais detalhada do papel de cada personagem.

O poder de fato está em uma entidade chamada mercado.

É o mercado quem forneceu o fio agregador do golpe, o objetivo final, o componente ideológico capaz de criar uma agenda econômica alternativa, em torno dos quais se agruparam a mídia, o PSDB e se induziu à politização de instituições, como o STF (Supremo Tribunal Federal) e o MPF (Ministério Público Federal), montando o círculo inicial que passou a dar as cartas no governo Temer e, possivelmente, no pós-Temer.

É a parte mais eficiente do golpe, seguindo um roteiro fartamente descrito em obras como “A Teoria do Choque” de Naomi Klein. Confira, a propósito, o “Xadrez da Teoria do Choque e do Capitalismo de Desastre” ( https://goo.gl/vZYVzy).

Dado o golpe, reza a teoria (importada da Escola de Chicago), se tem seis meses para emplacar as medidas mais drástica e consolidar o novo modelo.

A nova equipe econômica avançou como um bólido sobre os instrumentos econômicos do Estado, com um plano de ação completo, meticulosamente preparado desde que o PMDB apresentou a tal Ponte Para o Futuro.

Não se trata de um plano de estabilização, capaz de reverter a crise, mas de um desmonte do Estado que aprofundará a crise. É a estratégia da terra arrasada, visando sepultar qualquer vestígio do antigo modelo, independentemente dos custos para o país e seu povo.

·      Apresentou a PEC 55 que, aprovada, acaba com qualquer possibilidade de política fiscal anticíclica e manieta todos os futuros governos.

·      Se vale da crise fiscal para garrotear os governos estaduais.

·      Esvaziou o BNDES, fazendo-o pagar antecipadamente R$ 100 bilhões ao Tesouro.

·      Ampliou a degola das empreiteiras nacionais, proibindo financiamento à exportação de serviços e às empresas mencionadas na Lava Jato.

·      Prepara-se para vender a carteira de ações do BNDES na bacia das almas.

·      Montou uma queima de ativos da Petrobras, em um momento em que todos os ativos nacionais estão depreciados pela crise e os ativos petrolíferos depreciados pelas cotações de petróleo. Vende para reduzir passivo. Deixa de lado todos os investimentos na prospecção, nas refinarias e nos estaleiros (que garantiriam a expansão imediata e a longo prazo) para quitar antecipadamente (!) financiamentos contratados junto ao BNDES. Nenhuma empresa com crise de liquidez quita antecipadamente financiamentos. No máximo, reestrutura passivos.

·      Começou a esvaziar o FGTS, facilitando o saque das contas.

·      Com a ajuda da Lava Jato, jogou a pá de cal na cadeia produtiva do petróleo e gás, no sonho dos estaleiros nacionais, na expansão do capitalismo brasileiro para África e América Latina. Busca a destruição da maior empresa privada brasileira, a Odebrecht, a empreiteira que mais incomodava os concorrentes norte-americanos.

·      Na diplomacia, acabou de matar o protagonismo do Itamarati.

Para atingir seus objetivos, o sistema tem permitido a proliferação das maiores jogadas que o Congresso e o Executivo já ousaram em sua história recente:

·      A iniciativa de entregar às teles os ativos acumulados durante o período de concessão. Aliás, o senador Jorge Viana (PT-Acre) deve explicações a seus eleitores e admiradores.

·      A jogada de transformar multas das teles em obrigação de investimento, reeditando estratagema utilizado pelo inacreditável Paulo Bernardo, quando Ministro das Comunicações. Na prática, equivale a perdoar as dívidas, já que os investimentos teriam que ser feitos de qualquer maneira, por obrigação contratual ou exigência de mercado.

·      A compra gigantesca de produtos Microsoft, interrompendo o trabalho de disseminação do software livre.

·      As jogadas escandalosas do senador Romário, de depositar nas mãos das APAEs e das Sociedades Pestalozzi o controle de toda a educação inclusiva.

·      A tentativa de emplacar os cassinos e casas de bingo.

·      A enxurrada de dinheiro público despejado nos veículos de mídia, cujo melhor exemplo é a campanha milionária de prevenção da Zika e falta de remédios para as grávidas.

·       A MP 754 que faculta à CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) autorizar reajustes a qualquer momento. A lei que criou a CMED, em 2003, autorizava-a a determinar apenas reajustes anuais de preços. Agora, haverá reajustes, a qualquer momento, dependendo de uma plêiade de Varões de Plutarco: Ricardo Barros, Ministro da Saúde, Alexandre Moraes, da Justiça, Henrique Meirelles, da Fazenda, o pastor Marcos Pereira, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e Eliseu Padilha, da Casa Civil, todos homens piedosos.

·       A tentativa de jogar a Fiocruz sob o comando de Ricardo Barros e Temer.

Peça 2 – a economia de um país retardatário

Toda essa conspiração política repousa em um edifício teórico que está sob forte processo de questionamento em países culturalmente mais avançados. No Brasil, os temas se tornaram matéria de fé.

Os ideólogos desse manual – tão velho quanto a Escola de Chicago – são os economistas Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, ambos competentes em suas funções.

Lisboa é um brilhante economista que, na gestão Antônio Palocci, foi responsável por vários avanços microeconômicos relevantes. Foi alçado à condição de guru pelo megainvestidor Jorge Paulo Lehman. Ao perceber que as eleições de 2002 marcariam o fim do período tucano, Lehman enganchou Lisboa na campanha de Ciro Gomes, por indicação de Alexandre Scheinkman, o brasileiro que dirigia o prestigioso Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Depois, coube a mídia o trabalho de, em pouco tempo, torna-lo conhecido e com fama de gênio – seguindo o roteiro conhecido de criação de gurus, mesmo sem uma produção acadêmica robusta.

Eleito Lula, o primeiro aceno de seu Ministro da Fazenda Antônio Palocci ao mercado foi a nomeação de Lisboa como Secretário Executivo da Fazenda. Quando canalizou seu talento para as questões microeconômicas, conseguiu feitos notáveis, como o de destravar o Sistema Financeiro da Habitação.

Agora, seu papel é o desmontar o Estado nacional e implementar um modelo de mercado, não um plano de estabilização, menos ainda um projeto de desenvolvimento equilibrado, que junte as virtudes de mercado com a de Estado. O objetivo único é ideológico, impor terra arrasada em todos os instrumentos de intervenção do Estado na economia – mesmo aqueles consagrados em todos os países civilizados, e peças centrais na recuperação da economia, como bancos de desenvolvimento, ou de comércio exterior, compras públicas, financiamentos à inovação etc. – ainda que à custa de um aprofundamento maior da crise.

Dilma não soube transformar o Estado em um articulador do mercado. Lisboa simplesmente quer abolir o Estado, como se fosse possível a um país da dimensão do Brasil depender do mercado como agente originário das expectativas, algo que nem os Estados Unidos ousam. E tudo isso jogando com o destino de milhões de trabalhadores, de empresários, jogando fora anos de investimento em novos processos, novas tecnologias.

É chocante como a chamada pós-verdade se infiltra até nos círculos tidos como bem informados, com afirmações sobre o ajuste fiscal na União Europeia, quando o próprio FMI está revendo os problemas dos ajustes recessivos.

Peça 3 – a política econômica de manual

Durante o longo período de neoliberalismo – que se inicia em 1972, com a desvinculação das cotações do ouro e do dólar – criou-se a fantasia de que a economia global se articularia passando ao largo das políticas nacionais. Aboliu-se a história econômica como vetor de análises. E, com o advento dos microcomputadores e das planilhas, entrou-se na era do uso abusivo de estatísticas e fórmulas ilusórias em cima de macro-números que encobrem as realidades nacionais e de blocos, e que só trabalham um conceito de equilíbrio utópico, sem nenhum diagnóstico para os grandes stress econômicos.

Especialmente nas ciências humanas –a medicina, as ciências sociais ou a economia – as teorias são instrumentos para se analisar a realidade local e suas circunstâncias. Não existem regras universais. O exame de laboratório não substitui a análise do paciente pelo médico, assim como a teoria econômica não é um manual de aplicação universal. Para cada circunstância, há um conjunto de medidas específicas.

A crise de 2008 abriu os olhos do primeiro time de economistas dos países centrais. Percebeu-se que a economia é muito mais complexa do que as realidades captadas em modelos matemáticos que compensavam a escassa sofisticação analítica com excesso de estatística.

Vale a pena ler a entrevista de Eric Beinhocker na Carta Capital (https://goo.gl/DirQsb). Para cada circunstância, há que se apelar para os instrumentos de política econômica adequados, sem part-pris ideológico. E recorrer também ao conhecimento empírico, especialmente nos casos de stress agudo da economia que criam situações não identificadas na história econômica recente. De tal modo, que o exercício da política econômica é um misto de técnica e arte, de teoria e intuição.

Nos 8 anos de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, todas as crises econômicas, quase todas nas contas externas, eram tratadas do mesmo modo, com ajustes fiscais severíssimos, que apenas agravavam a recessão. A política de juros e de câmbio produziu um dos períodos de maior estagnação econômica da história.

Em 2008, Lula decidiu enfrentar a mega-crise que se avizinhava recorrendo a todos os instrumentos possíveis para reanimar a economia. Saiu consagrado. E também deu sorte. Se a crise não catapultasse o dólar para as alturas, provavelmente o país teria quebrado em 2008, tal o rombo nas contas externas promovido por uma política cambial imprudente que, além disso, prorrogaria estagnação do período FHC.

A crise do governo Dilma foi decorrência da incapacidade de montar cenários e estratégias alternativas para o fim do ciclo das commodities. Deveu-se também à elevação imprevista de juros em 2013, à sucessão infindável de subsídios que fragilizaram a parte fiscal e, depois, um ajuste fiscal severíssimo, pró-cíclico, que aprofundou a crise: medidas tomadas nos momentos errados.

Em fins de 2015, quando aparentemente conseguira chegar a um diagnóstico mais razoável, com uma estratégia racional de saída da crise, e os analistas previam a recuperação a partir do segundo semestre, foi fuzilada pela ação conjunta da Lava Jato e do Procurador Geral da República, associados ao boicote do PSDB e de Eduardo Cunha na Câmara e no Senado.

As lições que ficam é que as medidas econômicas não são virtuosas em si: dependem das circunstâncias em que são implementadas. Há um conjunto de princípios de responsabilidade fiscal a serem seguidos por qualquer governo. Mas, em períodos de recessão, a política fiscal precisa ser anticíclica – através do aumento dos gastos públicos -, caso contrário a cada corte de despesas se seguirá uma queda maior da receita. Em tempos de economia aquecida, pratica-se política fiscal mais severa. Nenhum economista com um mínimo de bom senso deixaria de considerar essas questões.

Esse quadro era nítido no início de 2015, quando Joaquim Levy deu inicio a seu plano suicida. Uma dose de conhecimento empírico seria suficiente para mostrar que os cortes fiscais aprofundariam ainda mais a recessão, ampliando o déficit fiscal via queda de receita.

Levy preferiu acreditar em estudos dos anos 90, que supostamente atestariam que cortes de despesas têm pouco impacto no PIB. Nem se deu conta que, em 2012, o próprio FMI tinha revisto essas conclusões.

Para os cabeças de planilha, conhecimento empírico não é ciência e as experiências históricas não tem validade. Valem apenas as estatísticas baseadas em séries históricas contemporâneas.

A cada situação nova, criam desastres monumentais pela incapacidade de só recorrer a manuais montados em cima de situações passadas. Os desastres só serão inteiramente compreendidos quando estudados a posteriori. E, como aqui é o país do Macunaíma, nem mesmo grandes erros recentes – como o pacote Levy – servem de lição para o pacote Lisboa.

Peça 4 – próximas etapas

A fantasia do pote de ouro no fim do arco-íris acabou. A história de que bastaria tirar Dilma para a economia se recuperar já está sendo percebida como blefe pelo cidadão comum.

Tem-se um presidente tão desmoralizado que, a maneira que a revista Veja encontrou para retribuir o megapacote publicitário, foi uma capa-fantasia com a senhora Temer, tal a falta de atratividade em qualquer outro aspecto do primeiro marido.

A economia não irá se recuperar com esse viés ideológico predominando na política econômica. Pelo contrário, há no horizonte próximo o pior dos mundos: o default dos Estados.

Em março o STF (Supremo Tribunal Federal) deverá liberar os inquéritos contra políticos. A quantidade de jogadas planejadas pela camarilha de Temer e pelo Congresso aumentará ainda mais a fragilidade do governo.

A oposição vê nas eleições diretas a saída para a crise. Ocorre que Sérgio Moro, os procuradores da Lava Jato e o TRF4 têm lado político. Ao menor sinal de renascimento de Lula, tratarão de impugnar sua candidatura através da condenação relâmpago em 1a e 2a instância.

Por outro lado, o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Gilmar Mendes, deixa transparecer seu cansaço com o Supremo e a possibilidade de aceitar algum cargo executivo futuramente.

No momento, a aposta com maior probabilidade é a degola de Michel Temer seguido de eleições indiretas sob controle do mercado-PSDB, com o PGR cumprindo o papel de agente intimidador de políticos recalcitrantes.

Há muita confusão e poucos personagens, para permitir a montagem de cenários mais precisos.

“Tá tudo dominado” pelos achacadores

Da Carta Capital

Cid Gomes e Eduardo Cunha

Eis que Cid Gomes, nosso agora ex-ministro da Educação, está aí para provar que a política no Brasil pode até matar de raiva, nunca de tédio. Reafirmando a tradição língua-solta familiar, Cid disse e redisse mera verdade: há de 300 a 400 achacadores no Congresso. E eles são rápidos. Minutos após a declaração bombástica, Cid teve a cabeça pedida pelo PMDB. E caiu. Desta vez, os achacadores venceram.

O fato de a demissão de Cid ter sido anunciada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), achacador-mór do País, é reveladora do atual estado de coisas. De repente, a grande política cedeu o protagonismo aos coadjuvantes.

PT e PSDB, que conduziram o debate político nas últimas décadas, vivem hoje na retaguarda do PMDB. O governo Dilma Rousseff se tornou refém da tropa de Eduardo Cunha. Já os tucanos perderam o juízo ao embarcar na onda golpista capitaneada pelo baixo clero. É a vez dos achacadores (que estão espalhados por toda a base, PP, PR e PQualquerCoisaQueCaibaNaCoalizão).

Eles sempre existiram. Mas desde a redemocratização parecem ter encontrado um clube perfeito que responde pelo nome de Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Claro que há gente boa no PMDB (raríssimos, como Pedro Simon), mas a agremiação ilustra como o sistema político brasileiro é disfuncional e esquizofrênico (e como, mais que nunca, precisamos de uma reforma política abrangente, com financiamento público e menos achaques).

Não sei se alguém se viu na tarefa de explicar a um estrangeiro como um partido supostamente aliado, como o PMDB, se tornou um dos maiores entraves ao governo no Congresso. Difícil de entender esse tal presidencialismo de coalizão, agora em piripaque. A atual crise, no entanto, longe de apenas espalhar confusão, traz certa luz à política brasileira, mostrando quem é quem nessa história.

Cid cometeu sincericídio (e há quem diga que ele tivesse suas razões particulares para falar o que falou). Não era de se esperar que Dilma o segurasse. Dirigindo-se aos “oportunistas” que integram a base mas só fazem atravancar a administração, foi sincero e direto: “Larguem o osso ou saiam do governo”.

Mas eles não largarão o osso tão cedo. Ou alguém acha que Cunha e cia iriam jogar a toalha justamente quando é mais fácil (e lucrativo) achacar o governo – ou seja, em momento de crise?

Por isso não acho que a tese do impeachment prospere do jeito que se propagandeia. Primeiro porque o grande capital (por mais que odeie Dilma) não irá jogar o Brasil no buraco negro da instabilidade econômica, correndo o risco de ver o risco-país disparar e a economia se esfarelar em ritmo supreendente. Segundo, é muito mais lucrativo achacar o governo de plantão do que liderar a administração e ficar sob os holofotes. Por que será que o PMDB nunca tem candidato próprio?

Como já disse o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira (que a seu favor só tem o fato de ser opositor assumido), a questão não é tirar Dilma do Planalto – o objetivo é sangrar o governo e o PT (deixando o caminho mais fácil para os achacadores).

Na narrativa hegemônica, oposição e inconformados estão contra a corrupção na Petrobras e no resto do País. Gente comoAgripino Maia (DEM), que desfilou sorridente no 15 de março pedindo lisura nas contas públicas quando ele mesmo é acusado de cobrar mais de 1 milhão de reais em propinas no Rio Grande do Norte. Ou como o primo de Beto Richa (PSDB), preso acusado de fraudar licitações dois dias depois de berrar Fora Dilma. (É claro que a manifestação foi legítima, mas não apontar suas flagrantes contradições é pedir demais).

É inegável que a corrupção está nas mais diversas esferas, inclusive no meu Partido dos Trabalhadores. Falta honestidade e decência à grande mídia, mas achar que escândalos como o atual são apenas produto de conspirações da imprensa tem em si um pouco de inocência.

O PT precisa seriamente se repensar como partido e no que pode oferecer à sociedade em termos programáticos (porque é ainda o mais bem sucedido experimento democrático deste país). Talvez o PT e Dilma tenham de ser mais Cid Gomes – cobrar lealdade dos aliados e retomar a pauta política. No decorrer dos últimos 13 anos cedemos à tal governabilidade e demos as mãos a alguns achacadores (Cândido Vaccarezza e sua reforma política vendida que o digam).

Longe de sentir qualquer palpitação no peito, confesso que tive certo entusiasmo (sonhático e inconsequente, admito) com a bravata do PMDB de que deixaria o governo se o ministro da Educação não caísse. Por um momento pensei em como Dilma seria mais feliz não tendo de aturar Eduardo Cunha como suposto aliado. E como o País seria tão melhor não tivesse tantos achacadores na coalizão de governo.

Foi um devaneio, eu sei. A vida em Brasília é dura e não se governa sem maioria (leia-se, não se governa sem o PMDB). O episódio kamikase de Cid Gomes, no entanto, é uma oportunidade para se mexer nas peças do governo e para reafirmar a necessidade da reforma política. De resto, é dedo cruzado, jogo articulado e resistência. E boa sorte em 2015.

Os resultados da dubiedade do PMDB no RJ

 

Da Rede Brasil Atual

 

Governistas ‘rebeldes’ tentam emplacar o tucano na chapa peemedebista, mas crescimento de Dilma, que está na frente nas pesquisas no Rio, murcha movimento de ruptura com o PT

 

Rio de Janeiro – Candidato a vice na chapa do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) que disputa o Governo do Rio de Janeiro e coordenador da campanha de seu primo Aécio Neves (PSDB) à Presidência da República no estado, o senador Francisco Dornelles (PP) tem sido nos últimos dias correia de transmissão para a mútua insatisfação que contaminou tucanos e peemedebistas após a falta de resultados do movimento denominado “Aezão”.

Segundo informações passadas por integrantes da campanha de Pezão, a relação entre os dois partidos azedou de vez após a baixa participação do PMDB na caminhada realizada por Aécio domingo (19) na orla do Rio, ato que contou, segundo a Polícia Militar, com cerca de quatro mil pessoas.

Principal ponto das críticas feitas por Aécio na conversa com o primo, que teria sido travada depois do ato na orla, a postura dúbia em relação à disputa presidencial se tornou este ano a marca do PMDB fluminense, já que oficialmente o partido declarou apoio a Dilma Rousseff (PT). Sempre dividido, o PMDB ainda conseguiu ajudar Aécio no primeiro turno, quando os candidatos à Câmara dos Deputados ou à Assembleia Legislativa (Alerj) ainda estavam na disputa. Já no segundo turno, sem a massa de candidatos a deputado e com Pezão sempre ao lado de Dilma e nunca ao seu, Aécio acabou mesmo ficando sem palanque no Rio.

No início da campanha, tendo como pretexto a decisão do PT de lançar candidato próprio ao governo estadual, a direção do PMDB, com o presidente regional Jorge Picciani à frente, estimulou o “Aezão”, ao mesmo tempo em que Pezão e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, se declaravam alinhados a Dilma.

Com a ascensão de Marina Silva (PSB) e o declínio de Aécio, o movimento murchou, mas voltou com força total depois que o tucano passou ao segundo turno. Nesta última semana de campanha, no entanto, praticamente não se ouve mais falar da aliança branca entre o PMDB e o PSDB, ao passo em que Pezão, que disputa o segundo turno contra o senador Marcelo Crivella (PRB), grudou na candidata petista em suas recentes visitas ao Rio.

Dois dias depois da confirmação do resultado do primeiro turno, em meio ao clima de euforia que tomou conta dos tucanos, uma reunião que teve a participação do ex-governador Sérgio Cabral, além de Pezão, Paes, Picciani, Dornelles e Paulo Melo, presidente da Assembleia Legislativa, traçou “os rumos da vitória de Aécio no Rio”, como definiu um dos presentes.

Sem disfarçar mais o apoio, Cabral indicou o secretário Wilson Carlos, um de seus homens de confiança, para acompanhar as ações promovidas pelo “Aezão”. Na estratégia definida, caberia a Picciani coordenar apoios e eventos em grandes bolsões de voto como São Gonçalo, Baixada Fluminense e Zona Oeste: “Ninguém abandonou o barco”, resumiu o presidente do PMDB-RJ à saída da reunião.

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Pezão prometeu fidelidade a Dilma, apesar de divisões dentro do PMDB do Rio, e deixa campanha fortalecido neste aspecto

 

Na prática, no entanto, Aécio jamais conseguiu penetrar nas áreas mais carentes do estado durante todo o segundo turno, não restando a ele alternativa senão “pregar para convertidos” em Copacabana e Ipanema. Com isso, o candidato tucano parece ter prejudicado sua intenção de “herdar 90% dos votos da Marina no Rio”, como prometeu, já que as pesquisas de opinião feitas nos últimos dias registram crescimento de Dilma entre os eleitores fluminenses, sobretudo nas áreas mais carentes. Essa lacuna na comunicação com os eleitores poderia ter sido corrigida com uma ampla distribuição de material de campanha, mas este foi escasso, e panfletos unindo Aécio e Pezão se tornaram peças raras no Rio de Janeiro.

 

Efeito sanfona

Enquanto o movimento “Aezão” sofria com seu efeito sanfona, Luiz Fernando Pezão, assim como Eduardo Paes, se manteve irremovível no apoio declarado a Dilma: “Tenho o maior orgulho de poder dizer que nesta campanha trabalhei todos os dias, de manhã até a noite, para reeleger a presidenta Dilma, que é minha grande amiga e grande amiga do povo do Rio de Janeiro”, disse o governador durante carreata realizada segunda-feira (20) no bairro de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio.

Já Cabral permanece submerso, após ter deixado o governo em abril com índice de rejeição superior a 70%. Instado pelo PMDB a desistir de disputar o Senado por conta das dificuldades que teria para se eleger, o ex-governador abriu mão de sua candidatura em favor do ex-desafeto Cesar Maia (DEM), em uma engenharia política feita durante a formação do “Aezão”. Para não atrapalhar Pezão, Cabral só apareceu uma única vez em sua propaganda gratuita na televisão. Nas raríssimas vezes em que apareceu em público, como no dia da votação do primeiro turno, se valeu do mantra repetido nos últimos meses: “O candidato é o Pezão. Quem tinha que ficar conhecido era o Pezão.”

 

A hora de separar o joio do trigo

Da Rede Brasil Atual

 

Rio de Janeiro – Passada a ressaca da votação da MP dos Portos, a retomada da agenda política em Brasília traz a expectativa de início de uma nova fase na relação entre o PT, partido da presidenta Dilma Rousseff, e o PMDB do vice-presidente Michel Temer, maior partido da base governista no Congresso Nacional.

Apesar dos discursos, tanto no Palácio do Planalto quanto na direção dos dois partidos, garantirem a manutenção da aliança e a repetição da dobradinha Dilma-Temer nas eleições do ano que vem, as diferentes posturas adotadas pelos principais nomes do PMDB durante o difícil processo de votação da MP definirão daqui pra frente um novo corte na relação com o PT e o governo.

“Essa votação serviu para a presidenta Dilma separar de vez o joio do trigo no PMDB”, diz um deputado petista, que prefere não ser identificado.

Essa separação tem como principal base as bancadas do PMDB na Câmara e no Senado. A avaliação no Planalto é que os senadores peemedebistas desempenharam papel fundamental na aprovação da MP dos Portos, mesmo diante do “constrangimento”, como definiu o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), de ter menos de 24 horas para aprovar o texto em plenário.

Na Câmara, a avaliação do governo é inversa, já que, apesar do esforço do presidente Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) em concluir a votação com seguidas sessões que, ao todo, duraram 41 horas, a postura da bancada do PMDB foi, na maior parte do tempo, de enfrentamento.

O maior desgaste junto ao Planalto é o do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), que, embora tenha acertado os ponteiros com os líderes do PT e do governo no final do processo de votação da MP, foi o principal articulador de um movimento de rebeldia contra o texto original que quase colocou tudo a perder.

Após derrotar um a um em plenário os destaques aglutinados em uma emenda por Cunha, o governo, para garantir a aprovação da MP em tempo hábil, decidiu retomar parte de seu conteúdo em uma nova emenda apresentada pelo deputado Sibá Machado (PT-AC), o que serviu para acentuar o isolamento do líder do PMDB.

A ordem de Dilma, segundo relatou o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), é “bola pra frente” no Congresso, sem retaliações contra Cunha, mas já se fala nos corredores da Câmara que as indicações do líder peemedebista para empresas estatais poderão ser revistas nos próximos meses. Por ora, a orientação do governo é esperar a fervura baixar.

“Nós sabemos que ganhamos e ele sabe que perdeu. Não podemos tripudiar”, disse um ministro de Dilma, segundo o jornal O Globo, após uma reunião com a presidenta na sexta-feira (17). No entanto, já se diz abertamente entre os deputados que a indicação de um aliado de Cunha – o deputado Danilo Forte (PMDB-CE) – para a relatoria da Lei de Diretrizes Orçamentárias 2014, antes acertada com o governo, subiu irremediavelmente no telhado.

Apesar do descontentamento, a intenção do governo é não entrar imediatamente em rota de colisão com Cunha, já que dependerá do PMDB nas próximas semanas para fazer andar uma recheada agenda legislativa que, entre outras coisas, inclui dez pedidos de convocação de ministros pelas comissões da Câmara e projetos como os que estabelecem novas regras para o ICMS e para a mineração, além de projetos que alteram a Lei de Drogas e que permitem a criação de fundações públicas de direito privado para áreas como saúde, cultura e ciência e tecnologia, entre outras.

Para que a relação com o PMDB na Câmara não azede exatamente em um momento tão importante, o governo buscará reforçar ainda mais a interlocução com o presidente da casa, embora este também tenha recebido críticas de petistas na semana passada. Logo após a aprovação da MP dos Portos na Câmara, Henrique Alves recebeu, segundo ele mesmo contou a jornalistas, um “telefonema de agradecimento” de Dilma.

“A presidenta agradeceu muito a paciência, firmeza, determinação e caráter democrático com os quais eu conduzi a sessão”, disse o deputado. Alves, agora, irá cobrar do governo a aprovação do projeto que determina o pagamento impositivo das emendas parlamentares ao Orçamento da União, principal bandeira do peemedebista em sua campanha pela presidência da Câmara.

Senado

Já no Senado, a rápida aprovação da MP dos Portos serviu para consolidar a relação do Planalto com senadores do PMDB como Renan Calheiros, Romero Jucá (RR), Eunício Oliveira (CE) e Eduardo Braga (AM), este último autor do texto aprovado na comissão mista que tratou do tema no Congresso e que acabou sendo encampado pelo governo. O quarteto peemedebista foi fundamental para, ao lado da bancada do PT, convencer a base governista da necessidade de se votar a MP mesmo sob o fogo cerrado da oposição e da mídia por aceitarem fazê-lo em tão pouco tempo.

“Se a bancada do PMDB na Câmara foi problema, aqui será solução”, disse Eduardo Braga assim que a MP dos Portos chegou ao Senado. O cumprimento da promessa se traduziu na expressiva votação pela aprovação da MP e no reconhecimento por parte dos senadores petistas: “Não identificamos nenhum problema com o PMDB no Senado. Pelo contrário, o PMDB do Senado até entrou em conflito com o PMDB da Câmara por causa das dificuldades que estavam aparecendo por lá para a aprovação da MP”, diz o senador Humberto Costa (PT-PE).

Palanques para 2014

A batalha travada no Congresso Nacional também poderá ter reflexos na relação entre o PT e o PMDB para as eleições do ano que vem. Embora não esteja ameaçado de perder seu posto na próxima chapa de Dilma Rousseff, o vice Michel Temer voltou a ser questionado por petistas pelo fato de, sendo ex-presidente da Câmara, não ter tido força suficiente para influenciar a bancada do partido de forma mais decisiva no sentido de uma votação mais tranqüila.

Temer também é apontado como responsável, ao lado do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, pelo endosso do nome do agora incontrolável Eduardo Cunha quando este pleiteou a liderança do PMDB na Câmara.

No que diz respeito à aliança entre o PT e Cabral, a atuação de Cunha, para desgosto do governador, contribuiu para fortalecer ainda mais o coro dos petistas que defendem a candidatura própria para o governo do Rio em 2014. Provável candidato petista, o senador Lindbergh Farias também teve atuação destacada para que a MP dos Portos tramitasse com tranqüilidade e rapidez no Senado.

Na Bahia, onde a aliança entre PT e PMDB já acumula problemas como o apoio da cúpula peemedebista baiana à vitoriosa candidatura de ACM Neto para a prefeitura de Salvador, a atuação do deputado Lúcio Vieira Lima, irmão de Gedel Vieira Lima, na votação da MP dos Portos também servirá para aumentar o fosso entre o partido e o governo estadual no processo de sucessão do petista Jaques Wagner.

Frente às possíveis dificuldades na relação com o Planalto que agora se descortinam no horizonte, Lúcio alerta sobre o perigo de o PMDB ver sua bancada na Câmara reduzida em 2014: “Sem o apoio do governo, se a bancada cair de 80 para 60 deputados, a preocupação é saber quem serão os 20 que estarão fora”.