“Pode Fechar a Porta”

Do VioMundo

Rogério Correia: “Se com a delação dos R$ 300 mil da UTC o doutor Janot não abrir inquérito contra o Aécio, o Ministério Público Federal pode fechar a porta”

publicado em 04 de janeiro de 2016 às 22:50

Janot e Aécio

por Conceição Lemes

Na última quarta-feira de 2015, 30 de dezembro, o repórter Rubens Valenterevelou na Folha de S. Paulo duas bombas:

*Em delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal, Carlos Alexandre de Souza Rocha afirmou que, no segundo semestre de 2013 (entre setembro e outubro) levou R$ 300 mil a um diretor da UTC Engenharia no Rio de Janeiro, que lhe disse que a soma iria para o senador Aécio Neves (PSDB-MG). O “Ceará”, como é conhecido, era entregador de dinheiro do doleiro Alberto Youssef.

* “Ceará” prestou depoimento em 1º de julho de 2015. Portanto, seis meses atrás.

“A cada dia surge uma nova evidencia do comprometimento do Aécio em esquemas de corrupção”, diz, de saída, em entrevista exclusiva ao Viomundo o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG). “Aécio sempre foi patrocinado por grandes empresas, misturando frequentemente a sua vida privada com esses financiamentos.”

“Agora, o senador Aécio quer aparecer como arauto da ética e da moral no Brasil”, prossegue Correia. “Só que  ele não tem a menor condição de sê-lo”.

Rogério Correia tem se dedicado a desmascarar os malfeitos de Aécio Neves.  Após ler a reportagem de Rubens Valente, ele postou no seu twitter alguns dos escândalos denunciados.

Rogério, Aécio e Janot-001

Os valores são da época em que ocorreram os fatos.

A título de curiosidade, nós resgatamos as denúncias mencionadas no twitter do deputado petista.

Depois, atualizamos os valores, utilizando o índice oficial de inflação, o IPCA- IBGE, de novembro de 2015, já que o de dezembro ainda não foi divulgado.

Mensalão tucano – Diz respeito à eleição de 1998. A mídia geralmente omite que o então candidato a deputado federal Aécio estava na lista, como tendo recebido R$ 110 mil reais, e que o esquema extrapolou Minas, irrigando até a campanha de reeleição de Fernando Henrique à presidência (na íntegra, aqui).

aécio e mensalão

Eduardo Azeredo era candidato à reeleição pelo governo de Minas Gerais pelo PSDB. Perdeu para Itamar Franco, na época no PMDB. Há pouco, Azeredo foi condenado a 20 anos de prisão, mas vai recorrer. Tudo indica vai se safar.

Lista de Furnas – Foi o esquema de Furnas que sustentou a campanha eleitoral dos tucanos de 2002. “Aécio amealhou R$ 5,5 milhões apenas para ele. Nas provas, também tem o dinheiro que foi para José Serra e para Alckmin, relembra o deputado petista.

Em 25 de janeiro de 2012, a procuradora criminal Andréa Bayão Pereira, que atuava no Ministério Público do Rio de Janeiro, concluiu o seu trabalho  sobre a Lista de Furnas, comprovando a existência do esquema de caixa 2. Confira no final deste post a íntegra dos dois documentos muito importantes: o DOC Nº4, da Polícia Federal, autenticando a Lista de Furnas; oDOC Nº 5, com a conclusão da doutora Andréa Bayão.

Lava Jato – É a denúncia reportada por Rubens Valente. Segundo delação premiada, “Ceará”, a  mando do doleiro Alberto Youssef, entregou R$ 300 mil entre setembro e outubro de 2013 a um diretor da UTC, no Rio Janeiro. O diretor disse-lhe que o dinheiro era para o senador Aécio Neves.  Para efeitos do cálculo da correção monetária, usamos setembro de 2013.

Rádio Arco-ÍrisEm 17 de abril de 2011, Aécio foi parado pela polícia numa blitz de trânsito no Leblon, cidade do Rio de Janeiro. Convidado a fazer o teste do bafômetro, ele se recusou. A carteira de habilitação, vencida, foi apreendida. Levou duas multas.

O carro que dirigia pertencia à rádio Arco-Íris, localizada na Grande Belo Horizonte (MG), que é do senador e da irmã Andrea Neves.

Durante todo o período em que Aécio governou Minas (janeiro de 2003 a abril de 2010), Andrea comandou o Núcleo Gestor de Comunicação Social da Secretaria de Governo. Uma de suas funções era decidir sobre a alocação de recursos de toda a publicidade do Estado de Minas Gerais. No decorrer das gestões do irmão-governador, o seu núcleo aplicou, a título de publicidade, dinheiro de estatais mineiras e da administração direta estadual na rádio Arco-Íris e em outras empresas de comunicação dos Neves.

“A Andrea injetou milhões lá.  Nós não sabemos quantos exatamente, porque nunca deixaram investigar”, diz Correia. “O máximo que conseguimos apurar foi uma estimativa, em 2010, de R$ 1,4 milhão.”

Cláudio – Aécio fez dois aeroportos em Minas à custa de dinheiro público para beneficiar a família.O de Cláudio, da família da mãe, é o mais conhecido. É aquele que ficava fechado o tempo inteiro e o tio do Aécio guardava a chave para que outros não o utilizem. Mas tem também o de Montezuma na área da fazenda do pai (detalhes aqui e aqui) .

No twitter de 30 de dezembro, Rogério Correia listou apenas o de Cláudio.

Em post publicado em 21 de julho de 2014, Fernando Brito, no Tijolaço, escarafunchou a história e descobriu que o “aecioporto” de Cláudio custou tanto quanto um aeroporto comercial no Ceará:

O “aecioporto” construído no município de Cláudio, junto à fazenda de Aécio Neves, custou, como está publicado, R$ 13,4 milhões, isso na data da licitação, em dezembro de 2008.

Fora o “milhãozinho” que o titio de Aécio achou pouco pelo terreno, sem contar a valorização da área não desapropriada.

O valor, corrigido de janeiro de 2009  para maio de 2012, pelo IGP-M, equivale a R$ 17,9 milhões.

No Ceará, um aeroporto comercial – o de Aracati – voltado para o turismo, com uma capacidade para atender Boeings 737 em até 1200 vôos por ano (o de Cláudio, segundo a Folha, recebe um avião pequeno por semana) custou R$ 19 milhões em obras civis, em valor de 2013.

(…)

O custo total da obra, operada por parceria com a TAM, ficou em R$ 19 milhões, em valores de 2012.

DENÚNCIAS LISTADAS NO TWITTER DE DEPUTADO SOMAM R$ 34, 8 MILHÕES

No período em que ocorreram as denúncias listadas por Rogério Correia no twitter, elas somavam R$ 21.110.000,00.

Nós atualizamos para novembro de 2015, usando o IPCA-IBGE. No aeroporto de Cláudio, optamos pelo preço da licitação em vez dos R$ 14 milhões registrados pelo deputado.

Resultados:

Mensalão tucano — R$ 336.430,28  

Lista de Furnas — R$ 12.252.258,70  

Lava Jato —  R$   358.335,81  

Rádio Arco-Íris — R$  1.961.864,80  

Aeroporto de Cláudio –R$ 19.967.583,88  

Total: R$ 34.876.473,47

Nós mostramos os valores atualizados a Rogério Correia.

“Isso é por baixo, e só a parte do senador”, atenta.

Não estão incluídas nessas contas, por exemplo, a parte da irmã Andrea Neves, as viagens do Aécio e amigos para cima e para baixo, inclusive para o  Rio de Janeiro, sendo senador por Minas, o aeroporto de Montezuma, o nepotismo à custas do povo mineiro, empregando parentes e mais parentes no governo do Estado.

“Quando destampar o superfaturamento na Cidade Administrativa, no Mineirão e o que ele fez para a Andrade Gutierrez na Cemig, esses R$ 34,8 milhões serão um grãozinho de areia perto do mensalão”, previne.

“Agora, de qualquer forma, os R$ 300 mil, recebidos da UTC, no bojo na Lava Jato, é fatal”, avalia o deputado. “Joga por terra o discurso de baluarte da moral e da ética do senador.”

ATÉ AGORA TODOS OS PEDIDOS DE INVESTIGAÇÃO  DE AÉCIO AO MPF DERAM EM NADA

Rogério Correia

O Viomundo é testemunha dos vários pedidos de investigação do senador Aécio Neves feitos pelo deputado Rogério Correia e colegas ao Ministério Público Federal.

Em 31 de maio de 2011, ele e os também deputados estaduais Luiz Sávio de Souza Cruz e Antônio Júlio, ambos do PMDB, e entregaram pessoalmente ao então procurador-geral da República, Roberto Gurgel,  representação denunciando Aécio e Andrea,  por ocultação de patrimônio e sonegação fiscal (detalhes aqui ).

Gurgel fez questão de ir com os parlamentares até o setor de protocolo da Procuradoria Geral da República (PGR). Aí, a representação recebeu o número 1.00.000.006651/2011-19.

Gurgel manteve-a na gaveta por 2 anos e três meses. Na sua saída, em agosto de 2013, abriu inquérito contra deus e o mundo, menos contra os tucanos, em especial o Aécio Neves.

“Foi um ato político dele, partidário, mesmo”, denunciou, na ocasião, Rogério Correia. “Arquivou sem ao menos abrir inquérito para investigar. Agora só falta Gurgel assinar a ficha de filiação ao PSDB.

No início de 2014, Rogério Correia e outros deputados do PT estiveram pela primeira vez no gabinete do atual procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entregando os documentos referentes ao envolvimento do senador Aécio Neves (PSDB-MG) na Lista de Furnas.

Assim como Gurgel, Janot não tomou providência.

No final de 2014, em delação premiada da Operação Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef tratou do assunto no termo 20 do seu depoimento, cujo tema principal era “Furnas e o recebimento de propina pelo Partido Progressista e pelo PSDB”.

O doleiro Youssef afirmou que o PSDB, por meio de Aécio Neves, dividiria uma diretoria em Furnas com o PP, por meio de José Janene. Afirmou ainda que ouviu que Aécio também teria recebido valores mensais, por intermédio de sua irmã, de uma das empresas contratadas por Furnas, a empresa Bauruense, do empresário Airton Daré, no período entre 1996 e 2000/2001.

Janot divulgou o teor da delação em 4 de março de 2015. Foi ao comentar para oEstadão o pedido de  arquivamento ao STF das investigações envolvendo Aécio Neves, presidente nacional do PSDBna Operação Lava Jato.

Janot alegou serem insuficientes as informações fornecidas pelo doleiro Alberto Youssef.  A justificativa principal: os dois citados por Youssef – o ex-deputado José Janene  e empresário Airton Daré tinham morrido– e não poderiam confirmá-las.

Só que, como bem alertou o jornalista Luiz Carlos Azenha, ao livrar Aécio Neves, Janot desconheceu a denúncia feita em 25 de janeiro de 2012  pela promotora da Lista de Furnas.

A promotora é a procuradora Andréa Bayão Pereira, atualmente está no Ministério Público Federal, em Brasília. Ou seja, trabalha com Janot.

Diante da decisão de Janot por “provas insuficientes”, em 31 de março de 2015,Rogério Correia e os deputados federais do PT Padre João (MG), Adelmo Leão (MG), Pedro Uczai (SC) e Fernando Marroni (RS) foram novamente à Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Dessa vez, foram recebidos pelo próprio PGR.

Rogério Correia registrou:

Entregamos ao Dr. Janot as provas para abertura do inquérito contra Aécio Neves sobre o caso Lista de Furnas. O Procurador-Geral se comprometeu a fazer o estudo das provas apresentadas e estranhou o fato de que o processo da Lista de Furnas só tenha chegado à PGR agora, a partir de nossa intervenção.

Em um PS do Viomundo, Azenha observou:

Estranho. Afinal, no início de 2014, os deputados estiveram pela primeira vez no gabinete de Janot, entregando os documentos referentes ao envolvimento do senador Aécio Neves (PSDB-MG) na Lista de Furnas. Partindo do princípio de que o procurador-geral falou a verdade, o que aconteceu com eles? Foram para o lixo? Alguém os “guardou”? Estranho. Muito estranho.

Da segunda ida dos deputados do PT ao Rodrigo Janot à denúncia de Rubens Valente se passaram nove meses. E Janot, ao menos pelo que se sabe, não tomou nenhuma medida.

“Se agora, com a delação dos R$ 300 mil da UTC, o doutor Janot não abrir urgentemente inquérito contra o Aécio, o Ministério Público Federal pode fechar a porta”, afirma Correia. “Ficará comprovado o que se denuncia há tempos. O MP tem lado, age ideologicamente, o que inconcebível a quem atua nesse setor.”

O deputado defende, ainda, que o Senado abra procedimento investigativo contra Aécio Neves, assim como o senador se posicionou favoravelmente a fazer contra o colega Delcídio do Amaral (PT-MS). Para ele, Aécio tem de responder às acusações também no Senado.

Correia não é muito adepto da teoria da conspiração. Porém, o fato de a delação premiada de “Ceará” só ter vindo a público agora – o depoimento foi em 1º de julho de 2015 –, graças à reportagem de Rubens Valente, o obriga a considerar a hipótese de conspiração.

“Por que outras delações foram vazadas e esta, envolvendo o senador Aécio Neves, não?”, questiona.

“A preservação do senador Aécio Neves tem a ver com a intenção golpista das elites brasileiras com uma parte da Polícia Federal, da própria Justiça, do Ministério Público.  Se tivesse vazado antes, jogava abaixo qualquer perspectiva golpista que o Aécio negociava com as elites brasileiras”, considera.

“Imagina se em julho ou agosto, essa delação tivesse vazado como as outras, toda essa articulação golpista da direita teria ido para o espaço e nós poderíamos ter tido, durante o segundo semestre, um Brasil mais calmo, tanto do ponto de vista político quanto econômico.”

– O senhor acha que houve um conluio para essa delação não ter sido vazada?”

— Por que outras delações vazaram e esta, não? Insisto. Embora eu não seja muito adepto da teoria da conspiração, esse caso mostra um conluio entre parte da PF, do MPF e do Supremo, pois até agora não sabemos quem vazou as outras delações”.

– E a imprensa?

— Desse conluio golpista faz parte a imprensa, evidentemente.  Da mesma forma que vazaram outras delações para o Estadão, Globo, Veja bandida, Época, TV Globo, quem sabe se essa denúncia do “Ceará” sobre o Aécio não foi vazada e eles esconderam?  Isso gente também pode especular.

— Tem vazamento de tudo quanto é forma. No caso do Aécio, nem quando a gente denuncia, aparece na mídia.  No Brasil, temos um cartel de comunicação que tem intenção golpista também. Eles blindam o Aécio exatamente para manter a perspectiva golpista.

– E agora?

— Foi um tiro de misericórdia nesse golpismo. Com tudo o que já foi denunciado contra o Aécio, o Janot tem condições de abrir não só um, mas vários inquéritos contra o Aécio. E assim que o Ministério Público decidir investigar, o STF vai autorizar a abertura do inquérito, como já aconteceu nos outros casos.

— E quando instalar uma investigação contra o Aécio, outras irão junto. Em outubro de 2014, eu te disse: Quando o Aécio for investigado, ele será preso. Agora, te digo: Essa hora está chegando.

Por que a Lava Jato já condenou Lula

Por Luiz Nassif na Carta Capital

A prisão de Lula tornou-se uma obsessão para a Lava Jato, seja por suas inclinações partidárias, seja por disputa profissional
lula-globo-news
O ex-presidente durante entrevista a Roberto D’Avila, exibida nesta quarta-feira

Procuradores, delegados e o juiz Sérgio Moro têm certeza de que o esquema de corrupção esteve sob o comando de Lula. A prisão de Lula tornou-se ideia fixa para a Lava Jato. Não se trata de suspeita tratada como suspeita.

Quando o procurador grisalho, de olhos rútilos afirma que já pegaram Dirceu e agora vão pegar quem está acima de Dirceu, certamente não está pensando no Divino Espírito Santo.

Há três fatores alimentando essa obsessão: um de caráter penal, dois de fundo psicológico.

O de caráter penal é a simplificação que acomete procuradores, delegados e repórteres policiais, de tratar a organização política com a mesma ótica com que tratam as organizações criminosas: uma estrutura hierárquica em que todos os comandos emanam do chefe e todos os favores visam benefícios pessoais.

Há uma estrutura hierárquica e o comando geral é do primeiro da hierarquia. Sua cabeça persecutória não consegue entender as nuances do jogo político, muito mais fluido e descentralizado que nas organizações criminosas.

Não é de hoje, nem restrito ao Brasil, esse conflito entre a maior permissividade da política e dos negócios, e a visão branco-preto dos órgãos de fiscalização e controle.

No caso da Lava Jato soma-se a essa visão um conhecimento pobre sobre procedimentos bancários e ferramentas de estímulo à economia, tanto da parte de procuradores e delegados quanto de repórteres policiais. Melhoraram muito a percepção sobre crime financeiro e em nada sobre as ferramentas convencionais de política econômica.

Essa desinformação faz com que se proceda à criminalização de qualquer fato, desde financiamentos à exportação até a diplomacia comercial.

As prerrogativas do poder

Outra complicação é a dificuldade que têm para separar as chamadas prerrogativas do poder dos crimes de corrupção.

A imagem e as relações criadas por um ex-presidente é um ativo pessoal seu. Cada qual dá o uso que bem entende. Podem usar em palestras, facilitar negócios para familiares, até afrontar alguns limites éticos sem configurar crime.

E quando o palestrante tem projeção internacional – casos de Fernando Henrique Cardoso e Lula – o valor do cachê é igualmente elevado.

Logo que deixou a presidência, a primeira palestra de Fernando Henrique Cardoso foi para a Ambev – beneficiada por ele através do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O cachê foi de US$ 150 mil na época e serviu de parâmetro para os cachês subsequentes.

No seu governo, seu filho Paulo Henrique conseguiu um belo emprego na CSN, em ONGs ambientais e, depois de sua saída tornou-se sócio da Disney em uma rádio paulistana. Quais os atributos profissionais de Paulo Henrique? Filho de ex-presidente.

A mesma métrica vale para Lula. Acumulou um amplo patrimônio palestrando e fazendo lobby (legítimo) na África e América Latina para empreiteiras beneficiadas por obras e financiamentos em seu período de governo.

Seu filho emplacou um patrocínio de R$ 2,4 milhões junto a um lobista da indústria automobilística. Quais seus atributos profissionais? Ser filho de ex-presidente.

Não fizeram nada diferente do que fazem ex-presidentes dos Estados Unidos, França e Inglaterra. A tentativa de criminalizar um – e esquecer o outro – se deve ao atual viés político do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, mas também a dois outros fatores.

lula
Lula abre a 7ª Conferência Latino-Americana de Ciências Sociais em Medelín, no último dia 10
A busca do Santo Graal

O segundo fator é a busca do Santo Graal, a vitória final para a imortalidade: a prisão de Lula, que se tornou uma obsessão para a Lava Jato, seja por suas inclinações partidárias, seja por disputa profissional.

Se não conseguir, ao menos atenda-se ao terceiro fator, dar sobrevida à Lava Jato nas manchetes de jornais.

No jornalismo, não há tema que resista ao desgaste da repetição reiterada, nem atentado na França, nem lama de Mariana.

A Lava Jato esgotou seu potencial midiático. Não ganha mais as manchetes principais, e quando ganha é por mera solidariedade partidária dos jornais. Mas não desperta mais o interesse do leitor porque tornou-se uma repetição menor dos procedimentos inciais: anuncia-se uma nova etapa, prende-se a arraia miúda (porque a graúda já foi presa), vaza-se uma delação do delator que ouviu dizer que fulano ouviu dizer que beltrano ouviu dizer que Lula sabia de tudo. Aí o Instituto Lula solta um desmentido que não é desmentido e a vida continua.

Diga-se em favor da Lava Jato, que o modelo de atuação impediu parcialmente o excesso de protagonismo individual de procuradores e delegados. Digo parcialmente porque a imagem de procuradores percorrendo o país com uma lanterna acesa e pregando o fim da corrupção constrangeu públicos mais sofisticados.

Mas, enfim, atuam em equipe, vazam as notícias em equipe e se defendem mutuamente: quando um corregedor da PF ousou colocar em dúvida o grampo na cela de Alberto Yousseff, procuradores da Lava Jato correram para processá-lo por calúnia, injúria e difamação antes mesmo de terminar a sindicância.

Depois de conhecer a luz, deter o poder de comandar as manchetes, montar coletivas aguardadíssimas, o maior temor é a volta à normalidade do trabalho burocrático e das operações invisíveis, pois sem viés político.

Não bastasse o gradativo esgotamento do potencial feérico da Lava Jato, a partir de agora os holofotes terão que ser divididos com colegas que atuarão em outros estados. A divisão da Lava Jato em várias frentes aumentará sua eficácia investigativa, saindo do rame-rame da delação premiada e da quebra de sigilos para ações de inteligência; mas aumentará a disputa pelas manchetes, em um mercado que deixou de ser ofertante.

E aí a Força Tarefa e o juiz Sérgio Moro são vítimas de um problema que acomete toda pessoa que experimentou os holofotes da mídia: a síndrome da abstinência.

O fator Lula

É esse o pano de fundo para essa caçada implacável a Lula. Enfiaram na cabeça e passaram publicamente a expressar esse desejo: querem a cabeça de Lula. Todas suas energias estão a serviço da sua tese. Mas como não pronunciam a palavra Lula, limitando-se a se referir ao “chefe do Dirceu”, atendem aos requerimentos republicanos do Ministro José Eduardo Cardozo.

E aí cria-se um quadro de autoconvencimento que está longe de ser profissional:

Já tem a conclusão antes das provas: o culpado é Lula.

Tem o poder de aceitar ou não a delação do delator. E o delator sabe o que os procuradores querem: Lula. E esse desejo expresso, público, notório dos procuradores é a condição para a aceitação da delação do delator. Então, se é isso que eles querem….

Como o operador não tem provas, provavelmente jamais viu Lula pessoalmente, recorre ao “ouvi dizer”. A delação, então, é vazada para a mídia e o “ouvi dizer” torna-se matéria diária, com procuradores e delegados iludindo-se de que isto é investigação e a imprensa iludindo-se que isto é notícia, e ambos banalizando o conceito de investigação séria que deveria permear a Lava Jato.

 

A fênix nativa

Por Mino Carta

Se o golpe não convém, ressuscite-se a conciliação

Com K ou sem K, a palavra caos se oferece a diversas interpretações. Em 1964, havia quem acreditasse que o golpe de Estado salvaria a pátria ao sustar o caos no nascedouro.Passados 51 anos, não falta quem entenda que do golpe nasceria o caos.

Cinquenta e um anos atrás, e mesmo desde agosto de 1961 com a renúncia de Jânio Quadros, a casa-grande deu para sentir-se ameaçada por Jango Goulart, o vice alçado à Presidência. O mundo era outro, dividido ao meio entre dois impérios, beligerantes de uma guerra dita fria. Os graúdos nativos apreciavam a condição de súditos do império do Oeste, o qual padecia, porém, de uma espinha no flanco, fincada bem ali a 100 quilômetros da Flórida, Cuba fidelista.

Jango ostentava um passado buliçoso, a começar pela origem getulista, e a prosseguir pela valente militância petebista, sem exclusão da perigosa proximidade com o cunhado Leonel Brizola. Só faltava chamar San Tiago Dantas para a Chancelaria. Implorada pela casa-grande e seus porta-vozes midiáticos, sustentada por Washington, a intervenção militar se deu sem derramar uma única, escassa gota de sangue nas calçadas. Falsos pretextos fazem parte do jogo.

O golpe de 64 é uma das grandes desgraças brasileiras, a mais recente. Interrompeu um processo natural que, ao longo dos anos, décadas talvez, demoliria a casa-grande e a senzala. Sofremos até hoje suas consequências.

Em relação à situação atual, gravemente turvada pelo descontrole parlamentar, pelo fracasso petista, pelo reacionarismo tucano, pelo terrorismo da mídia em meio a uma profunda crise econômica provocada tanto pela fé neoliberal que assola a Terra quanto por erros governistas, a posição de CartaCapital já foi exposta inúmeras vezes. Entendemos como golpismo puro qualquer propósito de impeachment ou de convocação de novas eleições.

fênix-editorial-mino-carta
Vivemos a enésima versão, revisada e corrigida, da conciliação das elites velhas de guerra, fênix nativa.

Poderia causar estranheza o fato de cidadãos graúdos, federações empresariais, dois jornalões e as próprias Organizações Globo se pronunciarem publicamente contra qualquer tentativa de apear Dilma Rousseff. Se bem entendemos editoriais, manifestos e entrevistas, desta feita a sanha golpista, caso satisfeita, precipitaria o caos, que agora é obrigatório evitar. Mudaram de ideia, e não me queixo. Até ontem os barões da mídia trombeteavam as manobras e, em geral, as manifestações anti-Dilma, e eis que aderem ao senso comum.

Por que, pergunto intrigado aos meus pensativos botões. Respondem que o mundo também mudou, o maniqueísmo dos anos 60 assumiu formas e cenários adequados a alterações fatais. Ao observar a conjuntura mundial, constata-se que o Brasil deixou de ser aquele súdito submisso de Tio Sam graças à política exterior praticada por Lula, ainda que Dilma tenha baixado um tanto a bola. Vale também registrar que o velho Sam perdeu muito do vigor de antanho. E, de resto, o Demônio hoje em dia não é o comunista. Além disso, as Forças Armadas, conquanto incutam um inextinguível temor como númeno, deixaram de ser, como fenômeno, um exército de ocupação pronto ao papel de jagunço da casa-grande.

É o pano de fundo. Na ribalta, a “guerrilheira” Dilma não é Jango, e seu governo oferta à casa-grande garantias suficientes para pôr em sossego seus inquilinos. Não é por acaso que o diligente bancário Joaquim Levy lá está para executar a lição da própria. Por que intervir, se a vivenda dos especuladores e dos rentistas está em ordem? E, de outro ângulo, por que enfrentar a incógnita do pós-Dilma, se por ora o governo acuado se dispõe a levar em conta, e se possível executar, um pacote de providências excogitadas pelo Senado, reduto, aliás, de numerosos oligarcas?

Melhor assim. Melhor que a tensão diminua e que o pior seja evitado. Nada impede que paneleiros incapacitados para o exercício do espírito crítico, e mesmo para a consciência da cidadania, renovem no domingo 16 seu protesto insensato. Pouco importa, prevalecerá a tendência desenhada pelos graúdos, tão escassamente preocupados com a fragilidade da democracia verde-amarela, mas sobremaneira com sua própria paz espiritual e material.

Na circunstância, melhor assim, repito. Nem por isso perco a oportunidade de assinalar: casa-grande e senzala continuam de pé. Vivemos a enésima versão, revisada e corrigida, da conciliação das elites velhas de guerra, fênix nativa. Percebo que neste momento mexe as asas debaixo das cinzas.

Ignorância ou maldade

Retirado da página do Sr. Flávio Garcia:Retirado da página do Sr. Flávio Garcia

“SORRIA CIDADÃO SALTENSE, VOCÊ ESTÁ SENDO LESADO. Com um orçamento anual previsto de R$ 303 milhões, a Prefeitura de Salto já TORROU, em apenas 5 meses, a módica quantia de R$ 227 milhões.”

 

No último dia 28 de maio estive na Câmara Municipal para a audiência pública de prestação das contas da Prefeitura relativas ao primeiro quadrimestre de 2015. É uma audiência que acontece sempre no encerramento dos quadrimestres, exigida pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Confesso que o interesse, tanto dos vereadores quanto da comunidade, é bastante reduzido. Pelo menos no dia da audiência. E vários fatores contribuem para isso: o assunto é maçante e cansativo de acompanhar; o horário da audiência – 16 hs – não ajuda a participação da comunidade; na maioria das vezes não é polêmica.

Entretanto as informações ali repassadas aos vereadores presentes (nessa tínhamos 6) tornam-se públicas, já que essa é a intenção. E isso pode ser acessado por qualquer pessoa, quando lhe interessar, principalmente pela TV Câmara. A diferença entre os que participam da audiência para aqueles que somente leem é que as dúvidas podem ser sanadas no momento da audiência, o que fica difícil para o segundo caso.

Hoje, uma pérola foi lançada nas redes sociais pelo Sr. Flávio Garcia (uma pessoa aparentemente com conhecimentos e informações acima da média). Em um meme, ele afirma que o PT TORROU em cinco meses, a módica quantia de 227 milhões de reais. Isso sob o título: SORRIA CIDADÃO SALTENSE, VOCÊ ESTÁ SENDO LESADO.

Como estamos falando de um cidadão que está acima da média em termos de conhecimentos e de informações, cabe-me perfeitamente a dúvida de que se essa afirmação é calcada sobre um desconhecimento de como funcionam as contas públicas, ou é maldade mesmo, como sugere o título do meme.

Vejamos os números (arredondados), para avaliarmos se é ignorância ou maldade.

No primeiro quadrimestre de 2015 (janeiro a abril), a Prefeitura apresentou os seguintes números, apresentados na audiência:

RECEITA TOTAL – $ 106.452.688

ORÇAMENTO TOTAL – $ 290.914.488

EMPENHOS REALIZADOS – $ 225.886.452

DESPESAS FISCAIS – $ 95.404.946

Existem muitos outros números apresentados na audiência, como o valor total aplicado em folha de pagamento, os valores aplicados na educação, na saúde, os valores do FUNDEB, etc., mas os apresentados acima são suficientes para analisar o meme do Sr. Flávio.

RECEITA TOTAL é o que a Prefeitura recebeu em recursos financeiros no primeiro quadrimestre.

ORÇAMENTO TOTAL é o orçamento da Prefeitura já atualizado com as suplementações e superávits do ano anterior.

EMPENHOS REALIZADOS é o valor do comprometimento assumido no primeiro quadrimestre para o ano todo. Nesse valor está, por exemplo, toda a folha de pagamentos do ano de 2015. Estão, por exemplo, todos os contratos de prestação de serviços e/ou de fornecimentos assumidos para o ano de 2015, que serão consumidos e pagos durante o ano de 2015.

DESPESAS FISCAS é a somatória de tudo o que a Prefeitura pagou no primeiro quadrimestre.

Por essa rápida exposição fica fácil de entender o que o Sr. Flávio disse que “…o PT torrou em cinco meses…”. Ele considerou o valor empenhado ($ 225 milhões) como o valor pago no primeiro quadrimestre. Ah…outro detalhe: ele fala em “…cinco meses…”. Os números são de quatro meses.

A irresponsabilidade é tanta que o mesmo não parou para analisar o que efetivamente a Prefeitura recebeu, para verificar se o número que “…o PT TORROU…” era possível de ser “torrado”. Como seriam “torrados” $ 225 milhões se a Prefeitura recebeu $ 106 milhões?

Talvez ele afirme que a “roubalheira é tanta que até isso o PT esconde…”, ou ainda que sabe sim a diferença entre EMPENHO e DESPESAS, mas que é um absurdo ter empenhado tanto e isso será torrado durante o ano…(?!?!?!). São respostas possíveis de serem aventadas depois deste artigo. Mas o que fica claro no tal meme é a intenção do Sr. Flávio: cair na vala comum dos que só veem maldades e roubalheiras nas administrações públicas.

Caberia um pouco mais de sensatez para alguém vendido como uma pessoa sensata e inteligente. Infelizmente nesse particular foi infeliz e maldoso, diante da gritante diferença entre as informações e sua utilização tacanha e maldosa.

Não vivemos um ano tranquilo quando falamos de orçamento e receitas públicas. A crise econômica que passa o país tem sim reflexos em todas as prefeituras. Este é um ano de apertos e de dificuldades para todas as prefeituras. Mas irresponsáveis não somos e não seremos.

Está desenhado para todos nós o que a chamada “terceira via” (que tenho dúvidas ser…), tentará nos próximos meses: usar de baixarias e inverdades para desviar e desvirtuar as realizações e conquistas da atual administração. Lamento que até informações que são formulados por contadores formados e de carreira na prefeitura, informações que são avalizadas por uma equipe de auditoria interna também formada por servidores de carreira, sejam usadas e covardemente distorcidas para atender egos mal formados.

Para mim foi maldade pura. E para você?

P.S. – Voltarei com o pedido para a entrada no PMAT – Só um aperitivo: é o terceiro pedido que nossa prefeitura faz. Os outros dois foram feitos na administração anterior e até hoje a prefeitura paga por esses investimentos. Outra lição importante: capacidade e necessidade de investimentos do poder público.

Eles não querem a taxação das grandes fortunas

MOVIMENTO CONTROVERSO

Grupos de oposição ao governo da presidenta Dilma resolveram, além de tentar um golpe contra a democracia, agir contra a taxação de grandes fortunas e de grandes heranças.

No entanto, a iniciativa visa favorecer os próprios integrantes dos movimentos. Um dos grupos, por exemplo, é liderado por empresários e executivos do mercado financeiro.

Saiba mais em http://goo.gl/8XvQ3W