O psicanalista das massas

do Pública

A maior liderança dos movimentos sociais é um filósofo e psicanalista que vive na militância desde os 15 anos. Conheça Guilherme Boulos, 34 anos, e entenda por que o MTST dobrou de tamanho em quatro anos

por Andrea Dip

A trajetória política de Guilherme Boulos começa no movimento estudantil, aos 15 anos (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

Pouco a pouco, as lonas pretas vão se abrindo sobre as estruturas de bambu e ferro, formando as tendas que passam a abrigar colchões, cadeiras e um fogão. Pessoas que saem do trabalho reduzem a velocidade dos passos, curiosas para saber o que interrompe o trânsito na movimentada esquina da avenida Paulista com a rua Augusta – no coração de São Paulo – naquele fim de tarde de 15 de fevereiro. No pequeno carro de som, Chico Buarque e Racionais MC’s convivem com funks conhecidos em versão de luta – “A militância me deu onda”. A trilha anima cerca de 20 mil pessoas que saíram caminhando do largo da Batata ou da praça da República, debaixo do sol forte, e agora ocupam a calçada em frente ao escritório paulista da Presidência da República. A principal reivindicação é a retomada da faixa 1 do programa federal Minha Casa Minha Vida para famílias com renda de até R$ 1.800 por mês, mas eles também gritam “fora, Temer” e protestam contra as mudanças nas reformas trabalhista e da Previdência.

Veja também – Ensaio fotográfico: Movimento dos Trabalhadores Sem Teto

À frente do ato, está o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que sobe e desce do carro de som, intercalando palavras de ordem no microfone com negociações com a PM. Quando está no chão, o líder conversa com militantes que conhece pelo nome, provenientes de caravanas vindas de ocupações de toda a cidade. Cumprimenta, bate um papo rápido, dá instruções. Quando está no alto, imposta a voz e se dirige à multidão na primeira pessoa do plural: “Para todos aqueles que desacreditaram da nossa luta, para o sr. Michel Temer, para todos aqueles que estão incomodados, o nosso recado é direto e reto: daqui não arredamos pé até ter nossa conquista nas mãos. Não tem arrego: ou negocia, ou não vai ter sossego”.

Boulos tem voz de comando, mas suja os sapatos visitando uma a uma as ocupações do movimento. Um estilo tradicional de líder de movimento social que quase não se vê mais, como observa a doutora em ciências sociais e pesquisadora Esther Solano: “Nós vivemos um momento de vácuo de lideranças de esquerda. Nesse contexto, acredito que o Guilherme Boulos é a maior liderança de movimentos sociais agora. Porque faz uma ponte entre os movimentos sociais e o institucional, em um momento em que não há mais essa conexão que era tão presente nos primeiros anos do governo Lula”.

Também de Frei Betto, experimentado na mobilização popular, o homem tem a admiração. E a bênção: “Guilherme Boulos é uma das mais jovens e promissoras lideranças de movimentos sociais brasileiros. Dotado de boa formação ética e intelectual, fez uma opção radical, evangélica, pelos mais pobres, concentrando sua atividade no segmento da população sem acesso ao direito de moradia. Modesto, despojado, inteligente, Boulos pôs a sua vida a serviço dos direitos humanos fundamentais definidos pelo papa Francisco, os três T: teto, terra e trabalho”, diz.

O fato é que Boulos tem conseguido chamar atenção para a causa que abraçou. A ocupação dos sem-teto na Paulista segue firme há mais de uma semana e aumenta a cada dia com a participação de outros movimentos sociais, shows de cantores famosos, aulas públicas. O caldo está em ponto de fervura e não só em São Paulo, mas por todo o país, em lugares onde a mídia por vezes não chega. Prestes a completar 20 anos, o MTST duplicou de tamanho nos últimos quatro anos e hoje conta com cerca de 35 mil famílias em todo o país e uma crescente lista de espera para participar das ocupações. Em 2016, a Câmara dos Deputados teve de reconhecer sua importância – contra muitos gostos – e o homenageou com a Medalha do Mérito Legislativo. Também ganhou uma coluna em um dos principais jornais do país, a Folha de S.Paulo.

Negociação com a PM na manifestação de 15 de fevereiro, que deu início à ocupação na Avenida Paulista (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

Sem romance

“Tudo bem. Eu te dou a entrevista e topo que faça meu perfil, mas com a condição de que não entre muito na minha vida pessoal. Não vou falar ‘meus gostos’, essas coisas. E sem romancear demais. Vamos conversar e ver no que dá”, acedeu finalmente um desconfiado Guilherme Boulos, após alguns dias de conversas e negociações por telefone do que seria esse perfil, mais focado em sua trajetória de luta – que considera a parte interessante de sua vida.

Para o público, o homem, hoje com 34 anos, nasce aos 15, quando, vindo de uma família de classe média de São Paulo, filho de pais médicos professores da USP, se envolveu com o movimento estudantil da União da Juventude Comunista, conheceu o MST e depois o MTST, seu destino. Apaixonou-se pela legitimidade da bandeira. Diz: “A luta por moradia no Brasil foi certamente a principal luta urbana, para além do movimento sindical. Nós tivemos um processo de formação das cidades que nunca assegurou esse direito. E que isso continue a ser uma questão em 2017 não é qualquer coisa. O Brasil tem quase 90% da população urbana, está entre as dez economias do mundo, é um país com uma indústria importante. Que as pessoas tenham que se organizar pra lutar pra ter um teto, para ter o direito básico de morar, é uma tragédia. Isso faz da luta por moradia algo muito legítimo, dá uma potência muito significativa, como poucas outras. Esse conjunto de elementos me levou a ver uma importância e me aproximar do MTST”.

A chuva que cai forte sem trégua na lona da barraca de madeira na ocupação “Povo Sem Medo”, na divisa de São Paulo com Embu das Artes, nos obriga a falar mais alto. Foi ali que ele quis marcar nossa conversa. As roupas molhadas e cheias do barro da subida do morro onde 1.300 pessoas reivindicam um pedaço de chão são uma pequena amostra dos ossos desse ofício ao qual ele se dedica com razão e emoção desde 2002. E uma prova de resistência necessária para os que pretendem conhecer Boulos: é na peregrinação pelas ocupações que se revela o sentido de sua liderança.

“O Guilherme é o nosso norte, é uma referência pra periferia. Porque ele traz para as pessoas a perspectiva de alcançar seus direitos. Na sua fala informativa, na forma de liderar. E não é uma liderança que ele queira, as pessoas entregam pra ele. Ele pra nós é sem dúvida nosso ponto de referência maior”, me disse a militante Jussara Basso, na Nova Palestina, enquanto caminhamos pela ocupação que é uma das mais antigas de São Paulo, com mais de três anos, e provavelmente é a maior da América Latina, com 4 mil famílias. Maria, moradora da Nova Palestina, que vive com o marido e três filhos, acrescenta: “Ele é um cara que enfia o pé no barro pra andar junto com a gente. Não é porque é liderança que não chega aqui, não quer saber dos acampados. Eu aprendi muito com ele, com a forma dele lutar. Ele não precisava estar lutando, mas faz isso pelo próximo. Eu aprendi com ele e repito que, enquanto estiver sem teto na rua, eu vou estar lutando. Mesmo quando eu conseguir minha moradia. Meus filhos também”.

Boulos é alvo de adoração mas também de ódio. O rapaz que deixou a casa de classe média aos 20 anos para morar em uma ocupação do MTST (A Carlos Lamarca, em Osasco) incomoda muita gente. A militância nunca impediu seus estudos, ele é formado em filosofia e, embora poucos saibam, é psicanalista. Casado com uma militante, dedica seu conhecimento ao movimento social, desafiando a especulação imobiliária que empurra a população pobre para as bordas da cidade, agindo na contramão do que se espera dos mais aquinhoados e despertando mais ressentimento. O conhecimento transferido ao movimento social também é uma arma que assusta.

Guilherme Boulos foi portador de uma novidade no movimento de moradia: a análise de conjuntura como prática semanal. “Isso sem dúvida permite o crescimento e a formação política dos quadros do MTST. Essa prática é comum a todos os movimentos que tiveram origem no MST, como o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens], Levante Popular da Juventude, a Consulta Popular”, explica a urbanista, ativista e professora da Faculdade de Arquitetura da USP Ermínia Maricato. “Grande parte dos movimentos de moradia, na luta, que é natural, por resultados, deu prioridade à ação institucional quando não claramente clientelista. O MTST foge dessa limitação e por isso tem inovado bastante. Destaque-se ainda a coragem de Boulos e seus seguidores, que é notável”, diz.

Apesar do bombardeio de opiniões, Boulos se mantém sereno. Sua maior preocupação, diz, não é com a própria pele: “Se eu ouvir a Jovem Pan, vou sair convencido de que sou um calhorda e não presto! Os blogs da Veja, os editoriais do Estadão… Eu coleciono!”, brinca. “Há um processo de desmoralização que não é só contra mim, é sobre as lideranças de movimentos sociais. Eu não deixo de dormir por isso. Diria até que num certo sentido ser atacado por tipos como esses é um atestado de caminho correto. Mas uma coisa é as pessoas mexerem com você, te atacarem. Alguém que se dispõe a estar na linha de frente de um movimento social tem que se preparar psicologicamente pra esse tipo de ataque. Outra coisa é começarem a atacar sua família, sua casa. Aí entra num patamar mais complicado. É importante se preservar.”

“Ele é um cara que enfia o pé no barro pra andar junto com a gente”, diz a militante Maria sobre Boulos (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

O que não o impede de ser, além de xingado, preso. A última detenção foi no 17 de janeiro passado, quando participava das negociações durante uma reintegração de posse extremamente violenta de um terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. A ocupação nem era do MTST, ele foi chamado para ajudar na negociação. A prisão foi política?, pergunto. Ele acena afirmativamente com a cabeça. “Não foi a minha primeira prisão, já fui preso algumas vezes, quase todas em desocupações. A penúltima foi na do Pinheirinho, respondo processo até hoje.” Responde a quantos processos? “Respondo a alguns”, desconversa. E segue adiante: “Você tem um sistema de criminalização dos movimentos sociais no país que é feito historicamente e que, no último período, tem se acentuado. Qual a melhor maneira de criminalizar? Você desmoralizar primeiro. Por exemplo, o que estão fazendo com o Lula, com a figura dele. Desumaniza, desmoraliza, depois se prenderem, se matarem, vai ter aplauso. O processo de desmoralização do movimento social está a todo vapor. ‘Movimento social é vagabundo’, ‘movimento social quer boquinha’, ‘movimento social quer favores e privilégios’. A criminalização nasce de uma desmoralização brutal que vem principalmente da mídia. Porque, quando você fala ‘esse cara não presta’, se ele for linchado em praça pública, você não está nem aí, ele merece. A criminalização pode ser judicial, pode ser física, prender, espancar, matar. E pode vir com processos judiciais. Aí não podemos deixar de mencionar a lei do terrorismo aprovada pela Dilma. A biografia dela vai estar manchada por isso. ‘Ah, excluiu movimento social, tirou as piores partes’, mas, meu amigo, no fim das contas, a caneta que vale é a do promotor, a do delegado. E qual é a mentalidade de delegado e promotor nesse país?”, questiona.

E conta uma história de arrepiar mesmo para quem conhece a violência policial constante nas ocupações. “Pouca gente sabe disso, mas a desocupação mais violenta que eu já presenciei ocorreu em 2004 ou 2003 em Osasco. As pessoas moravam lá há um ano e meio mais ou menos, e a polícia chegou sem aviso prévio, entrou, arrancou as pessoas dos barracos na porrada. Me lembro de uma cena que me marcou muito, que foi uma senhora bem forte, bem grande, que não queria sair da casa dela. E foram cinco policiais, pegaram ela, derrubaram no meio da lama. Estava uma chuva como a de hoje. Deram uma gravata nela. E um menino, o filho dela de 12 anos, gritando ‘mãe, mãe’. Pegaram o menino e algemaram. Assim começou essa desocupação. Ela terminou com a polícia juntando todos os pertences das pessoas, botando gasolina e queimando. Foi brutal. As pessoas saíram, não tinham pra onde ir, tentei fazer uma assembleia, pra tentar organizar as pessoas pra sair. Quando eu comecei a reunião, a polícia jogou uma bomba no meio da reunião. Eu fui preso nesse dia, outros dirigentes foram presos. As pessoas não tinham pra onde ir. Tentamos por as pessoas em um ônibus e ir pra uma outra área, mas a polícia foi pra essa outra área, pegou as pessoas, colocou em caminhões-baú, atravessou a divisa de Osasco, deixou as pessoas na lateral da Marginal Pinheiros. Largou lá. Hoje, depois de dez anos, as pessoas que continuaram conseguiram suas casas. Mas aquilo foi… Eu nunca tinha visto uma barbaridade daquelas”, conclui com a voz embargada.

Boulos não é alinhado ao PT nem poupa críticas a Dilma Rousseff, mas se destacou como uma das figuras mais proeminentes nos protestos contra o impeachment e depois nos atos “Fora Temer”, quando ficou conhecido para além da sua atuação no MTST. Para ele, o Brasil vive agora um “golpe continuado”. O militante, porém, não acredita que foram as manifestações do lado contrário, pedindo o impeachment, que derrubaram a presidente. “Sim, as manifestações contra a Dilma foram maiores [dos que as contrárias ao impeachment] por uma série de razões, até porque com o apoio da Globo fica tudo mais fácil. Mas eu não acredito que as manifestações foram decisivas. Foram um fator, mas você tinha um bloco de poder muito forte, que pegava a elite brasileira mais atrasada, os ranços da casa-grande, que soube trabalhar isso muito bem na classe média urbana, o grande poder econômico, o Judiciário, o escroque do Eduardo Cunha na presidência da Câmara. Tudo isso levou à vitória do golpe. Foi a vitória de um programa de rapinagem nacional. O tripé do governo Temer, que é a emenda constitucional e o teto de gastos, que é uma “desconstituinte” que liquida com a capacidade de investimento social do Estado; a reforma da Previdência que querem aprovar – e quem mora nesse acampamento não vai se aposentar, já que a expectativa de vida na maioria da periferia de São Paulo não ultrapassa os 65 anos – e a reforma trabalhista, que é de uma ousadia inacreditável. Nós tivemos 21 anos de ditadura militar e nem os milicos ousaram mexer na CLT. Nós entramos na era do escárnio, não há mais a maior pretensão de esconder ou manter as aparências. Essa etapa já foi. Se deixar essa galera até 2018, vão revogar a Lei Áurea”, diz.

Em janeiro, Boulos foi detido durante reintegração de posse na zona leste de São Paulo. Para ele, a ação foi política (Foto: José Cícero da Silva)

Sobre o papel da esquerda, que anda calada, acrescenta: “A esquerda organizada no Brasil está pagando o preço do que deixou de fazer nos últimos 20 anos. Se dependesse de qualquer dirigente de movimento social, esse governo tinha sido arrancado do Planalto pelo colarinho. O problema é o seguinte: a esquerda perdeu no último período base social, capilaridade social. Não basta você ter compreensão da gravidade do que está acontecendo, não basta ter ideias boas do que deve acontecer, ter um bom programa pra enfrentar o golpe, uma denúncia convincente. Você precisa ter força social, você precisa ter gente na rua. A história é movida por isso, não pelas boas ideias. E a esquerda deixou de fazer trabalho de base. Por que o PT conseguiu gerar um caldo social, expressar e representar um caldo social a ponto de construir um fenômeno político como construiu independente do que se deu depois? Porque estava ali, nas comunidades eclesiais de base, no sindicalismo, nas ocupações urbanas, nas ocupações rurais, uma militância pisando no barro, subindo os morros, dialogando com o povo, ouvindo o povo”.

Esquerda lacaniana

Quando fala em ouvir o povo, Boulos não se refere apenas ao convívio por meio da militância. Em 2002, na Argentina, enquanto acompanhava o pós-Argentinazo – grande levante popular causado por uma crise política, econômica, social e institucional que derrubou cinco presidentes –, ele se aproximou do movimento Piquetero e participou de grupos de reflexão com militantes que haviam sido marcados por uma tragédia que ficou conhecida como Massacre de Avellaneda, quando dois jovens foram assassinados pela polícia da província de Buenos Aires enquanto participavam de um protesto contra o fechamento de uma ponte ao sul da capital federal. O massacre, que deixou 33 feridos, foi televisionado e mostrou os policiais arrastando os corpos dos jovens pelo chão. “Agora imagina as feridas que ficaram, para além das feridas físicas, nas pessoas que participaram disso”, questiona.

“Nestes grupos de reflexão, que aconteciam em bairros da periferia da Argentina, psicanalistas trabalhavam os aspectos subjetivos e a elaboração desses efeitos”, conta. “Aquilo foi extraordinário. Ver o que esse encontro da psicanálise com a periferia é capaz de gerar. Ali tinha ao mesmo tempo formação de sujeito, um elemento de elaboração de sofrimento, empoderamento. Tudo isso me seduziu e me levou a ter um interesse maior pela psicanálise”, explica com empolgação. “Depois fui estudar, me formei em uma escola lacaniana e hoje dou aula em um curso de especialização que tem foco na psicanálise, mas não clinico, não tenho consultório. A psicanálise é muito elitizada hoje no Brasil, infelizmente.”

O conhecimento da psicanálise enriqueceu a militância. Seguindo uma tendência abraçada por novos filósofos e pensadores como Vladimir Safatle e o esloveno Slavoj Zizek, Boulos diz que começou a pensar o movimento social sob um novo viés, não só como massa em movimento, mas a partir do vínculo, do que aproxima as pessoas. “Eu concluí há pouco um mestrado com esse tema. Como em ocupações de terra as pessoas estabelecem vínculos que permitem que elas deem saltos subjetivos, é muito frequente você ouvir relatos de pessoas que estavam em sofrimento psíquico atroz e que, vindo para as ocupações, criaram um círculo de relações sociais, um espaço de reconhecimento, um resgate de autoestima de gente que estava pisada, humilhada por essa máquina de moer carne que é a vida urbana. Hoje as pessoas estão em multidão, mas sozinhas. E as histórias familiares são dramáticas para as pessoas pobres no país. São crivadas de sofrimento, às vezes de abusos, as das mulheres em especial. E claro que a ocupação não é o paraíso na terra, mas é um lugar em que se pode construir um espaço de convivência. Isso tem muito a ver com a psicanálise.”

“Entramos na era do escárnio, não há mais a maior pretensão de esconder ou manter as aparências”, afirma Boulos (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

Para o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker, Boulos é “o que se pode chamar de representante brasileiro da esquerda lacaniana”. Ele explica que muitas tendências da esquerda encontraram em Lacan uma espécie de renovador da crítica da ideologia e um teórico potente das relações de poder. “Ao mesmo tempo a teorização do laço social entre psicanalistas feita por Lacan oferece subsídios que inspiram uma reflexão crítica sobre o funcionamento do poder em movimentos sociais.”

O entusiasmo com a psicanálise é a face menos conhecida do homem que insiste em se resguardar. Mais sobre a vida pessoal dele é difícil arrancar. Temos um trato, afinal. Entre raios, trovões e a chuva que não arreda naquela casinha de madeira, o militante/professor/psicanalista/filósofo prefere falar de futuro. Do nosso futuro: “Se o Temer ficar até 2018 e não houver reação popular, a gente vai ver a dilapidação do que restou. Ou vamos por um caminho que pode empurrar o país pra convulsão social. Não descarte a possibilidade de vermos algo que não acontece por aqui desde os anos de 1990, que são os saques, o povo saqueando. Porque grande parte da população assistiu o golpe pela TV por entender que aquilo era uma briga entre partidos políticos. E ela pode fazer diferença no jogo e se enxergar como protagonista com o avanço brutal do desemprego, o arrocho salarial, a iminência de colapso dos serviços públicos. No ano passado, 1,7 milhão de pessoas saíram dos convênios médicos e foram para o SUS, no momento em que o SUS está com contingenciamento de recursos. Isso é explosivo, vai dar colapso. Falência dos estados, polícia sem receber, ataque aos direitos trabalhistas, à aposentadoria. A chance de isso gerar um caldo de reação popular espontânea, para além dos movimentos sociais, está dada e é real. Eu não duvido de que ainda vamos presenciar uma explosão de gente nas ruas ainda esse ano.”

Se Boulos estiver certo, o governo que pise ligeiro. Como diz o bordão, tantas vezes repetido nas manifestações populares, “quem não pode com formiga não atiça o formigueiro”.

*Colaborou Guilherme Peters

A prisão de Guilherme Boulos é recado do Estado a quem quiser resistir

por Leonardo Sakamoto

PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo
PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo

A acusação de que Guilherme Boulos incita ao crime por mediar uma reintegração de posse e sua detenção são tão bizarras quanto as ações que foram movidas contra o coordenador do MTST por ter afirmado que parte da sociedade iria resistir nas ruas às reformas que reduzem direitos propostas pelo governo Michel Temer.

A Polícia Militar de São Paulo deteve Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), na manhã desta terça (17). Ele dava apoio a cerca de 700 famílias em uma reintegração de posse na ocupação ”Colonial”, em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo.

Boulos tentava mediar, junto com outras pessoas, o diálogo entre os moradores e a Tropa de Choque e foi acusado de incitação à violência e desobediência. ”Cometem a violência de despejar 700 famílias e eu que sou preso por incitação à violência?”, afirmou Boulos a este blog. Um comandante da polícia militar que participava da reintegração afirmou que o caso de incitação à violência era uma reincidência e citou manifestações realizadas com a participação de Boulos perto da casa de Temer.

Levado para o 49o Distrito Policial, em São Mateus, ele foi ouvido pelo delegado e, até a publicação deste post,  não havia sido solto. A PM afirmou, em nota, que atendeu a uma solicitação de apoio aos oficiais de Justiça e que moradores resistiram à reintegração de posse com pedras, tijolos e barricadas com fogo. A situação de acalmou e a reintegração seguiu com a retirada de móveis.

Guilherme Boulos foi liberado na noite de terça. Ele assinou um termo circunstanciado sob acusação de resistência (opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio). ”O secretário vai ter que se explicar, porque sequer os policiais que me prenderam colocaram no depoimento que eu teria atirado rojões”, disse ele, criticando nota da Secretaria de Segurança Pública que afirmou que ele teria atirado rojões contra a PM.

Resistência significa utilizar os meios possíveis e ao alcance de cada um para demonstrar sua insatisfação. Isso ocorre com as elites econômica e social brasileiras, que não fazem de rogadas ao usar recursos financeiros para fazer valer sua vontade. Mas quando trabalhadores e movimentos sociais prometem resistência, ocupando ruas, avenidas e outros espaços, a ação vira caso de polícia? Onde o pessoal acha que está? Ou quando gostaria que estivéssemos? No Brasil do final do século 19 ou em plena ditadura civil-militar?

A criminalização da resistência de apenas um dos lados mostra o quanto os atores de nosso sistema político são incapazes de entender o que é, de fato, uma democracia. Chamar de violenta toda forma de resistência com a qual não concordamos é, no mínimo, infantil. Como, por exemplo, mostrar resistência diante de uma injustiça, como aquela que ocorre quando se retira centenas de famílias em um dia de chuva, sem saberem para onde ir, nem como.

Dessa forma, ao que tudo indica, a detenção de Guilherme Boulos não ocorre por sua atuação na mediação da manhã desta terça, mas por seu papel na resistência social e política brasileira. Sua voz tem sido uma das principais nas críticas ao governo Michel Temer, assim como também era durante o governo Dilma Rousseff. Ou seja, essa é sim uma prisão política.

Por isso, é preciso calá-lo ou reduzir sua credibilidade. Para que a narrativa da criminalização de movimentos sociais seja efetiva na mídia, nas redes sociais, nos espaços políticos. Narrativa que quer inverter os sentidos das palavras e transformar resistência popular em ameaça à democracia e à governabilidade.

Boulos é liderança do principal movimento social de massa deste país em termos de centralidade da pauta, capacidade de mobilização e visão de atuação hoje. Um movimento com uma agenda antiga, mas com uma equipe que sabe se comunicar e influenciar a disputa simbólica da narrativa, pela mídia, pelas redes sociais.

E vem exatamente do posicionamento crítico adotado contra a administração federal anterior o respeito de vários setores da esquerda para com o movimento e com ele. Esse respeito e essa capacidade de mobilização, que conseguem colocar dezenas de milhares de militantes nas ruas quando preciso, assusta muita gente.

Que prefere vê-lo preso do que articulando ou em cima de um caminhão de som.

Essa seria uma forma do poder público de São Paulo, mas não apenas ele, dar um ”recado” aos movimentos sociais, de acordo com fontes ligadas a ele ouvidas por este blog. Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo. Esse tipo de ação é uma amostra do que está acontecendo com parte da esquerda brasileira, com um macarthismo à brasileira se instalando aos poucos, como ação sistemática de limpeza ideológica. Já vimos, aqui e ali, a perseguição a quem usa roupas vermelhas e a agressão em espaços públicos contra quem defende determinado ponto de vista. Até o juramento de Hipócrates foi rasgado por médicos que acham normal não prestar atendimento a alguém que não compartilha da mesma opinião política que eles.

Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo.

Apesar de conquistas sociais obtidas na última década, o governo do PT não atendeu às pautas históricas propostas pelos movimentos sociais – o que, como já disse aqui, não seria nenhuma ”revolução”, mas melhoraria a vida de milhões de brasileiros que se mantêm excluídos. Pelo contrário, em nome da ”governabilidade” fez alianças espúrias, apoiando forças econômicas e políticas que eram contrárias a esses interesses populares, ignorando o suporte oferecido por esses mesmos movimentos para um mandato que significasse uma mudança de paradigma.

E o Brasil sob Michel Temer só piora esse quadro, com o desmonte do simulacro de Estado de bem-estar social que temos por aqui por conta da Constituição Federal de 1988 e por décadas de lutas do sociais.

Todos os movimentos sociais sabem o que é serem considerados criminosos simplesmente por lutarem pelos direitos que lhes são garantidos pela Constituição. Sabem o que é levar cacete por representar o que está em desacordo com a visão hegemônica de ”progresso” e crescimento econômico, seja no campo ou na cidade. E ainda guardam na memória as cicatrizes deixadas pelo passado, temendo que voltem a ser caçados dependendo do clima político do país.

Você pode não gostar de Guilherme Boulos. Mas, se preza pela liberdade, deveria repudiar a sua criminalização e dos movimentos sociais populares, da mesma forma que deve ser repudiada a criminalização de qualquer liderança social, de direita ou esquerda.

Pois, hoje é com ele. Depois, com uns sindicalistas, operários, padres, jornalistas…

Amanhã, quem sabe, não vai ser com você?

Post atualizado às 23h30 do dia 17/01/2017 para inclusão de informação sobre a soltura de Boulos.

SOBRE JOÃO DÓRIA, MBL, A ESQUERDA E NÓS NEGRAS E NEGROS

Do Negro Belchior

15s-neoliberalismo

A campanha de João Dória, do PSDB em São Paulo, foi honesta.

Ele disse que não era político. De fato, nunca foi um político no conceito ao qual a maioria da população percebe.

Ele disse ser trabalhador. Eu também discordo. Mas há na sociedade a hegemonia de uma lógica meritocrática que valoriza o empenho e a prosperidade, logo, se ele enriqueceu dentro das regras do capital – a da exploração do homem pelo homem, tá tudo certo. Isso é sim honesto. Todos desejam. Se ele conseguiu, parabéns!

Ele se disse ultra-liberal, anti-PT (que tem o significado, por mais que discordemos, anti-esquerda); Ele prometeu privatizar ao máximo, diminuir o tamanho físico do estado, aumentar a repressão e acabar com secretarias “desnecessárias”, tais como Igualdade Racial, Mulheres, LGBT e Direitos Humanos. Ignorante que é, não se deu conta de que as de mulheres e Lgbts sequer são secretarias, e que Direitos Humanos e Igualdade Racial, sempre foram mais simbólicas que efetivamente valorizadas (do ponto da destinação de recursos) mesmo pelo atual governo. Ele, João Dória, disse e repetiu isso tudo. E conseguiu mais da metade dos votos válidos no pleito eleitoral. Bom reiterar: Maioria dos votos válidos, e não maioria em apoio popular, visto que votos brancos, nulos e abstenções superaram sua votação, dado este que merece reflexão exclusiva, mas em outro texto.

A Câmara de vereadores seguiu a mesma onda. A bancada fundamentalista, a bancada da bala e a bancada da especulação imobiliária e dos grandes interesses corporativos aumentou. Nossos inimigos de classe estão explícitos ali, tanto na nova Câmara quanto no novo executivo municipal, caçula do tripé dos infernos, Temer/Alckmin/Dória.

O rapaz do MBL, eleito em São Paulo, é só mais um no jogo. Estridente, barulhento, sarcástico e com marcas físicas que o aproxima ao grupo racial majoritário da classe trabalhadora. Tudo que a direita sempre quis ter. Paciência. Eles tem, nós não temos. Agora é enfrentar!

A direita entende muito mais de luta de classes que nós. Desde o fim da escravidão, cooptaram lideranças, movimentos, e iniciativas negras. Não há novidades nisso. Cabe perguntar porque a direita forjou, nesse momento político do Brasil, a sua liderança negra, cujo papel é o diálogo direto com a maioria da classe trabalhadora (negra que é), e a esquerda não.

No Brasil, a dominação de classe por parte dos ricos sempre se deu a partir das relações raciais. Somos um país fruto de quase 400 anos de escravidão. Eles sempre souberam que a manutenção do poder dependeria da continuidade da lógica escravocrata, mesmo no período pós escravidão. Eles a fizeram. Daí a importância do racismo estrutural para a sua permanência no poder. Do lado canhoto, no entanto, nunca se deu importância aos negros enquanto agentes e lideranças políticas, apesar de seu explícito potencial mobilizador.

O rapaz do MBL estará na Câmara Municipal de SP para desestabilizar, para fazer barulho, para provocar. Ele é uma encomenda. Deve ser enfrentado na política e não desqualificado por ser “um negro de direita”. Ele foi eleito a partir da defesa de uma plataforma ultra-liberal, de defesa do interesse privado e de crítica às bandeiras históricas dos diversos movimentos populares e de direitos humanos. É de se lamentar, mas tal deformação também é um direito. Há mulheres de direita, homossexuais de direita, nordestinos e pobres de direita. A questão central não é o fato de ele, sendo quem é, defender as pautas que defende. A questão central é, como enfrentaremos o projeto político nazi-fascista, racista, patriarcal e radicalmente liberal que, de tão eficaz, usa e convence o povo pobre, trabalhador, periférico e negro a cerrar fileiras nas redes, ruas e urnas juntos aos seus algozes. E convence mesmo, de maneira generalizada, não apenas os negros. E mais: o quanto interessa a branquitude de esquerda levar esse debate a sério e à prática.

Ou não aprendemos nada com a História.

Em tempo: Áurea Carolina e Mirielle Franco, BH e RJ, pretas e de esquerda, eleitas vereadoras pelo Psol, nos fazem ter fé no futuro. A sobrevida da esquerda brasileira é preta e periférica, ou não será!