TJ-SP mantém decisão e nega indenização a fotógrafo que perdeu olho em protesto

da Carta Capital

Tribunal nega recurso de Sérgio Silva, que foi atingido no rosto por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar na repressão aos atos de junho de 2013
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Sérgio Silva foi atingido durante um protesto em SP, mas juiz diz ter dúvidas de que ferimento foi causado pelas balas de borracha da PM

A 9ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve nesta quarta-feira 29 a decisão da primeira instância e negou indenização ao fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu o olho esquerdo durante a cobertura das manifestações de 13 de junho de 2013, contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo.

A decisão se deu por unanimidade, com os votos dos desembargadores João Batista Morato Rebouças de Carvalho (relator), Décio de Moura Notarangeli e Oswaldo Luiz Palu todos contrários ao recurso. Eles consideraram que não havia provas de que uma bala de borracha da PM atingiu Sérgio Silva.

Na ação, o fotógrafo reivindicava que o governo de São Paulo fosse apontado como responsável pela perda de parte de sua visão. Ele foi atingido por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar durante a repressão aos atos. Naquele dia, a PM-SP utilizou 938 bombas e 506 balas de borracha em dia de maior repressão.

O fotógrafo pedia uma indenização de 1,2 milhão de reais referentes a danos morais, estéticos e materiais, além de uma pensão vitalícia mensal de 2,3 mil reais, com a alegação de que não poderia exercer sua profissão da mesma forma que antes em função do ocorrido.

Em agosto de 2016, o juiz Olavo Zampol Júnior, da 10ª vara do TJ-SP, negou o pedido de indenização de Sérgio. Ele disse que não há “provas de que o ferimento experimentado pelo autor tenha sido provocado por bala de borracha”, já que a perícia foi inconclusiva.

Mais à frente, o juiz afirmava que, na verdade, nem sequer importa se a Polícia Militar o atingiu ou não: Sérgio colocou-se em perigo. “Mesmo que houvesse provas de que o ferimento experimentado pelo autor tenha sido provocado por bala de borracha disparada pela polícia, ainda assim, não haveria de se cogitar da pretendida indenização,” diz o magistrado.

Em reação ao veredito de Zampol, diversas entidades da sociedade civil repudiaram a decisão judicial e manifestaram apoio ao fotógrafo, que recorreu à 2ª instância.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), por exemplo, afirmou que “[Zampol Júnior] omite qualquer responsabilidade do Estado em garantir que profissionais de imprensa exerçam seu ofício de informar a sociedade”. Ainda segundo a Abraji, “culpar o fotógrafo por ser cegado equivale a dizer que a vítima de um assalto mereceu ser roubada ou uma mulher, estuprada – além de ser óbvia ameaça à liberdade de imprensa.”

Nesta quarta-feira, a 9ª Câmara de Direito Público do TJ manteve a decisão de Zampol de não culpar o estado pela perda do olho de Sérgio Silva, mas rejeitou a tese de que ele seria culpado por se colocar na linha de tiro.

 

Leis da ditadura ainda valem para o governo golpista

Do Luiz Nassif

Governo usou lei da ditadura para prender 88 por “inconformismo político” com Temer

Polícia do Distrito Federal só recuou de também usar a Lei de Segurança Nacional para indiciar 88 pessoas por atuação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Todos os detidos estão soltos, mas vão responder por depredação, de acordo com o Código de Processo Penal

Jornal GGN – Uma operação das forças de segurança no Distrito Federal para reprimir protestos contra a aprovação da PEC do Teto dos Gastos, e outras reformas impopulares encampadas pelo governo Temer, acabou com 88 manifestantes presos, na noite de terça (13), com base na Lei de Segurança Nacional. Editada durante o regime militar, a norma só deveria ser acionada, segundo juristas, em casos de extrema necessidade, como risco à vida de autoridades de alto escalão ou à soberania nacional.

Em entrevista ao GGN, nesta quarta (14), o deputado Padre João (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, informou que a Polícia Civil do Distrito Federal admitiu que usou a Lei 7170/83 para encarcerar os manifestantes.

O artigo 20 diz que é “crime contra a segurança nacional, a ordem política e social devastar, saquear, extorquir, roubar, sequestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas.” A pena gira em torno de três a 10 anos de reclusão.

O artigo já foi usado por alguns governos estaduais e pela Polícia Federal durante protestos de junho de 2013, para deter a depredação organizada por grupos adeptos da tática black bloc. Mas especialistas em Direito alegam que o Código do Processo Penal, que prevê penas de multa e até seis meses de reclusão, seria o recomendável quando as prisões ocorrem em meio a manifestações de teor político.

Relatos de lideranças que organizaram os atos no DF indicam que os manifestantes foram presos de maneira arbitrária e coletiva. Segundo Padre João, uma comissão de parlamentares visitou o local para fiscalizar a ação da Polícia junto aos 88 presos e identificou que eles foram, inicialmente, enquadrados na LNS e proibidos de consultar um advogado.

“Como estavam todos nos corredores, mais de 60 jovens ali, e eles [policiais] tinham de colocar [os manifestantes] para dentro das celas, essa então foi essa justificativa. Pelo menos, a princípio, houve sim esse enquadramento coletivo, para eles se resguardarem no sentido da custódia desses jovens.”

O deputado disse que foi necessário fazer um apelo aos delegados para que os manifestantes tivessem preservado o direito constitucional à ampla defesa e para que não fossem indiciados com base numa lei ditatorial.

“Isso foi dito a um dos advogados pelos policiais antes de chegarmos ao local, que eles [advogados] que fossem procurar a Justiça, porque ali dentro [da delegacia], eles [delegados] que mandavam. Então combinamos o procedimento durante as oitivas, com acompanhamento dos advogados, e pedimos uma reconsideração do uso da Lei de Segurança Nacional, que é uma lei de 1983, usada num momento de regime de exceção. A essa altura, aplicar uma lei da ditadura não está bem”, disse Padre João.

Nesta quarta, os manifestantes foram colocados em liberdade, mas devem ser indiciados pela Polícia Civil do Distrito Federal por danos materiais, com base no Código do Processo Penal.

“O que a gente tem denunciado, e formalizamos isso ao governador [Rollemberg], é que esse aparato repressivo que está sendo montado seja revisto. Até porque, quando os manifestantes chegam de verde e amarelo, não há repressão nenhuma. Agora quando há quem se oponha ao desmonte que vem sendo feito por Temer – como ocorreu em atos pelo pré-sal, contra a reforma do ensino médio, agora contra a PEC 55 e ainda virá com a reforma da previdência – toda manifestação tem esse aparato conjugado entre governo federal e estadual, impedindo um direito assegurado na Constituição, que é o direito à livre manifestação.”

Para Padre João, os manifestantes contrários à PEC 55 – que vai congelar investimentos em saúde e educação por 20 anos – deveriam ter sido tão bem acolhidos e protegidos pelos policiais quanto foram os manifestantes pró-impeachment. Ao contrário disso, sequer foram autorizados a se aproximar da Esplanada.

Segundo o parlamentar, é preciso, ainda, “retomar o diálogo com as lideranças que foram presos no sentido de que passar para toda a sociedade de que eles estão prestando um serviço à Nação, diferente daqueles que estão presos em casa, em frente à televisão, acomodadas enquanto o Estado é desmontado. Não podemos deixar que isso passe como uma intimidação.“

Em nota à imprensa, a Secretaria de Segurança Pública do DF disse que está preparada para atuar contra “distúrbios sociais” como o que foi visto ontem, e não descarta fazer uso novamente da Lei de Segurança Nacional.

 

“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”

Do VioMundo

publicado em 24 de abril de 2015 às 20:08

CAMPEONATO PAULISTA 2015: SANTOS FC X SÃO PAULO FC

Na Vila Belmiro, o protesto. Vai ter camisa do Santos com o símbolo da Record?

“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”

por Ester Rabello, especial para o Viomundo

É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido o bordão que dá título a esse artigo, gritado em manifestações de rua, comícios e outros tipos de aglomeração, como no discurso de vitória de Dilma Roussef, quando a presidente eleita teve que se calar enquanto ouvia o desabafo.

Em meio a outras palavras de ordem, sempre sai o clássico “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Nos dias de hoje, muitas vezes a frase vem junto com outra: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”.

Neste ano em que a Globo completa meio século, as manifestações contra a emissora, fundada um ano após o golpe militar de 1964, estão acontecendo com maior intensidade. No 3 de março houve protestos em algumas capitais, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Vitória. Em nenhum deles havia mais que 500 pessoas, mas o barulho acabou sendo grande nas redes sociais.

— Sempre quis enterrar a Globo, desde criancinha, afirmou uma manifestante fantasiada de viúva, ao lado de uma caixão de papelão com o logo da emissora.

Na concentração diante da sede do império global, no Jardim Botânico, organizada pelo Sindipetro, o Sindicato dos Petroleiros, ficaram claros os motivos do protesto: a cobertura desequilibrada da Operação Lava Jato, a sonegação de impostos da Globo e a conivência com a ditadura militar…

A maioria dos manifestantes era de pessoas com mais de 50 anos de idade. Reclamavam da falta de cobertura da emissora à campanha das Diretas, nos anos 80, algo que os jovens de hoje não vivenciaram.

Este “choque de gerações” pode até levar quem tenha nascido nos anos 90 a acreditar que o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” seja coisa recente.

Se perguntarmos a um jovem na faixa entre 20 e 30 anos de onde vem a frase contra a emissora, talvez ele responda como Daniella Teixeira, 22 anos, que participou das manifestações de junho de 2013 na cidade de Guiratinga, em Mato Grosso:

— Olha, não posso afirmar com certeza, mas ela [a frase] estava sempre presente nas caminhadas, talvez como resposta ao enfoque que a Globo dava, como se fossem todos baderneiros. O povo não é bobo, mas a massa é manipulável, muita gente vai só no oba oba e o povo percebeu que havia muita manipulação da informação, mostrando só um lado da notícia. Os jovens percebiam a manipulação da imprensa, que taxava todo mundo de vândalo. Aqui, por exemplo, o movimento foi pacífico.

Na cidade da artesã, que faz decalques de unha para vender pela internet, as manifestações foram contra desde o gasto de 1 milhão de reais para tapar um buraco na rodovia, até o corte de uma árvore antiga. Sobre a frase relativa à Globo, Daniella acha que ela nasceu em 2013.

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Mas se você perguntar ao deputado federal Vicentinho (PT-SP), um dos líderes das greves do ABC, ele diz que lembra muito bem da primeira vez que ouviu o grito contra a emissora dos irmãos Marinho. Foi em São Bernardo do Campo, numa das assembleias de metalúrgicos grevistas, no final dos anos 70, no estádio da Vila Euclides.

— Sempre gritavam. Nós tínhamos boas relações com os jornalistas. O foco era a Globo. A gente lotava o estádio e a Globo minimizava, sempre diminuindo a quantidade de pessoas. Tinha gente da direita infiltrada na greve, gente que fazia quebra-quebra. A gente pegava, denunciava e a Globo não dava [noticiava].

Vicentinho lembra de ajudar a proteger repórteres da emissora para que não apanhassem dos grevistas.

— A gente ficava em volta deles e o Lula gritando, “gente, eles são trabalhadores, uma coisa é a empresa, outra são os jornalistas”.

Ricardo Kotscho, ex-secretário de imprensa do governo Lula, era repórter da revista IstoÉ na época. Viu várias vezes metalúrgicos chutando os carros de reportagem da Globo, desde a época em que as assembleias ainda eram feitas nas ruas de São Bernardo.

Cobrindo as assembleias naquela época, Kotscho recorda:

— Eles [equipes da emissora] iam cobrir, mas depois a Globo mostrava só um registro.

Os gritos de “fora Rede Globo, o povo não é bobo” continuaram ao longo dos anos 80. Por exemplo, na campanha das “Diretas Já” e no movimento pelo impeachment do presidente Fernando Collor.

— Menos na [manifestação] de março, agora. Nessa, a Globo não só apoiou, como apoiou de forma ostensiva, aponta Kotscho.

O jornalista Osvaldo Maneschy, um dos assessores de Leonel Brizola, está no PDT desde os anos 80.

Afirma que ouviu pela primeira vez uma multidão gritando “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” na Cinelândia, em 1986, em um comício de campanha do então vice-governador do Rio, Darcy Ribeiro, que disputava o Palácio Guanabara contra o candidato preferido da Globo, Moreira Franco.

Ele acredita que a fúria contra a Globo começou, entre os militantes do PDT, por causa da artilharia pesada da imprensa na época, com matérias negativas contra o governo de Leonel Brizola, o que gerou mais tarde um direito de resposta do gaúcho no Jornal Nacional.

— A Globo é a pauteira. Depois [o assunto] sai no [jornal] Globo do dia seguinte, no fim de semana na Veja e assim vai…

Foi o caso, segundo Maneschy, das notícias que acusavam Brizola de ter feito acordo com traficantes de drogas.

Para Fernando Brito, assessor de Brizola, a Globo fez uma péssima cobertura já da chegada dos exilados políticos. Mas, segundo ele, foi o “caso Proconsult” que levou ao primeiro enfrentamento do povão com a emissora. Durante a primeira eleição direta para governador do Rio, em 1982, a Globo foi acusada por Brizola de tentar manipular o resultado das apurações, o que a emissora sempre negou

— Até então, quem sabia que a Globo era a favor da ditadura eram os analistas políticos, não era algo de domínio da rua.

Brito lembra também do movimento “Diretas Já”, que durou quase um ano e reuniu, no seu ápice, 1 milhão de pessoas no comício da Candelária, no Rio de Janeiro, e 1,5 milhão no Anhangabaú, em São Paulo.

— A Globo só cobriu três comícios, sentencia.

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Fernando Borges, jornalista recém formado na UERJ, cobriu as manifestações de 2013 para a plataforma internacional de notícias “Blasting News”.

Segundo ele, várias equipes de grandes emissoras de televisão (Band, SBT e Record) foram hostilizadas com o uso do bordão criado contra a Globo.

— A imprensa ficou estigmatizada, afirma Borges, que também viu gente gritando “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, frases que ele considera “bem ultrapassadas”.

Ultrapassadas ou não, os gritos de “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” também foram ouvidos nas passeatas de protesto contra a morte do garoto Eduardo, de 10 anos, no Morro do Alemão, há menos de um mês.

E um novo grito parece estar surgindo nos estádios de futebol.

Revoltados com o pequeno número de jogos transmitidos pela Globo — que, segundo eles, privilegia o Corinthians –, torcedores do Santos levaram faixas de protesto à Vila Belmiro na semifinal do Campeonato Paulista, dia 18 último. Depois que o Santos fez 2 a 0 no São Paulo, passaram a gritar em coro o “chupa, Rede Globo, o nosso Santos vai ser campeão de novo”.

Com o Santos classificado para a final, torcedores do clube fazem campanha nas redes sociais para que a equipe entre em campo com o símbolo da TV Record no peito. Detalhe: os dois jogos serão transmitidos pela Globo. Seria a repetição do que aconteceu em 2001, na final contra o São Caetano, no Rio, quando Eurico Miranda, presidente do Vasco, colocou o logotipo do SBT nas camisas do clube para protestar contra a Globo.

Independentemente de o Santos atender ou não a seus torcedores, as finais contra o Palmeiras tem tudo para serem tão interessantes nas arquibancadas quanto no gramado.

“A elite brasileira é atrasadíssima e semeia o ódio.”

 

Da Carta Capital

por Renan Truffi – entrevista com Guilherme Boulos

 

Líder do MTST lidera ato contra a direita reacionária, mas indica que o movimento vai cobrar pautas progressistas de Dilma.

 

À frente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos tem se firmado como uma nova liderança social no País. Nesta quinta-feira 13, Boulos foi responsável por uma passeata que reuniu pelo menos 10 mil pessoas, segundo a PM, na região central de São Paulo, durante três horas e sob forte chuva. A manifestação tinha o objetivo de “enfrentar a direita atrasada” e, ao mesmo tempo, deixar um recado para o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT): se a próxima gestão petista não for voltada para reformas populares, como prometido nas urnas, o MTST não vai sair das ruas.

“É preocupante que os primeiros sinais da presidenta [Dilma] não tenham sido esses [de que o governo será progressista]”, afirma. “Esse ato também tem o sentido de dar o recado que o povo vai lutar nas ruas pelo programa que foi eleito nas urnas”. Ao mesmo tempo, diz o líder do MTST, o ato foi um recado à direita conservadora. “[Há] um ranço de classe, de uma elite, de uma burguesia, que nunca aprendeu a conviver com o povo, uma elite que sequer admitiu a abolição da escravatura”, afirma Bouolos. “Então, para eles, falar de Bolsa Família é revolução socialista, falar de investimentos sociais é algo inaceitável”, diz. Segundo Boulos, o povo vai dar uma “resposta à altura, defendendo as reformas populares”.

Leia a íntegra da entrevista, feita antes da manifestação:

 

CartaCapital: Qual é o objetivo deste ato?
Guilherme Boulos: O ato tem dois propósitos. O primeiro é fazer o enfrentamento a essa direita atrasada que tem ido às ruas nos últimos meses defender posições inaceitáveis para maioria do povo brasileiro. Defender não só intervenção militar e impeachment, como também semear ódio aos pobres, racismo, homofobia. Isso não pode ser admitido, essa marcha vem para fazer contraponto e mostrar que os golpistas do Jardins tão colocando mil pessoas nas ruas. Nós vamos pôr 15 mil [pessoas] só para começar. Em segundo lugar, também tem o objetivo de pautar reformas populares no Brasil. O programa que foi eleito nas urnas tem de ser realizado. Era um programa de mudança popular. O programa que perdeu não pode imperar, é necessário que o povo deixe claro a importância das reformas estruturais, reforma política, reforma urbana, reforma agrária progressiva. Enfim, todos esses temas que estão travados na agenda brasileira há décadas por conta do impeditivo que as elites colocam no Congresso Nacional, no Judiciário, nas bancas. Nós queremos deixar claro que o anseio de mudança do povo é este. Não é uma coisa abstrata. A mudança são reformas estruturais no Brasil.

 

CC: Apesar de ter reunido pouca gente, essa parcela da população que pede impeachment e intervenção militar representa algum tipo de ameaça à liberdade da sociedade brasileira?
GB: Olha, só o fato de ter milhares de pessoas que não têm vergonha de mostrar a cara dizendo que defendem uma intervenção militar, um golpe militar, segregação do País, morte a nordestinos, morte a pobre, morte a homossexual, esse fato em si já é preocupante. Nós temos a clareza que esse sentimento é minoritário na sociedade brasileira. Um sentimento que vem de uma elite lá da Casa Grande. Um sentimento que é assimilado por uma classe média principalmente aqui no Sudeste, no Sul do País. Nosso ato vem para mostrar que a maioria da população não compactua com isso e condena esse tipo de percepção.

 

CC: Qual é a explicação para esse ódio? De onde vem esse ranço de uma parte da população em relação a nordestinos, classes sociais mais baixas e minorias?
GB: Esse é um ranço de classe, de uma elite, de uma burguesia, que nunca aprendeu a conviver com o povo. Uma elite que sequer admitiu a abolição da escravatura. Então, para eles, falar de Bolsa Família é revolução socialista. Falar de investimentos sociais é algo inaceitável. A elite brasileira é atrasadíssima e é ela que semeia esse ódio. Então o povo vai dar a resposta, e vai dar a resposta à altura, vai dar a resposta defendendo as reformas populares.

 

CC: O PSDB rejeitou a manifestação a favor do impeachment e da intervenção militar. Você acha que o Brasil pode um dia ver algum partido ou movimento nacional atrair essa extrema-direita, semelhante ao Tea Party dos Estados Unidos?
GB: Isso naturalmente é sempre um risco e é algo que os setores democráticos e populares da sociedade brasileira têm de estar atentos. Agora o importante é ponderar também que o discurso do PSDB é um discurso hipócrita. Rejeita isso num dia e, no outro dia, um ex-presidente do partido, o José Aníbal, publica citações de Carlos Lacerda incitando o golpe. E o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz declarações de ódio minimizando o povo nordestino. O PSDB, na verdade, tem vergonha de assumir suas posições que se assemelham à extrema direita

 

CC: Essa eleição presidencial ficou caracterizada pela divisão do País. Você acha que agora a presidenta Dilma vai fazer um mandato realmente progressista?
GB: Bom, primeiro, é o mínimo que se esperaria: ela realizar o programa de mudanças para o qual ela foi eleita. Agora é preocupante que os primeiros sinais da presidenta não tenham sido esses. Passou a campanha inteira dizendo que Marina Silva e Aécio Neves iam governar para os banqueiros e cogita o presidente do Bradesco [Luiz Carlos Trabuco] para ministro da Fazenda. Isso é inaceitável também. Esse ato também tem o sentido de dar o recado que o povo vai lutar nas ruas pelo programa que foi eleito nas urnas.

 

Extrema direita rachada

 

Da Carta Capital

 

Segundo a PM, 2,5 mil pessoas foram à avenida Paulista pedir a deposição de Dilma. Entre os presentes estava Aloysio Nunes (PSDB-SP), candidato a vice de Aécio Neves

 

Extrema direita
Manifestante na Paulista e sua “bandeira de luta”

 

A manifestação contra a presidenta Dilma Rousseff neste sábado em São Paulo foi marcada por um racha. Cerca de 2,5 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, reuniram-se no Masp para pedir a queda de Dilma, mas divergiram quanto ao método: parte pedia o impeachment. Outros clamavam pela “ajuda” do exército. Dilma foi reeleita no último dia 26 de outubro com mais de 54 milhões de votos.

A divergência foi tamanha que o ato, após a concentração no Masp, dividiu-se em três, cada um com seu carro de som: uma parte ficou por ali mesmo. Outros marcharam até a praça da Sé, descendo pela avenida Brigadeiro Luiz Antônio. E um terceiro grupo, formado pelos defensores de uma “intervenção militar”, rumou com seu carro de som para o Comando Militar do Sudeste, um quartel do exército ao lado do parque do Ibirapuera.

Alguns políticos marcaram presença na avenida Paulista: o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), candidato a vice na chapa de Aécio Neves, não discursou mas foi bastante festejado e tirou muitas fotos com admiradores. O deputado estadual Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), filho do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) estava em um dos três carros de som. Eduardo, flagrado com uma arma na cintura no ato anti-Dilma de primeiro de novembro, desta vez afirmou a jornalistas que estava desarmado. Outro muito assediado pelos presentes foi o ex-comandante da Rota e deputado estadual eleito Coronel Telhada (PSDB-SP). Estava ainda no ato Gilberto Natalini, candidato a governador pelo PV nas eleições deste ano.

 

Lobão “traidor do movimento”

Um dos líderes e maiores divulgadores da manifestação, o cantor Lobão, evidenciou o racha, ameaçou abandonar o ato e deixou aflitos seus seguidores no Twitter. Chegou a descrever o protesto como “cilada infame”, e complementou: “Chego no Masp e a primeira coisa que vejo é um carro de som com os dizeres ´Intervenção Militar Já!´. Palhaçada!”. A reação foi imediata: o roqueiro foi chamado de “burro”, “petista” e “covarde” por seus seguidores. Depois que a manifestação partiu-se em três o artista, contudo, mudou de ideia e juntou-se ao grupo que desceu até a Praça da Sé. E tranquilizou seu fãs: “Voltei!”.

Tirando o bate-boca entre as diferentes facções (defensores do impeachment X defensores do golpe militar), o ato transcorreu sem maiores problemas. O único relato na imprensa de agressão é da reportagem do UOL, que presenciou um rapaz de camiseta vermelha sendo agredido (sem gravidade) por dois idosos de verde e amarelo.

As bandeiras tinham em comum o desejo de retirar Dilma do poder imediatamente  e o ódio a Lula, ao PT, ao Foro de São Paulo, a Cuba, a Venezuela, ao bolivarianismo, ao comunismo e a qualquer coisa “de esquerda”. Cartazes saudavam Olavo de Carvalho, as Forças Armadas, a revista Veja e o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Também havia muitas menções à operação Lava-Jato e à Petrobras. Havia ainda críticas a alguns veículos de comunicação em faixas e cartazes. Jornalistas do Grupo Folha, por exemplo, foram chamados de “imprensa petralha”.

O dress-code do ato era usar cores da bandeira do Brasil. Quem não vestia camisas da seleção, trajava alguma outra peça verde, amarela ou azul. Foram distribuídas fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim, e camelôs vendiam bandeiras do Brasil. Marcaram presença também bandeiras do Estado de São Paulo, empunhadas por jovens tatuados com camisetas aludindo à Revolução de 32 ou pedindo a “volta do CCC”, o Comando de Caça aos Comunistas, organização paramilitar responsável por espancamentos e mortes durante a ditadura militar.

Na trilha sonora do protesto, músicas como Reunião de Bacana, do Fundo de Quintal (“Se gritar pega ladrão…”), Até Quando Esperar (Plebe Rude) e o Hino Nacional.

Teve também um Pai-Nosso puxado do alto do carro-de-som mais potente por um padre não identificado. Antes de começar a rezar o homem de batina discursou contra “o crescimento do Islã no Brasil”, contra o “gayzismo”, “pela família” e concluiu afirmando que um golpe militar “ainda não é necessário”.

 

Em outras cidades

Neste feriado de Proclamação da República, outros atos aconteceram no Brasil afora. A adesão, contudo, foi bem inferior a São Paulo. Em Porto Alegre eram “centenas” de manifestantes, segundo o jornal Zero Hora; em Belo Horizonte a Polícia Militar estimou em 600 os presentes; em Brasília, um pequeno grupo se reuniu em frente ao Congresso Nacional.

No Rio de Janeiro a PM falou em 150 manifestantes em Copacabana. Na capital carioca a estrela foi o deputado federal Jair Bolsonaro. Primeiro o parlamentar “denunciou” o plano do governo para “impor o socialismo no nosso País”, para em seguida afirmar: “O socialismo é o nome de fantasia para o comunismo”. E concluiu: “são poucos [os manifestantes], mas valem pela qualidade”.

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Será que ele sabe o que é e o que fez o CCC???