Garantistas da exceção

da Carta Capital

por Mino Carta

A inexistência da Justiça e a propaganda midiática sustentam os golpistas, unidos pelo propósito de impedir a volta de Lula

Temer e Moro
Esta imagem dispensa legenda

Se o presidente ilegítimo informa com invulgar candura, como acaba de ocorrer, que o impeachment de Dilma Rousseff resultou dos rancores de Eduardo Cunha em relação ao PT, admite, ele próprio, que golpe houve e a ilegitimidade do seu governo. E onde ficam as célebres pedaladas?

Coisas nossas, cantava um velho samba sobre bossas nativas, no caso representativas de um país à matroca, entregue a uma avassaladora crise moral, política, econômica, social, cultural. Não vale constatar a ausência de democracia, impossível em uma nação recordista em desigualdade. Casa-
-grande e senzala de pé, medievalidade assegurada. Cabe dizer, isto sim, que nunca caímos tão embaixo.

Neste precipitar, avultam ignorância e hipocrisia, escassa saúde mental e prepotência. Nem por isso deixamos de frequentar a tradicional dicotomia ideológica, direita-esquerda, enquanto o ideal esquerdista não medra na senzala, assim como a casa-grande não é de direita, ou conservadora, e sim tão somente despótica. Churchill, Adenauer, De Gasperi foram a direita conservadora.

Berlinguer, Palme, Brandt, a esquerda progressista. Atuavam em países de autêntica democracia, com dignidade e eficácia ao sabor de papéis muito bem arcados. Esperar por algo similar no Brasil dos últimos cem anos exprimiria uma ilusão e uma falácia. Nunca, contudo, foi tão clara a nossa total inadequação a qualquer sonho democrático.

As delações colhidas pela Lava Jato exibem as mazelas partidárias e confirmam a condição das empreiteiras e do mercado como fiadores do poder. Algo, porém, é ainda mais espantoso: a ausência de Justiça e o comportamento da mídia. A República de Curitiba cuidou, bem antes do impeachment, de alavancar o golpe, para revelar o objetivo primeiro de toda a operação: destruir Lula e o PT.

O alvo é claro, o ex-presidente é culpado por ser o grande líder popular, o único a pôr em xeque os interesses da casa-grande, a despeito de bom praticante do jogo do cravo e da ferradura, conforme foi provado em seus dois mandatos na Presidência da República.

Não bastou, é preciso acabar com ele para que não volte, e, portanto, escolhe-se o culpado antes de definir a culpa aparente, aquela prevista no código. E se faltar a prova? A convicção dos julgadores é suficiente.

A Lava Jato é um fenômeno de ilegalidade sem similares na condução de outras operações anticorrupção realizadas mundo afora. Não é admissível à luz da lei, de fato um crime cometido na pretensão de combater o crime, prender cidadãos e esticar seu cativeiro a bel-prazer do juiz para forçar uma delação extorquida.

Tampouco é admissível que o depoimento filmado dos delatores seja previamente negociado e que cada qual, na hora azada, compareça diante das câmeras a carregar um papelucho, espécie de “cola” escolar às claras, roteiro de sua fala.

O Supremo Tribunal presta-se ao jogo, como se deu por ocasião de um impeachment sem motivo e quando se procura um culpado antes de escolher a culpa. O ataque cerrado ao ex-presidente transparece nas gravações. Se Emilio Odebrecht diz que é hábito da sua construtora investir em todas as empresas de comunicação, os inquisidores não solicitam que esclareça a quais se refere.

A questão diz respeito exclusivamente a CartaCapital, por ser uma das raríssimas vozes discordantes da mídia do pensamento único.

Condenar Lula no momento em que se torna cada vez mais favorito para as próximas eleições é o objetivo comum dos golpistas. Aqui a sintonia é perfeita e, a depender de quem desmanda, o propósito é manter o calendário eleitoral uma vez cumprida a missão de alijar Lula da disputa.

A saída correta está, obviamente, na antecipação do pleito a partir das denúncias postas pelas delações da Lava Jato, de sorte a devolver a palavra final ao povo. Mas o povo que se moa. As instituições estão destroçadas e decisivas para os golpistas são a inexistência da Justiça e a propaganda midiática. Tais as garantias do estado de exceção em que precipitamos.

PF cedeu agentes, avião e armas para filme da Lava Jato, dizem deputados

da Carta Capital

Parlamentares do PT denunciam “relação promíscua” da Polícia Federal com produtores de longa que destaca a condução coercitiva de Lula

Damous e Pimenta
Damous e Pimenta: qual a relação da PF com a produção do filme?

A Polícia Federal cedeu agentes, armas, carros, avião e helicóptero, divulgou gravações ilegais, pediu patrocínio e abriu sua sede em Curitiba para ajudar na produção e na gravação do filme Polícia Federal – A Lei é para Todos, que retrata parte das investigações da Operação Lava Jato. A denúncia, feita nesta quarta-feira 5, é dos deputados federais Paulo Pimenta (RS), Wadih Damous (RJ) e Paulo Teixeira (SP), todos do PT.

A base da denúncia dos deputados petistas é uma investigação própria realizada por eles desde fevereiro, cujas conclusões serão repassadas a autoridades competentes para investigação. Os deputados anunciaram uma série de medidas judiciais, sendo a principal delas uma representação no Ministério Público Federal pedindo a investigação da conduta de agentes públicos.

Os deputados decidiram recorrer a outras autoridades por terem sua atuação parlamentar cerceada. De acordo com Paulo Pimenta, ele protocolou na Câmara, em 22 de fevereiro, um requerimento pedindo informações para o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, a respeito das relações entre a PF, (subordinada ao Ministério da Justiça) e os produtores do filme. O documento  nunca foi enviado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), segundo Pimenta.

 

“A presidência da Casa nunca enviou esse requerimento para a Policia Federal. Temos informações da pressão exercida aqui dentro da Câmara, pelo Ministério da Justiça, para que este documento não saia da Casa, porque na medida em que ele for expedido começa a contar prazo para o crime de improbidade caso ele não seja respondido”, afirmou o parlamentar gaúcho. “Só isso já revela a indisposição de nos trazer a documentação que queremos”, disse.

Cinco dias antes, Pimenta enviou documento com o mesmo teor direcionado ao diretor-geral da PF, Leandro Daiello, que nunca respondeu.

 

O filme vem sendo criticado por focar exclusivamente uma parte da Lava Jato e ter como ápice a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizada em 4 de março de 2016. Para os deputados do PT, trata-se de uma tentativa de manipular a opinião pública de forma a facilitar a condenação de Lula.

“Esse episódio revela o Estado querendo influenciar a opinião pública para um resultado de julgamento, utilizando meios ilegais, sem nenhuma transparência, e é muito interessante que, ao mesmo tempo, o Estado, a partir de seu poder de coerção, vá buscar recursos para bancar um filme”, disse Paulo Teixeira. “Esse filme integra o cenário de estado de exceção em que vivemos”, afirmou Damous.

É agravante, afirmam os deputados, o fato de os financiadores do filme serem secretos, uma situação totalmente incomum no cinema brasileiro. O sigilo é, tão somente, disse o diretor do filme Marcelo Antunez, proteção. “As pessoas [financiadores] têm receios de várias ordens, até de integridade física”, afirmou à Folha de S.Paulo.

Oficialmente, a única empresa que foi anunciada como apoiadora do filme é a Rede Madero, cujo restaurante de Curitiba sediou, como mostra a imagem abaixo, um convescote entre atores e produtores do filme e o delegado da Polícia Federal Igor Romário de Paula, uma das estrelas da Lava Jato.

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A foto  foi divulgada pela página oficial do Filme

As denúncias

Na entrevista coletiva desta quarta, os deputados fizeram quatro denúncias. A primeira delas é que a Superintendência da Polícia Federal ficou fechada durante todo o dia 18 de novembro de 2016, para “possibilitar e facilitar as filmagens” do longa metragem. “A desculpa que foi dada é de que a sede seria fechada para pintura”, disse Damous.

O 18 de novembro era uma sexta-feira, e a sede da PF no Paraná ficou à disposição das equipes de filmagem também no sábado e domingo seguintes, disse Pimenta. “Ela permaneceu fechada durante todo o fim de semana, sem acesso a ninguém, exclusivamente para uso das equipes de filmagem”, afirmou.

A segunda denúncia se refere à cessão de equipamentos e pessoal da PF. No Carnaval de 2017, disse Pimenta, dez agentes da PF ficaram à disposição da produção do filme, em uma missão que foi autorizada e depois cancelada, mas que constaria no sistema operacional da instituição.

Inicialmente, afirmam os deputados, os agentes teriam sido autorizados a viajar de Curitiba a São Paulo com diárias pagas pela PF. A ordem foi cancelada, mas a viagem se manteve, com hospedagem paga pelos produtores do filme. Os agentes teriam ido a São Paulo nas viaturas, “algumas blindadas”, alguns acompanhados de parentes e amigos, que teriam feito “pontas e participações” no filme.

Além disso, afirmou o deputado, muitos outros equipamentos foram cedidos por empréstimo à produção do filme. “As viaturas, o combustível, tudo isso foi disponibilizado pela PF sem qualquer tipo de contrapartida, portanto tudo pago com dinheiro público, assim como a utilização de aviões, helicópteros, fardas, armas, instalações”, afirmou.

A terceira denúncia se refere especificamente à pessoa do diretor-geral da PF, Leandro Daiello. Segundo Damous, ele teria pedido a um delegado para buscar patrocínio para o filme. “Um delegado teria sido instado pelo diretor-geral da Polícia Federal a ajudar a buscar patrocínio para o filme”, afirmou Damous.

A quarta denúncia se refere à gravação da condução coercitiva de Lula. Aquela ação foi autorizada pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Lava Jato em primeira instância. No despacho, Moro afirmou que não deveria “em hipótese alguma, ser filmado ou, tanto quanto possível, permitida a filmagem do deslocamento do ex-presidente para a colheita do depoimento”.

Ainda assim, a Polícia Federal não só gravou a ação como exibiu a íntegra a atores e produtores do longa metragem, fato que se tornou público justamente por conta do filme sobre a Lava Jato. No último 3 de fevereiro, a revista Veja confirmou que “teve acesso à íntegra da gravação de todo o processo, feita por câmera digital acoplada ao uniforme de um agente da PF”, e descreveu detalhes da reação de Lula.

Dois dias depois, em entrevista à mesma publicação, o ator Ary Fontoura, que interpretará Lula, confirmou que estava em Curitiba para ver a ação contra Lula. “Vim sentir o clima da Lava-Jato e assistir às gravações que a PF fez da condução coercitiva do Lula”, afirmou.

No fim de março, o delegado Igor Romário de Paula admitiu, em ofício enviado a Moro, que foram feitas imagens durante a condução coercitiva, mas negou que elas desrespeitassem a ordem de Moro. Também segundo Igor de Paula, “em momento algum as imagens realizadas naquela data foram fornecidas a terceiros”. A manifestação do delegado se deu em resposta a pedido de Moro, em decisão proferida após pedido da defesa do ex-presidente Lula.

Nesta quarta, Damous afirmou que vai realizar uma representação no Conselho Nacional de Justiça contra Moro, porque na primeira decisão sobre o caso o magistrado afirmou que não caberia a ele “impor censura a veículos de comunicação ou mesmo à produção de algum filme”.

Observação do blogueiro: no link da reportagem você poderá assistir a íntegra da entrevista dos deputados.

 

Ciro Gomes: ‘Mil vezes um Bolsonaro do que um enganador como o Doria’

do HuffPost Brasil

“Existe um conflito distributivo no País e quem está mandando com o Temer é o baronato, o baronato financeiro.”
Em entrevista exclusiva ao HuffPost, Ciro Gomes confirma: quer ser o presidenciável da esquerda em 2018.

“Tá rindo de quê?”

Na “mais grave crise de toda nossa História” não tem espaço, segundo o ex-governador, ex-prefeito de capital e ex-ministro Ciro Gomes, para rir. É este, segundo ele, o motivo pelo qual ele é sempre chamado de pavio curto.

Em discurso para uma plateia de militantes do PDT, o partido ao qual é filiado depois da passagem por seis partidos, o mais expressivo dos irmãos Gomes questionou o presidente do partido Carlos Lupi sobre o motivo de sair sorrindo nas fotos.

“É pedido da mãe, ele já explicou que é por isso que tem que sair sorrindo nas fotos. Não tem como rir com os números que temos hoje”, disparou.

Já tirando do papel a proposta de concorrer à eleição presidencial de 2018, Ciro, com ajuda de um ato falho, expôs aos militantes a estratégia para conquistar o lugar hoje ocupado pelo presidente Michel Temer.

Ninguém vai achar que vamos crescer em pesquisa antes do tempo, não vai acontecer. As pesquisas só colocam os mais conhecidos e tal. Não tem problema. Se a gente fizer o que temos que fazer, se tivermos clareza e começarmos a ajudar o povo a entender o problema e o caminho da solução, não tenho dúvida, eu arrisco cumprir essa honrosa missão que Lula (ex-presidente), opa, o Lupi (presidente do PDT) está me dando. O Lula não quer deixar e o Lupi está me dando.

Em seguida, ele emendou: “Nada contra o Lula, apenas acho que está na hora de encerrar essa briga PT e PSDB e colocar um projeto novo.”

O tal projeto é a única saída possível, na visão do candidato derrotado à presidência em 2002 pelo PPS e ainda associado à ex-namorada atriz Patrícia Pillar, para a mais grave crise, como ele define o momento atual.

No fim do discurso aos militantes, em Guarulhos (SP), Ciro concedeu uma entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil na qual admitiu abrir mão da possibilidade de se candidatar caso o ex-presidente Lula decida concorrer ao cargo, embora não concorde com a candidatura do petista.

Ciro, inclusive, não concorda com muita coisa. Não está de acordo com as reformas, promete revogar a PEC do teto de gastos, discorda da estratégia para anistiar o caixa dois. Nem o discurso do não-político do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), Ciro aceita: “Mil vezes, na minha opinião, um Bolsonaro do que um enganador desse tipo”.

Aqui estão os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Tem espaço para uma candidatura sua e do ex-presidente Lula?

Ciro Gomes: Acho que não há espaço para duas candidaturas em um momento como este. Se tomarmos por exemplo como sintoma da nossa força potencial, salvo o carisma do Lula, a organicidade hoje está reduzida à seguinte proporção: do centro à esquerda, já supondo que o partido da Marina seja um partido de esquerda, o que eu já tenho grande dúvidas sobre isso, nós [esquerda] temos hoje 100 deputados, em 500. Nós temos 100 contra 400. Nesses partidos todos, são cinco partidos, quatro candidatos. Isso na minha opinião, é irresponsabilidade com o País. É evidente que nesse momento todo mundo tem direito. E quem sou eu, muito menor que o Lula. Mas eu acho que aquilo que eu falei, o mais do mesmo, ou essa radicalização PSDB e PT já exauriram o ciclo. É preciso dar passagem, não digo para uma candidatura como a minha, mas é preciso dar passagem para um novo projeto.

Que tipo de projeto?

Um projeto que tenha coragem de confrontar essas premissas estúpidas que estão destruindo a economia brasileira e o maior sintoma disso são 20 milhões de pessoas, 13 milhões de desempregados e sete milhões em condições precárias.

Você se refere às reformas do Temer?

Temer está agravando os problemas. Existe um conflito distributivo no País e quem está mandando com o Temer é o baronato, o baronato financeiro. O mundo produtivo brasileiro e o mundo do trabalho estão passando o pão que o diabo amassou sem precedentes, por isso que há uma fresta aí para a gente conseguir repactuar o Brasil. Quem produz na roça, quem produz na fábrica, quem está no comércio sabe que as coisas estão profunda e definitivamente erradas no País e o trabalhador, então, nem se fala. Para além do que está acontecendo com um desempregado de família no Brasil, existem hoje ameaças graves sobre a precarização no mercado de trabalho, sobre os aposentados e pensionistas. Se passa na cabeça de alguém que seja razoável um país como o nosso tão desigual estabelecer idade mínima de 65 anos independentemente do trabalhador engravatado, que dá expediente no ar condicionado, e aquele outro que é operário da construção civil e está trabalhando de sol a sol no semiárido do Nordeste ou nas carvoarias do Pará… Isso não tem cabimento, é uma desumanidade completa.

O teto de gastos não tem validade sem a reforma…

O teto de gastos é uma perversão que vai se revelar insustentável. Portanto, tenha clareza que se depender de mim, isso será revogado. O que não quer dizer que o valor que está ali não seja um valor que tenha que presidir as relações de um governante com as finanças públicas. Sou ex-governador, ex-prefeito de uma capital, ex-ministro da Fazenda, não tenho um dia de déficit. Tem que tem saúde fiscal. Para o País enfrentar os seus problemas, é preciso ter sanidade fiscal, mas nunca preservando 50% do orçamento livre para a despesa mais perversa que são R$ 700 bilhões para juros este ano. Isso cortando em educação e saúde de um país que já tem condições tortas e desumanas na oferta de saúde, especialmente para o povo.

Após o impeachment, houve uma fragmentação muito forte da esquerda. Como repactuar os partidos com os movimentos sociais?

A única fórmula, por exemplo, de eu entrar em uma dinâmica da reunificação é estabelecer um método e o método há de ser um programa. Eu não aceito mais esse pragmatismo que se relevou uma tragédia que o PT impôs, com todo o respeito ao PT. O PT não é meu inimigo, não é meu adversário, pelo contrário. Em 1989, votei no Covas no primeiro turno e no Lula no segundo e venho votando. O Lula queria porque queria que o (Henrique) Meirelles fosse ministro da Dilma. Tivemos um golpe de Estado e o adversário golpista nomeia o Meirelles ministro da Fazenda. Tem uma coisa errada e eu sei que está errada. Chega de conciliação e isso não quer dizer ruptura nem briga, quer dizer experimentar outro caminho, outro modelo, outra premissa. Estou estudando e isso me deixa muito enraivecido e isso me faz parecer pavio curto, mas nós estamos aí massacrando a nação de 200 milhões de pessoas.

Como mudar?

Com política e democracia. Quando o PT lançou o Lula em 1989, o PT tinha 12 deputados. Quando o PSDB lançou o Fernando Henrique em 1994, o PSDB tinha 17 deputados. O problema não é esse [governo de coalizão], é a ideia. Como unir uma grande maioria do povo brasileiro e a democracia garante isso ciclicamente.

É um erro o governo de coalizão?

Esse modelo é uma mentira do Fernando Henrique que o Lula replicou. A Dilma caiu por isso; porque resolveu conciliar com bandido, com Eduardo Cunha. Meu irmão [Cid Gomes] era ministro da Educação, chamou o Eduardo de ladrão e ela ficou com ele. Olha onde eu estou e meu irmão. Antes era teórico, agora é experimental. Repare bem, Fernando Henrique perdeu para o Lula e a Dilma caiu por causa desse projeto. Isso está correto? Esse é o caminho certo para o fracasso.

No seu discurso, o senhor ressaltou que o eleitor não se vê representado. Na sua avaliação, este é o fomentador da onda conservadora que faz que o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), despontem nas pesquisas?

Sou um democrata de verdade, sou um democrata visceral e o que as pessoas veem como uma coisa ruim, eu vejo como uma coisa boa. Se há uma parcela do eleitorado que se afina com o que o Bolsonaro interpreta, representa e diz, essa fração tem todo direito que um democrata deve garantir sem qualquer tipo de queixa de se expressar na política. Evidente que no debate, eu estando presente, vou arrancar muitas máscaras. Esse João Doria se apresentar como não político, ele está esquecido que foi presidente da Embratur no governo do Fernando Collor, ele está esquecido – e eu tenho uma memória implacável – de que a empresa dele vivia de milhões de reais de dinheiro público repassado por correligionários deles, de governo do PSDB. Isso que é não-político? Mil vezes, na minha opinião, um Bolsonaro do que um enganador desse tipo.

A anistia ao caixa dois deve ser adotada na reforma política?

Evidente que não. Isso é um escárnio com a população brasileira. Tecnicamente, você pode até estabelecer uma distinção. Mas não estamos em um momento técnico, muito menos de tecnicalidade polêmica. Neste momento, o que a sociedade brasileira quer, espera e exige é que a punição deixe de ser só para ladrão de galinha e pequenos, pobres, negros, periféricos do Brasil, para alcançar os corruptos e caixa dois definitivamente é um sintoma de corrupção.

Como ficaria a reforma política?

Sem dúvida, com dois caminhos: organizar a relação de dinheiro e política e introduzir o recall, instrumento em uma democracia direta com referendo em que você possa desconstituir um mandato, não porque corrompeu, mas porque mentiu ou está fazendo o oposto do que prometeu.

O nada e o ódio

Do El País

por Eliane Brum

As mortes de Maria e de Marisa expõem a tragédia de ontem e a de hoje

A ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva

Acaba de completar um mês da morte de Marisa Letícia Lula da Silva. E na sexta-feira, 3 de março, sua memória era objeto de disputa: o juiz Sérgio Moro arquivou as acusações contra ela na ação penal da Lava Jato que envolve o triplex de Guarujá, como determina a lei em caso de falecimento, mas decretou apenas “a extinção de punibilidade”. A defesa afirmou que vai questionar a decisão porque o juiz deveria ter decretado também a “absolvição sumária”. A disputa não é apenas semântica ou jurídica, mas política. A morte de Marisa, esta que se tornou exposta, revela muito do que se tornou o Brasil. Tanto quanto, mais de 40 anos atrás, a morte de Maria de Lourdes, a primeira mulher do ex-presidente, revelava pelo avesso o que éramos e ainda somos. Há algo que une essas duas mortes para além de Lula. Algo que fala de corpos objetificados e de invisibilidades.

 A morte de Maria de Lourdes Ribeiro da Silva só ganhou existência fora das estatísticas como citação na biografia do marido depois que ele ficou famoso. Ela morreu 15 minutos depois de o bebê de sete meses ser arrancado a fórceps do seu corpo. No atestado de óbito constava “coma hepático, provável hepatite”. No do menino, “morte intrauterina”. Maria de Lourdes morreu só, no Hospital Modelo, em São Paulo. “Estou morrendo. Eles vão me deixar morrer. Não me deixa sozinha”, ela disse à Soledade, sua cunhada, a última pessoa da família a vê-la com vida. Mas os médicos não permitiram que nenhum familiar permanecesse com ela. Maria, a irmã mais velha de Lula, foi quem a vestiu para o velório. Encontrou-a “ensanguentada e cortada”, ao lado do bebê morto. Quando Lula chegou, com a mala de roupinhas da criança, foi informado: “Sua mulher está morta. Seu filho também”.

Em 2003, procurei os médicos que a atenderam para uma reportagem. Um deles, Sérgio Belmiro Acquesta, gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica onde Lula trabalhava, já tinha morrido. Ele também era legista do Instituto Médico Legal de São Paulo e chegou a ser acusado de assinar dois laudos falsos para a ditadura. O outro médico da Villares, que fez o pré-natal de Maria de Lourdes e cuidou de sua internação, disse não se lembrar dela: “Eu atendia 30 mulheres todo dia no ambulatório, mais outro tanto no hospital. Tudo isso em quatro horas”. O médico do bairro também afirmou não recordar de nada: “Atendo 30 pessoas por dia e só guardo as fichas por cinco anos”. A chefe do berçário do hospital naquele período afirmou só lembrar “de um feto morto e de uma mulher com infecção de qualquer coisa”. E explicou o porquê: “Todas elas gritam na maternidade, isso não chamava atenção. Lula não era famoso, a gente lembra do pessoal mais classificado. Pobre, sabe como é, a gente trata bem mas não tem aquela recomendação exagerada”.

Nas semanas antes de morrer, Maria de Lourdes procurou os médicos da Villares e do bairro várias vezes, queixando-se que tinha “uma fogueira no estômago”. Vomitava tudo o que comia. Ouvia deles que gravidez era assim, “dava enjoo”. Sua mãe contou que mandavam que ela caminhasse e comesse gelatina. Quando finalmente foi internada, a mãe pediu ajuda a um dos médicos, porque Maria de Lourdes estava desesperada de dor. Ele respondeu: “A senhora nunca teve um filho? Ela está com dor de parto, é normal. Está no isolamento por causa da hepatite, mas a dor é normal”. Em entrevista para a biografia Lula, o filho do Brasil, escrita por Denise Paraná, Lula disse: “Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência. Como ela morrem milhões sem atendimento neste país”.

Maria de Lourdes era então só mais uma Maria. Que, como tantas Marias, gritava de dor. E não pertencia ao “pessoal mais classificado”. O que os relatos contam é que sua dor não seria dela, mas das mulheres, estas que têm por característica sofrer na gravidez e no parto. Uma dor tão naturalizada que a doença que a levou ao coma hepático sequer foi investigada. A ideia de que todo sofrimento é natural apagou a singularidade da sua dor e liberou os médicos de escutá-la. “Todas elas gritam” é uma frase profunda, que conta de uma história de opressão. No Ocidente, atravessada pela moral cristã que coloca na mulher o pecado original e a dor do parto como uma de suas punições, do mesmo modo que idealiza a maternidade como a vocação maior de uma mulher e a sua realização máxima. A dor de Maria de Lourdes era invisível, sua voz era inaudível. E assim ela morreu aos 22 anos. E morreu como objeto.

E Marisa, esta que morreu um mês atrás na arena pública? À primeira vista, pode-se pensar que ela foi visível. E visível até demais. Mas o excesso de exposição pode ser uma forma mais sofisticada de invisibilidade. Ao contrário de Maria de Lourdes, Marisa foi tratada num dos melhores hospitais privados do Brasil, o Sírio-Libanês, em São Paulo. E chegou até lá com esse título bastante controverso, de “ex-primeira-dama”. Primeira dama do presidente mais popular da história recente do Brasil, hoje réu da Lava Jato e alvo de ódio de uma parcela da população. Nesta condição, Marisa, que aos 66 anos sofreu um AVC e recebeu o melhor tratamento disponível, do ponto de vista técnico, também foi reduzida a objeto.

É importante lembrar. Uma médica do hospital, que depois seria demitida, vazou dados do prontuário de Marisa num grupo de médicos no WhatsApp. Ao comentar que ela ainda não tinha sido levada para a UTI, um residente em urologia de outro hospital comentou: “Ainda bem!”. E a médica respondeu com risadas. Outro médico, este neurocirurgião, escreveu: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima”. Ele referia-se ao procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue num local determinado. O médico então completou: “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”.

Marisa ali não era uma pessoa em processo de morte. Mas um objeto de transferência, um repositório do ódio a Lula. E seguiria sendo mesmo após a sua morte. Os falsários de notícias disseminaram pela internet a “denúncia” de que ela não havia morrido, mas sim fugido para o exterior para não responder às acusações da Lava Jato. A morte, segundo uma das mentiras circulantes, seria uma encenação para que ela pudesse ficar impune. Apesar de toda visibilidade que o velório teve na mídia, sites de notícias falsas sustentaram que o caixão estava lacrado e chegaram a publicar uma foto de Marisa na Itália, feita em 2005, como se ela tivesse sido flagrada naquele momento. Outra variante eram as mensagens nas redes sociais que pediam a intervenção das Forças Armadas para fazer um exame de DNA no corpo. Tratava-se ali de interditar a possibilidade de identificação com Lula num momento de dor. Marisa era coisa. E, como coisa, não tinha vida nem morte. Podia ser colocada onde fosse mais conveniente. Animada artificialmente.

É preciso lembrar destas duas mulheres porque a melhor maneira de arrancar pessoas do lugar de objeto é lhes devolvendo a história. Se elas ganharam uma dimensão pública por conta da excepcionalidade do homem com quem se casaram, elas nasceram e viveram e criaram uma vida bem antes de conhecê-lo. E a complexidade do que foram impactou o homem público que Lula se tornou para muito além do que é dito e reconhecido. E, no caso de Marisa, impactou capítulos recentes da vida do Brasil, na qual ela possivelmente foi bem mais do que uma personagem secundária. Mas, quando essa narrativa está numa disputa tão feroz como a de agora, com simplificações de parte a parte na qual se busca o que melhor sirva a um propósito, a complexidade se perde. E assim perdemos todos.

Há algo de trágico na morte de Maria e de Marisa, mas esta tragédia diz respeito menos a elas e mais ao que somos e ao que nos tornamos como sociedade. É preciso lembrar antes que nossa vida de espasmo em espasmo apague a extrema gravidade do que foi exposto. E do que segue em vigor. É preciso fazer memória para resistir ao apagamento. E resistir à normalização do ódio.

Maria de Lourdes pertencia ao vasto grupo dos morríveis – e dos matáveis. Seu sofrimento não produzia escuta, sua morte era um nada. Para além da dor daqueles que a amavam, uma mulher de 22 anos morrer por “provável hepatite” quando estava grávida não produzia espanto, só indiferença. Sua morte não produziu nem mesmo uma marca na memória dos que dela deveriam ter cuidado.

Já Marisa, com a ascensão política de Lula, deixou o grupo dos que podem morrer sem causar alarde, mas as mensagens nas redes sociais mostram que para muitos ela não deveria estar no Sírio-Libanês. O hospital dos mais ricos não era o lugar dela. Enquanto a morte de Maria nada move, porque ela morreu “no seu lugar”, o tratamento de ponta dispensado à Marisa gera ódio, porque ela ousou mudar de lugar. Colocou-se no lugar do “pessoal mais classificado”, lembrando as palavras que a enfermeira usou para explicar por que as mulheres pobres não recebiam uma “recomendação exagerada”. Ao fazê-lo, quebrou a hierarquia de classes. E foi vítima de ódio.

Mas até mesmo no ódio Marisa é objetificada. Porque o ódio é para ele, e não para ela. Seu corpo que morre é apenas o objeto transferencial do ódio destinado ao seu marido. O que médicos fizeram no WhatsApp e o que os falsários de notícias fizeram na internet são uma demonstração de que todos os limites foram rompidos. Se resta algo do que se pode chamar, na falta de palavra melhor, de pacto civilizatório, é talvez uma última trama bem esgarçada. Somos uma sociedade de linchadores, movida pela vontade de destruição do outro. Não há mais espaço para adversários, só existem inimigos.

Aqueles que gozam com a desumanização do outro – distorcem, mentem, manipulam – talvez não tenham entendido que na barbárie não se salva ninguém. Acreditam estar apenas jogando seus jogos pueris, exibindo-se para a turma, como os médicos no WhatsApp, mas não compreenderam que o fio sobre o qual se equilibram se desfaz. Quando se presta atenção ao discurso dessas mensagens, neste e em outros casos, percebe-se que contêm uma crueldade, sim, mas infantilizada. São adultos infantilizados. E isso também é bastante perigoso, porque neste lugar não há responsabilização.

Maria e Marisa viveram existências duras, vidas de mulheres pobres. Maria de Lourdes migrou de Minas Gerais com a família. O pai era um agricultor doente dos pulmões. Seu primeiro sapato foi comprado pouco antes de pegarem o trem para São Paulo. Na primeira noite na cidade, ela teve febre. A família conta que o pai colocou os filhos nas filas que encontrou na Estação da Luz, pensando que era comida. Mas era vacina, e o braço da pequena Maria, com três anos, inchou.

Anos depois, as famílias dela e de Lula seriam vizinhas, e ela dizia ter pena “do moço que tinha perdido um dedo”. Desde os 16 anos, Maria de Lourdes trabalhava como operária numa tecelagem. Levou uma semana para aceitar o pedido de namoro feito num bailinho. Quando pouco antes de se casarem Lula anunciou que pensava em participar da chapa do sindicato, ela foi se aconselhar com os patrões. Ouviu deles que era perigoso, “encrenca certa com a polícia”. Lula discordou.

Filha de um agricultor e de uma benzedeira, Marisa começou a trabalhar aos 9 anos como babá. Aos 13, embalava bombons numa fábrica. Seu primeiro marido dirigia um táxi quando foi assassinado num assalto. Marisa estava grávida do primeiro filho. Quando conheceu Lula, ela vivia um momento de extrema dificuldade. O episódio é romantizado porque virou uma história de amor, mas ele revela bastante sobre o machismo vigente e generalizado do movimento sindical da época. Lula havia deixado a ordem de que, quando aparecesse uma “viuvinha nova, bonita”, que o chamassem. Marisa precisava “pegar o carimbo” para poder liberar a pensão do marido. Mas como Lula queria sair com ela, fez com que voltasse ao sindicato várias vezes alegando que a lei tinha mudado. Depois, chantageou-a para conseguir seu telefone.

Marisa tinha personalidade forte e muita influência sobre Lula. Não era de medir palavras. Mas na campanha de 2002 e, durante todo o seu período como primeira-dama, foi blindada. Dela, quase nada se sabe além do que se considerou conveniente falar sobre sua vida. Na quarta campanha presidencial, a que Lula finalmente venceu pela primeira vez, ela cumpria os compromissos públicos com as mãos visivelmente trêmulas e enorme timidez. Em geral acompanhada pelo filho Fábio Luís, o Lulinha. Tinha então uma explicação recorrente, talvez orientada por um marqueteiro: “Não estou nervosa, estou emocionada”.

Dela se contava uma história que ecoa a do triplex do Guarujá, esta última ainda sem conclusão. Em 1989, quando Lula disputou sua primeira eleição para presidente, foram plantados vários boatos de que ele tinha uma mansão no Morumbi, então o bairro que mais representava uma ostentação emergente. Marisa teria pegado um táxi e ouvido essa história do motorista. Pediu então que ele a levasse até a casa chique de Lula. O motorista recuou. Ela então teria dito: “Ah, que pena. Eu sou a mulher do Lula e queria tomar posse do que é meu”. Quando conheceu Brasília, em 1980, e botou os olhos nas mansões do Lago Paranoá, Marisa vaticinou: “Esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca. Fazem qualquer coisa, mas não abandonam essa vida”.

Enquanto crescia a expressão pública de Lula, Marisa foi se tornando para o público a mulher muda. Aquela que só falava da porta da casa (ou do Alvorada) para dentro, a que reinava no mundo doméstico, aquele que seria invadido pela Polícia Federal um ano atrás para a “condução coercitiva” de Lula. O momento em que o Brasil mais ouviu a sua voz foi justamente num episódio de violação de seus direitos, quando uma conversa grampeada pela Polícia Federal vazou. Marisa conversava com o filho Fábio Luís sobre um panelaço contra o PT e desabafou: “Deviam enfiar essas panelas no cu!”. A frase ganhou chamadas na imprensa, o áudio foi para o YouTube. Seria interessante saber daqueles que se escandalizaram quantos não disseram algo semelhante numa conversa privada. E como se sentiriam se suas conversas privadas com familiares fossem expostas publicamente.

Quando Marisa morreu, seu obituário foi composto por fragmentos pinçados da vida de uma mulher lançada na arena pública, mas que o público pouco conhece de fato. “Costurou a estrela da primeira bandeira do PT”, “primeira-dama de perfil discreto”, “foi criticada quando plantou um canteiro de flores vermelhas em formato de estrela no jardim do Alvorada”. Neste momento de intensa disputa, só se conhece de Marisa o que convém de um lado e outro. E com isso se perde sua complexidade, mas também o pedaço da história que ela testemunhou, assim como o seu real papel nela.

Maria e Marisa tiveram despedidas muito diferentes. Maria de Lourdes foi velada em casa. A certa altura sua mãe passou mal. O médico do bairro foi chamado. Ela rasgou a camisa dele com as unhas em desespero. Era uma casa pobre, precária, em reformas para abrigar o quarto do bebê que chegaria em breve. Numa daquelas cenas em que a realidade supera a ficção, o peso do caixão fez com que o assoalho afundasse. Parecia realismo mágico, mas era vida.

Marisa teve um caixão vistoso, reverenciado por milhares no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo. Na parede, uma ampliação gigante de uma fotografia dela com Lula. Havia pessoas ilustres e discursos inflamados. Enquanto isso, na internet, os falsários de notícias espalhavam que ela estava na Europa. O ódio era tanto que era preciso transformá-la numa morta viva para que pudessem continuar destruindo-a. E assim forjou-se uma cena em que a realidade supera a ficção, mas de uma forma perversa, já que se cria uma mentira (o que é bem diferente da ficção) para colocar no lugar da realidade.

São despedidas tão diferentes, a de Maria e Marisa. Mas ambas seguem invisíveis. A tragédia maior, a que vai muito além destas duas mulheres, é que a indiferença reservada à Maria, o nada de sua morte, segue em vigor. E o ódio reservado à Marisa mostra que pioramos.

Lula: “Marisa morreu triste por conta da canalhice que fizeram com ela”

da Carta Capital

No velório da mulher, o ex-presidente chorou: “O seu Lulinha paz e amor vai continuar lutando muito para defender sua honra e sua imagem”, disse

Velório Marisa Letícia
Multidão acompanhou o velório de Marisa Letícia

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu neste sábado 4 defender a sua imagem e a da ex-primeira-dama Marisa Letícia, em meio a acusações de corrupção levantadas pelas investigações da Operação Lava Jato. Na quadra do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), onde foi realizado o velório de Marisa, Lula se emocionou ao lembrar da história de sua mulher, com quem esteve por 43 anos, e afirmou que não tem medo de ser preso.

“Marisa morreu triste, por conta da canalhice e da maldade do que fizeram com ela”, disse Lula. Sem citar a força-tarefa da Lava Jato ou o juiz Sergio Moro, responsável pela maior parte dos casos em que ele e Marisa são investigados, Lula disse que vai lutar para que “os facínoras tenham um dia a humildade de pedir desculpas“.

Em dezembro, Marisa Letícia se tornou ré, ao lado de Lula, em uma investigação da Lava Jato. Como tem feito desde o início das acusações, Lula reafirmou sua inocência. “Se alguém neste país tem medo de ser preso, este que está enterrando sua mulher hoje não tem”, afirmou o ex-presidente. “Tenho a consciência tranquila e não sou eu que tenho que provar que sou inocente. Eles que precisam provar que as mentiras que estão contando são verdadeiras”

Em sua última declaração, em meio às lágrimas, Lula falou diretamente com Marisa Letícia. “Companheira, descanse em paz. O seu Lulinha paz e amor vai continuar lutando muito para defender sua honra e sua imagem”, afirmou. Na sequência, o local do velório foi tomado pela comoção e por gritos de “Olê, olê, olá, Lula, Lula” e “Marisa, Marisa”.

Antes, Lula o simbolismo do Sindicato dos Metalúrgicos, local onde conheceu Marisa. “Aqui eu aprendi a falar, perdi o medo do microfone, aqui decidimos combater a ditadura, criamos o novo sindicalismo, pensamos em criar a CUT, criar o PT, e todas as greves que foram feitas”, disse.

Lula lembrou o passado humilde de Marisa, que começou a trabalhar aos 11 anos como empregada doméstica, e agradeceu o apoio dela em sua trajetória. “A Marisa sustentou a barra para que eu me transformasse no que me transformei”, disse Lula.

“Sou o resultado da consciência política dos trabalhadores brasileiros. Sou resultado das greves, mas também de uma menina que parecia frágil, mas que me deu a segurança que eu podia viajar pra apoiar candidatos, para apoiar greves, criar sindicatos, que ela seguraria a barra”.

Lula relembrou as histórias de nascimento de seus três filhos e contou que não acompanhou nenhum dos partos por conta dos compromissos políticos. “Nunca estive presente, por causa do PT, da CUT, das greves”, disse. “Às vezes sinto culpa, mas às vezes acho que é assim mesmo”.

O ex-presidente disse que pensou em nomear Marisa como ministra, mas que sempre desistiu da ideia. Ainda assim, afirmou ele, “ela tinha muito mais importância que os ministros”. “Ela sempre me dizia: Lula, não esqueça nunca de onde você veio e pra onde você vai voltar'”, afirmou.

Marisa (1950-2017)

De humilde família de sitiantes, que migraram da Itália para o Brasil, Marisa Letícia nasceu em 7 de abril de 1950 em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Aos nove anos, começou a trabalhar como babá na casa de um sobrinho do pintor Cândido Portinari.

Quatro anos mais tarde, tornou-se operária de uma fábrica de chocolates. Casou-se pela primeira vez com o motorista Marcos Cláudio da Silva, com quem teve um filho. O garoto não chegou a conhecer o pai, assassinado enquanto dirigia o táxi da família. A jovem mãe perdeu o marido enquanto estava no quarto mês de gestação.

Marisa conheceu Lula em 1973, ao ir para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo carimbar documentos da pensão que recebia. O ex-presidente costuma contar que, quando soube que a esbelta mulher de 23 anos era viúva, fez questão de deixar cair um documento que mostrava que ele também era viúvo. O episódio serviu de justificativa para iniciar a conversa, que não tardou a evoluir para um longevo relacionamento.

Os frutos da união de mais de 40 anos são os três filhos do casal: Fábio, Sandro e Luís Cláudio. O ex-presidente também adotou o primeiro filho de Marisa Letícia, Marcos Lula, que tinha apenas dois anos quando o então líder sindical a conheceu.

Inicialmente avessa à política, Marisa preocupava-se com a segurança de Lula quando eclodiram as greves do ABC Paulista. Em 1980, chegou a liderar uma passeata das mulheres em apoio aos sindicalistas presos no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que integrava o aparato repressivo da ditadura. Nesse mesmo ano, participou de um curso de Introdução à Política Brasileira, promovido pela Pastoral Operária de São Bernardo, e filou-se ao recém-criado Partido dos Trabalhadores.

Dedicada à família, Marisa teve uma atuação discreta nas primeiras disputas eleitorais de Lula. Em 2002, com os filhos já adultos, pôde se dedicar com mais afinco à campanha presidencial do marido. Em 1º de janeiro de 2003, tornou-se primeira-dama do Brasil.

Nos últimos meses, Marisa vinha sofrendo ao lado de Lula a pressão das investigações da Operação Lava Jato. Em dezembro, também ao lado do ex-presidente, foi convertida em ré pelo juiz federal Sergio Moro, sob a acusação de lavagem de dinheiro. De acordo com a denúncia, o casal adquiriu um imóvel vizinho ao apartamento do ex-presidente, em São Bernardo, com recursos da empreiteira Odebrecht. A acusação é negada com veemência pela defesa de Lula, que diz que imóvel é alugado.

“A pressão e a tensão fazem as pessoas chegarem ao ponto que a Marisa chegou. Mas isso não vai fazer eu ficar chorando pelos cantos. Vai ficar apenas batendo na minha cabeça, como mais uma razão para que a luta continue”, desabafou Lula na segunda-feira 30, durante um encontro com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens. Foi a primeira aparição pública do ex-presidente após a mulher sofrer o AVC.