Xadrez da República dos Procuradores

Do Luiz Nassif

por Luiz Nassif

Poucas vezes, na história de uma República permanentemente sujeita a golpes, viu-se uma espetáculo tão deprimente de falta de compostura institucional, uma ópera bufa da pior espécie.

O país institucional tornou-se uma verdadeira casa da Mães Joana, com personagens indignos de representa-lo  à frente do Executivo, do Congresso, do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria Geral da República, do Judiciário e dos partidos políticos.

Brinca-se com o poder, derruba-se um presidente eleito, arma-se contra o interino que aboletou-se do cargo, fazem cálculos sobre o momento de impichar a chapa, se agora, se no ano que vem, valem-se de seu poder institucional para toda sorte de abusos.

Procuradores atuam politicamente; deputados lutam para legalizar o crime; Ministros do Supremo e o Procurador Geral da República manipulam prazos de inquéritos para proteger aliados; juízes de 1a instância autorizam grampos a torto e a direito.

Mas era previsto, tal o grau de desordem institucional plantada no país pela abulimia do STF, ao permitir o atropelo da Constituição. Deve-se ao Supremo esse vale-tudo.

Cada grupo deu sua contribuição para o golpe, Sérgio Moro e Rodrigo Janot vazando grampos ilegais, a imprensa no exercício amplo da pós-verdade, o Supremo acovardando-se e abrindo mão de seu papel de guardião da Constituição e a presidente incapaz de defender seu próprio mandato.

Consumado o golpe, sem dispor mais do agente aglutinador, passou-se a disputar o butim do poder. E agora chega-se a esse vale-tudo vergonhoso, sem um estatuto da gafieira para discipliná-lo minimamente.

Vamos entender um pouco mais esse Xadrez da Ópera Bufa.

Peça 1 – o tempo político na era das redes sociais.

Nessa era das redes sociais, das notícias online, o tempo político tornou-se impressionantemente curto. Processos que, antes, levavam meses para amadurecer, agora acontecem em questão de dias ou horas.

Qualquer fato relevante espalha-se em minutos pela opinião pública de todo o país. Não é necessário mais aguardar a edição impressa do jornal no dia seguinte ou a edição do Jornal Nacional à noite.

Reverberando em tempo real, o noticiário acelera não apenas a tomada de consciência como a tomada de decisões.

É um dado relevante para nossos cenários, inclusive na análise do tempo político do golpe e da atual onda conservadora-liberal.

Mal se saiu do golpe, o jogo começa a afunilar e a tornar mais nítidos os personagens reais do novo poder: a aliança PSDB-PGR-STF-mídia-mercado. Eles darão as cartas daqui para frente.

Peça 2 –o PSDB passa a tutelar Temer

O primeiro lance foi em cima do Executivo, da camarilha de Michel Temer.

No dia 24 de novembro saiu a notícia das gravações do ex-Ministro da Cultura Marcelo Calero com várias autoridades do governo – incluindo Temer.

No mesmo dia, matamos a charada, no “Xadrez do golpe no golpe͟” (https://goo.gl/f6BFfS), ao mostrar os vínculos de Calero com o PSDB.

No dia seguinte, haveria um almoço entre Temer e Fernando Henrique Cardoso. Analisando a reação da Globo em relação ao episódio, o xadrez ficou nítido. De um lado, a Globo incensando a coragem de Celeró e dando ampla visibilidade ao encontro do PSDB, com a cobertura centrada na figura de Fernando Henrique Cardoso; do outro, no Jornal Nacional uma catilinária que não poupou Temer.

Juntando peças no “Xadrez do homem que delatou Temer”͟ (https://goo.gl/wsMq0D), a conclusão era quase óbvia: usaram o tombamento pelo IPHAN do Secretário da Presidência Geddel Vieira Lima, para a Globo montar sua dramaturgia com Celeró visando colocar Michel Temer sob a curadoria do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ontem mesmo – primeiro dia útil após o almoço com FHC – o pequeno Temer colocou em campo o Secretário Moreira Franco para negociar com o presidente do PSDB, Aécio Neves, uma maior participação do PSDB no governo.  E aceitou a condição apresentada por FHC, do PSDSB passar a participar da formulação das políticas de governo (https://goo.gl/Kedkne). Tudo devidamente combinado com FHC no almoço que aconteceu um dia depois de Caleró botar a boca no trombone.

Nas próximas semanas haverá reforma ministerial contemplando a nova composição de forças. Provavelmente dançará também Eliseu Padilha, que supôs ter comprado o silêncio da mídia com sua bolsa-mídia. Os pactos de tinta da mídia são mais flexíveis que os pactos de sangue da máfia. Esse tipo de barganha garante a blindagem somente até a véspera do último dia.

Em um governo em que há corrupção até na liberação de edifícios residenciais, como manter no cargo um Ministro com a ficha de Padilha, envolvido em falcatruas até em prefeituras do interior, sabendo que passam por ele todas as indicações a cargos públicos, incluindo as diretorias do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal? As grandes corrupções institucionais, complexas, sofisticadas, ao largo da compreensão da opinião pública, não podem conviver com ladrões de galinha. A diferença entre a camarilha e os profissionais é a mesma entre, digamos, um Carlinhos Cachoeira e um Madoff.

Por sua vez, um Padilha custa cerca de dez Geddel. E o governo Temer não tem consistência para suportar nem meio Geddel a mais.

Os valentes conquistadores que, nos primeiros dias no poder, ordenaram uma Noite de São Bartolomeu no serviço público, sob pressão expõem sua verdadeira dimensão: Geddel aos prantos pelos corredores do Palácio, Padilha internado com pressão alta.

Mas o novo tempo de jogo está apenas começando. E nem se incluíram as perguntas de Eduardo Cunha e Michel Temer em seu julgamento pelo juiz Sérgio Moro.

Peça 3 – o Judiciário tenta submeter o Congresso

Não basta o enquadramento de Temer. A ofensiva seguinte é em cima do Congresso, no embate em torno das tais 10 Medidas contra a corrupção e da Lei Contra Abuso de Poder.

Com ou sem Geddel, e com Padilha na linha de fogo, a bancada do PMDB, somada ao Centrão, não entregaria facilmente a rapadura.

É por aí que entra o fator Judiciário.

As 10 Medidas não visam apenas conferir maior efetividade no combate ao crime: visam a conquista do poder institucional pelo Ministério Público e pelo Judiciário.

Estão em jogo as delações da Odebrecht e das demais empreiteiras. A lista de nomes conferirá um poder inédito ao Procurador Geral da República. Com o apoio da Globo, o PGR tem o poder de engavetar denúncias, inquéritos, definir o ritmo dos inquéritos em andamento, escolher quem será ou não processado.

Além de livrar os seus do crime do caixa dois, o Congresso não quer deixar os procuradores com esse poder ilimitado nas mãos, ainda mais agora que ficou nítido que disputam efetivamente o poder.

Cada procurador, aliado a um juiz de 1a instância, tem poder de mandar para a cadeia qualquer pessoa sem prerrogativa de foro, expô-la à humilhação pública, grampeá-la e divulgar os grampos – como ocorreu no episódio Garotinho – com a garantia de que será blindado pelos escalões superiores. Não é por falta de lei. É por solidariedade de classe.

No Congresso, as únicas lideranças capazes de fazer frente a esse poder avassalador do MPF-Globo seriam o presidente Renan Calheiros e o líder da maioria Romero Jucá, ambos donos de uma biografia política polêmica.

Na quarta-feira, Renan jogou sua grande cartada – votar o regime de urgência para a Lei de Abuso de Poder -, mas o Senado refugou. O temor dos Senadores – tanto do MPF quanto da opinião pública – foi maior e deixaram seu líder ao relento.

Na quinta-feira, o Supremo analisará uma das ações contra Renan. O caso está nas mãos do Ministro Luiz Edson Fachin. Com a tibieza demonstrada pela casa, nos últimos tempos, e com a frente ampla de defesa dos juízes, é possível que Renan seja degolado. E Jucá virá atrás. Ontem mesmo, a Lava Jato tratou de retaliar e vazar denúncias contra Jucá.

Não que não mereçam. Mas, de imediato, se os dois comandantes efetivamente forem deixados fora de cena, não haverá poder capaz de se contrapor ao poder quase absoluto do Ministério Público. Abre-se espaço para a pessedebização final do governo Temer e para o início efetivo da República dos Procuradores.

Mas como o homem põe e o destino dispõe, há o agravamento da crise política colocando um complicador a mais no nosso xadrez.

Peça 4 – a ideologia dos economistas do PSDB

Cada escola de pensamento costuma de embaralhar em seus dogmas ideológicos. Os desenvolvimentistas acreditaram que o excesso de subsídios resultaria em um aumento da atividade que compensaria a queda de receita. Os ortodoxos acreditam piamente no papel das políticas monetária e fiscal, como únicos instrumentos de gestão da economia.

Mas há uma diferença fundamental entre os monetaristas históricos e a geração de economistas de mercado que se torna hegemônica a partir do plano Real usando o PSDB como “cavalo”. Os velhos economistas ortodoxos, monetaristas, utilizam suas ferramentas teóricas tendo como objeto de análise a realidade, assim como sua contraparte, os desenvolvimentistas. Ou seja, desenham as estratégias que consideram mais adequadas para o país.

Já os economistas de mercado, tendo como base a PUC-Rio e como inspiradores os economistas do Real, sempre atuaram ideologicamente pensando apenas nas estratégias de fortalecimento do mercado, que criem novos negócios, que permitam o predomínio do financista em relação ao restante da economia, independentemente dos efeitos sobre o país.

Banco Central, Fazenda e BNDES já trabalham assim, procurando

  1. Instituir o teto para despesas, liberando o orçamento para os próximos vinte anos, para pagamento exclusivo dos juros e amarrando as mãos dos futuros governantes para qualquer outra tentativa de políticas pró-ativas.
  2.  Mudaro comando das grandes obras públicas, das empreiteiras para o mercado. Para tanto, além de esterilizar R$ 100 bilhões do BNDES, estão proibindo-o de financiar exportações de serviços ou mesmo de financiar qualquer empresa que esteja fichada na Lava Jato.
  3. Ao mesmo tempo, articulam a criação de fundos para trabalhar dívidas públicas renegociadas, visando servir de lastro para os fundos de infraestrutura que passarão a comandar os investimentos.
  4. O ajuste fiscal produzirá uma razia na atividade econômica, já afetada pela maior recessão da história. Pensa-se, com isso, em reduzir a resistências às reformas e, ao mesmo tempo, derrubar preços de ativos, permitindo um redesenho da economia através dos processos de fusões e aquisições capitaneados pelos grandes fundos de investimento.
  5. Manutenção dos juros altos e do câmbio baixo, para potencializar os ganhos do mercado.

Algumas ideias são razoáveis, outras meramente ideológicas. Mas o conjunto final é catastrófico: visando a disputa ideológica, de eliminar definitivamente as empreiteiras como fontes de influência e de poder, criam um vácuo na atividade econômica

Mesmo assim, esses economistas são as únicas fontes de idéias do PSDB. Os comandantes do partido – Aécio, Serra, Alckmin, Aloysio, José Anibal – são incapazes de formular uma ideia estratégica sequer. Seu único papel é o de meter-se em disputas braçais contra os adversários, tarefa que exige muita corda vocal e pouco cérebro.

Peça 5 – o recrudescimento da crise

Há alguns pontos centrais na política econômica, comuns a qualquer escola de pensamento.

Quando a economia está despencando, a retomada depende de alguns fatores de demanda:

  1. Consumo das famílias
  2. Consumo do Estado.
  3. Exportações.
  4. Investimentos

Nenhuma dessas pré-condições está presente.

Nenhum economista de peso aposta na recuperação da economia. O fato do governo ter jogado para o segundo semestre de 2017 significa apenas que não há nenhuma perspectiva de recuperação no curto prazo.

O que diz o economista Afonso Celso Pastore (https://goo.gl/kFyvDQ)

Nada disso seria uma surpresa (a maior recessão dos útimos 25 anos) para quem evitasse fazer previsões sobre o PIB dando um peso excessivo aos índices de confiança, em vez de ponderar as perspectivas das exportações, do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo.

Com as exportações mundiais e os preços de commodities em queda, não podemos esperar que as exportações brasileiras impulsionem a retomada do crescimento. Nem o consumo das famílias poderá exercer essa função nos próximos trimestres, quer porque, após o encerramento da recessão o nível de emprego e os salários ainda sofrerão quedas, quer porque os bancos deverão continuar retraídos na concessão de crédito.

Resta esperar que a retomada do crescimento venha dos investimentos em capital fixo, mas, na grande maioria dos setores, há uma enorme capacidade ociosa, e assistimos a um número recorde de empresas em recuperação judicial. 

Delfim Neto é mais sintético, mas com o mesmo pessismismo (https://goo.gl/lh56Yh)

Há sérias dúvidas, por exemplo, sobre a eficácia da política anunciada “urbi et orbi” que teríamos em 2016 uma política fiscal fortemente contracionista.

Primeiro, porque assustou o setor privado que sofreu o contracionismo efetivo de 2015 e viu a demanda global desabar e, segundo, porque há sérias dúvidas se ela será, de fato, contracionista.

Quanto à política monetária, esta, sim, tem sido restritiva: houve aumento da taxa de juro real e recusa a enfrentar a necessidade de sustentar uma taxa de câmbio real competitiva e relativamente estável, o que inibe o investimento e as exportações industriais, dois vetores do crescimento.

Sem uma acomodação do crédito para mitigar a alavancagem do setor privado e sem a garantia de uma taxa de câmbio real adequada, é muito pouco provável que se restabeleça uma “expectativa” de crescimento e que volte à vida a indústria nacional.

E, sem elas, o equilíbrio fiscal, apesar de ser absolutamente necessário, continuará apenas uma ilusão…

A rigor, qual a única instituição que está efetivamente preocupada com o quadro econômico? Justamente o Senado de Renan Calheiros:

Em face das crises recorrentes, o presidente do Senado Federal reitera a imperiosidade de uma agenda a fim de superar o agravamento da situação econômica que penaliza toda a sociedade brasileira. (…)

Segundo o presidente, o ajuste que está sendo implementado é uma obrigação para fazer frente ao momento econômico, mas precisa ser complementado com medidas de retomada da atividade econômica, geração de empregos, recuperação dos investimentos e, o principal, a redução dos juros. Não é somente o limite de gastos e a reforma da previdência. (…)

Peça 6 – desfechos possíveis

Seja qual for o desfecho desses embates PSDB x Temer, Congresso x Justiça, a única maneira de superar a crise será um pacto nacional para consolidar a única política econômica capaz de tirar o país do atoleiro:

  1. Aumento dos gastos públicos nas grandes obras públicas e nos programas sociais.
  2. Uso dos bancos públicos – BNDES, BB e CEF – para permitir a renegociação dos passivos das empresas.
  3. Redução acelerada da Selic e manutenção do câmbio em patamar competitivo.
  4. Agilização dos programas de concessões, assim que a recuperação da demanda definir um cenário mais favorável.

A questão é que só se chegará a esses pontos quando a crise for vista como suficientemente ameaçadora. A informação que vale um bilhão é: quando se chegará no fundo do poço que dispare o gatilho do bom senso sobre o país?

 

Gilmar Mauro: “Mandado de prisão foi pretexto para invadir escola do MST”

Da Carta Capital

por Miguel Martins

Segundo o dirigente, dez viaturas da Polícia Civil se deslocaram para a instituição, à procura de uma única mulher, que não estava no local

Gilmar Mauro
“Fiquei sensibilizado com o grande número de mensagens de apoio”, diz Gilmar Mauro

Parecia uma cena de guerra. Agentes fortemente armados, com fuzis, escopetas e coletes balísticos, prontos para neutralizar o inimigo. As imagens, captadas por câmeras de um circuito interno de segurança, mostram o exato momento em que a Polícia Civil de São Paulo invadiu, na manhã desta sexta-feira 4, a Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Guararema, no interior de São Paulo. Em outros vídeos, gravados por celulares, policiais são flagrados efetuando disparos no chão.

Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, estava no local no momento da chegada dos agentes. Segundo ele, dez viaturas da Polícia Civil chegaram à escola, sem a presença de um oficial de Justiça, para cumprir o mandato de prisão de uma mulher do Paraná. “Parece-me um mero pretexto para entrar aqui, sem autorização judicial. Estamos vivendo um Estado de exceção“.

CartaCapital: O que aconteceu exatamente?
Gilmar Mauro: Eles chegaram com um mandado de prisão, assinado por um juiz, contra uma mulher do Paraná. Mostraram o documento no celular. Pedimos ao menos uma cópia em papel, e eles entregaram. Mas não havia informação alguma. Era só o pedido de prisão dessa pessoa, do Paraná. Dissemos que ela não se encontrava no local, que aqui funciona uma escola. Eles decidiram entrar à força. Casualmente, eu estava aqui, para participar de um seminário.

CC: Houve disparos de arma de fogo?
GM: Sim. Quando os policiais entraram, nosso pessoal se aproximou. Eles ficaram afobados, começaram a efetuar disparos no solo. Como tem muita pedra por aqui, a possibilidade de um estilhaço atingir alguém era significativa. Dá para ver os buracos no chão da escola. Recolhemos algumas cápsulas e projéteis. Criou-se um alvoroço muito grande. Aqui tem muita criança, há uma creche, a Ciranda Infantil, além de pessoas que estão fazendo curso aqui.

CC: Algum militante do MST foi detido?
GM: Sim, dois. Um deles é um senhor que trabalha aqui como voluntário, inclusive ele tem problemas de saúde, e acabou com uma costela fraturada. Está no pronto-socorro nesse momento. A outra pessoa foi tentar argumentar com os policiais, dizer que ele é uma pessoa doente, sofre de mal de Parkinson, a acabou sendo detida também. Foram detidos por desacato, esse foi o argumento deles.

CC: A Polícia Civil do Paraná afirma que a operação foi deflagrada para desbaratar uma quadrilha, com integrantes do MST envolvidos.
GM: Muito bem, então poderia ter vindo um oficial de Justiça, dois ou três policiais, coisa do tipo. Não foi o que ocorreu. Vieram para a escola mais de dez viaturas da Polícia Civil. Havia um plano de entrar nas dependências da escola, independentemente do mandado de prisão dessa pessoa, que nem se encontra aqui. Não tem nenhuma relação das prisões no Paraná com a Escola Nacional Florestan Fernandes. Parece-me um mero pretexto para entrar aqui, sem autorização judicial. Estamos vivendo um Estado de exceção.

CC: Por que o senhor chegou a esta conclusão?
GM: Basta ver a violência, como estão sendo tratados os estudantes que ocupam escolas. Não se respeita os procedimentos legais, o amplo direito à defesa… O que ocorreu hoje aqui está ocorrendo no Brasil inteiro. É a implantação de um Estado de exceção, que busca criminalizar os movimentos sociais. Esse é o clima que a sociedade está vivendo e precisamos enfrentar. Apesar de tudo, fiquei sensibilizado com o grande número de mensagens de apoio de artistas e de personalidades públicas contra essa arbitrariedade.

 

Movimento secundarista (2)

Da Carta Capital

A ocupação das escolas e a falta de habilidade do Judiciário

por Justificando*
A infindável sequência de arbitrariedades perpetradas por policiais, promotores e juízes desnuda a herança autoritária da ditadura

 

Ocupação em Brasília
Ocupação de uma escola em Brasília em ato contra reforma do ensino médio

Por Fernanda Valente

Até o momento, 1.197 escolas estão ocupadas em todo o país de acordo com o levantamento da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas(UBES). O movimento, que se popularizou como “Primavera Secundarista”, com o lema “Ocupar e resistir”, tem unido milhares de alunos da rede pública que se posicionam por motivos em comum: eles são contra a PEC 241, que irá cortar os investimentos na educação, tal como a Medida Provisória do Ensino Médio, a MP 746, que visa reformular o ensino, e a Lei da Mordaça ou Escola sem Partido.

O Paraná conta com 843 escolas ocupadas. Na semana passada (26), o discurso da estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, surpreendeu os deputados paranaenses na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e viralizou mundialmente, chegando a ser compartilhado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e virando pauta para a revista americana Forbes. No discurso (veja aqui), a Ana Júlia mostrou a legitimidade nas ocupações, defendendo que os alunos aprenderam mais sobre política e cidadania nas escolas tomadas do que em suas escolas no padrão antigo. Além disso, a estudante afirmou que o movimento não tem incentivo político. “A nossa única bandeira é a educação e é apartidária”, disse.

No entanto, desde que as ocupações começaram, a atuação violenta e desenfreada de promotores, juízes e policiais está gerando críticas.

Na última semana, mais de 20 alunos que ocupavam um colégio em Miracema do Tocantins foram retirados do local pela Polícia Militar, após a atuação do promotor de Justiça Vilmar Ferreira de Oliveira, o qual foi aos portões da escola ameaçar e determinar a prisão dos secundaristas. Vilmar foi bem sucedido, afinal, os estudantes não só foram presos como também foram algemados, como ficou explícito em fotos que circularam nacionalmente. Os estudantes apenas foram soltos após a atuação da Defensoria Pública do Estado.

O jornalista da Folha de S. Paulo, Elio Gaspari lembrou em sua coluna de domingo que tal ação ocorreu na mesma semana em que o presidente do Senado, Renan Calheiros, chamou um magistrado de “juizeco”. Gaspari criticou o governo [de Michel Temer] ao dizer que “os mecanismos de protesto e manipulação que resultaram na ocupação das escolas foram disparados pela bagunça dos adultos poderosos de Brasília“. E ainda provocou dizendo que “nem durante a ditadura aconteciam coisas assim“.

Em Londrina, o promotor de Justiça, Marcelo Briso Machado, que atua na Vara da Infância e Juventude, foi vaiado por alunos após discursar na Câmara em uma audiência pública taxando as ocupações escolares como “invasões”. Briso também as comparou com “biqueiras” de droga.

Quando o desconhecimento e alienação política são levadas às práticas institucionais ocorrem episódios como o da última sexta, 28, quando o Ministério Público Federal de Goiás instaurou uma investigação para apurar o que chamou de “invasões” da Universidade Federal do Estado. O responsável pela ação foi o Procurador Ailton Benedito, que, dias mais tarde, revelaria-se muito semelhante ao colega do Tocantins:

Post

A cereja do bolo até o momento foi colocada pelo magistrado do Distrito Federal, Alex Costa de Oliveira. O Juiz da Vara de Infância e Juventude foi além de todos ao determinar, a pedido do Ministério Público, a desocupação de um colégio, uma vez que autorizou o emprego de métodos torturantes na ação da polícia militar.

Entre as técnicas de interrogatório estavam isolamento físico, privação de sono e corte de água e energia. Segundo o juiz, as técnicas servirão “como forma de auxiliar no convencimento à desocupação”, a cargo da Polícia Militar.

Entidades declaram apoio aos secundaristas

Na contramão da falta de competência em lidar com o tema, ontem (31), a AJD (Associação dos Juízes para a Democracia) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgaram nota de apoio aos secundaristas e demonstraram preocupação com a forma como as ocupações estão sendo tratadas no país.

Para a AJD, trata-se de exercício de liberdade de expressão para atrair a atenção do Estado e da sociedade à questão. Leia a nota na íntegra.

O Unicef afirmou em nota que “é imprescindível o diálogo dos gestores das políticas de educação com os estudantes em todas as questões que impactam a Educação“. Além disso, afirmaram que cabo ao Estado preservar a integridade de cada pessoa.

* Artigo publicado originalmente no site Justificando.

Movimento secundarista (1)

Da Carta Capital

Sob pressão da Justiça, secundaristas completam um mês de ocupações nas escolas

Multa e até técnicas de tortura são usadas por magistrados para tentar sufocar um movimento que tem como bandeira a educação pública.

Estudantes ocupam Núcleo de Educação de Curitiba
Estudantes são cercados por PMs no Núcleo de Educação de Curitiba

Contrários a duas das principais medidas anunciadas pelo governo Michel Temer recentemente, os estudantes secundaristas completaram, nesta quinta-feira (3), um mês do início das ocupações de escolas públicas pelo País. Até a semana passada, registrava-se mais de mil escolas sob o comando dos estudantes. Mas uma semana depois, e 30 dias desde a primeira ocupação, o movimento secundarista é sufocado por decisões de reintegração de posse da Justiça brasileira, com direito até a técnicas de tortura.

Embrião do movimento, o Paraná é o foco da maior parte das reintegrações de posse. A pedido da Procuradoria-Geral do Estado, a Justiça determinou ontem a desocupação de 45 colégios apenas em Curitba. Entre eles está o Colégio Estadual do Paraná (CEP), maior e mais simbólico do Estado.

Esse é a segunda decisão envolve escolas da capital paranaense nos últimos dias. Um outro despacho, da juíza Patrícia de Almeida Gomes Bergonse, da 5ª Vara de Fazenda Pública, determinava que os estudantes deixassem 25 colégios imediatamente e de forma voluntária, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. Um alto valor para estudantes que, muitas vezes, são de famílias de baixa renda.

O mesmo aconteceu em outras partes do Estado. Em São José dos Pinhas, cidade vizinha à Curitiba, foram autorizadas desocupação em 13 escolas. Em Cascavel, no interior do Paraná, os estudantes deverão deixar outros 31 colégios nos próximos dias. A estratégia capitaneada pelo governo Beto Richa (PSDB-PR) produziu efeitos e várias unidades foram liberadas, de forma espontânea, pelos secundaristas nos últimos dias. De acordo com integrantes do movimento, cerca de 300 escolas ainda estariam sob o controle dos estudantes no Paraná. Já segundo a Secretaria de Educação do Paraná, esse número está em torno de 140.

Para pressionar o governo, estudantes chegaram a ocupar ainda, na última segunda-feira (31), o prédio do Núcleo Reginal de Educação de Curitiba.  Segundo relatos do grupo Advogados e Advogadas pela Democracia, que auxilia os estudantes, a Polícia Militar teria cortado os fornecimento de água, energia elétrica e alimentação. O argumento é que a corporação não iria “negociar com mascarados”. Os secundaristas acabaram deixando o local após uma acordo.

Esse tipo de tática também foi utilizada, com autorização de um juiz de Direito, em Brasília. No último dia 30 de outubro, a Justiça do Distrito Federal autorizou a Polícia Militar a utilizar privação de sono, restrição de alimentos, energia e gás de cozinha para forçar a desocupação do Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab), em Taguatinga Sul. Em sua decisão, o juiz Alex Costa de Oliveira instruiu a PM a utilizar “instrumentos sonoros contínuos, direcionados ao local da ocupação para impedir o período de sono”, mesmo diante da possibilidade de haver menores de idade na escola. Outra sugestão do magistrado foi restringir a entrada de alimentos, além de corte de água, energia e gás. Os estudantes desocuparam a escola no dia seguinte.

Mas há ainda resistência em outras unidades da federação. No Espírito Santo, o número de escolas ocupadas saltou, nos últimos dias, para quase 60 unidades. Já em Minas Gerais, cerca de 90 escolas estaria sob controle dos adolescentes como forma de protesto. No Distrito Federal, a Universidade de Brasília (UnB) foi ocupada como forma de apoio ao protesto.

Em várias das decisões judiciais contra os estudantes, os magistrados argumentam que as ocupações seriam ilegais e abusivas porque feririam o direito da maioria que deseja trabalhar e estudar. Mas o movimento de ocupações escolares é muito mais complexo do que as canetadas da Justiça brasileira fazem parecer.

Ana Julia Ribeiro

No dia 26 de outubro, esse movimento ganhou um rosto e um discurso que ajudam a entender o que pensam os secundaristas do Paraná e do Brasil. A estudante Ana Julia Ribeiro, de 16 anos, subiu ao Plenário da Assembleia Legislativa do Paraná para falar aos deputados sobre as ocupações nas escolas do Estado. (veja o vídeo aqui)

“De quem é a escola? A quem a escola pertence?”, questionou os parlamentares com a voz ainda embargada ao citar o inciso 6º, do artigo 16, da lei 8.069. “Acredito que todos aqui já saibam a resposta. E é com a confiança de que vocês conhecem essa resposta que eu falo sobre a legitimidade desse movimento”, emendou. A legislação de 1990, mencionada pela estudante, garante à criança e ao adolescente o direito de participar da vida política.

A partir dessa pergunta, diante de dezenas de políticos paranaenses, alguns incomodados, ela explicou de forma dura e sensível, alternadamente, como a educação era a única bandeira de um movimento apartidário.

“Eu convido vocês a participar das nossas ocupações, a nos visitar, a nos conhecer de perto”, disse aos deputados. “É um insulto a nós que estamos lá, nos dedicando, procurando motivação todos os dias, sermos chamados de doutrinados. […] Não estamos lá pra fazer baderna, não estamos de brincadeira, a gente está lá porque acredita no futuro do nosso País. […] O movimento estudantil nos trouxe mais conhecimento de política e cidadania do que todo tempo que estivemos sentados e enfileirados em aulas padrões”.

Poucas horas após a participação na Assembleia, o vídeo com o depoimento de Ana começou a se alastrar nas redes sociais. No dia seguinte, já tinha mais de um milhão de visualizações em apenas uma das postagens no Facebook.

Como a estudante explica aos deputados, o movimento de ocupação de escolas públicas começou em 3 de outubro, no Paraná, por conta da MP 746, publicada pelo governo Michel Temer em setembro, que impôs uma reforma no ensino médio sem que os pontos fossem debatidos com a sociedade brasileira.

Início do movimento

As primeiras ocupações, que serviriam de embrião ao movimento, aconteceram justamente em escolas localizadas em regiões periféricas. A primeira delas foi no Colégio Estadual Padre Arnaldo Jansen, que fica em um bairro de São José dos Pinhais.

“A gente se reuniu no shopping com uma galera de vários colégios para falar da MP. A partir disso, marcamos uma reunião na praça, aqui de São José dos Pinhais, e criei um evento no Facebook. Foram 400 pessoas. Vieram secundaristas até de Curitiba”, explica Mariana da Silva Gomiela, de 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio no Jansen.

Para saber como entrar nas escolas e permanecer em forma de protesto, a estudante conta que leu um manual, que reúne dicas de estudantes chilenos e argentinos sobre o assunto. O documento foi produzido a partir da experiência do movimento secundarista no Chile em 2011. “A gente saiu pelas ruas em protesto, mas a gente sabe que passeata não dá mais em nada no Brasil. Então deliberamos sobre ocupar os colégios”, complementa.

Atendente de telemarketing antes do início das ocupações, e por conta do movimento, ela acabou perdendo o emprego, Mariana vê a questão do ensino em tempo integral como o principal obstáculo para os estudantes mais pobres. “A reforma do ensino médio prevê aula em tempo integral. Isso é irreal porque muitos dos alunos de escola pública, principalmente, trabalham por necessidade, para ajudar a família ter o que comer”, afirma. “E mesmo assim muitos deles já deixam a escola. Se for aula integral, ele vai optar por trabalhar em vez de estudar”, conta.

A partir da primeira ocupação, os secundaristas de outros colégios começaram a levar o debate para suas escolas e outras unidades foram ocupadas em São José dos Pinhais. Em dois dias, o movimento chegou à Curitiba, alcançou mais de 20 escolas e se alastrou pelo Paraná. Nesse meio tempo, os estudantes ganharam mais uma razão para o levante: a aprovação da PEC 241. No dia 11 de outubro, a proposta que congela os gastos primários pelos próximos 20 anos, como saúde e educação, passou em primeiro turno na Câmara dos Deputados, com 366 votos. Com isso, surgiram os primeiros cartazes e faixas contra a proposta nas grades e portões das escolas ocupadas.

A onda chegou à Minas Gerais, Estado que possui a segunda maior quantidade de escolas ocupadas. Os secundaristas mineiros chegaram a ocupar mais de 60 escolas nas primeiras semanss de outurbro, sendo a maioria na região de Uberlândia. Na sequência, foram registrados movimentos semelhantes em estados como Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo. No total, 19 estados e o Distrito Federal já tiveram escolas ocupadas.

Em São Paulo, a maioria das intervenções foi feita em institutos federais. Nas duas tentativas de ocupação de escolas estaduais, rapidamente, a Polícia Militar, a mando do governador Geraldo Alckmin, reprimiu o movimento. O Estado foi palco de grande mobilização dos secundaristas no ano passado, quando os estudantes conseguiram evitar que o governo tucano fechasse algumas escolas, na chamada “reorganização escolar”. Esse movimento foi uma das inspirações para as primeiras ocupações no Paraná.

Assim como estado sulista, uma parte considerável dos secundaristas paulistas vinham de regiões periféricas ou de famílias de baixa renda. Na época, uma pesquisa feita por professores da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo, junto a uma passeata dos estudantes do ensino médio, mostrou que 46% deles tinham renda familiar de no máximo até três salários-mínimos e 33,6% eram negros ou pardos.

“Há a educação formal, com aulas de química, física, matemática, que não dialoga mais com o jovem, e este não suporta mais ficar somente sentado escutando, e há uma educação informal, que o jovem tem pela internet, grupos, rede social, fora da escola. Por isso, mesmo com a escola sucateada, o jovem está se politizando”, opina a professora Esther Solano (Unifesp), que estuda manifestações. E acrescenta: “Talvez ele não tenha uma boa aula de química, mas vai para as manifestações, conversa em grupos, tem todo uma rede informal de educação que não passa mais pela escola”.

Embrião das ocupações

Como mais de 80% das escolas ocupadas estavam no Paraná e a mídia ignorou o movimento nacionalmente, o debate se tornou mais intenso na capital paranaense e em cidades do interior do Estado. Logo virou assunto também das eleições em Curitiba, onde Ney Leprevost (PSD) e Rafael Greca (PMN) disputavam a prefeitura em segundo turno. Vencedor do pleito, Greca conta com o apoio do governador do Estado.

Quando o movimento ainda era tímido, Beto Richa disse que os estudantes estavam sendo usados por políticos do PT e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e iniciou a ofensiva por meio de diversos pedidos de reintegração de posse. Debochou: “uma perfeita doutrinação”. Não imaginava que a afirmação seria respondida por Ana Júlia Ribeiro, na própria Assembleia Legislativa, quase um mês depois.

Assim que o movimento se espalhou pelas cidades do Paraná, o governador mudou o discurso. Pela imprensa, garantiu aos estudantes que não aplicaria a reforma do ensino médio no Estado antes de um amplo debate. O governo federal entrou, então, em cena. O ministro da Educação, Mendonça Filho, chegou a dizer há algumas semanas que cancelaria o Exame Nacional do Ensino Médio nas escolas ocupadas, caso os protestos continuassem.

Uma semana após essa afirmação, um estudante foi morto dentro de uma das escolas ocupadas. Lucas Eduardo Araújo Mota, de 16 anos, morreu após ser esfaqueado na região do tórax e pescoço por um amigo de infância, de 17 anos. Ambos participavam da ocupação no Colégio Estadual Santa Felicidade, em Curitiba. Estudantes ouvidos pela Polícia Militar afirmam que os dois chegaram à escola com comportamento estranho e um deles, quando questionado, teria assumido que os dois usaram uma droga psicodélica mais cedo.

A tragédia despertou, na ocasião, a ira dos que classificam as ocupações como “badernas” e acusam os estudantes de depredar os locais de ensino, usar drogas e praticar sexo. E agora o mesmo argumento é usado por magistrados para determinar as reintegrações de posse.

Além de alvos do governo do Estado e de uma parcela de professores ou diretores de colégios, os estudantes secundaristas parecem estar no meio da polarização que tomou conta do País. No Paraná, os secundaristas relatam que rojões ou pedras são usados contra as escolas durante a noite. Alguns atribuem os ataques aos movimentos de direitaque intensificaram suas ações no estado após o crescimento das ocupações.

Os estudantes reclamando ainda dos líderes de movimentos estudantis de esquerda, ligados a partidos políticos tradicionais, que costumam entrar nas ocupações para colocar bandeiras ou passar palavras de ordem. Esse tipo de imposição gerou rejeição às principais uniões estudantis. Muitos colégios não têm sequer a bandeira da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

“Chegou um líder da União Paraense dos Estudantes Secundaristas (UPES) aqui, tirou uma foto dele na ocupação e cinco minutos depois foi embora porque tinha que viajar. Nem ajudar a carregar as coisas, ele ajudou”, diz uma secundarista que prefere não se identificar.

Nas visitas em que fez aos colégios ocupados, CartaCapital encontrou um cenário bem distinto do descrito pela Procuradoria-Geral do Paraná ou em grupos de Facebook que são críticos às ocupações. Muitos colégios colocam, como condição para a entrada, uma revista dos pertences pessoais de alunos, pais e professores. Mais do que isso, os estudantes adotaram escalas e divisão de tarefas. Todos reproduzem um sistema parecido. Os ocupantes dividem-se em comissões de comunicação, segurança e cozinha, entre outras. Cada qual fica responsável por atividades de uma área.

 Além disso, em todos as ocupações, há cartazes com os horários estabelecidos para limpeza, almoço, jantar e horário de dormir. Os estudantes também dividiram as salas em dormitórios masculinos e femininos. Muitos pais passam a noite na ocupação com seus filhos e ajudam nas atividades de limpeza, cozinha ou segurança.

 “Uma grande parte da sociedade, ainda que aceite que a educação deve melhorar, coloca a ordem pública acima de tudo. As escolas estão rompendo com essa ordem. Mas eles querem uma escola diferente. Não querem mais essas escolas tradicionais”, afirma Esther.

Mas essa organização interna nas ocupações não impediu que o Ministério Público, e atéconselheiros tutelares, também se empenhado contra a o movimento. Em Miracema de Tocantins (TO), cerca de 20 estudantes da Escola Dona Filomena Moreira de Paula foramretirados à força de uma das escolas e levados algemados à delegacia com o aval de um promotor.

Ameaças também foram registradas em escolas do interior do Paraná, onde promotores estariam preparando ações civis contra os jovens. “Parecia haver promotores tentando identificar alguns dos estudantes”, explica a advogada Tânia Mandarino, do grupo Advogados e Advogadas pela Democracia.

Apesar disso, parte dos estudantes ainda quer continuar com o movimento. Umsecundarista do 3º ano do ensino médio, que está em uma das escolas fechadas de São José dos Pinhais e prefere não se identificar, conta que trabalha como porteiro em um clube de classe média da cidade. Recebe pouco mais de 600 reais por mês e não é registrado.

“Todo mundo do ensino médio aqui nessa escola trabalha. Se eu estivesse no 1º ou no 2º ano, com essa MP de educação integral, eu já teria saído da escola. Não é porque vou terminar o curso que não vou lutar, é o direito do meu irmão, da minha família. Em vez de aumentar os gastos com educação, querem cortar o que já não tem?”

*Colaborou Ingrid Matuoka

Tendências Jornalísticas

jornais

Recentemente assisti a um filme chamado SPOTLIGHT. O mesmo resume a história do THE BOSTON GLOBE, jornal que levantou o tapete da igreja católica no tema pedofilia.

O filme procura mostrar o contexto dos jornais impressos que, no início dos anos 2000 já sentem a perda de leitores para a internet. Nesse contexto, a grande busca do jornal é de notícias que vendam. Em um dos departamentos do jornal, chamado de Spotlight, trabalhavam quatro jornalistas que faziam jornalismo investigativo. Debruçavam-se sobre um assunto e percorriam todos os caminhos para descobrir as verdades escondidas, até o desfecho com reportagens e artigos impressos escancarando o que descobriam.

Na mudança do editor chefe, o mesmo pede a essa equipe que investigue alguns casos esquecidos de abusos por parte de padres da igreja católica com jovens (a chamada pedofilia). Resumindo: a equipe não só desmascara mais de uma centena de padres na cidade de Boston, como deflagra um processo onde várias cidades e países fazem as mesmas “descobertas”. Em Boston, o arcebispo acobertava todos os casos juntamente com um escritório de advogados que se enriqueceu às custas dos acordos que foram feitos com as vítimas. A punição dada pelo vaticano ao arcebispo foi sua transferência para Roma.

E o que o tal jornal ganhou com tudo isso, naquele momento em que a crise batia a porta? Credibilidade de seus leitores: esse era o grande objetivo apontado no filme. Se até hoje eles tem, não sou capaz de dizer, mas não deixa de ser um objetivo nobre.

Além desse caso, um mais antigo, Watergate, provocou a renúncia do presidente Nixon.

Por aqui, o que percebemos é uma tendência inversa desses dois exemplos. A grande mídia impressa brasileira faz questão de contar suas verdades escondendo inúmeras outras. Um exemplo pequeno pode ser colocado quando do último furacão que passou pelo Haiti e pela Flórida: a morte da Flórida foi muito mais notícia que as 900 ocorridas no Haiti. Assim como esse exemplo, o recente processo de impeachment da presidenta Dilma é outro que certamente a história mostrara como um dos maiores resultados da tendência daqueles que “mandam” na mídia nacional.

Não estou aqui dizendo que o jornalismo norte-americano é correto e o brasileiro não. Longe disso. Poderia citar uma série de exemplos negativos de lá também, como positivos daqui do Brasil. Para não ficar no “poderia”, dois deles: do lado ianque, alguns jornais e TVs que defendem a todo custo a candidatura Truman (aquele que chama brasileiros de porcos) para a presidência de lá, tendo a Fox como liderança; por aqui podemos citar o trabalho monstruoso que Luiz Nassif fez para desmascarar as falácias de uma das maiores revistas nacionais, a Veja.

Ainda sobre a disputa de ideologias capitaneadas pelos meios de comunicação, podemos citar um exemplo de domingo (16/10/16), quando o jornal ESTADO DE SÃO PAULO, publica um editorial onde difama de forma vil e mesquinha a figura do presidente Lula. Coisas do tipo: “…a maioria dos brasileiros passou uma década a acreditar nas lorotas que o ex-metalúrgico contou para os eleitores daqui. Fomos acompanhados por incautos no exterior. ” Ou ainda: “… seus planos para sequestrar a democracia e desmoralizar o debate político, bem ao estilo do gangsterismo sindical que ele tão bem representa.”.

Por esses dois pequenos trechos dá para notar a alta tendência de quem o escreveu. Mesmo admitindo que o governo Lula teve seus problemas (muito parecidos com todos os demais), chama-lo de “gangster” ou ainda “…para sequestrar a democracia…”, contador de lorotas que iludiu toda uma nação e ainda nações estrangeiras, é no mínimo forçar uma realidade que nunca aconteceu. Mas, como dizem, hoje a fogueira já está acesa… o que são mais alguns gravetos para mantê-la, não é mesmo?

E como estou discutindo tendências jornalísticas, não posso deixar de expressar meus pensamentos sobre as locais. Basicamente três jornais e três rádios fazem o grosso de nossa mídia informativa. Além disso, as redes sociais continuam sendo um misto de boas informações, lazer, futilidades e fofocas. As rádios, além dos gêneros musicais bastante populares, não tem uma interferência decisiva nas questões de fundo da cidade. As redes sociais aceitam de tudo e por isso o filtro do discernimento tem que estar sempre ligado.

Os jornais, tem características bastante peculiares: um, é palanque político, pois seu proprietário é vereador e essas eleições mostraram que esse palanque é bastante produtivo, já que foi o vereador mais votado desta eleição. Outro, tentando achar seu espaço nos céus da informação, consegue um patrocinador que lhe aumenta sua vida útil, mas inicia seu caminho com algumas trapalhadas significativas, como a manchete onde classifica “as escolas de Salto” com um rendimento ruim no IDEB. Isso algumas semanas antes das eleições. Na verdade, a notícia falava das escolas estaduais que estão em Salto, e isso o leitor só descobre na notícia completa, já que a manchete de primeira página generaliza, dando a impressão que TODAS as escolas de Salto foram mal no IDEB. As municipais foram muito bem…isso não foi manchete.

Em relação as eleições, parece que os mesmos tiveram uma linha uníssona: preservar o candidato do PP e potencializar as notícias negativas do candidato Juvenil (no quesito “venda de jornal” parece que acertaram).

Um dos maiores exemplos que podem ser colocados para provar isso foi o tratamento dado por todos eles quando diziam que juridicamente ambos os candidatos estavam na mesma condição: com processos de impugnação na justiça eleitoral. Esqueceram-se de dizer que no caso do candidato do PP o pedido de impugnação era da própria justiça, via Ministério Público e que tal pedido foi acatado, portanto o mesmo ficou na condição de INDEFERIDO até alguns dias atrás. E no caso do candidato Juvenil, a justiça DEFERIU sua candidatura e alguém do grupo do PP entrou com recursos para tentar o indeferimento, que até agora foi frustrado. Nenhum dos jornais se preocupou em explicar a diferença entre INDEFERIDO COM RECURSO e DEFERIDO COM RECURSO. Minto: na véspera das eleições o Tapera fez isso.

Além disso, todas as acusações que pesam sobre o candidato do PP até agora não foram detalhadas por nenhum deles. Evidente que não estou pedindo que os mesmos tenham um setor como o The Boston Globe somente de investigações, mas um pouco de boa vontade e conduta jornalística poderia produzir excelentes matérias a respeito. Mas ainda há tempo, já que o candidato do PP terá muitos processos a responder pela frente, inclusive criminais.

No Jornal de Quarta após o debate ocorrido no Tapera, aparece uma foto dos três candidatos a prefeito, menos o do PP e a pergunta: “…o que será que eles estão tramando?…” “Alguma coisa contra o Geraldo? ” Uma tentativa de humor, mas que mostra a tendência do jornal. Estive no debate e os três candidatos estavam juntos porque o do PP não se aproximou deles, ficou em outro canto do salão com seus pares. Poderia ter outra foto do candidato do PP sozinho, com algo do tipo “sentindo-se um estranho no ninho? ”. Mas tramar é coisa ruim, como pode ser visto no dicionário e o “bom moço” não pensa coisas ruins.

As duas últimas pérolas acontecem no último sábado e no Jornal de Quarta de hoje.

“GERALDO GARCIA VENCE NA JUSTIÇA ELEITORAL POR GOLEADA: 6 A 0”

“JUVENIL: A PERDA DE UMA OPORTUNIDADE”

Na primeira, o tom ufanista para demonstrar que o “cara é bom mesmo”. “…vence…por goleada…”. O bom moço finalmente tem seu reconhecimento e de forma massacrante. As injustiças foram debeladas……aí, num box pequeno ao lado, a opinião do editor, explicando mais ou menos que ainda não acabou.

Só um detalhezinho nisso tudo: evidente que seriam todos os juízes favoráveis ao reconhecimento da candidatura, visto que na justiça comum existe uma liminar suspendendo os efeitos da sessão de Câmara que rejeitou as contas do candidato do PP. Os juízes eleitorais não poderiam ter outra decisão. Mas é bom para o ego idolatrar algumas figuras….

Agora, a segunda é sem dúvida, até aqui pelo menos, a maior de todas as pérolas: um apelo para que Juvenil “…demonstre sua grandeza e desista da posição que mantinha. ” A posição em questão é o recurso que foi impetrado no TRE contra a decisão, já que ainda a justiça comum não se manifestou acerca da liminar em vigor. Alguns trechos:

Se tivesse renunciado ao recurso que ainda lhe restava, mereceria de grande parte dessas pessoas (que não votaram nele) a admiração e o respeito pelo seu gesto altruístico, ficando reconhecido pelo resto da vida como aquele que agiu de forma cristã, que perdoou aquele que um dia com ele rompeu”.

Outro trecho:

“Não vamos analisar as alegações apresentadas para impedir a candidatura de Geraldo. Pode-se até considera-las procedentes em alguns casos, mas não é isso que tem que se levar em conta nesta altura. ”

Mais um:

Quem conhece Juvenil Cirelli, sabe que é um homem de bons princípios, cristão, que não procura fazer mal àqueles com quem convive. ”

Para finalizar:

“A grande oportunidade se ofereceu a Juvenil e ele não a está aproveitando, ignorando que isso poderá lhe causar danos pessoais irrecuperáveis”.(…) “É hora de agir com sentimentos nobres, Juvenil, e não como político.”

Depois de respirar fundo, vou tentar comentar, deixando claro que são opiniões minhas, não conversadas com ninguém…somente com meu computador.

O primeiro trecho chama para a questão do “… ser cristão”, como aquele que perdoa. Esquece o articulista que a maior das qualidades de um cristão é a busca da justiça: “bem-aventurados os justos…” “sejais quente ou frio, pois os mornos vomitarei pela minha boca”. A discussão aqui não é de altruísmo, mas de justiça. A cidade foi vilipendiada. Provas existem aos montes, sem nenhuma dúvida. Aí o articulista quer que o candidato do PP seja perdoado por Juvenil, e se passe uma borracha sobre os acontecimentos que levaram a impugnação do mesmo, além de outros que também tem processos crime. E como “bom cristão” Juvenil precisa perdoar quem com ele rompeu, aqui trazendo à tona os acontecimentos de janeiro de 2012. A questão a muito tempo não é mais essa: a questão é que a cidade não merece um prefeito que fez o que fez com ela.

O segundo trecho é mais contundente ainda: Juvenil não pode levar em conta as acusações que recaem sobre o candidato do PP. Uma afirmação no mínimo infeliz: é só isso que precisa ser levado em conta agora. Afinal a LEI DA FICHA LIMPA foi aplaudida por todos e é somente isso que se espera ser aplicado, diante dos acontecimentos que agora não “…tem que se levar em conta…”.

Novamente a figura do “bom cristão” aparece no outro trecho. Posso falar tranquilamente sobre isso, já que tive a mesma formação de Juvenil na igreja católica. Nossa formação não admite injustiças, nossa formação não admite que autoridades se aproveitem de seus cargos em detrimento da população, nossa formação não admite indiferenças à injustiça. Simples assim.

No último trecho, uma afirmação muito preocupante: “…poderá lhe causar danos pessoais irrecuperáveis. ” O que isso quer dizer? Quais danos pessoais poderá sofrer Juvenil? Que mal é esse escondido nessa afirmação? Precisamos de respostas, já que pessoas vingativas existem em todos os lugares. Precisamos saber dos “danos… irrecuperáveis”, que poderá sofrer Juvenil, além dos que já sofreu até agora. Essa não é uma afirmação que se joga no ar simplesmente, sem bases sólidas. E se essas bases sólidas existem, que fiquem claras para todos nós….

Não se quer vingança, como aparenta o texto: clama-se por justiça. Só isso, justiça: condição humana buscada desde os primórdios da existência, mas sempre controlada por humanos que também falham e tem posicionamentos.

E no caso é simples nossa base de argumentação: contas rejeitadas, contratos ilegais, compras ilegais de tijolos, licitações ilegais. Tudo isso comprovado e atestado pelo Ministério Público. Não é ufanismo, não é tendencioso, não é vingança. Só a busca da justiça, como todo cristão consciente faz, malgrado seu grande mentor ter morrido assassinado na cruz pelas mãos dos homens.