Ratzinger em 2005 – perfil e objetivos

Da Carta Maior

 

José Luís Fiori (em 27/04/2005)

“O cristão, o apóstolo, foram criados para crescer. Devem viver animados por uma santa inquietação de divulgar a todos o dom da fé…devem sair e pregar a palavra do Senhor, porque isto ajuda a gerar frutos, frutos permanente. Só dessa maneira a terra se tornará de vale de lágrimas em jardim de Jesus”  (Joseph Ratzinger, homilia “pro-eligendo papa”, Folha de S. Paulo, 20/04/2005)

 

Primeiro, foi a derrota de John Kerry, nos Estados Unidos, e agora, a vitória de Joseph Ratzinger, no Vaticano, dois revezes contundentes para os liberais de todo o mundo. Muitos supunham que depois do primeiro governo Bush, e do longo papado conservador de João Paulo II, seria hora dos liberais voltarem ao poder, segundo uma regra de alternância que muitos analistas consideram indispensável ao equilíbrio dos sistemas, como na fantasia dos economistas. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário, e no caso do Vaticano, o novo papa alemão tem um perfil ainda mais radical e intolerante do que seu antecessor.

Não é fácil de explicar a vitória de Ratzinger, mesmo quando se sabia do poder que detinha dentro do colégio eleitoral que foi nomeado – quase todo – pelo seu antecessor. De um ponto de vista menos institucional ou eclesiástico, entretanto, uma primeira pista para explicar esta continuidade conservadora pode ser encontrada na própria fragilidade intelectual dos seus adversários. Basta ler com atenção as suas respectivas agendas e propostas para perceber que os liberais alinhados em torno do Cardeal Carlo Maria Martini, assim como os que apoiaram a candidatura de John Kerry, não foram capazes de oferecer uma alternativa concreta à agenda conservadora mundial destes últimos 30 anos. Como se os liberais também tivessem sido atingidos pela epidemia ou anemia que dizimou o pensamento social-democrata, na década de 1990.

Da perspectiva desta hegemonia conservadora das últimas décadas, a escolha de Ratzinger aparece como um ponto apenas dentro de uma trajetória política e ideológica de mais longo prazo, que chega até os “neoconservadores” do governo Bush, mas que começa em Roma, exatamente na hora em que o Vaticano surpreendeu o mundo católico – em 1978 – ao transformar um cardeal obscuro, proveniente de uma das comunidades católicas mais reacionárias e piegas da Europa, no Papa João Paulo II. Sua eleição foi o verdadeiro ponto de partida ideológico deste longo período conservador que se prolonga até hoje, começando na forma de uma resposta aos movimentos emancipatórios dos anos 60 e à grande crise econômica da década de 70.

Para ser fiel às datas, Karol Wotjyla foi eleito em 1978, Margareth Thatcher, em 1979, Ronald Reagan, em 1980 e Helmut Khol, em 1983. Suas eleições não fizeram parte de uma mesma estratégia, nem obedeceram a uma cadeia coordenada de comando ou decisão. Mas todos eram profundamente conservadores, e suas idéias e ações convergiram em torno de uma mesma estratégia anticomunista, criando-se uma força política e ideológica coesa que derrubou o mundo socialista, atravessou os anos 90 e chegou até os nossos dias cada vez mais conservadora, autoritária e expansiva.

Já se estudou e falou muito das transformações econômicas, financeira e geopolíticas que começaram com a crise mundial dos anos 70, em particular das reformas e políticas neoliberais, mas talvez não se tenha dado a devida atenção à dimensão cultural e religiosa desta expansão vitoriosa dos conservadores, pelo menos até o momento em que o fundamentalismo religioso se transformou no grande cabo eleitoral da reeleição de George Bush, em 2004.

É reconhecido o papel de João Paulo II na luta e na desmontagem do mundo comunista, sobretudo na região da Europa central. Alguém já disse que se não fosse por Wotjyla, não teria havido o sindicato Solidariedade, e se não fosse por causa da existência do Solidariedade, não teria havido eleições na Polônia, e se não fosse pelas eleições polonesas não teriam existido as “revoluções de veludo”, que devolveram a Europa central ao “ocidente cristão”. Mas depois disto, se discutiu pouco a importância do conservadorismo moral de João Paulo II, e da intolerância teológica de sua Cúria Romana, na recomposição das energias expansivas do conservadorismo ocidental, que hoje alimenta o discurso e a prática messiânica do governo norte-americano de George Bush.

Neste sentido, é interessante agregar a este quadro alguns outros acontecimentos que ocorreram de forma independente, naquele mesmo momento da “virada à direita” do “mundo ocidental”, entre 1978 e 1983. Acontecimentos que apontavam, entretanto, na mesma direção da intolerância religiosa e da escalada militar. Basta relembrar a revolução xiita no Irã, em 1979; a invasão do Irã pelas tropas sunitas de Saddam Hussein, em 1980, apoiadas e sustentadas pelas armas químicas e biológicas dos Estados Unidos e de vários países europeus; o aparecimento dos talebãs no Afeganistão e, finalmente, em 1982, a “invasão preventiva” do Líbano pelas tropas de Ariel Sharon, que culminou com o célebre massacre dos palestinos, nos campos de refugiados de Sabra e Shatila.

Quatro acontecimentos militares de forte conotação religiosa que se transformaram em peças do tabuleiro onde foi se armando, aos poucos, mais do que uma restauração conservadora, uma verdadeira “escalada aos extremos” teológicos – e as vezes militares – das religiões ocidentais que C.J.Jung e A.Toynbee chamaram de “extrovertidas”, ou seja, com vocação apostólica e conquistadora, ao contrário das religiões orientais, que seriam essencialmente “introvertidas” e não expansivas.

Desta mesma perspectiva, a escolha de um papa alemão e conservador também tem um outro significado complementar: assim como Wotjyla foi escolhido pelos olhos estratégicos do Vaticano e das demais potências ocidentais com vistas a conquista do mundo comunista, Ratzinger foi eleito para unificar e recristianizar a “velha Europa”, segundo a proposta de João Paulo II, apresentada em Santiago de Compostela, na Espanha, em 1982. Este objetivo central explica seu apelo imediato ao diálogo entre as religiões cristãs e os judeus, e ao esquecimento do seu texto Dominus Iesus, publicado em 2000, defendendo a superioridade e inevitabilidade do catolicismo como caminho da salvação. Este mesmo projeto explica sua resistência explícita à incorporação da Turquia à União Européia.

As críticas de Ratzinger ao relativismo, ao individualismo, ao consumismo e ao agnosticismo, feitas na sua homilia “pro-eligiendo”, que foi uma espécie de carta de princípios e programa eleitoral publicado na véspera da reunião do colégio de cardeais, foi uma crítica direta ao “amolecimento espiritual” da Europa, afogada num hedonismo laico, egoísta e desfibrado. Em Ratzinger, está sempre implícita a visão de uma União Européia que engordou excessivamente e perdeu sua capacidade de decisão e ação coletiva, gerida por partidos e lideranças políticas liberais e social-democratas sem idéias claras, sem energia e sem capacidade de liderança mundial. Como um velho alemão, conservador e teólogo, Ratzinger acredita na necessidade de voltar às raízes últimas da unidade e da força européia, o Santo Graal onde se escondem as primeiras verdades do cristianismo, imbatíveis e inegociáveis.

Nesse sentido, Ratzinger defende para a Europa como para toda a Igreja Católica – mesmo que seja em sentido metafórico – um período de volta aos monastérios, onde seus povos e seus líderes recuperem a força espiritual capaz de recolocar a Europa na liderança mundial, por cima do fundamentalismo protestante dos norte-americanos. Sua meta é de longo prazo, e não se restringe apenas ao projeto de democratização ou conversão do “Grande Oriente Médio” dos neoconservadores de Washington. Na verdade, seus olhos catequéticos ou conquistadores estão postos num horizonte mais longínquo, no imenso pedaço do mundo eurasiano onde o Papa João Paulo II não colocou os pés e onde as religiões “introvertidas” são hegemônicas, mas não tem pretensões expansivas.

É verdade que a história não se repete, mas ela pode ser lida como uma parábola pelos contemporâneos de todas as épocas. Nesse sentido, pode estar no inconsciente deste projeto de reunificação e recristianização européia, o primeiro grande movimento de expansão dos poderes territoriais europeus, ibéricos, associados com a Igreja Católica. Um caso exemplar de centralização do poder territorial combinado com a ordenação autoritária dos costumes e a renovação do espírito e da disciplina cristã através da Inquisição, seguidos imediatamente pela “explosão expansiva” dos descobrimentos que deram origem ao primeiro grande império europeu, mundial e cristão de Carlos V e Felipe II, onde “o sol nunca se punha”. Esta poderia ser a grande cartada ou esperança de Bento XVI, a última tentativa de dar uma vitalidade civilizatória e cristã, à nova União Européia.

Mas se a história serve como parábola, não se pode esquecer que foi neste mesmo período de glória cristã e espanhola, que Lutero, Calvino e Henrique VIII cindiram a Igreja Católica, criando as primeiras igrejas cristãs e nacionais, que nunca mais se submeteram a Roma, mesmo depois do Concilio de Trento (1545-1563) e do movimento repressivo da contra-reforma do século XVI e XVII. Além disto, foram este novos países protestantes que acabaram sucedendo a Espanha na dominação européia do mundo.

Muito antes que os Estados Unidos assumissem este mesmo papel, agora sob o impulso de sua “revolução neoconservadora” que já é de fato a herdeira – ainda que ilegítima – do fundamentalismo teológico e moral de Wotjyla e Ratzinger. Neste sentido é sempre bom lembrar que por mais que a Igreja abomine a guerra, não existe nenhum possibilidade de existência de um projeto expansionista e intolerante que não acabe em guerra contra os hereges, sejam eles quem forem, mesmo quando se fale muito em diálogo, em geral deixando para os outros a responsabilidade de fazer a guerra.

(*) José Luis Fiori é professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ “O Poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”. (www.poderglobal.net)

 

 

 

A renúncia do papa e a história

Do Jornal do Brasil

Mauro Santayana

 

Ao surpreender o mundo — menos alguns íntimos de sua fadiga — com a renúncia ao papado, Bento XVI revela a grande crise por que passa a Igreja Católica. Quando Gregório XII renunciou, em 1415, seu gesto unificou a instituição, então dividida sob três pontífices desde 1378. Ângelo Correr percebeu, com acuidade, que ele assim serviria melhor à sua própria posteridade ao servir à unidade da Igreja e abandonar o trono papal.

Ele não era O Papa, mas a terceira parte de um poder que, dividido, enfraquecia-se cada vez mais diante do mundo e, o que é pior, diante da História. Os dois anos de vida que lhe sobraram — morreu em 1417 — lhe devem ter assegurado esse consolo. Ele tinha 90 anos ao renunciar — uma idade difícil de atingir naquela véspera do Renascimento — mas deu a seu gesto o claro caráter político, ao negociá-lo com o adversário mais forte e influir na escolha — unânime, do sucessor, Martinho V — da poderosa família Colonna. Não alegou cansaço mas, sim, responsabilidade política.

Mais longa do que o Grande Cisma dos séculos 14 e 15, que durou quase 40 anos, é a já duradoura crise do Ocidente, de que a Igreja foi fiadora e principal organização política, desde Constantino e Ambrósio. Depois da morte de ambos, a Igreja se proclamou herdeira do Império Romano, com base em um documento apócrifo, a Constitutum Constantini, segundo o qual Constantino legava ao papa Silvestre I — e, assim, à Igreja — todo o poder político e todos os bens do Império. O documento, forjado no século 8, foi desmascarado por Lourenço Valla, no século 15.

Um dos mais destacados latinistas e gramáticos da História, Valla provou que o latim usado para redigir o documento não existia no século 4. A inteligência lógica de Ambrósio arquitetou a construção política da Igreja, conduzida na sábia combinação entre a concentração da autoridade espiritual no Vaticano, exercida mediante os bispos, e a distribuição do poder temporal entre os reis e os senhores feudais, sem esquecer o domínio direto sobre os estados pontifícios, que garantiam a incolumidade dos papas.

Dessa forma foi possível, em esforço de séculos, domar a anarquia, conter e assimilar os bárbaros e dar estrutura política e social à Idade Média, com a consolidação da injustiça de sempre contra os pobres e os pensadores que os defendiam, quase sempre levados às inquisições e à fogueira, como ocorreu a Giordano Bruno, no auge do Renascimento, em 1600.

Ambrósio, nobre burocrata do Império, pagão até ser eleito bispo de Milão, não agiu como teólogo, que não era, mas, sim, como um dos mais hábeis estrategistas políticos da História. Coube-lhe salvar os pontos basilares da ideia do Ocidente.

A Igreja sempre fez alianças com o poder temporal, algumas piores do que as outras, a fim de evitar a prevalência do verdadeiro cristianismo sobre seus interesses políticos no mundo. É assim que o Vaticano de nossos dias — depois de tolerância criminosa com Hitler, sob Pio XII — mantém o acordo firmado entre Reagan e Wojtyla, há mais de trinta anos, com o objetivo, atingido, de destruir a União Soviética e combater o socialismo. É preciso lembrar que, para o êxito da conspiração, contribuíram o traidor Gorbatchev, hoje garoto propaganda dos artigos de luxo da Louis Vuitton, e as operações do Banco Ambrosiano (valha a coincidência), para financiar o Solidarinost, o sindicato de direita da Polônia, liderado por Lech Walesa.

Mesmo que não a desejasse, Ratzinger seria compelido à renúncia, pelos mais eminentes membros da Cúria Romana, que se preocupam com a sanidade mental do pontífice, cujo engajamento com os setores mais conservadores da Igreja tem comprometido o seu arbítrio. Acrescente-se o movimento, subterrâneo, mas vigoroso, da Igreja Latina — e mais perceptível no episcopado italiano — de encerrar o período de papas menos universais e empenhados em sua razão nacionalista, como o polonês e o alemão. Isso não significa que o clero italiano recupere a Santa Sé, mas anuncia uma campanha intensa durante o conclave em favor de um candidato com as chances de Ângelo Scola, atual arcebispo de Milão, e advogado de diálogo franco e aberto com o islã.

Em seu pronunciamento de renúncia, o papa associou seu gesto à crise do pensamento ocidental, no tempo de alucinantes mudanças: “… no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor, quer do corpo quer do espírito; vigor este que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”.

Como anotou Gregório de Tours, no enigmático século 6, o mundo de vez em quando envelhece, encasulado na dúvida, e reclama a metamorfose. A Igreja Cristã (não só a Católica) e o Ocidente, xifópagos há 16 séculos, necessitam reinventar-se. Talvez a astúcia hoje dependa de pensadores abertos, como o arcebispo de Milão, sucessor de Ambrósio no episcopado. Talvez seja o tempo de se convocar não um Concílio da Igreja Católica mas de organizar-se um Concílio Ecumênico Universal, para salvar a ideia de um Deus comum, reunindo todas as crenças em nome da vida e da paz entre os homens de boa vontade.

 

A faceta desconhecida de D. Pedro II

Do Luis Nassif

 

Por lordstrahler

 

Nassif, neste feriado em que se comemora um golpe de Estado, gostaria de homenagear a democracia por meio da figura de D. Pedro II. Ele, que nunca perseguiu inimigos ou cerceou a liberdade de expressão (razão pela qual mesmo os mais radicais, como Silva Jardim, se manifestavam à vontade), foi exilado após a Proclamação da República e nunca mais pode retornar a seu país.

A Revista de História da Biblioteca Nacional de novembro mostra uma facetas do D. Pedro II que muitos ainda não conhecem. Destaque para como mesmo os europeus republicanos sentiam apreço pelos valores democráticos e de respeito à coisa pública demonstrados por ele. Destaque para o trecho final envolvendo Victor Hugo. Quem sabe esta edição não jogue luz sobre as formas preconceituosas e equivocadas com que parte da sociedade ainda retrata nosso último Imperador.

 

Faces do imperador

Após fazer viagens à Europa, na segunda metade do século XIX, D. Pedro II conquistou a simpatia da imprensa do Velho Continente. Neste mês, a Revista de História discute o lado republicano do imperador

Por Cláudio Antônio Santos Monteiro, Revista História

No mês de novembro, a Revista de História vai discutir o lado republicano de D. Pedro II [ver RH86]. Enquanto a edição não chega às bancas, o historiador Cláudio Antônio Santos Monteiro, professor da Universidade Severino Sombra, analisa a representação da imagem do imperador em jornais franceses do final do século XIX.

Durante o Segundo Reinado, Pedro II efetuou três viagens pela Europa (1871-1876-1887), despertando o interesse da imprensa em atividade no Velho Continente. Foi na França de Victor Hugo, da Terceira República, em que a imprensa mais prestigiou o monarca brasileiro, fixando uma imagem valorativa daquela figura e de seu reinado no Brasil. Embora se possa falar em um discurso laudatório da mídia impressa sobre o governante brasileiro, o fato é que esse discurso se cristaliza na França republicana em duas ocasiões especificas: na divulgação da Proclamação da República; e também no período seguinte à morte de Pedro II, em Paris, em 1891. Na ocasião, o monarca deposto recebe honras de chefe de Estado.

A primeira viagem: o abolicionista

Em 25 de maio de 1871, dom Pedro II parte em primeira viagem ao exterior. Na França ainda ocupada, marcada pela Comuna e pela guerra, o clima é de efervescência política. A folha conservadora Le Gauloisdestaca:

O Brasileiro. No momento em que nós começamos a ser infelizes todos os reis da Terra nos viraram as costas num prodigioso conjunto. Somente Dom Pedro nos permaneceu fiel na hora de nossa falta de fortuna. É preciso então agradecer a esse monarca pelo fato de ele ter consentido, apesar de tudo, vir ver se aqui os pratos estavam nos mesmos lugares.

Emile Villemont se refere aqui à época em que Paris acolhia os soberanos da Europa, como na Exposição Universal de 1867. O editor duvida: dizem que o imperador – o que duvidamos – será recebido oficialmente pelo presidente da República, e que ocorrerá nesse dia uma grande recepção em Versailles.

O jornal Le Constitutionnel é pontual: A viagem de dom Pedro na França é um bom presságio para nosso país, que hoje tem necessidade de aumentar suas relações comerciais com o exterior. Daqui a pouco tempo o imperador terá uma entrevista com o presidente da República francesa. Jamais uma entrevista foi tão oportuna, pois a atitude firme e digna de dom Pedro durante a guerra contra o Paraguai lhe angariou uma justa influência em toda a América do Sul.

A carta da Junta Francesa de Abolição (1866) força um comprometimento do monarca com a causa abolicionista. Pedro não põe os pés na França antes que a Lei do Ventre Livre fosse assinada.

Le Petit Journal, folha republicana, assevera, em 29 de setembro:

Os telégrafos nos informam uma boa e humanitária notícia. O Senado do Brasil votou a emancipação dos escravos por 33 vozes contra 4. A escravidão somente existindo agora nas colônias espanholas.

Dia 20 de dezembro, Le Constitutionnel comenta o evento legislativo brasileiro: A grande lei brasileira que pôs fim à escravidão no país. [Lembrando que a Abolição só ocorrerá em 1888; está, aqui, se referindo à Lei do Ventre Livre]A aplicação da lei sobre os escravos se dá em todo o império. Em janeiro de 1872,informa: Terça-feira passada o imperador assistiu em meio ao público ao curso de Franck no Collège de France. O professor, nesse dia, tendo sabido encontrar no seu objeto tratado ocasião de fazer alusão à lei que acaba de abolir a escravidão no Brasil, o auditório testemunhou sua calorosa simpatia ao soberano, que teve a iniciativa deste ato de justiça e humanidade.

Com três meses de intervalo, curiosamente, ambos os jornais afirmam que a escravidão não existia mais no Brasil.

Na perspectiva da Revue des ‘Deux Mondes’,a primeira viagem do imperador adquire outro significado:

Durante dez meses o imperador, que estava na Europa, esteve ausente do seu império e, coisa que prova a solidez das instituições brasileiras: a calma não foi um instante alterada. Uma grave questão, uma questão vital que interessa mais que qualquer outra ao futuro do Brasil, foi inclusive resolvida durante esse período, o vigor da lei da abolição gradual. Com certeza podemos dizer que existe um equilíbrio na América meridional. Nesse equilíbrio, o Brasil, que em decorrência das suas instituições é o país menos exposto às agitações e aos cataclismas políticos, tem um lugar considerável, que ninguém pode lhe contestar. A existência dessa grande monarquia liberal e constitucional deve ser, para os estados vizinhos, uma garantia e nenhuma ameaça. A diferença entre as formas de governo não é um obstáculo ao acordo. O que importa, aliás, esta diferença entre os nomes, se no fundo das coisas existe uma real analogia, se as instituições são, de uma parte e de outra, liberais, parlamentares, modernas?

Para o Le Constitutionnel: Dom Pedro gozou de uma grande e legítima popularidade. É um espírito liberal e aberto a todas as ideias generosas. Ironicamente, afirma: É certo que, se seu trono não fosse sólido, em uma época onde os tronos desabam com uma espantosa rapidez, não lhe faltaria um lugar de bibliotecário, se ele um dia precisasse.

O Imperador cidadão – 1876

Em sua segunda viagem dom Pedro encontra outra França. A III República caminha para a consolidação. Os grupos republicanos de centro-esquerda e da esquerda radical não se encontram mais marginalizados, ocupando espaço social e institucional cada vez maior. O mundo dos notables chega ao fim na França.

Le Temps, folha oficiosa da República, em março de 1877 divide o espaço com as folhas monarquistas: O imperador em Paris. O imperador do Brasil visitou o presidente da República no palácio Elysée. No dia 26: O imperador do Brasil assiste à seção pública anual da Academia de Ciência; ontem ele esteve na Academia Francesa. No dia 29: O imperador do Brasil foi eleito correspondente da Academia de Ciência para a seção de geografia e navegação. Le Temps privilegia a agenda política e cultural do monarca: Novidade do Dia. A recepção de ontem ao ministro da Instrução Pública foi das mais brilhantes. O marechal Mac-Mahon e a duquesa de Magenta chegaram às dez horas, o imperador e a imperatriz do Brasil fizeram sua entrada logo após; quase todos os ministros, um grande número de deputados e de senadores de todas as tendências, muitos generais e notáveis da ciência e das artes foram a essa recepção.

O conservador Le Monde abre polêmica:

Nós tivemos mais de uma vez, há alguns dias, o singular espetáculo da democracia se fraternizando com uma cabeça coroada. Sua majestade, o imperador do Brasil, que ontem dividiu familiarmente uma sopa de carne com o senhor Victor Hugo, nos reservou mais uma surpresa. Sua majestade esteve na usina de Noisiel-sur-Marne, onde ele foi recebido pelo cidadão Menier, igualmente célebre pelo seu radicalismo e por seus chocolates. O ilustre visitante tinha o desejo de ver a obra democrata em atitudes muito variadas. Dom Pedro foi à usina de Noisiel. O imperador pôde constatar por si mesmo se Noisiel era puro com seus chocolates como seu proprietário é puro no seu radicalismo. Dom Pedro, que na seqüência dessa visita levará sem dúvida a seu império o segredo da verdadeira preparação do cacau, levará as atitudes de sua transformação democrática? Em troca de seus cacaus o Brasil recebeu da Europa todos os produtos e todas as doutrinas mais perfeitas do radicalismo. Mas é sempre interessante voltar às fontes. Em Noisiel, Dom Pedro estava na boa escola. Entretanto, o que nos espanta, não é a visita de um soberano que viaja discretamente, e que por isso pode se permitir algumas excentricidades, mas é a reação ‘simpática’ feita por um democrata a uma cabeça coroada. Onde estão os puros, onde estão os incorruptíveis à antiga República? Porque o cidadão Menier sabe curvar a cabeça diante de um tirano, não nos resta mais que nos questionarmos: virtude, você é apenas uma palavra! nós não acreditamos mais na pureza dos democratas nem na pureza dos chocolates.

Le Tempsnão perde tempo para retorquir o artigo: O imperador do Brasil acaba de assistir, mesmo sendo um imperador e imperador católico, à animosidade do Le Monde: o monarca não se opôs, com efeito, a incluir na série de excursões inteligentes que ele faz em Paris uma passada na fábrica de chocolate de senhor Menier. Ora, o senhor Menier faz parte da esquerda radical. O chocolate é então maldito, e maldito sem dúvida todos os que o fabricam, o consomem ou somente os vêem. Esta é a opinião do Monde: será esta a opinião dos seus assinantes?

Le Gauloistambém registra um possível diálogo do radicalismo francês com o imperador:

Anteontem, no momento em que o imperador do Brasil acabava de visitar o Hôtel-Dieu, alguns internos brincavam com um de seus camaradas que se diz ser radical convicto. Como diabo você vai responder ao soberano se por acaso ele lhe interrogar? Perguntaram. – E então, responde o interno com dignidade, se ele me questionar, eu lhe chamarei: cidadão imperador.

A esquerda radicalna voz doL’Evénement, em julho de 1877, imortaliza o encontro de Victor Hugo com dom Pedro:

Quando o imperador partia do encontro – já era bastante tarde – Victor Hugo disse-lhe, com seu fino e espiritual sorriso: Sire, eu não saberia vos dizer como estou contente que não tenha na Europa soberano como vós. – Como assim? Pergunta Dom Pedro. – Porque, responde Victor Hugo, nós estaríamos fortemente complicados, eu e meus amigos, para não dizer que iríamos ter dificuldades! Dom Pedro II explode de rir e vai embora como homem amável e de espírito.

Cláudio Antônio Santos Monteiro é doutor em História pela Université Robert Schuman – Strasbourg-FR (2006) e professor da Fundação Universidade Severino Sombra.