Cinco textos feministas centenários que continuam atuais

da Carta Capital

por Tori Oliveira

No início do século 20, mulheres já escreviam sobre a relação do feminismo com os partidos políticos, o aborto e a divisão do trabalho doméstico

Nadiéjda Krupskaia, Sojourner Truth e Madeleine Pelletier
Nadiéjda Krupskaia, Sojourner Truth e Madeleine Pelletier: pioneiras na luta pelos direitos da mulher

Apesar de terem conquistado novos espaços de discussão nos últimos anos, há muito tempo mulheres debatem e escrevem sobre o feminismo.

Ao observar textos antigos, de 100 anos atrás, é inescapável a sensação de deja-vu nos temas abordados e nos argumentos das feministas de então. De lá para cá, muita coisa mudou, mas os principais desafios permanecem.

No livro A Revolução das Mulheres – Emancipação Feminina na Rússia Soviética (Boitempo), antologia de artigos, atas, panfletos e ensaios de mulheres e feministas russas escritos nas duas primeiras décadas do século 20, encontram-se temas debatidos até hoje, como a questão do aborto, a divisão do trabalho doméstico e o tratamento dispensado às mulheres nos partidos políticos. 

“Infelizmente, as questões que essas mulheres discutiam há cem anos ainda são muito atuais. Quiséramos nós que fossem textos meramente históricos”, diz Graziela Schneider, organizadora da edição no Brasil.

Confira trechos de cinco textos de feministas que continuam atuais:

O uso do feminismo pelos partidos políticos

No texto O movimento feminista e a relação dos partidos com ele, de 1908, a ativista russa do movimento das mulheres, Anna A. Kalmánovitch, escreve sobre a dificuldade de inserção das mulheres nos partidos políticos da época. Em carta à Kalmánovitch, a psiquiatra e ativista Madeleine Pelletier descreve as hostilidades enfrentadas por aquelas que se engajavam politicamente.

Atualmente, as mulheres ainda enfrentam barreiras para uma participação plena e igualitária na política. Segundo dados da ONU, elas ocupam, em média, 23% dos assentos nos parlamentos nacionais. No Brasil, a taxa de representação política feminina é ainda mais baixa: menos de 10% do Congresso Nacional.

Banheiro feminino no Senado
Só em 2016 o Senado ganhou um banheiro feminino no plenário. Atualmente, dos 81 senadores, só 12 são mulheres

Espero provar aqui também que a expressão “igualdade da mulher” serve apenas para adornar o programa político [dos partidos social-democratas]. Anseio convencer as mulheres que não devem esperar a liberdade dos homens, não importa como eles se nomeiem: liberais, conservadores ou social-democratas. Enquanto o homem tiver a oportunidade de oprimir e humilhar a mulher, ele o fará […] Não pensei que eu prego uma cruzada contra os homens. Eu diria o mesmo para todos os desprovidos e oprimidos”

Anna A. Kalmánovicht, O movimento feminista e a relação dos partidos com ele, 1908

“Ao ingressar no partido, a mulher – se não estiver acompanhada do marido – encontra hostilidade. Caso ela, apesar de tudo, consiga entrar, faz-se o possível para que ela perca a vontade de ir às sessões: não se sentam perto dela, não conversam com ela e tudo oque lhe é interessante é resolvido sem a sua participação. Finalmente, se ela se destaca de alguma forma, isso provoca ódio e inveja”

Madeleine Pelletier (1874-1939), psiquiatra e ativista francesa, em carta a Anna K. Kamánovicht, 1908

Divisão do trabalho doméstico

No ensaio Deve-se ensinar “coisas de mulher” aos meninos?, de 1909, Nadiéjda Krúpskaia (1869-1939) critica a desigualdade de gênero na execução de tarefas domésticas, que recaía quase totalmente sobre a mulher.

Políticos atuais, como o presidente Michel Temer e o ministro da Saúde, Ricardo Barros, fizeram declarações recentes associando exclusivamente a figura feminina aos trabalhos domésticos e aos cuidados com a casa.

Cartaz anti-sufragista
‘Dia de Eleição’ (1909), de E.W. Gustin. Cartaz anti-sufragista fantasia sobre o que aconteceria quando as mulheres pudessem votar

Dados revelam que a desigualdade de gênero no trabalho doméstico no Brasil continua alta: 90% delas realizam atividades domésticas ante 46% dos homens. O quadro desigual contribui para a perpetuação de estereótipos e para a sobrecarga de trabalho feminino.

De uma forma ou de outra. todo o trabalho doméstico recai exclusivamente sobre a mulher […] Mas se entre os trabalhadores às vezes ocorre do marido ajudar a esposa com o trabalho doméstico, nas assim chamadas famílias da intelligentsia, por mais desprovidas que sejam, o homem nunca participa desse serviço. deixando que a esposa faça suas “coisas de mulher” da maneira como ela sabe.

Todas essas conversas sobre a mulher ser “naturalmente predestinada” à execução dos afazeres domésticos são bobagens semelhantes ao discurso que, na época, os donos de escravos faziam sobre estes serem “naturalmente predestinados” à condição de escravos.

Nadiéja K. Krúpskaia, Deve-se ensinar “coisas de mulher” aos meninos?, 1909

Aborto

A polêmica questão da interrupção da gravidez já era central para algumas feministas do início do século 20. A prática do aborto era difundida na Rússia, apesar da rigorosa proibição legal contra o mesmo.

Uma carta enviada na primavera de 1920 ao comissário da Saúde relatava a realidade em uma fábrica de trabalhadoras jovens: “Nos últimos seis meses, das 100 a 150 jovens com menos de 25 anos de idade, vi de 15% a 20% delas praticarem aborto sem ajuda médica. Elas simplesmente usam produtos caseiros: bebem alvejante e outras misturas venenosas”, dizia a carta, transcrita no livro Mulher, Estado e Revolução (Boitempo), de Wendy Goldman.

A Rússia Soviética foi o primeiro país a legalizar o aborto, em 1920. A legislação foi, no entanto, revertida em 1936 e a interrupção da gravidez foi novamente proibida.

Manifestação a favor da legalização do aborto
Manifestação a favor da legalização do aborto em 2017

No Brasil, atualmente está em discussão no STF uma proposta de legalização do aborto até a 12ª semana de gravidez. Estima-se que, aos 40 anos, uma em cada cinco brasileiras já tenha praticado pelo menos um aborto. Para a OMS, leis mais restritivas, além de não reduzirem a prática, levam mulheres a buscar procedimentos ilegais e inseguros.

A luta contra o aborto não deve consistir na perseguição das mulheres, que muitas vezes arriscam a própria vida ao abortar. Tal esforço deve ser direcionado para a eliminação das causas sociais que colocam a mãe em uma situação em que, para ela, só resta abortar ou afogar-se. Enquanto essas circunstâncias gerais não forem extintas, as mulheres continuarão abortando, não importa quão cruéis sejam os castigos sofridos por ela.

Nadiéja K. Krúpskaia, Guerra e Maternidade, 1920

Mulheres são “frágeis” 

Durante as discussões do movimento sufragista nos Estados Unidos no século 19, a feminista negra e abolicionista Sojourner Truth (1797- 1883) enfrentou a argumentação masculina de que a fragilidade das mulheres seria um empecilho para a concessão do voto feminino.

Sojourner Truth
Sojourner Truth: ‘Eu não sou uma mulher?’

Em seu poderoso discurso “Eu não sou uma mulher?”, proferido em 1851, Soujourner, que nasceu sob a escravidão, questionou a lógica do “sexo frágil” e demandou direitos iguais para todas as mulheres, incluindo as negras.

Pesquisadoras como Angela Davis apontam, no livro Mulheres, Raça e Classe (Boitempo) para o racismo e a dificuldade das primeiras sufragista nos Estados Unidos em contemplar as demandas das mulheres negras em seu movimento.

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam.

Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços!

Arei a terra, plantei, enchi os celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! Não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem – quando eu conseguia comida – e aguentava o chicote da mesma forma! Não sou eu uma mulher? 

Discurso de Sojouner Truth, em uma convenção de mulheres em 1851

Feminismo é um movimento contra os homens?

Um dos maiores mitos a respeito do feminismo é que se trata de um movimento que busca a superioridade das mulheres em relação aos homens. Na verdade, trata-se de um movimento com muitas vertentes, mas que, de forma geral, busca a igualdade entre homens e mulheres.

Em 1907, Anna A. Kalmánovicht já buscava desconstruir essa narrativa:

“Conscientemente ou por falta de familiaridade com o assunto, os opositores e as opositoras do movimento de libertação das mulheres o imaginam como uma luta direcionada contra os homens, em geral compreendendo o feminismo como algum tipo de motim armado, uma guerra de amazonas”

Anna A. Kalmánovicht, Algumas Palavras sobre o feminismo, 1907

As mulheres que protagonizaram a Revolução Russa e se tornaram invisíveis para a História

do Huff Post Brasil

por Andréa Martinelli

Há 100 anos Nadiéjda Krúpskaia, Aleksandra Kollontai e Inessa Armand e tantas outras protagonizaram uma revolução.

Manifestação das mulheres pelas ruas de Petrogrado, capital da Rússia, em 1917.

“Quem foram elas? Indivíduos? Não, uma massa, dezenas, centenas de milhares de heroínas anônimas que caminharam lado a lado com operários e camponeses em nome da bandeira vermelha, com o lema dos sovietes, através das ruínas do odioso passado religioso e tsarista em direção a um novo futuro”

(Aleksandra Kollontai, 1927).

Invisibilidade. Apagamento histórico. Anonimato.

Estas três palavras podem definir o grande fardo que as mulheres russas Aleksandra Kollontai, Nadiéjda Krúpskaia, Inessa Armand, Elena Dimítrievna Stássova, Klavdia Nikolaeva e tantas outras carregaram ao longo da História.

Em 1917, elas faziam parte das defensoras do terço da população trabalhadora da Rússia, que era composto apenas por mulheres. Mulheres estas que encabeçaram uma revolução radical no país, ao lutar por direitos e enfrentar um sistema de dominação que culminou com a Revolução Russa.

Mas não é possível conhecer estas mulheres ou descobrir sua visão sobre a “grande revolução” nos livros.

“No caso específico das Revoluções Russas [de Fevereiro e Outubro de 1917], a participação e importância das mulheres foi, por questões políticas, pela dominação masculina, suprimida, ignorada, começando a ser pesquisada e explicitada em estudos mais tardiamente na própria Rússia e, no Brasil, foi pouco traduzida e analisada”, explica Graziela Schneider, que estuda há mais de 20 anos a cultura russa e é organizadora do livro A Revolução das Mulheres: Emancipação feminina na Rússia soviética, lançado neste mês pela editora Boitempo.

Há exatos 100 anos, com o pedido latente por igualdade, pão, paz e terra, foi pelas mãos delas que nasceu uma revolução.

O livro é uma coletânea de 40 artigos de 11 mulheres russas sobre feminismo, prostituição, trabalho, luta de classes, família, leis e religião, no contexto de uma época em que o mundo via o crescimento de uma das maiores agitações sociais e políticas: a Revolução Russa de 1917.

Selecionados e organizados por Graziela, que estuda a cultura russa há cerca de 20 anos e dedicou os três últimos às figuras políticas femininas da Rússia e suas reivindicações, os textos são em sua maior parte inéditos e trazem uma breve biografia de cada uma das autoras.

A publicação ainda guarda um fator simbólico e pragmático: foi um trabalho inteiramente de mulheres desde a organização, tradução, edição, revisão, diagramação e design de capa.

“O principal papel desse livro é retomar o protagonismo das mulheres na Revolução de Fevereiro. De 1917 até 1930 nós tivemos um avanço nunca visto nos direitos das mulheres. Em 1920, a União Soviética foi o primeiro país a legalizar o aborto. É impressionante que algo que aconteceu há 100 anos seja algo tão fora dos nossos horizontes atualmente”, explica Daniela Lima, escritora que assina o prefácio da publicação.

Protagonismo e invisibilidade

DIVULGAÇÃO

A revolução já vinha se desenhando em datas anteriores, mas foi em 8 de março de 1917 que uma manifestação reuniu, na Rússia, mais de 90 mil mulheres contra o czar Nicolau II e a participação do país na Primeira Guerra Mundial, o que provocou um entusiasmo nacional e culminou com a chamada Revolução de Outubro.

“As mulheres russas lutaram em condições extremamente precárias, de fome e miséria; foram décadas de lutas, com a criação de organizações e periódicos/publicações, a realização de reuniões, a participação em eventos e manifestações, a partir de várias frentes, operárias, camponesas, revolucionárias”, conta Graziela.

E por mais que o papel das mulheres e seu significado permaneça para além do tempo no resultado de suas lutas, elas se tornaram invisíveis para a História durante muito tempo.

“Esse é o meu principal ponto e uma das maiores questões do livro: dar voz às mulheres; deixar as mulheres e suas expressões ‘aparecerem’. Elas sempre foram pensadas, retratadas, lidas, analisadas por homens. Sempre me perguntei como era possível não haver publicações de mulheres – nesse caso, russas – e sempre pensei: elas escreviam! Elas sempre escreveram! Só não eram publicadas.”

Na Rússia do início do século 20, a vida dos 6 milhões de proletárias não tinha luz nem esperança; sua existência era repleta de fome, dificuldades e humilhações. O turno de trabalho de 12 horas (ou, no menor do casos, 11), o miserável salário de 12 a 15 rublos por mês, o cotidiano nos quartéis superlotados, a ausência de qualquer ajuda por parte do Estado ou da sociedade no caso de doença, gravidez ou desempregoAlekssandra Kollontai, em A história do movimento das trabalhadoras na Rússia

Segundo a pesquisadora da USP na área de Literatura e Cultura Russa, os escritos das mulheres russas estão sendo cada vez mais descobertos a partir de pesquisas de outras mulheres interessadas em conhecer e dar visibilidade a um olhar não hegemônico da História da humanidade, como o livro Uma Antologia Improvável – A Escrita das Mulheres (Séculos XVI a XVIII), organizado por Vanda Anastácio.

“Há pouquíssimos textos de mulheres russas e soviéticas publicados no Brasil e também não há livros ou coletâneas de fontes escritas por mulheres russas, com exceção da Kollontai (até agora apenas em tradução indireta); na realidade, não há muitas compilações do gênero inclusive no exterior e na própria Rússia.”

A chamada Revolução Russa começou com elas e vai muito além de Lenin, Trotsky e outros atores políticos que ganharam notoriedade e se perpetuaram como símbolos históricos.

“Não é que a História não tenha sido contada, mas foi contada do ponto de vista hegemônico, masculino. – o livro explicita não apenas a participação das mulheres na política, mas principalmente demonstrar o protagonismo de seus pensamentos, expressões e ações em vários movimentos revolucionários, e sua principal questão é que a mulher não é somente uma participante na história, mas ela faz e narra a história do ponto de vista feminino.”

De 1917 direto para 2017

RICARDO MORAES / REUTERS

“Está na hora, finalmente, de compreender que o movimento feminista não tem como objetivo a luta contra o sexo masculino, mas sim está direcionado à organização das mulheres, à mobilização daquela metade da população que está inerte para o combate dos preconceitos, independentemente de quem seja o agente deles.”

O trecho acima poderia facilmente ter sido escrito por uma mulher, feminista, em 2017. Mas quem leva a assinatura por ele é a russa Anna Andréievna Kalmánovitch. Em 1907, ela já usava a palavra “feminismo” e a colocou no título de seu texto, batizado de Algumas palavras sobre o feminismo.

“As raízes do ou dos feminismos na Rússia remontam a meados do século XIX. Então, pode-ser dizer que o feminismo russo é extremamente peculiar, difere-se do feminismo ocidental, que, no contexto do liberalismo, reivindicava a igualdade de direitos em relação aos homens, mas sem buscar uma modificação dos padrões sociais; já na Rússia e na URSS a verdadeira transmutação da mulher e de seus papéis e costumes era fundamental”, explica Graziela.

Para a especialista, é importante ter em mente que o feminismo na Rússia se apresenta de uma forma particular, específica, como se as russas tivessem “sido feministas desde o século 18, mas sem essa denominação”.

“Muitas questões [de 1917 para cá] não foram e estão longe de ser resolvidas (como a legalização do aborto, a cultura do estupro etc), outras sequer melhoradas (como a divisão de tarefas, a igualdade de salários); sabe-se, por exemplo, que as mais atingidas por condições precárias de trabalho, pela fome, pelas consequências das guerras – no Brasil e no mundo – são as mulheres; além disso, objetificação das mulheres é perpetuada e os índices de violência doméstica e feminicídio continuam entre os mais altos do mundo.”

Os contextos e épocas são diferentes, mas o texto de Kalmánovitch e de tantas outras mulheres da época permanecem atuais. Na Rússia de 1900, as mulheres lutavam por igualdade no mercado de trabalho, uma nova possibilidade de organização social da família, em que o homem participa de uma forma mais ativa; além do direito ao aborto e da liberdade sobre os próprios corpos.

Trazer a público e colocar em pauta a luta das mulheres russas, segundo as especialistas, é uma forma de reconstruir a História e de exemplificar que lutas atuais por direitos pertencem a um cenário que se constrói através dos tempos. E não pode ser apagado.

“Muitas coisas que parecem inalcançáveis no mundo atual já foram feitas por outras mulheres. Existem problemas que são colocados hoje como impossíveis de resolver, por exemplo, a igualdade de gênero no trabalho ou a legalização do aborto. A Rússia legalizou o aborto em 1920, por exemplo”, exemplifica Daniela Lima.

Para ela, “conhecendo as mulheres russas, saímos da utopia. É preciso olhar para o presente, revisitando o passado. Pensar sobre as que vieram antes de nós e no que elas já conseguiram mudar. Faz parte do sistema de dominação acreditar que um mundo mais igualitário é impossível”.

Conheça as “principais soldadas invisíveis” da Revolução Russa:

Aleksandra Kollontai

Alexandra Kollontai foi a primeira mulher a ocupar um cargo junto ao alto escalão do governo russo, foi protagonista ao unir as mulheres russas para lutar por seus direitos desde antes do histórico ano de 1917 e já naquela época concebia a problemática feminina como uma questão social, expondo a ligação direta entre exploração e opressão da mulher (tanto no mercado de trabalho quanto no âmbito familiar) e o regime capitalista. Ela se destacou, principalmente, durante o regime de transição socialista iniciado com a Revolução Russa de 1917.

Kollontai ainda fazia parte do conselho editorial da publicação russa intitulada Trabalhadora ao lado de Nadiéjda Krúpskaia e Inessa Armand que tinha como objetivo educar as trabalhadoras para a consciência política e restaurar os interesses comuns de cada uma com o resto da classe trabalhadora não só na Rússia, como no mundo todo.

Em 1926, em sua autobiografia batizada de Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente antecipada, ela escreveu:

“Mas, no fim das contas, havia ainda a tarefa infinda de libertação das mulheres. As mulheres, é claro, tinham recebido todos os direitos, mas na prática viviam ainda sob a velha opressão: sem autoridade na vida familiar, escravizadas por mil tarefas domésticas, carregando todo o fardo da maternidade, mesmo os cuidados materiais, porque agora muitas delas conheciam a vida desacompanhada, em consequência da guerra e das outras circunstâncias.”

Com esta ideia, Kollontai faz uma tentativa de repensar a estrutura das relações sociais tanto no âmbito privado, quanto no âmbito externo, em uma sociedade de exploradores e explorados. Para ela, homens e mulheres deveriam pensar por si mesmos para além do jugo capitalista.

Além do livro citado acima, Kollontai é autora de numerosos artigos de temática política, econômica e feminista.

Nadiéjda Krúpskaia

 

É, inclusive, por causa de um texto de Kollontai, traduzido pela primeira vez para o livro A revolução das mulheres – emancipação feminina na Rússia soviética, que é possível conhecer melhor o papel de Nadezhda Konstantinovna “Nadya” Krupskaya e outras mulheres que lutaram no front da revolução.

Com um nome impactante, Krupskaya, segundo Kollontai, tinha uma presença forte e, ao mesmo tempo, sutil:

“O modesto vestido cinza e seu costumeiro esforço por permanecer à sombra, entrar na sala de reunião sem ser percebida, sentar-se atrás de uma coluna. Mas ela mesma vê, ouve e observa tudo para transmitir a Vladimir Ilitch, acrescentar comentários precisos e buscar um pensamento racional, correto e necessário.”

O Vladimir a que Kollontai se refere é Vladimir Lenin, marido de Krupskaya. Ela continua:

“Mas ela [Krupskaya] trabalhou incessantemente, foi o braço direito de Vladimir Ilitch e às vezes fazia nas reuniões do partido uma observação curta, mas de peso. Nos momentos mais difíceis e perigosos, nos dias em que muitos camaradas fortes perdiam o ânimo e começavam a ter dúvidas, Nadiêjda Konstantínovna se mantinha igualmente convicta, confiante da justeza do trabalho iniciado e com fé na vitória.

Kollontai ainda afirma que “ela irradiava uma crença inabalável, e essa firmeza de espírito, oculta sob rara discrição, sempre encorajava a todos que se juntavam aos companheiros de armas do grande criador de Outubro”.

Em 1936, Krupskaya foi uma das mulheres que, como membro do governo Russo, defendeu que as restrições impostas ao aborto pelo governo soviético naquele ano deveriam ser derrubadas. Em um contexto de revolução, a Russia descriminalizou o aborto em 1920.

Ela também escreveu o livro mais detalhado sobre a vida de Lenin, Memories of Lenin (Memórias de Lenin, em tradução livre).

Inessa Armand

Inessa Fyodorovna Armand é uma peça chave na hora de falar dessas personagens. Ela nasceu na França, mas morou na Rússia grande parte de sua vida. Com o papel de trabalhar no partido na organização da revolução de Outubro, ela trouxe ideias criativas principalmente na hora de pensar em ações práticas entre as mulheres.

Em seu texto, Kollontai afirma que ela era “inexorável em suas convicções e sabia se manter firme naquilo que considerava correto, mesmo quando se tratava de fortes opositores”:

“Apesar de toda sua feminilidade e delicadeza no tratamento com as pessoas, Inessa Armand era inexorável em suas convicções e sabia se manter firme naquilo que considerava correto, mesmo quando se tratava de opositores bastante fortes. Após os dias de Outubro, ela dedicou sua energia à construção de um amplo movimento de mulheres trabalhadoras. As assembleias de delegados são sua cria.”

Apesar de Armand ser uma figura importante no movimento comunista russo pré-revolucionário e nos primeiros dias da era comunista, sua história foi apagada e invisibilizada durante muito tempo. Isso não só por causa de sua militância, mas também por seu relacionamento com Lenin. Alguns arquivos históricos remontam que, durante o tempo que foi casado com Krupskaya, Lenin teve um romance com Armand e que ela foi uma peça chave em sua vida política e crescimento político.

Elena Dimítrievna Stássova

A russa Elena Stássova, segundo Kollontai, tinha muitas responsabilidades no partido mas “se algum camarada estivesse necessitado ou sofrendo naqueles dias turbulentos, ela respondia de forma breve, até seca, e fazia o que era possível”.

Em seu texto, a escritora e militante russa ainda afirma que Stássova “vivia atolada de trabalho, mas sempre a postos” e que não gostava de ir para a linha de frente nos protestos. Aparentemente, não gostava de ser vista.

“O grande e amado trabalho do comunismo, motivo pelo qual esteve no exílio, contraiu doenças nas prisões tsaristas… Na lida, era forte como um sílex, de aço. E, para a infelicidade dos camaradas, tinha a sensibilidade e a empatia que só as mulheres de grande alma têm”, finaliza Kollontai.

Klavdia Nikolaeva

Segundo o texto de Alexandra Kollontai, Klavdia Nikolaeva era uma trabalhadora das mais dedicadas, chamadas popularmente de “chão de fábrica”, dos estratos mais baixos. Ainda em 1908, nos anos da reação, juntou-se aos bolcheviques. Ela escreve:

“Ainda jovem, era toda impulsividade e impaciência. Mas segurava firme a bandeira. E dizia com coragem: É preciso trazer as mulheres trabalhadoras, soldadas e camponesas para o partido. Ao trabalho, mulheres! Em defesa dos sovietes e do comunismo. Quando discursava nas reuniões ainda ficava nervosa, não tinha autoconfiança, mas fascinava a todos. É uma das que carregaram sobre os ombros toda a dificuldade de estabelecer os fundamentos para o engajamento amplo e massivo das mulheres na revolução, que lutou em duas frentes: por um lado, pelos sovietes e o comunismo e, por outro, pela emancipação da mulher.

 

A verdade vai sendo desenterrada no grande sertão

Da Rede Brasil Atual

Mais que investigar crimes da ditadura, Comissão da Verdade do Grande Sertão, no norte de Minas Gerais, irá às origens das injustiças fundiárias e ajudará povos tradicionais a retomar o seu lugar
sertao
Sertanejo no São Francisco; Comissão da Verdade do Grande Sertão abrange um centro e norte de Minas e Jequitinhonha

Tiros na boca da noite. Em 1967, um grupo de camponeses no sertão mineiro resolveu resistir e lutar pela terra. Seis foram assassinados. “A gente só queria trabalhar, tudo trabalhador”, conta Ursulino Pereira Lima, o seu Sula, hoje com 94 anos. Além dele, restam poucos para narrar os fatos do episódio que ficou conhecido como o Massacre dos Posseiros de Cachoeirinha, em Verdelândia, norte de Minas Gerais. O velho Jadé de Paula, estirado na cama, com câncer de estômago, quer falar, mas só lhe sai uma palavra por vez – o que cabe em uma tragada de ar. Tinha polícia fardada lá? “Muita.” Jadé morreria dois dias depois de conversar com a reportagem, em 3 de setembro. Mas sua história está agarrada. Enraizou.

FOTOS: ANA MENDES/RBAsula e jadé
Seu Sula, sobrevivente do Massacre de Cachoerinha. E Jadé de Paula, que morreria dois dias depois de conversar com a reportagem

Em meio à luta no campo, Jadé e Íris tiveram filhos. Antônio de Paula, de 60 anos, é um deles. Antônio, por sua vez, conheceu Dinalva, e mesmo sob condições adversas tiveram Gustavo. Gustavo Prates Santos tem hoje 25 anos e está com uma bala alojada perto do pulmão. Isso porque com o seu pai e 180 famílias ele reivindica o território quilombola Nativos do Arapuim, que está sobreposto às terras de um latifundiário, nas cercanias da região em que seu avô lutou há mais de 50 anos. O percurso individual desses três homens é representativo do próprio fluxo da história, cíclico. A linha do tempo, que atravessa essas gerações, não é reta, crescente e irrepetível, ela é helicoidal. Infelizmente, a história se repete. E, no caso da questão agrária brasileira, é uma espiral de violência.

Em 2016, a Comissão da Verdade do Grande Sertão, sediada em Montes Claros, começará a trabalhar. Entre os assuntos a serem pesquisados estão os casos de violações no campo. Em nível nacional, ainda é bastante incipiente a organização dessas informações. No final de 2014, a Comissão Camponesa da Verdade (CCV) lançou o primeiro relatório apontando cerca de mil casos, mas sabe-se que há muitos mais.

Sobre a questão indígena, quem se encarregou de concentrar os dados foi a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Nesse aspecto, já existem alguns avanços – o maior foi a anistia dada a 13 indígenas Akeiwara, conhecidos também como Suruí do Pará. Eles passaram a receber indenizações em 2014, pois no período ditatorial foram coagidos a trabalhar para os militares na caçada aos guerrilheiros que se escondiam na região do Araguaia e entorno.

Uma população indígena inteira agonizou durante a famosa Guerrilha do Araguaia. Quem sabe disso? As histórias começam a vir à tona sob um ponto de vista marcadamente incomum, o lavrador rural, por vezes analfabeto, o ribeirinho, o indígena e o quilombola querem contar o que viveram, eles também precisam desenredar os fios da memória.

Entender o momento

É por isso que a comissão que se configura no sertão mineiro, descentralizada dos grandes centros urbanos, vai ajudar a avançar no desenho de um panorama nacional. Algumas histórias já muito conhecidas na região, como o Massacre dos Posseiros de Cachoeirinha (que começou em 1967 e se arrastou por anos – a terra foi homologada apenas em 2014) e o caso de Saluzinho, também em 1967, o posseiro que resistiu durante seis dias dentro de uma gruta, serão revistos. E outras mais aparecerão. É no que acredita Cícero Lima, presidente da Associação Vazanteiros em Movimento: “Nós achamos que essa é a oportunidade de ajudar. Queremos descobrir outros casos para minimizar o que o aconteceu e o que vai acontecer. Sabemos que não há condições de parar (as violações), mas ao menos o povo tá sabendo que existe”.

Revisitar essas e outras histórias ocorridas na época da ditadura tem esse teor: entender o momento atual. “A gente tenta tirar o peso do revanchismo, mas tem sim um acerto de contas histórico a ser feito”, diz a advogada Maria Tereza Carvalho, uma das coordenadoras da Comissão da Verdade do Grande Sertão. A política de distribuição de terra da ditadura, dita reforma agrária, criou latifúndios Brasil afora, e em Minas Gerais não foi diferente. “Se a gente tem hoje fazendeiro dentro de área quilombola, fazendeiro dentro de terra indígena e posseiros que foram expulsos das suas terras, esse período, que compreende os anos 60 e 70, foi essencial pra isso”, explica.

O programa de governo da época, aparentemente, era até “progressista”. Prometia distribuir terras devolutas para pequenos agricultores. Na prática, não foi nada disso. As populações tradicionais e os camponeses pobres viram-se coagidas a entregar sua casa a troco de nada à elite latifundiária. Em Rondônia, no Pará e em outros tantos estados foi assim. A Minas Gerais chegaram ainda levas de gaúchos, financiados pela Fundação Rural Mineira para plantar soja.

RBADaniel
Daniel, filho de Saluzinho, que resistiu, em 1967, ao cerco da ditadura, e de Dulce, torturada enquanto o pai estava preso

Daniel Gomes Ferreira, 47 anos, é o filho mais novo de Saluzinho. A história de seu pai ficou famosa: Salustiano Gomes Ferreira permaneceu vivo escondido em uma pequena gruta durante quase uma semana, em 1967, sem dormir e sem comer, enquanto a polícia jogava bombas de gás e todo tipo de explosivo lá dentro. Ele deu apenas quatro tiros e só saiu quando lhe deram a garantia de que não o matariam. Dizem que o cheiro de gás que exalava de seu corpo causou náusea ao médico que o esperava, na boca da gruta, para prestar atendimento.

Saluzinho passou cerca de quatro anos encarcerado como preso político no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de Belo Horizonte. Durante esse período aprendeu a ler um pouco mais e ampliou sua noção sobre direitos humanos. Antes, ele era um posseiro valente e indignado. “Era difícil naquele tempo falar em direito, pobre não tinha direito. Hoje, graças a Deus, nós estamos aqui falando com vocês. Isso é uma honra. Naquele tempo não tinha isso, era bala, cadeia e porrete”, diz Daniel. A história de seu pai tornou-se livro, Saluzinho, Luta e Martírio de um Bravo, escrito (2014, Editora D’Placido) pelo jornalista mineiro Leonardo Alvares da Silva Campos, que traz um apanhado de recortes de jornais com diversas versões sobre o ocorrido.

Essa história já foi fartamente contada – Saluzinho viveu até 2007. Ele mesmo pôde narrar os fatos. Ainda assim, Daniel é um verdadeiro achado da Comissão da Verdade do Grande Sertão, porque ele quer virar o holofote para a história da mulher de Saluzinho, sua mãe. Enquanto o marido estava preso, Dulce Gonçalves de Araújo definhava. Morreu alguns meses depois, em decorrência de torturas. A mesma polícia que lutava na gruta contra Salu pendurou-a de cabeça pra baixo, nua, queimou o bico dos seus seios e introduziu galhos de árvore em seu ânus.

Depois de tudo isso, a alma da mulher adoeceu. O corpo logo se entregou também. Daniel era muito pequeno, mas lembra. “Eu lembro de minha mãe como um sonho. Ela era muito calada, não era de muitas palavras.” Daniel não é mais o menino de 4 anos que perdera a mãe, mas os olhos marejam como se fosse. Revirar as poucas lembranças que tem é uma missão, desde que seu irmão morrera, há cerca de quatro meses. “Se eu não for atrás disso, nunca vou saber o que aconteceu. Eu sou o último. Se eu não falar, a história vai morrer comigo.” Quando é questionado sobre o local do túmulo de Dulce, Daniel tem os olhos verdes inundados outra vez. “Não sei.”

Retomadas

FOTOS: ANA MENDES/RBAacampamento
Acampamento Mãe Romana, lutas de um passado que não passa, vidas de um futuro que sempre está por vir

Os acampamentos Mãe Romana, em Matias Cardoso, e Santa Fé, em São João da Ponte, são dois exemplos do que está acontecendo aos montes hoje no sertão mineiro. São as chamadas retomadas. Grupo de populações tradicionais estão retomando para si o local de onde foram expulsos os seus parentes durante os anos 1960 e 1970. Quilombolas, vazanteiros, geraizeiros e outros povos tradicionais estão ocupando fazendas em busca de permanecer no território ancestral. O momento é de ebulição.

“Quando fazemos os relatórios antropológicos entramos nessas fazendas e eles vão apontando ‘aqui tá enterrado fulano’, ‘aqui acontecia tal coisa’, então, fazemos o levantamento do que chamamos de marcos de territorialidade. A historicidade está marcada no espaço que eles ocupavam e que foi expropriado nos anos 60 e 70. Em decorrência de estarem próximos aos seus territórios, ao se reconhecerem no artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias, nos artigos 215/216 da Constituição, esse pessoal partiu pra luta”, relata o antropólogo e professor da Universidade Estadual de Montes Claros, João Batista Almeida Costa, também pesquisador da Comissão da Verdade.

Território para eles não é sinônimo de terra. Território é aquele pedaço de chão em que viveram avós e bisavós, aquele cantinho onde Mãe Piana fez o parto de mais de 2 mil crianças. A terra é consequência. Na terra se planta e colhe, no território brotam histórias. E lá se quer ficar. Porque a memória é algo que nem a mais torpe das ditaduras poderá usurpar.

Afirmação e pertencimento

O antropólogo João Batista Almeida Costa, professor da Universidade Estadual de Montes Claros e pesquisador da Comissão da Verdade do Grande Sertão, fala sobre a “construção política da identidade”.

ANA MENDES/RBAjoao batista

João Batista: historicamente populações vêm lutando por seus espaços territoriais



A Comissão da Verdade do Grande Sertão pretende dar conta desse lugar, o grande sertão. Que território é esse?
A dimensão administrativa do estado não recobre toda a área que temos contato, isto é, a área de pessoas que estão vinculadas à comissão, pessoas dos movimentos sociais locais. Então, a comissão entrará, além do norte de Minas, no noroeste e também no Vale do Jequitinhonha. Decorrente dessa “quebra” administrativa, como então nomear a comissão? Todos nós somos leitores de João Guimarães Rosa, e exatamente quando ele fala de grande sertão, se refere a essa região. Se a gente for cartografar o Grande Sertão de Guimarães, no trecho de Minas Gerais, é exatamente essa área de atuação: um pedaço do centro, o norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha. Riobaldo, no seu périplo, nasce no centro, vai pro norte, pro Jequitinhonha e ao final pro noroeste.

Seu trabalho é uma referência para quem quer falar de populações tradicionais do norte de Minas Gerais. Qual vai ser a importância da Comissão para a questão das violações no campo, junto a esses povos?
A Comissão Nacional e a Estadual, quando olham para a realidade, não conseguem recobrir todas as situações. Aqui, o exemplo de Cachoeirinha veio à tona (nos relatórios dessas comissões), mas não a utilização da estrutura repressiva do Estado como aliada no processo de expropriação territorial. Isso ocorreu em todo o país, aqui não seria exceção. Até a entrada do norte de Minas na área de atuação da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), a grande maioria das terras era devoluta, o tipo de sistema produtivo era a criação extensiva de gado solto. Gado solto na chapada, nos vales e que só era campeado anualmente no período próximo à parição das vacas. Nesse momento se aproveitava para fazer vacinação. O gado criado solto era reconhecido porque era marcado com o ferro de cada proprietário. E não havia cercas impedindo a terra, tanto que tem uma marcha que diz “êta, mundão sem cancela”. O gado transitava por esse mundão e os vaqueiros em busca dele passavam léguas e léguas, grandes distâncias, campeando. A partir da entrada na Sudene, a terra passa a ter valor econômico. Ao mesmo tempo, há o financiamento da transformação da fazenda em empresa agropecuária. Isso se dissemina. Com o apoio explícito do estado, por meio da Ruralminas (Fundação Rural de Minas) e com o apoio velado, por meio das polícias Militar e Civil e do Dops, as elites (médicos, dentistas, advogados, fazendeiros, comerciantes, professores, pessoal da emergência local) com bandos de jagunços foram terra adentro – terras de quilombos, terras dessas populações.

E sobre os casos de Saluzinho e do massacre dos posseiros de Cachoerinha?
Saluzinho morava no território que hoje pertence a Brejo dos Crioulos (quilombo). Em 1920, um agrimensor que é chamado por um fazendeiro de São João da Ponte para processar a divisão de duas fazendas, a Arapuá e a Ouro Preto. Eles adotaram, então, a seguinte estratégia: criam faixas de terras pras pessoas que viviam ali e entre essas faixas de terras põem glebas, deram o nome de Glebas de Ausentes. Nos anos 1960, quando começa o processo de afazendamento da elite regional, esses agrimensores vão vender essas glebas. O caso de Cachoeirinha é clássico nesse sentido. Vendem ao coronel Giorgino umas glebas de terra e a Constantino outras. O bando de jagunço, então, começava a pressionar as pessoas a vender as terras. Como eles não conseguem, começam a pôr fogo nas plantações, a matar e roubar o gado. O caso de Cachoeirinha é esse, e o de Saluzinho também. Houve então a revolta de Cachoeirinha em perder a terra, e Saluzinho age isoladamente. Desse jeito, eles conseguiam tomar as terras das pessoas, com violência extrema.

Brejo dos Crioulos hoje é um quilombo.
Cachoeirinha também é historicamente um quilombo.
Só que naquele momento a figura de quilombo ainda não tinha sido “inventada” pela Constituição.

Como foi a incorporação dessas leis entre os povos tradicionais e o que isso tem a ver com os atuais processos de retomada?
Historicamente, essas populações vêm lutando pela permanência em seus espaços territoriais desde o processo de expropriação dos anos 60 e 70. Quando trabalhei na Secretaria de Trabalho do Estado como técnico de desenvolvimento rural, viajava a diversas regiões, e a grande reivindicação dessas populações sempre foi a permanência no espaço territorial deles. Para conseguir isso, já “foram” trabalhador rural sem-terra, agricultor, pequeno proprietário, posseiro. Mas quando se dissemina na região a informação de que havia, no caso dos quilombos, um artigo na Constituição dizendo que o Estado deveria regularizar as suas terras imediatamente, mais de 80 comunidades no norte de Minas, em um espaço de três anos, vão se autoafirmar como quilombo e reivindicar a regularização fundiária. E as outras populações que estão em conflito, na luta contra eucalipto, fazendeiro e mineração, ao tomar conhecimento de que no artigo 215/216 diz que o Estado deve garantir a manutenção do modo de fazer, de viver, de pensar e de criar dos grupos formadores da nacionalidade brasileira demandam então uma assessoria (antropológica) para conseguir a permanência em seus territórios. Aí entra o caso dos vazanteiros, dos geraizeiros, caatingueiros, veredeiros e outros.

É impressionante ver a quantidade de retomadas que há no norte de Minas. Parece similar com o que fizeram os povos indígenas nos anos 80, quando começaram a voltar para os seus territórios sob essa mesma justificativa, a ancestralidade. É isso que está acontecendo com os quilombolas?
Na verdade, eles não saíram. Tem uma categoria que a gente utiliza que é a do “encurralamento”. Eles foram expulsos de suas terras, mas havia sempre uma Terra de Santo nas proximidades. Eles se deslocam pra essas Terras de Santo e permanecem trabalhando. Isso é inclusive uma estratégia dos fazendeiros, porque, então, você tem mão de obra barata pra o trabalho na fazenda. Você tem no entorno da fazenda uma comunidade rural negra. No caso do Vale do Verde Grande, que a gente chama de Território Negro da Jaíba, tem 82 comunidades que se reconhecem como quilombola. E ficam situadas entre fazendas, em pequenas áreas de terra, um hectare, dois, três. Sendo que toda a terra em volta foi pertencente às famílias deles. Quando fazemos os relatórios antropológicos entramos nessas fazendas e eles vão apontando “aqui tá enterrado fulano”, “aqui acontecia tal coisa”, então, fazemos o levantamento do que chamamos de marcos de territorialidade. A historicidade está marcada no espaço que eles ocupavam e que foi expropriada nos anos 60 e 70. Em decorrência de estar próximos aos seus territórios, ao se reconhecer no artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias, artigos 215/216 da Constituição, esse pessoal partiu pra luta. O que emerge? A construção política de uma identidade. Se afirmam como vazanteiro, veredeiro, quilombola, apanhador de flor, revisitando o passado pela memória do grupo pra afirmar o seu pertencimento a esse espaço. Isso tem acontecido muito.

 

A agonia do “Estado de Minas”

Do Tijolaco

De Chatô a Aécio, a longa agonia do “Estado de Minas”, por Ângela Carrato

chato

Para quem completou ontem 38 anos desde que sentou pela primeira vez a escrever numa redação de jornal, em O Globo,  ver morrer um jornal não é uma novidade, mas é sempre uma tristeza. Trabalhei em dois que se foram –Ultima Hora e Tribuna da Imprensa e vi o velhoJB encolher o tamanho das folhas até desaparecer do papel e o Jornal dos Sports, que a gurizada do colégio disputava para ver as tiras do Henfil e, depois, o resultado dos concursos da Escola Técnica Federal e do vestibular da Cesgranrio, suando frio até encontrar o nome lá.

Anteontem, publiquei aqui as histórias doDiário de Notícias e as ideias nem sempre tão loucas de Jânio Quadros, depois a morte do jornal, narradas pelo eterno professor de milhares de jornalistas, Nílson Lage. Pelas mãos dele chega a mim, hoje, outro precioso relado da morte – ainda não de todo morrida – de outro grande jornal, O Estado de Minas, feito pela jornalista – e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG – Ângela Carrato.

Hoje, os jornalistas fizeram nova manifestação na porta da empresa, na esperança d receberem o décimo-terceiro salário. A crise atinge boa parte do que sobrou dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand em Minas, Brasília e Rio de Janeiro. Em apoio a eles, sem pedir licença, reproduzo o texto de Ângela, publicada na página do Estação Liberdade, projeto que ela mantém no Facebook com o jornalista Geraldo Elísio Lopes.

O amigo do Aécio e a pá
de cal nos Diários Associados

Ângela Carrato

Álvaro Teixeira da Costa, o principal dirigente dos Diários e Emissoras Associados em Minas Gerais, tinha razão. Se Aécio Neves e os tucanos não vencessem as eleições de 2014, as coisas iriam ficar feias para a empresa. Certo disso fez sua parte. Além da linha editorial chapa branca dos veículos do grupo – jornais Estado de Minas e Aqui, TV Alterosa e portal Uai – ter exaltado o PSDB e combatido sem trégua o PT e seus apoiadores, valendo-se de tudo quanto é esquema sujo, ele próprio se superou. Transformou uma das dependências da TV Alterosa em Comitê Tucano, usou a intranet para convocar funcionários a participar de atos de campanha pró-Aécio na em2Praça da Liberdade, pressionou e coagiu quem não rezasse por sua cartilha, além dele próprio ter estado presente ao ato.


Segundo consta, Álvaro foi o segundo a abraçar Aécio no palanque, logo após o dirigente estadual do PSDB. A situação se repediu meses depois, quando em plena manifestação contra a presidente reeleita, Dilma Rousseff, também na Praça da Liberdade, o dirigente Associado disputou, quase a tapa, o privilégio de ser o primeiro a abraçar Aécio. Mas, igual ao seu candidato, ficou em segundo lugar.

Tamanho empenho se explica: os 12 anos de governos tucanos em Minas Gerais foram determinantes para garantir uma razoável sobrevida ao grupo. Sem o dinheiro público injetado mensalmente na empresa pelos tucanos, dos quais não faltam acusações de prover de negócios escusos com a comercialização do nióbio de Araxá, o descalabro administrativo há muito seria do conhecimento público.

SALÁRIO ATRASADO E TRUCULÊNCIAS
Fartos de todo tipo de pressão e enganação, os funcionários dos Associados denunciaram ao Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais que a empresa não tinha pago o 13º salário. A denúncia se somava a outras protagonizadas pela empresa em 2015: atrasos no pagamento de férias, tickets refeição, plano de saúde e nos depósitos do FGTS. Antes de decidirem pela paralisação, por 24 horas, na segunda-feira (28), os funcionários tentaram todo tipo de negociação. Não conseguiram quase nada. Receberam apenas 25% do salário devido e não têm data para receber o restante. A empresa se recusa a dialogar e tem se valido de truculência para tentar dissuadir as manifestações.

Pelo que se sabe, a crise nos Associados é muito mais ampla do que alguns imaginavam. O prédio da avenida Getúlio Vargas, em Belo Horizonte, devido a complicações com o extinto Banco Rural, está indisponível. O imóvel onde funciona a TV Alterosa, na avenida que leva o nome de Assis Chateaubriand, fundador do grupo, já foi vendido e a emissora em breve terá que desocupá-lo. A maioria dos bancos e financeiras se nega a fazer qualquer empréstimo ao grupo e o governo não é mais o do Aécio, para pagar a conta do descalabro administrativo dos herdeiros do que restou do império de Chateaubriand.

A credibilidade, principal ativo em qualquer empresa de mídia, também está em baixa nos Associados. As tiragens do Estado de Minas e do tablóide Aqui há muito vem minguando, com os anunciantes igualmente abandonando o barco. O parque gráfico da empresa, que chegou a ser o maior e mais moderno de Minas Gerais, hoje perde feio para o do concorrente O Tempo. Mas se os tucanos tivessem vencido as eleições, nada disso seria problema.

em1ROUBALHEIRA E PRIVILÉGIOS
Já na década de 1950, o jornalista Samuel Wainer, fundador da Última Hora, um dos mais ácidos críticos de Assis Chateaubriand, dizia que os Associados viviam permanentemente com buracos no caixa. Mais ainda: enfatizava que os dirigentes Associados caracterizavam-se pela roubalheira e privilégios enquanto os funcionários iam de mal a pior. O segredo para tanto era o puxa-saquismo aos poderosos de plantão, o achaque e a perseguição aos adversários e inimigos e a falta permanente de escrúpulos. Receita que os herdeiros de Chateaubriand em Minas Gerais seguiram à risca.

Em 1964, os dirigentes dos Associados em Minas não foram apenas apoiadores do golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart. Foram conspiradores de primeira hora. Tornaram-se tristemente célebres as reuniões entre políticos e empresários no edifício Acaiaca, no centro de Belo Horizonte, onde, na época funcionava a principal emissora de televisão do grupo, a Itacolomi.

Uma vez no poder, os dirigentes dos Associados perseguiram seus concorrentes na mídia – entre 1964 e 1970, quase uma dezena de jornais foram fechados ou fecharam em Belo Horizonte – além de terem pedido a prisão de centenas de jornalistas, intelectuais, sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda. Esta, aliás, é uma das razões para o êxodo de jornalistas mineiros nas décadas seguintes ao golpe. É também uma das principais razões para a péssima qualidade, com as raríssimas exceções que se conhece, que passou a caracterizar o que sobrou da imprensa mineira de então.

Hegemônico durante a década de 1970, os desejos dos Associados foram prontamente atendidos pelos governadores biônicos da Arena, o partido de apoio à ditadura. O último deles, Francelino Pereira, bancou a construção do novo parque gráfico da empresa, que funciona na avenida Mem de Sá. Os Associados não pagaram. Francelino não cobrou e ficou por isso mesmo.

em4APOIO DE AURELIANO E FRANCELINO
Tancredo Neves, o avó do Aécio, nos dois anos em que esteve à frente do governo de Minas (1983-1985) também fez vistas grossas para a dívida, mais interessado que estava em chegar à presidência da República. Hélio Garcia, que assumiu o governo com sua renúncia para disputar o Colégio Eleitoral, chegou a estabelecer os termos da negociação: a dívida seria paga através de publicidade nos veículos do grupo. Igualmente não funcionou. Até porque o assessor especial de Garcia era ninguém menos do que o filho de um dos dirigentes dos Associados.

A dívida foi parar no Tribunal de Contas do Estado (TCE), mantida, claro, a sete chaves. Quando da briga política entre o governador Newton Cardoso (PMDB) e os Associados, em 1987, Newton foi alertado por assessores que poderia através dela dar um xeque-mate na empresa que fazia aberta campanha de difamação contra ele. Na época, Newton chegou a entrar em negociações com Gilberto Chateaubriand, que se julgava herdeiro do grupo, com o objetivo de comprá-lo. Mas a Justiça frustrou Gilberto Chateaubriand, ficando Newton Cardoso apenas com um percentual de cotas condominiais.

Quanto à dívida, preferiu também dar tempo ao tempo. Da parte dos Associados, o que garantiu sua sobrevivência na época, longe dos cofres públicos de Minas Gerais, foi o apoio publicitário que recebeu dos então ministro das Minas e Energia, Aureliano Chaves, e do vice-presidente do Banco do Brasil, Francelino Pereira, sem os quais certamente teria encerrado suas atividades.

“SE A RUA GOIÁS NÃO DEU, NÃO ACONTECEU”
Newton foi sucedido por Hélio Garcia que novamente não só fez vista grossa para a dívida dos Associados, como lhe garantiu régia publicidade. Se a empresa tivesse um mínimo de seriedade, teria aproveitado o momento para se reorganizar. Mas não. Os dirigentes continuaram levando vida de nababos, com a empresa e os funcionários no vermelho. A arrogância era tamanha que a frase mais repetida pelos dirigentes dos Associados, diante da mais leve crítica, era: “se a rua Goiás não deu, não aconteceu”. Rua Goiás era onde funcionava a sede da empresa, antes de se mudar em 2000, para o moderno e amplo prédio, agora indisponível.

No governo de Eduardo Azeredo, recentemente condenado a 20 anos de prisão pela atuação no Mensalão Tucano, os Associados voltaram aos “bons tempos”, mandando e desmandando em Minas Gerais. Convencidos como os próprios tucanos, que Azeredo seria reeleito, tiveram que amargar a vitória de Itamar Franco (PMDB). Fato que explica a permanente indisposição da empresa contra Itamar que respondeu reduzindo substancialmente a publicidade oficial para o grupo.

Diante da intransigência de Itamar, os Associados se valiam das verbas do amigo tucano Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República, que nunca mediu esforços para destruir o seu criador político. Contavam também, desde aquela época, com o apoio do neto do Tancredo que à frente da Câmara dos Deputados, colocou-se à disposição para resolver os problemas envolvendo buracos no caixa da mídia brasileira, vide a aprovação da PEC que permitiu a presença de capital estrangeiro no setor, medida até então vedada pela Constituição.

PAGAMENTO FIXO GARANTIA FLUXO DE CAIXA
Tão logo assumiu o governo de Minas, Aécio se transformou em “amigo de infância” dos dirigentes Associados. Almoços, jantares, noitadas e, obviamente favores, privilégios e publicidade farta sempre estiveram presentes no cardápio destes encontros. Um pagamento fixo chegou a ser estabelecido para garantir o fluxo de caixa da empresa, que o maquiava através de cadernos e publicações especiais. No Aécio governador nunca se viu, nem de longe, a mais leve sombra de mágoa com o que os Associados fizeram com seu avó, quando candidato ao governo de Minas. Para quem era muito jovem naquela época, basta lembrar que qualquer informação sobre a campanha de Tancredo nas páginas dos Associados só era publicada se fosse paga e, mesmo assim, a peso de ouro.

em5Como uma mão lava a outra, os Associados proibiram qualquer crítica, por mais leve que fosse, aos governos de Aécio Neves e de seu sucessor, Antônio Anastasia. Razão pela qual os mineiros não ficaram sabendo dos abusos, desmandos e descalabros cometidos pelos tucanos. Abusos que começam com o acobertamento do pai dos Mensalões no Brasil, denunciado em 2007, passam pela privatização da Cemig, através da empreiteira Andrade Gutierrez, envolve a construção da Cidade Administrativa – uma obra que consumiu mais de R$ 2 bilhões aos cofres públicos -, a entrega dos recursos minerais do Estado às empresas estrangeiras e culmina com a quebra do próprio Estado de Minas Gerais, com um rombo de mais de R$ 7 bilhões nas contas públicas. Isto sem falar em centenas de obras paradas, no desmantelamento das áreas da saúde e educação, na contratação, sem concurso, de quase 100 mil funcionários, além da demissão e perseguição de professores e na prisão de jornalista que não rezava pela cartilha aecista.

Num primeiro momento, os Associados, como a maioria da mídia tradicional brasileira, tentou jogar nas costas da presidente Dilma Rousseff a responsabilidade pela má situação financeira em que se encontra. Pediu auxílio aqui e acolá e foi atendido. Em várias oportunidades, o concorrente O Tempo, do empresário Vittorio Mediolli, autorizou que a sua empresa, a Sempre Editora, emprestasse papel para que o ex-grande jornal dos mineiros não deixasse de circular. Mediolli, inclusive, esteve perto de comprar o Estado de Minas, mas teria desistido da transação, pelo que se sabe, no momento em que Álvaro Teixeira da Costa tentou se incluir no pacote.

SILÊNCIO CÚMPLICE
Também no meio acadêmico mineiro, onde se imagina que domine o livre pensar, a influência dos Associados sempre esteve presente. Lá, o que prevaleceu, todos estes anos, com as exceções de praxe, foi um silêncio cúmplice, quando não oportunista por parte de professores e alguns autointitulados pesquisadores, eternos candidatos e candidatas a intelectuais provincianos.

A única razão para se lamentar a situação a que os Associados chegaram é o sofrimento e a insegurança que centenas de funcionários e suas famílias estão experimentando. Fora isso, é no mínimo ridículo argumentar que o jornal Estado de Minas, por exemplo, constitua um patrimônio a ser preservado. Que patrimônio é esse que sempre trabalhou contra os interesses da maioria da população de Minas e do Brasil? Que patrimônio é esse que sempre esteve ao lado dos golpistas (do passado e de hoje) e caracteriza-se pelo desrespeito permanente aos seus funcionários e aos cidadãos?

Para cúmulo da ironia, quando a direção dos Associados aciona, como fez nesta terça-feira (29) o batalhão de choque da Polícia Militar para intimidar funcionários em greve que reclamam pacificamente os seus direitos trabalhistas, das telas dos cinemas em Belo Horizonte, Chatô, em cartaz, contempla o que pode ser o capítulo final do império que criou.

Como toda crise oferece também oportunidades, está na hora dos funcionários dos Associados aproveitarem a reunião intermediada pelo Ministério do Trabalho, marcada para esta quarta-feira (30), para exigir transparência e conhecer qual é realmente a situação da empresa. Só a partir daí, poderão pensar em soluções cabíveis para receberem o que lhes é devido.

A intermediação é fundamental, porque a atual direção dos Associados não mais reúne condições para seguir dando as cartas, pois ela é o problema. Fora isso, as alternativas não são nada animadoras: tapar o sol com a peneira ou continuar capengando à espera que Aécio ou alguém do seu quilate seja eleito e restaure os “anos dourados”. Pelo visto, quem fizer tal aposta vai esperar sentado.

 

Globo e as idas e vindas frente ao golpe – Vamos descomemorar

Do VioMundo

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por Luiz Carlos Azenha

O locutor anuncia que a Globo, ao comemorar seus 50 anos, vai mostrar “cenas de novelas proibidas pela ditadura”. Existe aí um avanço: a Globo chamou a ditadura de “ditadura”. É muito diferente dos antigos programas do repórter Amaral Neto — também conhecido como Amoral Nato –, se não me engano aos domingos de manhã.

Neles, ao longo do que agora se tornou “ditadura”, o “governo” fazia milagres — propagados para todo o Brasil pela Globo.

Não faz muito tempo as Organizações Globo admitiram que foi um erro apoiar o golpe de 64. Mais recentemente, no Jornal Nacional, admitiram que na cobertura da campanha das Diretas, nos anos 80, a emissora enfatizou o aniversário de São Paulo num dia em que milhares de pessoas se reuniram na praça da Sé para pedir eleições diretas para presidente.

Sobre o episódio, escrevi no Facebook parafraseando a atriz Kate Lyra, que popularizou a frase fazendo humor na própria Globo:

BRASILEIRO É TÃO BONZINHO…

Os telespectadores do Jornal Nacional estão se desmanchando pelo fato de que a Globo fez mea culpa sobre o episódio das Diretas, admitindo que enfatizou o aniversário de São Paulo quando se tratava de uma gigantesca manifestação por eleições. As pessoas acham lindo quando repórteres com os quais desfrutam de uma intimidade televisiva de décadas recontam a História da emissora com toques de sinceridade, como este. O fato é que por baixo da forma atraente se esconde, de novo, uma grande mentira. O problema não foi APENAS a Globo ter chamado a manifestação das Diretas em São Paulo falando do aniversário da cidade. O fato PRINCIPAL é que a Globo desconheceu completamente todos os comícios anteriores, com milhares de pessoas em várias cidades do Brasil. Isso não é um “erro”, mas um crime jornalístico pelo qual a emissora deveria pedir desculpas sinceras aos telespectadores. Mas, circunscrever os fatos históricos, para vender deles a versão mais palatável para a emissora, na Globo tornou-se uma forma de arte. Não deixa de ser outra forma de manipulação de incautos.

Pois é disso que se trata. A contrição marqueteira da Globo permite à emissora apresentar o “outro lado”, segundo o qual ela foi vítima da ditadura. Na censura às novelas, por exemplo.

Isso permite encobrir o essencial e historicamente verdadeiro: houve uma simbiose entre a Globo e a ditadura militar. Roberto Marinho foi promotor e beneficiário da ditadura. Ainda em 1984, ou seja, mais de 20 anos depois do golpe, escreveu:

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Mas a Globo aposta na desinformação dos mais jovens, que não viveram sob a ditadura, nem acompanharam pessoalmente o comportamento da Globo ao longo da História.

A eles, dedico minhas lembranças dos anos 60 e 70, em Bauru, no interior de São Paulo.

Era o tempo em que a Globo ainda estava em expansão. As imagens da emissora não chegavam a todo o Brasil via satélite. Um coronel do Exército, se não me engano de nome Amazonas, era o encarregado de implantar as torres rebatedoras que transmitiam o sinal da Globo cidade a cidade.

Havia clamor público, na época, por um sinal limpo de TV, já que era irritante ver fantasmas ou as imagens tremidas que nos chegavam, quando chegavam. Era comum que prefeitos da época se propusessem a resolver o problema, em busca de votos.

Havia outras emissoras, mas o sinal da Globo era o mais desejado. A emissora tinha herdado boa parte do elenco da Excelsior, cujo dono Mário Wallace Simonsen vinha sendo escorraçado pelos militares, por não ter apoiado o golpe tanto quanto Marinho.

Era projeto do “governo” — segundo a Globo, que hoje chama de “ditadura” –, por uma questão de segurança nacional, interligar todo o Brasil numa única rede de telecomunicações. E a Globo vinha na esteira da Embratel, a empresa estatal.

Como funcionava o esquema? As prefeituras doavam terrenos, num primeiro momento à Embratel. As torres eram espetadas com dinheiro público. Mas o sinal que carregavam era privado! Foi assim o parto de um telejornal de alcance nacional, o JN!

Já então, um caso de apropriação do público pelo privado. Um caso de simbiose entre um regime e um empresário, que em troca ofereceu uma cobertura jornalística amigável à ditadura, com programas como o de Amaral Neto.

Essa é uma História que a Globo não vai contar em seu especial de 50 anos.