O conflito na Síria e a Segunda Guerra Fria

Da Carta Capital

O desfecho do conflito sírio, que envolve EUA, China e Rússia, será importante para definir o que virá pela frente no século XXI

 

Civil abandona área de Aleppo, na Síria
Sírios abandonam área controlada por rebeldes em Aleppo durante a tentativa de retomada da cidade pelas forças sírias na terça 13

Por Ricardo Alemão Abreu

Com o recente avanço das forças militares sírias e seus aliados na batalha contra o Estado Islâmico e outros grupos fundamentalistas e mercenários em Aleppo, surge uma forte tendência de vitória do atual governo sírio e de seus aliados nesse prolongado conflito que envolve interesses dos EUA e das potências europeias, de um lado, e mais diretamente interesses da Rússia e do Irã, mas também da China, de outro.

Depois do início das revoltas árabes, em 2011, segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, em seu livro A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos – das rebeliões da Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio, o motivo principal da intervenção dos Estados Unidos da América (EUA) e das potências europeias no Oriente Médio e na região do Magreb seria o controle do Mar Mediterrâneo e a contenção e isolamento do Irã, além de evitar a presença da Rússia, e ainda da China, nessa região.

Diferente do caso da agressão militar à Líbia, quando a Rússia e a China se abstiveram e não utilizaram o seu direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, e assim não tensionaram o equilíbrio de poder, desta feita no caso da Síria, os dois países tiveram outra posição.

Moniz Bandeira, o maior analista de relações internacionais brasileiro da atualidade, descreve e analisa o que se passou na preparação da agressão multinacional à Síria, que se deu paralelamente ao incitamento de conflitos internos no país árabe.

Os EUA e potências ocidentais como a França e a Inglaterra, aliados a outros países da região, se empenham, desde os preparativos feitos para o conflito, para derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad.

O papel específico do Catar e da Arábia Saudita consiste no financiamento e na mobilização de mercenários, além do abastecimento de armas para que esses grupos, como o Estado Islâmico, lutem contra as forças armadas e contra o regime sírio.

Uma intensa campanha de mídia e de guerra psicológica, como a realizada contra o governo de Kadafi na Líbia, foi feita para influenciar a opinião pública, na Síria e no mundo, contra o governo de Bashar al-Assad, e para criar um ambiente para a aprovação, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, de uma resolução que permitisse aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha e à França usarem a Otan para bombardear a Síria, como fizeram na Líbia.

No entanto, o plano esbarrou na posição da Rússia e da China. Moniz Bandeira relata que as propostas de resolução contra a Síria, apresentadas pelas potências ocidentais em 4 de outubro de 2011, e em 4 de fevereiro de 2012 no Conselho de Segurança da ONU, foram vetadas pela Rússia e pela China, que, com esses vetos deixaram claro que não abririam mão de sua presença na região, nem facilitariam os planos dos EUA e das potências europeias de alterar o equilíbrio regional de forças e de dominar completamente o Mar Mediterrâneo.

Meses depois, durante o ano de 2013, a Rússia foi além, realizou movimentos diplomáticos e militares, e não permitiu que a Otan bombardeasse a Síria com mísseis Tomahawk, a partir de navios localizados no Mediterrâneo, e o chanceler russo Sergey Lavrov liderou uma saída diplomática.

O conflito na Síria, porém, continuou.

A tentativa de contenção da Rússia, que vem recuperando parte da autonomia nacional e regional que tinha no período da União Soviética, fica muito evidente no conflito que envolve a Síria.

A Rússia, desde o período soviético, tem duas bases navais na Síria, em Tartus e Latakia. Moniz Bandeira sustenta que os EUA nunca aceitaram a presença militar da União Soviética, e depois da Rússia, no Mediterrâneo, por isso seu intento de derrubar o governo de Bashar al-Asssad, e depois pressionar o eventual novo governo para que as bases navais russas na Síria desapareçam.

A China tinha investimentos em petróleo na Líbia, e ampliava a cooperação econômica com o país de posição privilegiada no Mediterrâneo. Com as agressões à Líbia e à Síria, também são objetivos dos EUA e seus aliados da Otan a contenção da China e do Irã nas regiões do Oriente Médio e norte da África. O Irã, desde o início se aliou ao governo sírio e se envolveu militarmente no conflito.

Por isso tudo, para Moniz Bandeira, o conflito na Síria é na verdade uma guerra pelo controle do Mar Mediterrâneo, que é uma região de grande relevância geopolítica e geoestratégica, e essa guerra faz parte de um conflito maior, mas não declarado, que ele denomina a Segunda Guerra Fria.

Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, em discurso na ONU, dia 27 de setembro de 2014, criticou duramente os EUA ressaltando que “Washington declarou abertamente seu direito ao uso unilateral de força militar onde bem entenda, para fazer avançar seus próprios interesses”, citando as agressões militares no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, entre outras.

No conflito da Síria os interesses da Rússia, da China do Irã convergiram, e ao mesmo tempo conflitaram com os dos EUA. Não parece que China, Rússia e Irã, com esses movimentos conjuntos e alianças entre eles, deliberadamente querem confrontar-se com os EUA ou desafiar a supremacia do chamado Ocidente.

Fuga em massa de Aleppo – não é ficção…

Pelo contrário, evitam isso ao máximo, mas não deixam de defender seus interesses nacionais e estratégicos, dentro dos princípios da Carta da ONU. Isso já é demais e inaceitável para os EUA e as potências ocidentais.

A aliança, que se verifica no caso do conflito na Síria, entre Rússia, China e Irã, para defender os interesses comuns desses países frente aos EUA e as potências europeias, é de fato estratégica e duradoura?

Segundo Joseph Nye, em seu livro Compreender os Conflitos Internacionais: uma introdução à Teoria e à História, em sistemas internacionais “multipolares ou de poder disperso”, as alianças entre os estados são mais flexíveis, e as chances de guerra são menores que em sistemas internacionais bipolares e mais rígidos.

Em sistemas de bipolaridade, são maiores as chances de um conflito mais alargado ou mesmo em escala global. As futuras relações entre os EUA, China, Rússia e Irã – o seu grau de flexibilidade ou de enrijecimento, e se prevalecerá a cooperação ou o conflito entre esses países –, dirão muito sobre a ordem mundial futura.

Na verdade, são os EUA que retomam, para buscar defender a sua hegemonia mundial e tentar relançar o seu status de única superpotência global, elementos de sua estratégia imperialista utilizada durante a Guerra Fria contra a União Soviética e seus aliados de então.

Resta saber como se comportarão agora os EUA em sua política externa a partir de janeiro de 2017, com a posse do novo governo de Donald Trump.
O desfecho do conflito na Síria será importante para definir o que virá pela frente neste século XXI.

* Ricardo Alemão Abreu é Mestre pelo PROLAM/USP, diretor do Instituto de Estudos Contemporâneos e Cooperação Internacional (IECInt) e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

 

Trump e o enigma chinês

Da Carta Capital

por Delfim Neto

É imperdoável demonizar o país oriental pelos maus resultados da globalização

Globalização
Globalização: em 2015, líderes de países definem acordos

Conta a lenda que Paul Samuelson, grande economista do século XX, desafiado numa reunião de cientistas a apresentar uma proposição não evidente da teoria econômica, respondeu: a teoria das vantagens comparativas, exposta por David Ricardo em 1817. Mas o que significa “vantagens comparativas”? Para entendê-la, suponhamos dois náufragos numa ilha, John e Manuel. Experimentando, John descobriu que, se durante um dia se dedicasse à pesca, conseguiria, em média, 12 peixes e, se colhesse frutos, recolheria 4 cocos. Manuel, em um dia, pescava, em média, 10 peixes e, quanto aos cocos, recolheria 8.

Cada um precisa de uma dieta de peixe e coco. Se dividissem ao meio o seu dia, John comeria 6 peixes e 2 cocos e Manuel comeria 5 peixes e 4 cocos.

Mas John, que tinha alguma familiaridade com relações, percebeu que no tempo necessário para pescar um peixe recolheria um terço de um coco. Se Manuel sacrificasse a pesca de um peixe, recolheria quatro quintos de um coco. Manuel tinha uma “vantagem relativa” sobre ele na colheita de cocos. Não foi muito difícil convencê-lo a concentrar-se na colheita de cocos, enquanto ele se concentraria na pesca. Produziriam, então, conjuntamente, 12 peixes e 8 cocos que, divididos “igualmente” (esta é uma hipótese sempre esquecida), levariam à nova situação: John comeria 6 peixes e 4 cocos e Manuel comeria 6 peixes e 4 cocos, melhor para os dois.

A explicação é simples: o custo de oportunidade, isto é, quantos cocos é possível colher sacrificando um peixe, é de um terço para John e quatro quintos para Manuel. A cooperação entre os dois é a essência da teoria das vantagens comparativas. Trata-se da generalização dessa verdade física: os países especializariam-se na produção dos bens nos quais têm “vantagem comparativa”. A cooperação entre eles, isto é, a liberdade de comércio, melhora a situação (a disponibilidade de bens) de todos.

O problema é que John não é a Inglaterra, nem Manuel é Portugal! A generalização acima envolve outra hipótese implícita. No caso dos dois indivíduos, eles continuaram ocupando o mesmo tempo, faziam as duas atividades e apenas mudaram a ênfase em cada uma delas. Mantiveram-se plenamente empregados, sem maiores inconvenientes!

A especialização de cada país exigida pela liberdade de comércio e o consequente aumento do bem-estar geral que produzirá levará tempo e exigirá sacrifícios para materializar-se. Implicará a transferência, às vezes até locacional, da força de trabalho de outras atividades para aquelas em que ele revelou suas “vantagens comparativas”.

No médio prazo, significa desemprego e graves inconvenientes para segmentos específicos da população. Isso exige políticas públicas adequadas que lhes deem suporte, até que encontrem acomodação no futuro, quando eles (ou seus filhos ou netos!) colherem os benefícios produzidos pela globalização apoiada nas “vantagens comparativas”.

Quando os “perdedores” são empoderados pelo sufrágio universal e podem se defender nas urnas, como acontece nas democracias, a ausência de tais políticas pode tornar a rápida e descuidada globalização politicamente inaceitável, como está ocorrendo hoje em quase todas as democracias do Ocidente.

A sua última manifestação foi a trágica eleição de Trump nos EUA. Isso não tem nada a ver com “direita” ou “esquerda”, ou com “luta de classe”, como sugerem fanáticos prisioneiros de arcaicas visões do mundo. Tem a ver com a insensibilidade do poder político conquistado nos EUA e na Inglaterra no início dos anos 80 do século passado, apoiado numa perversão do liberalismo econômico que acreditou na mágica dos “mercados perfeitos”.

É imperdoável demonizar a China pelos maus resultados da globalização. Ela manipulou com inteligência e grande sucesso o governo dos EUA desde 1980, quando recebeu dele a condição de “nação mais favorecida”, denominada na lei americana Permanent Normal Trade Relations, que até o ano 2000 tinha de ser aprovada anualmente pelo Congresso.

É preciso lembrar o patético discurso do presidente Bill Clinton reproduzido pelo New York Times de 9 de março de 2000, quando sugeriu ao Congresso a aprovação definitiva da condição de PNTR às relações com a China porque a sua entrada na OMC seria um “xeque de rainha” no jogo do comércio entre os dois países.

A única dúvida de Clinton era se a China seria “o próximo tigre capitalista com o maior mercado do mundo, ou o último grande dragão comunista e uma ameaça à estabilidade da Ásia”. Hoje sabemos que é os dois! Não menos trágico é deixar de reconhecer que a China não é e, provavelmente, nem será, no horizonte visível, uma “economia de mercado”, o que torna ridículo acreditar que seu sucesso se deveu às vantagens comparativas. 

Maconha, a grande vencedora das eleições americanas

Da Carta Capital

por Débora Melo

California
Americanos celebram a aprovação do uso recreativo de maconha na Califórnia

Com o ‘sim’ de Califórnia, Massachusetts, Nevada e Maine, 63 milhões de americanos vivem hoje em locais onde uso recreativo da erva é legal

Na mesma eleição que deu a vitória a Donald Trump e mergulhou os Estados Unidos no desconhecido, norte-americanos de oito Estados deram sinal verde para a legalização da maconha. Califórnia, Massachusetts, Nevada e Maine autorizaram o uso recreativo da erva, algo que já era realidade na capital e nos Estados do Colorado, Oregon, Washington e Alasca

Com isso, mais de 63 milhões de norte-americanos (20% da população) vivem agora em Estados onde o uso recreativo de cannabisé legal para maiores de 21 anos. Dos que levaram o tema a referendo, apenas o Arizona rejeitou a proposta. Quanto ao uso medicinal, eleitores de Flórida, Arkansas, Montana e Dakota do Norte disseram “sim” à legalização, que hoje alcança 29 dos 50 Estados do país.

“Isso representa uma vitória monumental para o movimento da reforma da maconha. Com a liderança da Califórnia, o fim da proibição se aproxima rapidamente no país e até mesmo no mundo”, disse em um comunicado Ethan Nadelmann, diretor-executivo da Drug Policy Alliance, organização sem fins lucrativos que defende o fim da guerra às drogas.

A Califórnia foi pioneira em legalizar o uso medicinal da maconha nos EUA, em 1996. O Estado, o mais populoso e mais rico do país, faz fronteira com o México e tem potencial para impactar o debate sobre drogas em toda a América Latina.

De acordo com projeções do Arcview Group, companhia que faz a ponte entre investidores e empresas de cannabis, o mercado regulado de maconha movimenta 6,8 bilhões de dólares por ano nos EUA e, com a adesão da Califórnia no segmento recreativo, em quatro anos esse valor deverá saltar para 22 bilhões.

A proposta aprovada por 56% dos californianos permite que cidadãos com mais de 21 anos portem até uma onça (equivalente a 28 gramas) de maconha para uso pessoal, mas o consumo em locais públicos não será permitido. Também foi autorizado o cultivo de até seis plantas por residência.

As licenças para lojas, os chamados dispensários, deverão ser emitidas a partir de janeiro de 2017, e a previsão é que as vendas para uso recreativo sejam liberadas no segundo semestre ou apenas em 2018.

Os recursos obtidos com o comércio regular de cannabis na Califórnia serão destinados a estudos sobre maconha medicinal, pesquisas sobre as consequências de dirigir sob efeito da substância, campanhas de educação preventiva e estudos contra danos ambientais provocados pela produção em larga escala.

O avanço da onda verde na nação que é a maior patrocinadora da guerra às drogas foi detectado em pesquisa realizada em outubro pelo Instituto Gallup, segundo a qual 60% dos americanos defendiam a legalização do consumo de maconha, maior índice registrado em 47 anos. Em 1969, quando essa pergunta foi feita pela primeira vez, apenas 12% apoiavam a medida.

O contato com as experiências inovadoras do Colorado e de Washington a partir de 2012 pode ter contribuído com essa maior aceitação da cannabis pela população. Na Califórnia, por exemplo, a legalização do uso recreativo havia sido rejeitada duas vezes, em 1972 e em 2010.

“Essa é a primeira votação que se faz já conhecendo experiências de legalização. Os americanos sabem como foi no Colorado, então não é mais um tiro no escuro”, afirma Pedro Abramovay, diretor para a América Latina da Open Society Foundations, organização que financia pesquisas em diversos países e foi fundada pelo megainvestidor George Soros. “E lá funcionou. O Estado arrecadou centenas de milhares de dólares em impostos e o consumo de maconha não aumentou. O grande mito da discussão da regulação é o aumento do consumo”, continua.

Florida
A Flórida elegeu Trump e autorizou a maconha medicinal (Foto: Claudia Wizner/Alamy Stock Photo/Latinstock)

Para Abramovay, é essencial deixar claro que não se trata de liberação, mas de regulação. “As drogas são liberadas hoje, quem quer tem acesso livre às drogas. Não importa se é menor de idade, não importa se é rico ou se é pobre, é sempre muito fácil conseguir drogas. Mas as drogas não devem ser algo fácil de conseguir, não devem ter propaganda na televisão. É preciso ter um controle bastante rígido.”

Relatório publicado em outubro pela Drug Policy Alliance aponta que o consumo de maconha entre adolescentes não aumentou nos Estados que autorizaram o uso recreativo. O estudo cita, por exemplo, pesquisa realizada pelo Departamento de Saúde Pública do Colorado com 17 mil estudantes que indica ligeira queda no consumo em 2015.

Questionados sobre o uso de maconha nos 30 dias anteriores à pesquisa, 21,2% dos adolescentes afirmaram ter consumido a erva. Em 2009, três anos antes da legalização no Colorado, esse índice era de 25%. O mesmo levantamento apontou, ainda, que 43% dos estudantes admitiram ter usado cannabis pelo menos uma vez na vida em 2009, índice que baixou para 38% em 2015.

O relatório aponta, ainda, que o mercado formal de cannabis rendeu ao Colorado 129 milhões de dólares em impostos no último ano fiscal e que as prisões por posse, cultivo e distribuição irregular de maconha foram reduzidas pela metade. A legalização é frequentemente apontada por seus defensores como um instrumento capaz de corrigir injustiças contra as minorias, hoje muito mais suscetíveis a prisões e condenações por crimes de drogas.

Independentemente do que acontece em nível estadual, a cannabis continua ilegal no âmbito federal e está enquadrada na categoria reservada às drogas mais perigosas, conforme classificação do DEA (Drug Enforcement Administration), órgão responsável pela repressão e controle de narcóticos nos Estados Unidos.

Se em 2013 o governo Barack Obama anunciou que respeitava a decisão dos Estados sobre a legalização da maconha, os norte-americanos não sabem o que esperar de Donald Trump, que não se posicionou claramente sobre o tema durante a campanha eleitoral.

Embora tenha defendido a autonomia dos Estados e dado declarações favoráveis ao uso medicinal da erva, o republicano fez críticas à legalização do uso recreativo. À imprensa norte-americana, o diretor-executivo da Drug Policy Alliance resumiu o sentimento: “Ter Donald Trump como presidente me preocupa profundamente”, disse Nadelmann.

Brasil

O avanço da legalização da maconha nos EUA pode impulsionar o debate sobre a descriminalização do porte e consumo de maconha no Brasil. O julgamento do tema está parado desde setembro de 2015 no Supremo Tribunal Federal, quando o ministro Teori Zavascki pediu vista do processo (RE 635659). O placar, por enquanto, está 3 a 0 a favor descriminalização, com votos de Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin.

Para Abramovay, os ministros devem levar em conta as experiências bem sucedidas de outros países. “Acho que tudo isso influencia o debate. A ideia de que a criminalização é algo absolutamente ineficiente e que existem outros modelos permite uma discussão mais qualificada”, afirma.

No que diz respeito à classe política, porém, Abramovay não enxerga mudanças no curto prazo. “Ainda temos muita gente que ganha votos com a ideia de guerra às drogas, de semear o medo para colher repressão.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 927 de CartaCapital, com o título “O alento da erva”

 

Com a palavra, El Chapo

Da Rolling Stone

Uma visita secreta ao homem mais procurado do mundo

Sean Penn e El Chapo

por SEAN PENN
17 de Jan. de 2016 às 23:39

Alguns nomes foram trocados, locais ficaram sem identificação e ficou acordado com o entrevistado que o texto seria submetido a aprovação antes da publicação. Não foi solicitada nenhuma alteração.

“As leis da consciência, que fingimos derivar da natureza, procedem do hábito.” – Montaigne

Édia 28 de setembro de 2015. Minha cabeça está anuviada, organizando TracPhones, um por contato, um por dia, destruir, queimar, comprar, equilibrando níveis de criptografia, espelhando chamadas em Blackphones, endereços de e-mail anônimos, mensagens que não foram enviadas, acessadas em arquivos Draft. Trata-se de um show de horrores clandestino para o homem mais analfabeto que existe no planeta, do ponto de vista tecnológico. Aos 55 anos, eu nunca aprendi a usar um laptop. Ainda fabricam laptops? Não faço a menor ideia. São 16h. Mais um lindo dia de outono em Nova York. As ruas estão agitadas, com luzes e sirenes do movimento diplomático, chefes de Estado, representantes da ONU, homens do serviço secreto, policiais. Esta é a semana da Assembleia Geral da ONU. O papa Francisco deixou a cidade em polvorosa e partiu há dois dias. Estou no meu quarto no St. Regis Hotel com meu colega e companheiro, Espinoza.

Espinoza e eu viajamos por muitas estradas juntos, mas nenhuma tão imprevisível quando esta de que nos aproximamos agora. Espinoza é a coruja que voa entre falcões. Esteja ele no meio de uma favela, de uma floresta ou de um campo de batalha, sua elegância idiossincrática, seu sorriso maroto e seu charme discreto têm um jeito de desarmar qualquer ameaça. A cabeça careca dele exige que a sua atenção se volte aos olhos brilhantes. Ele é um homem fascinante e envolvente. Trocamos cochichos em código. Finalmente, um respiro da tecnologia cibernética que anda fritando o meu cérebro e a minha alma. Estamos no âmbito da quietude de paredes fortificadas que são a construção de um hotel antigo de Nova York, quando paredes eram paredes e era possível usar um telefone sem ter Ph.D. Traçamos nossos planos com calma, sensíveis ao paradoxo de que Enrique Peña Nieto, presidente do México, se encontra hospedado no mesmo hotel que nós. Espinoza e eu saímos do quarto para deixar o hotel, respirar o ar do outono e caminhar cinco quarteirões até um restaurante japonês onde vamos encontrar nosso camarada El Alto Garcia. Ao sairmos na rua 55, enfileiram-se no meio-fio diversas SUVs blindadas que vão transportar o presidente do México à Assembleia Geral. É mesmo um paradoxo, e um dos integrantes da equipe do presidente pede para fazer um selfie comigo. Um flash: eu e um operador de segurança mexicano de 1,80 metro de altura e brinco na orelha.

Um flash: por que isso é um paradoxo? Porque o México de hoje tem, efetivamente, dois presidentes. E, entre os dois, não é Peña Nieto que Espinoza e eu planejávamos ver enquanto conversávamos em código aos sussurros. Não foi ele que exigiu semanas de planejamento clandestino. Em vez dele, é um homem que tem mais ou menos a minha idade, apesar da ausência de qualquer cálculo humano que possa nos fornecer uma noção de qualidades compartilhadas entre nós dois. Aos 4 anos, em 1964, eu desenterrava tesouros imaginários, desnecessários, no quintal dos fundos da casa norte-americana de classe média dos meus pais enquanto ele desenhava à mão pesos [a moeda mexicana] de mentira que, se fossem reais, poderiam ser o único caminho para que ele e a família dele sonhassem para além da vida de agricultores. E enquanto eu surfava as ondas de Malibu aos 9 anos, ele já trabalhava nas plantações de maconha e papoula das montanhas remotas de Sinaloa, no México. Hoje, ele controla o maior cartel de drogas internacional que o mundo já conheceu, ultrapassando até o de Pablo Escobar. Ele compra e distribui, de acordo com algumas projeções, mais da metade de toda a cocaína, heroína, metanfetamina e maconha que entra nos Estados Unidos.

As pessoas o chamam de El Chapo. Ou “Baixinho”. Joaquín Archivaldo Guzmán Loera. O mesmo El Chapo Guzmán que, apenas dois meses antes, tinha humilhado o governo de Peña Nieto e deixado o mundo estupefato com sua fuga extraordinária da prisão de segurança máxima de Altiplano, por um túnel de mais de um quilômetro e meio de extensão e engenharia impecável.

Esta seria a segunda fuga da prisão do chefe do tráfico mais famigerado do mundo, sendo que a primeira ocorrera 13 anos antes, da prisão de Puente Grande, de onde saiu no meio dos lençóis sujos em um carrinho de lavanderia. Desde que ele entrou para o comércio de drogas na adolescência, Chapo foi subindo com rapidez na hierarquia, construindo uma reputação quase mítica: primeiro, como um homem pragmático e frio conhecido por dar um tiro na cabeça por qualquer erro cometido em um carregamento e, mais tarde, quando começou a estabelecer o cartel de Sinaloa, como uma figura no estilo Robin Hood que fornecia serviços essenciais nas montanhas de Sinaloa, financiando de tudo – de comida e estradas a auxílio médico. Quando fugiu pela segunda vez de uma prisão federal, já tinha se transformado em uma figura embrenhada no folclore mexicano.

Em 1989, El Chapo cavou a primeira passagem subterrânea por baixo da fronteira entre México e Estados Unidos, de Tijuana a San Diego, e foi pioneiro no uso de túneis para transportar produtos e escapar de ser capturado. Vou descobrir que os engenheiros já bem-sucedidos dele tinham sido levados para a Alemanha no ano passado para três meses de treinamento intensivo adicional, necessário para dar conta do lençol freático que passava por baixo da prisão. Um túnel equipado com uma motocicleta guiada por canos e com motor modificado para funcionar em um espaço com uma quantidade mínima de oxigênio, permitindo que El Chapo descesse por um buraco no piso do chuveiro de sua cela e caísse em cima do assento do veículo que iria levá-lo à liberdade. Era estepresidente do México que tinha concordado em conversar com a gente.

Não me orgulho de guardar segredos que podem ser vistos como proteção a criminosos, nem tenho qualquer arrogância exibicionista de posar para selfies com seguranças desavisados. Mas estou no meu ritmo. Tudo que digo a todo o mundo tem que ser verdade. Tão verdade quanto segmentado. A confiança que El Chapo nos estendeu não podia ser sacaneada. Esta seria a primeira entrevista que El Chapo daria fora de uma sala de interrogatório, fazendo com que eu não tivesse nenhum precedente por meio do qual medir os riscos. Eu tinha visto vídeos e fotos suficientes de inocentes, ativistas, jornalistas corajosos e também inimigos do cartel que tinham sido decapitados, explodidos, desmembrados ou cravejados de balas. Eu tinha total consciência de soldados e representantes do DEA (Drug Enforcement Administration, agência governamental norte-americana de luta contra as drogas) e de outros departamentos, tanto norte-americanos quanto mexicanos, que tinham perdido a vida por seguirem as diretrizes da Guerra Contra as Drogas. Das famílias dizimadas e das instituições corrompidas.

Eu me reconfortei um pouco com um aspecto único da reputação de El Chapo entre os chefões dos cartéis de drogas do México: de que, diferentemente de seus pares que executam sequestros e assassinatos sem motivo, El Chapo é um homem de negócios em primeiro lugar e só recorre à violência quando avalia que é vantajoso para ele e para seus interesses de negócios. Foi devido à força das estratégias aparentemente mais bem calculadas do cartel de Sinaloa (cujo rosto famoso é El Chapo, mas também inclui a liderança conjunta de Ismael “El Mayo” Zambada) que a organização passou a ter posição predominante entre os sindicatos do crime do México, estendendo-se muito além da região noroeste do país, com trajetos importantes em todas as principais áreas de fronteira entre os Estados Unidos e o México – Juarez, Mexicali, Tijuana, chegando até a Los Cabos.

Como cidadão norte-americano, sinto-me compelido a explorar as possíveis inconsistências entre o retrato que o meu governo e a mídia fazem de seus inimigos declarados. Desde Osama Bin Laden, não houve nenhuma perseguição a um fugitivo que tenha ocupado tanto espaço no imaginário do público. Mas, diferentemente de Bin Laden, que tinha representado a premissa ridícula de que a população inteira de um país se define por seus líderes – e, portanto, é cúmplice deles –, no caso do chefe do tráfico mais procurado do mundo, será que nós, o público americano, não somos cúmplices daquilo que demonizamos? Somos os consumidores e, neste papel, cúmplices de cada assassinato e de cada corrupção da capacidade de uma instituição de proteger a qualidade de vida dos cidadãos do México e dos Estados Unidos, algo que é resultado do nosso apetite insaciável por drogas ilícitas.

Tanto quanto qualquer outra coisa, é uma questão relativa de moralidade. O que dizer das dezenas de milhares de norte-americanos doentes e que sofrem com o vício em substâncias químicas, presos de modo bárbaro devido ao crime que é essa doença? Trancados em locais onde atos inenarráveis de desumanização e violência são inescapáveis e o assassinato é uma ameaça. Será que estamos dizendo que aquilo que é sistêmico na nossa cultura, e fora da nossa ação direta e das nossas vistas, não compartilha nenhuma equivalência moral às abominações que podem rivalizar com os assassinatos do narcotráfico em Juarez? Ou será que essa é uma distinção para os hipócritas passivos?

Há poucas dúvidas de que a Guerra Contra as Drogas fracassou: foram 27 mil homicídios relacionados às drogas no México em um único ano e o vício em opiáceos nos Estados Unidos só cresce. Por trabalhar no campo de emergências e desenvolvimento no Haiti, eu recebi incontáveis propostas de soluções teóricas para os problemas daquele país, sugeridas por agências que não conhecem a cultura nem as incongruências da realidade de lá. Talvez, na visão restrita da nossa cultura puritana e dada a processos que delinearam a Guerra Contra as Drogas, nós tenhamos, de maneira semelhante, perdido a prática de vista e entregado a alma à teoria. Ao custo de US$ 25 bilhões por ano, de dinheiro pago pelos contribuintes norte-americanos, as diretrizes desta guerra tiveram papel importante na morte de nossas crianças, na exaustão das nossas economias, na sobrecarga de nossos policiais e nossos tribunais, nos nossos gastos, na superpopulação das nossas cadeias e na ideia de manter as aparências. A luta de mais um dia está perdida. E com ela se perde qualquer visão possível de reforma ou de reconhecimento dos benefícios comprovados em tantos outros países, conquistados por meio da legalização regulada de drogas recreacionais.

Agora na rua 50, Espinoza e eu entramos no restaurante japonês. El Alto está sozinho em uma mesa em um canto tranquilo, embaixo de um ventilador de teto que gira devagar e espalha o cheiro de peixe cru. Ele é um homem grande, quieto e gracioso, que raramente fala em um volume mais alto do que o de um sussurro. Ele já me ajudou em muitas excursões anteriores. Conhece o mundo, tem boas conexões e é benquisto. Espinoza, falando em espanhol, coloca-o a par dos nossos planos e itinerário. El Alto escuta com atenção enquanto vai apertando as vagens de edamame, uma por uma, entre os dentes. Consideramos este encontro como o ponto em que não podemos mais desistir. Ou estávamos totalmente dentro ou abandonávamos a empreitada. Tínhamos pesado os riscos, mas eu me senti confiante e manifestei meu sentimento. Tinha me oferecido a experiências além do meu controle em diversos países em guerra, em meio ao terror, corrupção e desastre. Lugares em que o que pode dar errado vai dar errado, tinha dado errado e, no entanto, no fim, haviam me devolvido inteiro e com consciência mais profunda (embora ela não seja uma ciência exata) em relação às precauções disponíveis em meio a um cenário de caos.

Ficou combinado que eu iria a Los Angeles no dia seguinte para coordenar as coisas com nosso principal ponto de contato com El Chapo. Pedimos saquê e nos refestelamos com o tipo de humor de sala de operação talvez capaz de amenizar nossas preocupações imperfeitamente científicas. Do outro lado das janelas do restaurante, uma marcha de mexicanos-norte-americanos entoando gritos de guerra começou a desfilar em protesto contra o desrespeito do governo de Peña Nieto aos direitos humanos, por ter permitido que seu país de origem caísse nas mãos do regime do narcotráfico.

Em janeiro de 2012, a atriz mexicana de cinema e TV Kate del Castillo, famosa por interpretar uma chefe do tráfico na novela mexicana La Reina del Sur, usou o Twitter para expressar sua falta de confiança no governo mexicano. Afirmou que, no caso de precisar escolher confiar em governos ou cartéis, a confiança dela ficaria com El Chapo. E, naquele tweet, ela expressou um sonho, talvez um incentivo ao próprio El Chapo: “Senhor Chapo, não seria legal se o senhor começasse a traficar com amor? Com curas para as doenças, comida para as crianças de rua, álcool para as casas de repouso que não permitem que os idosos passem o resto de seus dias fazendo o que bem entenderem. Imagine traficar com políticos corruptos em vez de mulheres e crianças que acabam virando escravas. Por que você não queima todas aquelas casas de prostituição em que mulheres valem menos que um maço de cigarros? Sem oferta, não há demanda. Vamos lá! Você seria o herói dos heróis. Vamos traficar com amor. Você sabe como fazer isso. A vida é um negócio e a única coisa que muda é a mercadoria. Você não concorda?” Apesar de ter sido condenada por muitos, o sentimento de Kate é compartilhado por muita gente no México. Pode ser escutado nos narco corridos, tão famosos por todo o país. Mas a visão dela, diferentemente das romantizações folclóricas, é mais uma continuação do histórico de Kate de expressões corajosas e sonhos otimistas para seu país. Ela já tinha dado sua opinião sobre política, sexo e religião e está entre os espíritos independentes corajosos que as democracias são feitas para proteger e sem os quais não podem existir.

A coragem dela é ainda demonstrada em sua disposição a aparecer com o próprio nome nesta reportagem. Há forças tanto corruptas quanto brutais dentro do governo mexicano que se opõem a ela (e, de fato, de acordo com Kate, representantes de alto-escalão responderam à declaração pública dela com intimidações pessoais) e, portanto, cabe ao grande público a responsabilidade de proteger quem faz sua voz ser ouvida.

Talvez não devesse ser surpresa que este ícone local do entretenimento pudesse chamar atenção de um fã singular e fugitivo de Sinaloa. Depois de ler a declaração de Kate no Twitter, um advogado que representa El Chapo Guzmán entrou em contato com ela. Disse que El Señor queria lhe enviar flores de agradecimento. Nervosa, ela deu o endereço, mas com os deslocamentos de cigana de uma atriz, as flores não a encontraram.

Dois anos depois, em fevereiro de 2014, fuzileiros marinhos mexicanos capturaram El Chapo em um hotel de Mazatlán, depois de uma caçada de 13 anos. As imagens da prisão foram exibidas em televisões do mundo tudo. Durante o tempo que passou preso em uma prisão de Altiplano, os advogados de El Chapo receberam uma enxurrada de ofertas dos estúdios de Hollywood. Com sua captura dramática e, talvez, a ilusão de negociações seguras agora que El Chapo estava preso, os gringos estavam ávidos para contar a história dele. A semente estava plantada e El Chapo, cutucado pela perspectiva, traçou planos próprios. Estava interessado em ver a história de sua vida contada no cinema, mas só faria seu relato a Kate. O mesmo advogado entrou mais uma vez em contato com ela, agora por meio do Sindicato dos Atores do México; o chefe do tráfico preso e a atriz começaram a se corresponder por meio de cartas escritas à mão e mensagens por BBM (BlackBerry Messenger).

Foi em um evento social em Los Angeles que Kate conheceu Espinoza. Ela ficou sabendo que ele tinha boas conexões a fontes financeiras, inclusive aquelas que financiavam projetos de cinema, e ela propôs uma parceria para fazer um filme sobre El Chapo. Foi aí que Espinoza incluiu nosso camarada e amigo mútuo El Alto. Eu fiquei sabendo da intenção deles de fazer o filme, mas não sabia sobre Kate nem tenho nenhum envolvimento com o projeto. Os três se reuniram com o advogado de El Chapo para explorar a abordagem dele, mas no fim ficou determinado que o acesso direto a El Chapo ainda seria restrito demais para que a empreitada deles fizesse frente a projetos competitivos relativos a “Chapo” que Hollywood faria com ou sem a participação dele.

Daí chegou o mês de julho de 2015. A fuga da prisão de El Chapo. O mundo, e especialmente o México e os Estados Unidos, ficou em polvorosa. Como isso pode acontecer? O DEA e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos ficaram furiosos. O fato de que o Secretário do Interior mexicano Miguel Ángel Osorio Chong tinha recusado a extradição de El Chapo para os Estados Unidos e depois permitido que ele fugisse colocou o governo Peña Nieto e ele próprio como pária global.

Eu acompanhei as notícias da fuga de El Chapo e procurei Espinoza. Nós nos encontramos no pátio de um hotel boutique em Paris, no final de agosto. Ele me falou sobre Kate e disse que ela continuava recebendo contato intermitente de Chapo, mesmo depois da fuga. Foi aí que eu apresentei a ideia de uma reportagem para uma revista. O sorriso maroto de Espinoza surgiu, indicando que ele iria providenciar um encontro entre mim e Kate em Los Angeles. Em um restaurante de Santa Monica, eu apresentei minha proposta, e Kate aceitou fazer a ponte, mandando nosso nome para avaliação ao outro lado da fronteira. Quando recebemos a resposta, mais ou menos uma semana depois, de que Chapo tinha realmente concordado em se encontrar conosco, eu liguei para Jann Wenner na Rolling Stone. Eu, Espinoza e El Alto fomos incumbidos da tarefa. E com uma carta de Jann para oficializar a transação, nós iríamos nos juntar a Kate, que era nosso bilhete para a confiança de El Chapo, e depois iríamos nos entregar às mãos de representantes do cartel de Sinaloa para coordenar nossa viagem. Um mês de planejamento havia se passado quando Espinoza e eu respirávamos o ar de Nova York naquele dia de fim de setembro na rua 55.

Quatro dias depois, em 2 de outubro, El Alto, Espinoza, Kate e eu embarcamos em um voo privado pago por nós mesmos, de um aeroporto na área de Los Angeles para uma cidade na região central do México. Ao pousarmos, um motorista nos leva de minivan ao hotel que fomos instruídos a reservar. Desconfiado de qualquer coisa viva ou inanimada, eu examino com atenção carros e motoristas, mães cuidando de crianças, avós, camponeses nas ruas, o alto de construções, janelas fechadas por cortinas. Examino o céu em busca de helicópteros. Não há dúvida em minha mente de que o DEA e o governo mexicano estão acompanhando nossos movimentos. Desde o momento em que Kate tinha se exposto com o tweet dela em janeiro de 2012 até o início das nossas negociações criptografadas para o encontro com El Chapo, eu havia ficado admirado com a disposição dele de se arriscar a receber nossa visita. Se Kate estivesse sob vigilância, então o mesmo deveria valer para as outras pessoas presentes no mesmo voo que ela. Não vejo nenhum olho à espreita, mas parto do princípio de que estão presentes.

Pelo para-brisa, ao nos aproximarmos do hotel, vejo um homem à paisana, de uns 40 anos, aparecer na calçada, ao mesmo tempo orientando nosso motorista a entrar em uma garagem e digitando um número no telefone. Trata-se de Alonzo, que, logo vou ficar sabendo, é um contato de El Chapo. Pegamos nossas malas e saímos da minivan. Quase de imediato, o trânsito ao redor do ponto marcado diminui. Fora da minha vista, alguém bloqueia as ruas vizinhas. Então, um comboio solitário de SUVs blindadas aparece na frente do nosso hotel. Alonzo pede que nós entreguemos nossos aparelhos eletrônicos e os deixemos para trás – celulares, computadores etc. Eu tinha deixado tudo em Los Angeles, prevendo a exigência. Meus colegas entregam os deles à recepção do hotel. Somos levados com rapidez para dentro dos veículos. Alonzo vai no banco do passageiro, na frente, meus colegas e eu, no de trás. Alonzo e o motorista conversam rápido e baixinho em espanhol. Meu espanhol é fraco, na melhor das hipóteses. Durante o dia, e sob pressão, eu me restrinjo a hola e adios. À noite, com algumas cervejas, talvez possa me virar, falando e escutando devagar. A conversa no banco da frente não parece ameaçadora, apenas uma troca cooperativa de informações logísticas para facilitar nossa viagem. Durante a hora e meia do trajeto na cidade, passando por campos cultivados, ambos os homens recebem mensagens de BBM frequentes – talvez atualizações para manter o comboio a salvo. A cada mensagem recebida, o ponteiro do velocímetro sobe; estamos nos deslocando a bem mais de 160 quilômetros por hora. Eu gosto de velocidade. Mas não sem que minhas próprias mãos estejam no volante. Para me acalmar, finjo ter algum motivo para memorizar o caminho de nossa viagem. É nisso que eu me concentro, e não na conversa entre os dois desconhecidos que lideram nossa empreitada.

Chegamos a uma pista de pouso de terra. Seguranças com ternos bem cortados estão em pé ao lado de dois aviões monomotores de seus seis assentos cada. Só quando embarco em um dos aviões percebo que nosso motorista era o filho de 29 anos de El Chapo, Alfredo Guzmán. Ele embarca ao meu lado, designado entre nossos acompanhantes pessoais para ver o pai. Ele é bonito, esbelto e se veste com elegância, com um relógio de pulso que deve valer mais do que o dinheiro controlado por bancos centrais da maior parte dos estados-nação. É um belo relógio.

Os aviões decolam, e viajamos durante umas duas horas. Dois pássaros vacilantes lado a lado, passando por cima das florestas nas montanhas. Mais uma vez me ocorrem todos os riscos que El Chapo está correndo ao nos receber. Não fomos vendados, e qualquer viajante experiente poderia ser capaz de anotar mentalmente uma série de marcos triangulados para refazer o trajeto. Mas, com sua confiança em Kate, que ele só conhecia por meio de cartas ou mensagens via BBM, estamos desfrutando de uma confiança fora do comum. Pergunto a Alfredo como ele pode ter certeza de que não estamos sendo seguidos ou vigiados. Ele sorri (reparo que não pisca muito) e aponta para um aparelho, embaixo dos controles no cockpit, que confunde os sinais. “Aquele interruptor bloqueia os radares de solo”, ele diz. Informa ainda que eles têm um homem que fornece notificações quando um avião militar de vigilância de alta altitude é usado. Ele está muito confiante de que não há ninguém de olho em nós. Com Kate ajudando nas traduções, conversamos durante todo o voo. Presto atenção para não dizer nada que possa prejudicar as boas vindas do pai dele antes mesmo de chegarmos.

Mais ou menos duas horas de voo se passaram quando descemos de cima dos picos verdejantes para pousar em um campo ao nível do mar. O piloto, usando seu celular criptografado, conversa com alguém no solo. Sinto que os militares estão reforçando as ações nesta área de busca. De repente, nossa zona de pouso original foi classificada como insegura. Depois de bastante conversa entre solo e ar, e um tanto de voltas enervantes em baixa altitude, encontramos um terreno alternativo de terra batida onde duas SUVs esperam à sombra de árvores adjacentes, e pousamos. O voo tinha sido agitado o suficiente para que todos nós tivéssemos tomado alguns goles de uma garrafa de tequila Honor, uma marca nova que Kate está divulgando. Saio do avião para o solo, recompondo-me superficialmente, e me desloco na direção dos motoristas a nossa espera. Jogo minha bolsa na traseira aberta de uma das SUVs e me aproximo das árvores para mijar. Com o pau na mão, considero que essa é uma das partes do meu corpo que está vulnerável às facas de tipos irracionais do narcotráfico e dou uma última olhada com carinho antes de voltar a guardá-lo dentro da calça.

Espinoza tinha passado recentemente por uma cirurgia nas costas. Ele se estica, ajusta o colete cirúrgico e assim o expõe. Me ocorre que as pessoas que nos recebem podem confundir o colete com um aparelho que contenha uma escuta, um chip, um rastreador. Com todos os olhos nele, Espinoza ajusta o velcro metodicamente na direção da barriga, compartilhando o sorriso que é sua marca registrada com os olhos desconfiados a seu redor. Então, ele diz: “Cirurgia nas costas”. Situação contornada.

Seguimos pela floresta densa e montanhosa em um comboio de duas caminhonetes, atravessando rios e mais rios durante sete longas horas. Espinoza e El Alto com o motorista no veículo da frente, eu e Kate com Alonzo e Alfredo no de trás. Às vezes a floresta se abre em campos cultivados, depois volta a se fechar em floresta. Quando a elevação começa a aumentar, placas na estrada anunciam que vilarejos se aproximam. E então, quando parece que estamos na entrada de Oz, o pico mais alto a vista, chegamos a uma barreira militar. Dois soldados uniformizados do governo, com armas em punho, se aproximam do nosso veículo. Alfredo baixa a janela do passageiro do lado dele; os soldados recuam, acanhados, e fazem sinal para que passemos. Uau. Então, este é o poder do rosto de um Guzmán. E a corrupção de uma instituição. Será que isso significava que estávamos nos aproximando do homem?

Ainda iriam se passar várias horas na floresta antes que avistássemos algum sinal de que estávamos chegando perto. Desconhecidos aparecem do nada, na trilha de terra, para conferir dados com nossos motoristas e trocar rádios portáteis. Seguimos em frente. Pequenos vilarejos se materializam na floresta, olhos protetores de camponeses relaxam quando o motorista conhecido acena. Celulares são inúteis aqui, então imagino que os receptores de rádio em pontos topográficos altos facilitem as comunicações internas.

Tínhamos partido de Los Angeles às 7h da manhã. Às 21h no relógio do console, chegamos a uma clareira onde várias SUVs estão estacionadas. Uma pequena multidão de homens está por ali. Em uma colina acima, vejo algumas casinhas simples. Saio da caminhonete, examino os rostos da multidão em busca de aprovação para saber se posso ir até a traseira pegar minha bolsa. Cabeças que assentem se seguem. Eu me movo. E, quando faço isso… lá está ele. Bem ao lado da caminhonete. O fugitivo mais famoso do mundo: El Chapo. Minha mente é um livro instantâneo com as centenas de fotos e reportagens que eu havia examinado. Não há dúvida de que é ele mesmo. Usa uma camisa de seda estampada, jeans preto bem passado e parece muito bem cuidado e saudável para um homem em fuga. Abre a porta de Kate e a recebe como se fosse uma filha voltando da faculdade. Parece importante para ele expressar em pessoa a calorosa afeição que, até agora, ele só tinha sido capaz de comunicar de longe. Depois de cumprimentá-la, ele se volta para mim com um sorriso acolhedor, com a mão estendida. Eu retribuo o cumprimento. Ele me puxa para um abraço de “compadre”, me olha nos olhos e faz um longo discurso de boas vindas em espanhol, rápido demais para os meus ouvidos. Tenho a presença de espírito de explicar a ele no meu espanhol capenga que eu iria depender de Kate para traduzir suas palavras à medida em que a noite avançasse. Só então ele se dá conta de que a recepção dele não havia sido entendida. Faz uma piada com sua equipe, dando risada da ideia presumida de que eu falava espanhol e da minha desorientação momentânea por tê-lo deixado se estender tanto em seu cumprimento.

Somos conduzidos subindo alguns degraus até uma área plana na colina ao lado das casinhas. Uma família local serve um bufê de tacos, enchiladas, frango, arroz, molho feito na hora e… carne assada. “Carne Assada”, um termo usado com frequência pelo cartel para descrever corpos dizimados em cidades como Juarez depois de execuções em massa feitas pelo narcotráfico. Assim, eu escolho os tacos. Ele nos leva até uma mesa de piquenique; oferecem-nos bebidas. Nós nos acomodamos sob a iluminação fraca de algumas lâmpadas penduradas, mas o perímetro mergulha em escuridão abrupta. Não vejo mais do que 30 ou 35 pessoas. (El Chapo mais tarde informou a El Alto que, fora de vista, mais uma centena de seus soldados estavam presentes nas proximidades imediatas). Não há armas de cano longo à vista. Ninguém do tipo de Danny Trejo. Minha impressão da equipe dele está mais sintonizada com o que seria de se imaginar de alunos de uma universidade na Cidade do México. Cabelos curtos, bem vestidos e bem educados. Nenhum fumante na turma. Só dois ou três dos rapazes usam bolsas penduradas no ombro, bolsas que ficam um pouco abaixo da cintura. Nosso anfitrião me parece estar preocupado que Kate, como a única mulher entre nós, não se depare com visões intimidadoras de força. Esta impressão seria comprovada várias horas mais tarde.

Ali sentados na mesa de piquenique, apresentações são feitas. À minha esquerda, Alonzo. Acontece que Alonzo é um dos advogados de El Chapo. Quando se fala dos advogados de El Chapo, a coisa fica meio confusa. Enquanto estava preso, as únicas visitas permitidas eram de “advogados”. Claro, alguns que poderiam ser descritos com mais precisão como tenentes tinham feito as vezes de advogados ou até sido certificados como tal pela expedição de poder da equipe legal dele. Alonzo visitou El Chapo em Altiplano apenas duas horas antes da fuga audaciosa. Alonzo diz que não sabia do plano de fuga. Mas ele ressalta que isso não o poupou de uma surra brutal por parte dos interrogadores após o ocorrido.

À minha direita, Rodrigo. Rodrigo é padrinho das gêmeas de 4 anos de Chapo, filhas da esposa miss dele, de 26 anos, Emma Coronel. Rodrigo é quem me preocupa. O olhar dele é distante, mas fixo em mim. Minha especulação ganha som. Ouço motosserras. Sinto respingos. Meus olhos são atraídos para a direita de Rodrigo. Ali está Ivan, o filho mais velho de Chapo. Aos 32 anos, ele é considerado o herdeiro do cartel de Sinaloa. É atencioso e tem uma maturidade calma. Assim como o irmão, exibe um relógio de pulso fabuloso. E diretamente na minha frente, nosso anfitrião, com Kate à direita dele. Ao lado de Alonzo, Alfredo. El Alto está sentado à ponta da mesa. Espinoza, ainda em pé, pede licença a Chapo e pergunta se pode se deitar por uma hora para descansar as costas. Espinoza é engraçado assim. É como se tivéssemos passado horas torturantes sem fim escalando a encosta de um vulcão até a boca e, agora, a apenas três passos de enxergar a caldeira, ele diz: “Vou tirar um cochilo. Olho o buraco mais tarde”.

Com Kate traduzindo, começo a explicar minhas intenções. Eu senti cada vez mais que tinha chegado como uma curiosidade para ele. O gringo solitário entre os meus colegas, que tinham pegado carona na confiança de El Chapo em Kate. Sinto que ele se diverte quando coloco minhas cartas na mesa. Ele pergunta sobre o meu relacionamento com Hugo Chávez, falecido presidente da Venezuela, que parece ser uma prova da minha disposição de ser vilipendiado por meio de minhas associações pessoais.

Falo da nossa amizade de um jeito que parece passar em um teste intuitivo e ácido para medir a independência da minha perspectiva. Digo a ele, logo de cara, que tive um familiar que trabalhava no DEA, que por meio do meu trabalho no Haiti (sou CEO da J/P HRO, uma ONG com sede em Porto Príncipe) tive muitas relações dentro do governo dos Estados Unidos. Garanto a ele que essas relações não estavam, de modo algum, relacionadas ao meu interesse nele. Meu único interesse era fazer perguntas e entregar as respostas dele, para serem avaliadas pelos leitores, fosse de forma equilibrada ou com desprezo.

Digo a ele que entendi que na narrativa difundida dos narcos, a hipocrisia velada está na cumplicidade dos compradores. Eu não podia vender a ele uma ideia errônea, e sabia que, ao escrever qualquer texto, minhas únicas cartas genuínas a serem jogadas eram me expor como uma pessoa fascinada e disposta a suspender meu julgamento. Compreendi que independentemente do que mais pudesse ser dito a respeito dele, estava claro para mim que ele não era um turista no nosso mundo.

Durante a minha apresentação, Chapo abre um grande sorriso. Aliás, no que seria uma interação de sete horas, eu só o vi sem aquele sorriso em breves intervalos. Como já foi dito sobre vários homens famigerados, o carisma dele é indiscutível. Quando pergunto sobre sua dinâmica com o governo mexicano, ele faz uma pausa. “Falando sobre políticos, eu guardo minhas opiniões para mim mesmo. Eles vão fazer as coisas deles e eu faço as minhas.”

Por baixo do sorriso, há uma ausência de dúvida em sua expressão facial. Uma pergunta me vem à mente enquanto observo o rosto dele. Tanto enquanto fala quanto quando escuta. O que será que remove toda a dúvida dos olhos de um homem? Será o poder? Clareza admirável? Ou o fato de ser desalmado? Um homem desalmado… não era isso que o meu condicionamento moral estava obrigado a reconhecer nele? Não era o fato de ele ser desalmado que eu deveria reconhecer para que eu mesmo seja reconhecido aqui como alguém além de um otimista incondicional? Um apologista? Eu me esforcei muito, pessoal. Me esforcei mesmo. E lembrei a mim mesmo repetidas vezes da perda de vidas inacreditável, da destruição existente em todos os cantos no mundo do narcotráfico. “Eu não quero ser retratado feito uma freira”, El Chapo diz. Mas este retrato não tinha me ocorrido. Este homem simples de um lugar simples, rodeado pelas afeições simples dos filhos para o pai, não me parece inicialmente como o enorme lobo mau da lenda. A presença dele suscita questões de complexidade e contexto cultural, de sobreviventes e capitalistas, de camponeses e tecnocratas, de empresários espertos de todas as laias; alguns dizem dinheiro, outros, chumbo.

Um empregado traz uma garrafa de tequila. El Chapo serve três dedos para cada um de nós. No brinde, ele olha para Kate. “Eu não costumo beber”, ele diz. “Mas quero beber com você.” Depois de erguer o copo, dou um gole por educação. Ele me pergunta se muita gente nos Estados Unidos sabe dele. “Ah, sabem”, eu respondo e informo que, na noite antes de partir para o México, eu tinha visto que o canal Fusion estava reprisando a edição especial Chasing El Chapo [Caçada a El Chapo]. Ele parece se deliciar com o absurdo disso, e enquanto ele e seus asseclas compartilham uma risada, olho para o céu e imagino se continuaria sendo engraçado se houvesse um drone armado em cima da gente. Estamos em uma clareira, acomodados a céu aberto. Viro a tequila e o drone vai embora.

Eu me entrego à ideia de segurança oferecida pela tranquilidade de Chapo e seus homens. Há uma sensação penetrante de que, se houvesse uma ameaça, eles saberiam. Comemos, bebemos, conversamos durante horas; ele está interessado no negócio do cinema e em como funciona. Não se impressiona com o retorno financeiro. Para ele, a chance de ganhar dinheiro não fecha as contas com o risco de perder. Sugere que consideremos trocar de carreira para o ramo do petróleo. Diz que, se pudesse, procuraria o setor da energia, mas que os fundos dele, por serem ilícitos, restringem suas oportunidades de investimento. Menciona (mas pede que eu não divulgue os nomes) uma horda de grandes corporações corruptas, tanto dentro do México quanto no exterior. Observa com desdém deliciado várias corporações que lavaram seu dinheiro, e que pegam para si sua própria parte cínica do bolo do narcotráfico.

“Quanto você vai ganhar para escrever este artigo?”, ele pergunta. Respondo que, quando faço jornalismo, não aceito pagamento. Dá para ver que, para ele, a ideia de fazer qualquer tipo de trabalho sem pagamento é bobagem. Diferentemente dos gângsteres a que estamos acostumados, os John Gottis que afirmavam ser simples empresários escondidos atrás de várias empresas de fachada internacionais, El Chapo se atém a um jogo ilícito, e se gaba com orgulho: “Eu forneço mais heroína, metanfetamina, cocaína e maconha do que qualquer outra pessoa no mundo. Tenho uma frota de submarinos, aviões, caminhões e barcos”.

Ele não pede desculpas a ninguém. Diante dos desafios de fazer negócios em um setor tão clandestino, ele construiu um império. Eu me lembro de notícias na imprensa de uma recompensa de US$ 100 milhões que o homem à minha frente teria prometido pela vida de Donald Trump. El Chapo sorri e diz com ironia: “Ah! Mi amigo!”. A vontade desprotegida dele de falar abertamente, seu conforto com sua posição na vida e a propriedade dele de justificativas extraordinárias lembram Tony Montana em Scarface, de Oliver Stone. É a cena do jantar em que Elvira, interpretada por Michelle Pfeiffer, abandona o Tony Montana de Al Pacino, atacando-o em voz alta em um lugar público. Os clientes do restaurante ficam olhando para ele, mas em vez de se esconder humilhado, ele se levanta e faz um discurso. “Vocês são todos um monte de cuzões. Sabem por quê? Porque não têm coragem de ser o que querem ser. Precisam de pessoas como eu. Precisam de pessoas como eu. Para poderem apontar a porra do dedo e dizer: ‘Ele é o bandido’. Então, o que isso faz de vocês? Bons? Vocês não são bons. Só sabem se esconder… mentir. Eu? Não tenho esse problema. Eu?! Sempre digo a verdade, mesmo quando minto. Então, deem boa noite ao bandido. Vamos lá. É a última vez que vão ver um bandido assim, estou dizendo!”

Estou curioso para saber, no pandemônio atual do Oriente Médio, em como o impacto que aquelas economias frenéticas do ópio podem ter sobre o negócio dele. Pergunto: “De todos os países e culturas com quem você faz negócio, qual é o mais difícil?”. Sorrindo, ele sacode a cabeça e diz um franco “nenhum”. Não há político que poderia responder à mesma pergunta com tanta clareza ou sucesso, mas, mais uma vez, os desafios são bem diferentes para um negociador de poder global que simplesmente remove qualquer obstáculo o intitulando como “dificuldade”.

Depois de explicar minha intenção, pergunto se ele poderia me dar dois dias para uma entrevista formal. Meus colegas iriam partir pela manhã, mas eu me ofereço para ficar e gravar nossas conversas. Ele faz uma pausa antes de responder. “Acabei de conhecer você. Farei isso daqui a oito dias. Pode voltar daqui a oito dias?” Digo que posso. Peço para tirarmos uma foto juntos para eu poder provar aos meus editores na Rolling Stone que o encontro planejado aconteceu. “Adelante”, ele diz. Todos nos levantamos da mesa como um grupo e seguimos Chapo para dentro de uma das casinhas. Quando estamos lá dentro, vemos o primeiro sinal de armas pesadas. Uma M16 está em um sofá na frente de uma parede branca neutra contra a qual tiraríamos a foto. Explico que, por motivos de autenticação, seria melhor se estivéssemos trocando um aperto de mão, olhando para a câmera e sem sorrir. Ele aceita. A foto é tirada com o celular de Alfredo. Seria enviada para mim posteriormente.

Quando voltamos para a mesa de piquenique, para mim parece que conseguimos o que viemos tentar conseguir aqui. Tínhamos chegado a um acordo de que ele iria se submeter a uma entrevista de dois dias quando eu voltasse. Enquanto pensamentos sobre drones de vigilância e batidas militares retornam à minha cabeça, volto a tomar tequila e dou uma geral de 360 graus para encontrar algum lugar em que eu e meus colegas poderíamos nos jogar no chão para nos proteger se tivéssemos sido seguidos e um ataque se iniciasse. Na escuridão, era difícil imaginar um lugar seguro, e o mundo de El Chapo é tudo menos seguro.

Quando Espinoza volta da soneca dele, Kate, entregando-se à viagem exaustiva do dia e ao conforto de algumas tequilas, aceita que El Chapo a acompanhe até o lugar em que vai dormir. Enquanto ele caminha sozinho com ela na direção à casinha mal iluminada, não posso me abster de um momento básico de preocupação. Penso em me oferecer para acompanhá-los, apesar de as circunstâncias certamente servirem para mostrar que qualquer tentativa de proteção seria inútil. Antes que minha onda de adrenalina de paranoia possa inspirar insulto ou injúria, Chapo já volta.

Mas há uma mudança. Como Kate aninhada no conforto de sua cama, o pessoal dele e ele próprio se armam até os dentes, com vestes à prova de balas, armas de cano longo penduradas nos ombros e granadas de mão presas à cintura. O exército de guerrilheiros da selva prontos para a guerra, que antes estava mais relaxados por causa dela, agora retorna ao que me parece ser uma postura mais usual. El Chapo também está todo equipado e pronto para comandar.

Depois dessa extravagância típica de um Clark Kent que se transforma em Superman, Chapo retorna à mesa. A atitude dele é casual. Seu equipamento de batalha, nem um pouco. Espinoza e El Alto dividem as tarefas de tradução. Comparamos observações sobre cultura. Fazemos perguntas leves, apesar de o ambiente ter ficado bem menos leve. Apesar disso, estou me sentindo frustrado por ter de esperar oito dias para conseguir ficar com ele em um canto – para fazer todas as perguntas que eu sei que o mundo quer fazer. Eu me sinto nu sem caneta e papel. Então, só faço perguntas das quais não seria possível esquecer as respostas. Conheceu Pablo Escobar? Chapo responde: “Sim, nós nos encontramos uma vez nesta casa. Uma casa grande”. Ele sorri. Vê muito sua mãe? “O tempo todo. Eu queria que pudéssemos ter nos encontrado na minha fazenda e você pudesse ter conhecido a minha mãe. Ela me conhece melhor do que eu mesmo. Mas aconteceu algo e foi preciso mudar os planos.” Parto do princípio de que ele estava insinuando informações internas de que a fazenda estava sendo observada pelas autoridades mais uma vez.

Várias horas se passaram, e El Alto e eu trocamos acenos de cabeça para indicar nossa sensação mútua: o núcleo de soldados ao redor de El Chapo está ficando irrequieto. Um relógio parece funcionar dentro deles. Deve ser umas 4h da manhã a essa altura. El Chapo se levanta, dando uma conclusão à noite, e agradece por nossa visita. Nós o seguimos até o lugar onde a família que tinha preparado o nosso jantar está em pé, obediente, atrás de uma mesa. Ele cumprimenta cada um com um aperto de mão, com gentileza; agradece e, com um olhar, nos convida a fazer o mesmo. Ele nos acompanha até a mesma casinha até onde tinha acompanhado Kate antes. Em uma passagem estreita e escura entre a nossa casinha e outra adjacente, Chapo me abraça pelos ombros e repete o pedido de que eu volte a me encontrar com ele em oito dias. “Agora, vou me despedir”, ele diz. Neste momento, solto uma leve flatulência de viajante (desculpe) e, com isso, experimento o mesmo cavalheirismo que ele demonstrou quando colocou Kate na cama, fingindo que não notou. Fugimos da bruma sutil e eu me junto aos meus colegas dentro da casinha. Há duas camas e um sofá a pouca distância de onde dá para ver Kate dormindo em uma terceira cama, atrás de uma divisória. Espinoza volta para a cama que tinha ocupado quando chegamos.

Agora sobramos El Alto e eu nos entreolhando. O corpanzil de 1,90 m dele se avulta por cima de mim, ciente de que ele, desavisado, ficou mais perto do sofá de 1,60 m, e que eu, com 1,75 m, estou a apenas alguns centímetros de uma cama king-size. Trata-se de um impasse mexicano. Nós dois passamos o dia inteiro viajando, os dois estão levemente medicados pela tequila ao longo da noite. Eu só sei que, se ficasse com o diminuto sofá, seria sob a ameaça de uma arma. Negocio. “Olhe, cara. Você não tem que dormir no sofá. A cama é grande. A gente pode conversar e dormir abraçadinho.” Com esta perspectiva, venço a negociação. Com sua graça e discrição, El Alto faz a escolha dele: “Fico com o sofá”. Quando desabo na cama, ouço o comboio de El Chapo se afastar por entre a floresta.

Nem duas horas depois, somos acordados de modo abrupto por Alonzo. “Está vindo uma tempestade!”, ele diz. “Precisamos nos mexer!” As trilhas de terra da floresta são difíceis de navegar quando as chuvas as inundam. Precisamos chegar ao asfalto antes da chuva. Ao nascer do sol, chegamos à estrada pavimentada bem quando o mar cai do céu e enormes raios iluminam o interior do nosso carro como se fossem granadas explodindo. Alonzo pede a Kate para dirigir. Ela aproveita a chance de romper a monotonia e assume o volante com boa vontade. Enquanto isso, El Alto pula para a traseira aberta do carro com o cérebro carente de sono tão sedento de oxigênio que nem se incomoda com a chuva torrencial. No banco de trás, Alonzo sussurra para mim que há várias barreiras militares ao longo destas estradas, e que essas barreiras costumam deixar passar veículos dirigidos por mulheres. Agora, a chuva está caindo com tanta força que os soldados abandonaram os postos para se protegerem. Felizmente, ninguém nos para. Em vez de nos arriscarmos a ser vaporizados por uma tempestade de raios em um avião pequeno, preferimos fazer a viagem de oito horas de carro até a cidade de onde tínhamos partido. Espinoza se reclina no assento do passageiro para descansar as costas.

Quando chegamos à cidade, o clima já havia melhorado. Tomamos banho nos quartos que reservamos. Vinte minutos depois, Kate, Espinoza e eu, junto a Alonzo, entramos em dois táxis para ir para o aeroporto. El Alto, que tinha dormido duas horas na noite anterior em um sofá duro bem menor do que ele, prefere ficar para trás, no conforto do hotel, para passar a noite e voltar no dia seguinte. Alonzo vai para a Cidade do México. Espinoza, para a Europa. Então, Kate e eu embarcamos no voo privado de volta a Los Angeles. Nossa cabeça está girando. Será que estivemos mesmo no lugar em que estivemos? Com quem estivemos? Parece um sonho muito estranho. Com todo o planejamento e a viagem, eu ainda não acreditava que tínhamos realmente chegado a El Chapo. Havia nos imaginado dando uma desculpa gentil, dizendo que por algum motivo inexplicável de segurança a visita não poderia acontecer e que tínhamos voltado a Los Angeles de mãos vazias. Mas não foi o que aconteceu.

Quando voltamos a pousar em terreno norte-americano, Kate e eu nos separamos. Um serviço de táxi me pega no aeroporto. No assento traseiro, meu assistente de Los Angeles deixou um envelope pardo com meu celular dentro. Ligo o telefone e recebo a explosão de dois dias de e-mails e mensagens de texto atrasadas. Ignoro tudo e abro o navegador de internet para me colocar a par dos acontecimentos. O que eu não sabia, e que ainda não estava sendo divulgado, era que desde que o tempo limpou, um cerco militar em Sinaloa era iminente. Evidentemente, El Chapo e seus homens, depois de nos deixarem na noite anterior, tinham viajado pela floresta de volta a uma fazenda. De acordo com relatos da mídia que só chegariam dias depois, um celular que pertencia a um dos homens dele tinha sido rastreado. Da hora em que os militares e o DEA atacaram, os relatos do que aconteceu são conflitantes. Uma fonte de dentro do cartel me informou no dia 3 de outubro que o cerco inicial tinha começado. Essa fonte e outra em Sinaloa informaram que, ao longo de vários dias seguintes, dois helicópteros militares foram derrubados a tiros e que fuzileiros navais mexicanos em solo fizeram cerco a várias fazendas. Houve relatos adicionais de que 13 comunidades de Sinaloa tinham sido atacadas a tiros em batidas simultâneas. La Comision Nacional de los Derechos Humanos se esforçou para penetrar na área, mas foi proibida. Aldeões reclamaram do tratamento que receberam dos militares. Quando as agências de notícias divulgaram a história nos Estados Unidos, o caos por toda a Sinaloa tinha sido essencialmente reduzido a uma notícia de que ocorreu apenas batida quase bem-sucedida que tinha como alvo cirúrgico apenas Chapo e seus homens, e alegava que ele tinha sido ferido durante a fuga, com lesões no rosto e nas pernas.

O relato do próprio El Chapo posteriormente seria compartilhado comigo, por meio de uma comunicação por BBM entre ele e Kate. “No dia 6 de outubro, aconteceu uma operação… Dois helicópteros e seis BlackHawks iniciaram um confronto quando chegaram. Os fuzileiros navais se dispersaram pelas fazendas. As famílias tiveram que fugir e abandonar suas casas com medo de serem mortas. Ainda não sabemos quantos morreram no total.” Quando questionado a respeito dos relatos sobre seus próprios ferimentos, Chapo respondeu: “Não foi como disseram. Só machuquei a perna um pouquinho”.

Quatro dias depois, voo de Los Angeles para Lima, no Peru, para participar de uma discussão de um painel do Banco Mundial. Depois de alguns dias em Lima e uma noite em Manágua, na Nicarágua, para visitar um velho amigo, é dia 11 de outubro – o dia em que El Chapo e eu tínhamos combinado de nos encontrar. É compreensível, ele e seus homens tinham buscado abrigo durante as batidas. Mesmo assim, embarco em um voo disponível para uma cidade mexicana próxima e deixo uma mensagem para Alonzo, dizendo que eu iria esperar naquele aeroporto mexicano durante várias horas, para deixar claro que eu tinha honrado meu compromisso de retornar no oitavo dia. Aterrisso no fim da tarde e então fico enrolando no aeroporto até a noite, na esperança de que um desconhecido venha me dar um tapinha no ombro para me dizer que é amigo de Alonzo e que devo acompanhá-lo. Também me ocorre, mais uma vez, que posso estar sendo vigiado pelo serviço mexicano de inteligência ou pelo DEA. Em todo caso, nenhum contato é feito. Então, embarco em um voo mais tarde naquela noite, sozinho, e volto a Los Angeles.

Nas semanas que se seguem, continuo tentando fazer contato com El Chapo. Nesse período, enormes varreduras executadas por militares e agentes da lei levam a centenas de prisões, apreensões e várias extradições de integrantes de cartéis aos Estados Unidos. Informações de que uma gangue de drogas em ascensão, a CJNG (Cártel de Jalisco Nueva Generación), pode estar envolvida na fuga da prisão de El Chapo e de que a CJNG pode se tornar, de fato, o braço paramilitar do cartel de Sinaloa, se somam às preocupações do governo. Em outras palavras, com a água fervendo, nossos intermediários do cartel tinham saído do radar, possivelmente presos ou até mortos.

Finalmente, Kate consegue restabelecer contato por meio de uma rede de aparelhos de BBM. Mas o calor do ataque e da vigilância tinha se tornado extremo. Cheguei até a receber a informação de que o DEA realmente tinha ficado sabendo da nossa viagem ao México. Reservar qualquer voo para México agora com certeza iria levantar suspeitas. Faço um plano de me esconder no porta-malas do carro de um amigo e ser levado até um carro alugado. Eu então iria com o carro alugado de Los Angeles até Yuma, no Arizona, e atravessaria a fronteira em Algodones. Eu conheço essa travessia – ninguém confere documentos, e os carros seguem sem passar por revista. Eu então percorreria os cerca de 130 quilômetros da fronteira até o Grande Deserto e os vilarejos de El Golfo de Santa Clara, onde iria me encontrar com um avião do cartel que poderia me levar até El Chapo. Mas Kate é insistente e diz que, se eu fizer a viagem, ela tem que me acompanhar. A estrada é relativamente segura, mas algumas áreas são controladas pelo narcotráfico, inclusive comandantes do narcotráfico que não são simpáticos ao cartel de Sinaloa. Também havia duas barreiras militares naquela estrada na última vez que passei por lá. A ideia de um gringo em um carro com uma atriz de cinema mexicana provavelmente chamaria muita atenção, mas Kate nem quis discutir. Fica aparente que os riscos seriam maiores do que os benefícios de todos os lados, e nós decidimos que, em vez disso, vou mandar minhas perguntas para El Chapo via BBM. Ele concorda que vai gravar as respostas em vídeo. Sem estar presente, eu não poderia controlar nem questionar as respostas. Além disso, cada pergunta enviada teria que ser, primeiro, traduzida para o espanhol. É surpreendente, mas mesmo que Chapo tenha acesso a centenas de soldados e associados o tempo todo, parece que ninguém fala inglês.

No fim de cada dia que se passava sem que o vídeo chegasse, Kate me garantia que era só esperar mais um dia. Mas, a cada noite, El Chapo entrava em contato com ela com mais atrasos e dúvidas. Não sobre os meus questionamentos, mas aparentemente sobre como fazer uma gravação de si mesmo. “Kate, vamos deixar as coisas claras. O sujeito tem um negócio multibilionário com uma rede de pelo menos 50 países e não tem nenhum punheteiro lá na floresta com ele que fala uma porra de uma palavra de inglês? Agora, hoje à noite, você está me dizendo que o BBM saiu do ar, que ele mal tem acesso a um computador sequer?! Está dizendo que ele não tem a capacidade técnica de fazer um vídeo de si mesmo e mandar de um jeito clandestino para os Estados Unidos?”

Pergunto a mim mesmo: “Caralho, como é que alguém toca um negócio desse jeito?” Dou uma de Trump-Gringo para cima de Kate, importunando-a todos os dias por telefone, mensagem de texto e e-mail criptografado. No fim, o atraso não tem nada a ver com incompetência técnica. Grande surpresa. Além de qualquer maldade que seja atribuída a este homem, e sua genialidade indiscutível, ele também é um mexicano rural humilde cuja percepção de seu lugar no mundo oferece uma janela para uma extraordinário enigma de disparidade cultural. Ficou evidente que o camponês agricultor que virou um chefe bilionário do tráfico parecia acabrunhado e um tanto surpreso com a ideia de que pudesse interessar ao mundo que existe além das montanhas. E os atrasos um dia após o outro podiam revelar uma insegurança nele, como um adolescente acanhado de aparecer na frente da câmera sem orientação. Ou será que tudo isso tinha sido uma performance ensaiada?

Quando isso finalmente foi superado, em grande parte por Kate, mas com a minha insistência incansável, a única retaliação que me restou do envolvimento com El Chapo Guzmán e o cartel de Sinaloa foi a ira em potencial de uma atriz mexicana para com um ator norte-americano que tinha ficado obcecado e se aproveitado da amizade com ela para obter o vídeo de que precisava. E, então, chegou uma mensagem criptografada de Kate: “Consegui!”. Eu quase bati no teto de tanta animação quando a mensagem seguinte de Kate tocou no telefone: “…seu filho da mãe insistente”. Eu tinha merecido.

Evidentemente, um mensageiro de El Chapo tinha entregado o vídeo. Kate e eu nos encontramos, eu pedi desculpas, e ela transferiu o vídeo do aparelho dela para o meu. Em casa, eu apaguei as luzes e me acomodei com uma transcrição em inglês fornecida por Kate, que começava com o recado dela: “O vídeo dura 17 minutos. Aperte o play”.

Ele está usando uma camisa social azul marinho e turquesa com estampa cashmere e calça social preta, sentado em um banco em um lugar qualquer. O bigode inconfundível que ele exibia no nosso último encontro não estava mais presente. O boné de caminhoneiro preto, que é sua marca registrada, está ausente. Com o cabelo penteado, ou talvez engomado, cria a visão de um garoto de escola de olhos arregalados que não sabe muito bem o que a professora está pedindo. Tem as mãos no colo, os polegares pousando um por cima do outro em um gesto de conforto. A lado dele, um muro baixo de tijolos pintado de branco com um alambrado por cima. Atrás dele, uma pickup 4×4. O local parece ser uma propriedade grande, tipo uma fazenda, com montanhas baixas distantes e o cacarejar intermitente de galos que servem de acompanhamento para a entrevista. Durante todo o vídeo, vemos trabalhadores rurais e paramilitares passando atrás dele. Um pastor-alemão fuça o chão de terra e sai do enquadramento.

Ele começa: “Quero deixar claro que esta entrevista é para uso exclusivo da senhorita Kate del Castillo e do senhor Sean Penn”. A imagem fica escura.

Quando ele retorna, também está de volta o boné de caminhoneiro dele.

Entre as várias perguntas que eu tinha enviado a El Chapo, um operador de câmera que não aparece na imagem coloca algumas de maneira direta, parafraseia outras, ameniza muitas e pula algumas.

Como foi a sua infância?
Eu me lembro a partir de quando tinha 6 anos, os meus pais, uma família muito humilde, me lembro de como a minha mãe fazia pão para sustentar a família. Eu vendia, vendia laranjas, vendia refrigerantes, vendia doces. Minha mãe, ela era uma trabalhadora dedicada, trabalhava muito. Nós plantávamos milho, feijão. Eu cuidava do gado da minha avó e rachava lenha.

E como foi que você se envolveu com o negócio das drogas?
Bom, desde que eu tinha 15 anos e depois, de onde eu venho, que é o município de Badiraguato – fui criado em uma fazenda chamada La Tuna – naquela área, e até hoje, não há oportunidades de trabalho. O único jeito de ter dinheiro para comprar comida, para sobreviver, é plantar papoula, maconha, e, com aquela idade, eu comecei a plantar, a cultivar e a vender. É isso que posso dizer a vocês.

Como foi que saiu de lá? E como foi que tudo se expandiu?
De lá, da minha fazenda, comecei a sair aos 18 anos e fui para Culiacan, então depois para Guadalajara, mas nunca sem visitar a minha fazenda, mesmo até hoje, porque a minha mãe, graças a Deus, ainda está viva, lá na nossa fazenda, que é La Tuna. E então, as coisas têm sido assim.

Como a sua família mudou daquele tempo até agora?
Muito bem – meus filhos, meus irmãos, meus sobrinhos. Todos nós nos damos bem, muito normal. Muito bem.

E agora que você está livre, como isso o afetou?
Bom, em relação a estar livre – feliz, porque a liberdade é muito gostosa, e a pressão, bom, para mim é normal, porque eu tive de ser cuidadoso durante alguns anos em algumas cidades, e não, eu não sinto nada que afete a minha saúde ou a minha cabeça. Eu me sinto bem.

É verdade o que dizem sobre as drogas, que destroem a humanidade e trazem prejuízo?
Bom, é realidade que as drogas destroem. Infelizmente, como eu disse, onde eu fui criado, não tinha outro jeito e ainda não tem jeito de sobreviver, não tem jeito de trabalhar na nossa economia e ganhar a vida.

Você acha que é verdade que você é responsável pelo alto índice de vício em drogas no mundo?
Não, isso é falso, porque no dia em que eu não existir, isso não vai diminuir de jeito nenhum. Tráfico de droga? Isso é falso.

O seu negócio de drogas cresceu e se expandiu enquanto você estava preso?
Pelo que eu posso ver, e pelo que eu sei, tudo continua igual. Nada diminuiu, nada cresceu.

E a violência atrelada a este tipo de atividade?
Em parte, é porque já algumas pessoas já são criadas com problemas, e têm um pouco de inveja e têm informações contra alguma outra pessoa. É isso que aumenta a violência.

Você se considera uma pessoa violenta?
Não, senhor.

Você é dado à violência ou a considera como último recurso?
Olhe, a única coisa que faço é me defender. Nada mais. Mas se eu começo confusão? Nunca.

Qual é a sua opinião sobre a situação no México, qual é o futuro do México?
Bom, o tráfico de drogas já é parte de uma cultura que se originou dos ancestrais. E não só no México. Isso é no mundo inteiro.

Você considera a sua atividade, a sua organização, um cartel?
Não, senhor, de jeito nenhum. Porque as pessoas que dedicam a vida a esta atividade não dependem de mim.

Como este negócio evoluiu da época em que você começou até hoje?
Há uma grande diferença. Hoje existem muitas drogas e, naquela época, as únicas que nós conhecíamos eram maconha e papoula.

Qual é a diferença nas pessoas hoje em comparação àquela época?
Uma grande diferença, porque agora, dia após dia, os vilarejos estão ficando maiores, e tem mais de nós, e há muitas maneiras diferentes de pensar.

Qual é o futuro do negócio? Acha que vai desaparecer? Ou vai crescer?
Não, não vai acabar porque à medida que o tempo passa, nós somos mais pessoas, e isso nunca vai acabar.

Você acha que as atividades terroristas no Oriente Médio vão, de algum modo, ter impacto sobre o futuro do tráfico de drogas?
Não, senhor. Isso não faz a menor diferença.

Você viu como foram os últimos dias de Escobar. Como vê seus últimos dias em relação a este negócio?
Eu sei que um dia vou morrer. Espero que seja de causas naturais.

O governo dos Estados Unidos acha que o governo mexicano não quer prender você. O que eles querem é matar você. O que você acha?
Não, acho que se me acharem, vão me prender, é claro.

Em relação a suas atividades, qual você acha que é o impacto sobre o México? Acha que há impacto substancial?
De jeito nenhum. De jeito nenhum.

Por quê?
Porque o tráfico de drogas não depende de uma pessoa só. Depende de muita gente.

Qual é a sua opinião em relação à pessoa que é a culpada, quem vende droga ou quem compra droga e cria demanda por ela? Qual é a relação entre a produção, a venda e o consumo?
Se não houvesse consumo, não haveria venda. É verdade que o consumo, dia após dia, fica cada vez maior. Então, vende e vende.

Ouvimos dizer que abacate faz bem, que limão faz bem. Mas nunca ouvimos ninguém fazendo propaganda em relação às drogas. Você fez alguma coisa para induzir o público a consumir mais drogas?
De jeito nenhum. Isso atrai atenção. As pessoas, de certo modo, querem saber como é ou qual é o gosto. E depois o vício fica maior.

Você tem algum sonho? Você sonha?
Tudo que é normal. Mas sonhos diários? Não.

Mas você deve ter alguns sonhos, algumas esperanças para a sua vida.
Quero viver com a minha família os dias que Deus me der.

Se você pudesse mudar o mundo, mudaria?
Para mim, do jeito que as coisas estão, estou feliz.

Como é a sua relação com a sua mãe?
A minha relação? Perfeita. Muito boa.

É de respeito?
Sim, senhor, respeito, afeto e amor.

Como vê o futuro para os seus filhos e filhas?
Muito bom. Eles se dão bem. A família é unida.

E a sua vida? Como a sua vida mudou, como tem vivido desde que fugiu?
Muita felicidade – por causa de minha liberdade.

Já usou drogas?
Não, senhor. Muitos anos atrás, sim, eu usei. Mas viciado? Não.

Há quanto tempo?
Não uso nenhuma droga há 20 anos.

Você não se preocupa em talvez estar colocando sua família em perigo com a sua fuga?
Sim, senhor.

Em relação a sua fuga recente, você buscou a liberdade a qualquer custo, ao custo de qualquer pessoa?
Eu nunca pensei em ferir ninguém. A única coisa que fiz foi pedir a Deus, e as coisas deram certo. Tudo foi perfeito. Eu estou aqui, graças a Deus.

As duas vezes que você escapou, vale a pena dizer, não houve violência.
Comigo, não chegou a esse ponto. Em outras situações, o que foi visto, as coisas ocorrem de um jeito diferente, mas aqui, nós não usamos nenhuma violência.

Levando em conta o que foi escrito a seu respeito, o que se pode ver na TV, dizem coisas sobre você no México. Que tipo de mensagem gostaria de transmitir ao povo do México?
Bom, posso dizer que é normal as pessoas terem vários sentimentos, porque algumas pessoas me conhecem e outras, não. Essa é a razão pela qual eu digo que é normal. Porque quem não me conhece pode ter suas dúvidas em dizer se, neste caso, sou uma boa pessoa ou não.

Se eu pedir para você se definir como pessoa, se eu pedir para você fingir que não é Joaquín, que em vez disso é a pessoa que o conhece melhor do que qualquer outra no mundo, como você iria se definir?
Bom, se eu conhecesse ele – com respeito, e do meu ponto de vista, é uma pessoa que não está procurando confusão de jeito nenhum. De jeito nenhum.

Desde a nossa visita tarde da noite nas montanhas do México, as batidas nas fazendas têm sido incansáveis. Uma zona de guerra. Helicópteros da Marinha desferem ataques aéreos e infiltram soldados. Helicópteros derrubados por atiradores do cartel de Sinaloa. Fuzileiros navais mortos. Guerrilheiros do cartel mortos. Camponeses mortos ou desalojados. Boatos espalhados sobre El Chapo ter fugido para a Guatemala, ou até para mais longe, para a América do Sul. Mas não. Ele estava bem ali onde nasceu e cresceu. Na sexta-feira, dia 8 de janeiro de 2016, aconteceu. El Chapo foi capturado e preso – vivo.

Penso naquela noite, naquela calmaria antes da tempestade, e na experiência de estar com um homem que parece tão sereno, apesar de viver em uma realidade tão surreal. Eu não tinha conseguido o tipo de entrevista aprofundada que desejava conseguir. Nenhum questionamento ousado. Mas talvez, pelo menos, tenha extraído um vislumbre do outro lado, e do que é para mim a confirmação do espetáculo emburrecedor que tem exigido tanta concentração de recursos para capturar ou matar qualquer indivíduo com um boné preto.

Ainda assim, hoje, há meninos pequenos em Sinaloa que desenham pesos de mentira, cujos pais e avós antes deles colhiam o único produto que souberam ser capaz de metamorfosear os pesos de mentira em dólares de verdade. Eles se perguntam de onde vem nossa indignação, enquanto nós, nossos filhos, amigos, chefes, bancos, irmãos e irmãs financiam a coisa toda. Sem uma mudança de paradigma, de entendimento da economia e da doença do vício, pais e mães no México e nos Estados Unidos vão cada vez mais se arriscar a substituir a pergunta padrão para os filhos adolescentes: substituir “Aonde você vai hoje à noite?” para “Onde você vai morrer hoje à noite?”.

El Chapo? Não vai demorar muito, tenho certeza, até que o próximo carregamento do cartel de Sinaloa para os Estados Unidos seja o homem em si.

Sean Penn, ator, escritor e diretor, já escreveu de diversas frentes: do Haiti, do Iraque, do Irã, da Venezuela e de Cuba. Ele deseja dedicar este texto aos pais de jovens mortos em Chicago e a Rodrigo Lara Bonilla, funcionário público, pai e herói.

EUA – A lógica financista e os paralelos com o Brasil

Do Luiz Nassif

 

Disputa pelo orçamento, cortes de gastos fundamentais, descuido com a competitividade interna, submissão ao jogo financeiro não são prerrogativas   do Brasil. O livro “O sequestro da América”, de Charles H. Ferguson traça um retrato da crise norte-americana em tudo similar à brasileira.

No livro, ele denuncia o sequestro das políticas públicas pelo setor financeiro. Mostra o esgotamento do duopólio político nos Estados Unidos, com ambos os partidos extremamente refratários a mudanças e subordinados ao financiamento eleitoral dos grandes grupos .

Fala da necessidade de mudar as prioridades, focar em educação, poupança e investimento, deixando de lado a confiança excessiva no poderio militar e na energia barata.

Mostra, finalmente, uma profunda decepção com a incapacidade do governo Barack Obama romper o círculo de ferro da política econômica.

Os megaescândalos e a desregulação

A desregulação financeira alterou completamente a própria psique do sistema bancário norte-americano. Virtudes como a moderação, o não exibicionismo, preponderantes até os anos 80, foram substituídas pela exaltação do consumismo mais superficial.

“Até os anos 1980 uma combinação de tradição, reputação e regulamentação rígida determinava a remuneração dos banqueiros e impedia grandes abusos sistêmicos”, diz ele. Agora, “em todos os níveis –de corretores isolados a CEOs e conselhos de administração, passando por transações entre empresas –pessoas e companhias são recompensadas de imediato (e normalmente em dinheiro) por produzir lucros a curto prazo, sem punições análogas por gerar perdas subsequentes”.

“Durante a bolha dos anos 2000 os lucros da área dispararam para se tornar quase 40% de todos os lucros empresariais nos Estados Unidos. A remuneração média das pessoas trabalhando em bancos de investimento americanos saltou de cerca de 225 mil dólares –um número já impressionantemente alto –para mais de 375 mil dólares, patamar no qual permaneceu, mesmo após a crise. E isso apenas em dinheiro; esses números não incluem opções de ações”.

Os gastos e a vida conspícua “desorientam as bússolas morais –assim como os elevadores privativos, os jatos particulares, as salas de jantar exclusivas e os chefs pessoais dos sócios, os helicópteros, a cocaína, as boates de strip-tease, as prostitutas, as esposas jovens e bonitas, as mansões, os empregados, os jantares oficiais na Casa Branca, os políticos e instituições de caridade bajulando e as festas multimilionárias”.

O livro centra fogo no papel dos bancos americanos e europeus nos grandes escândalos financeiros do período, auxiliando a fraude empresarial da Enron, lavando dinheiro de cartéis da droga e das forças armadas iranianas, ajudando em evasão fiscal, escondendo ativos de ditadores corruptos, conspirando para definir preços e cometendo muitas formas de fraude financeira.

O custo foi alto.

Crise, recessão e gastos emergenciais para impedir a quebra do sistema financeiro provocaram aumento de 50% da dívida nacional. Com o déficit fora de controle, governos estaduais e municipais cortaram em serviços essenciais, incluindo educação e segurança pública.

Dois milhões de famílias perderam suas residências em 2011. Distritos escolares relataram o aumento de crianças sem-teto, devido às execuções de hipotecas. Adultos voltaram a morar com os país, muitos deles dependendo das pensões dos pais para sobreviver. A taxa de pobreza saltou para 15% em 2011, incluindo mais de 16 milhões de crianças.

A concentração de renda

A extraordinária concentração de renda no período criou o que o autor denomina de “economia de dossel” – a parte da vegetação que fica na copa das árvores, em florestas muito cerradas, e que acabam não tendo ligações com o solo e as raízes.

A lógica da economia de dossel aumentou substancialmente os lucros das corporações e dos seus dirigentes, mas prejudicou fundamentalmente a economia interna e o americano médio, que não se beneficiou dos grandes avanços tecnológicos do período.

“O dossel é um mundo de cálculos: trabalhadores indianos e chineses têm padrões de vida muito inferiores aos americanos, portanto trabalham por salários menores”, diz ele.

Com essa visão, a economia norte-americana passou a perder competitividade cada vez mais, porque a lógica do CEO não é a lógica nacional. “Cada vez é maior o número de países com sistemas de banda larga e infraestrutura de logística (como portos, aeroportos e ferrovias) superiores aos dos Estados Unidos. Mas não faz sentido para os CEOs americanos, pessoal ou profissionalmente, pressionar por políticas governamentais que melhorem os sistemas de ensino ou a infraestrutura dos Estados Unidos, em especial se isso também implica um aumento de impostos”.

A queda no nível da educação acentuou a concentração de renda. Hoje em dia, nos EUA, a renda familiar tem peso de 50% para determinar as perspectivas econômicas de um filho durante toda sua vida. Na Alemanha, Suécia e França, mesmo com sua forte estrutura de classes, em média a renda familiar tem peso de apenas 30%. E nas sociedades mais igualitárias, como Canadá, Noruega, Dinamarca e Finlândia, não passam dos 20%.

Para ascender à classe média alta é necessário o diploma em uma instituição de elite ou em uma pós-graduação. E os estudantes dessas escolas saem maciçamente das famílias mais ricas.

Ao mesmo tempo, diz o autor, “a competitividade econômica fundamental americana diminuiu bastante, à medida que sua infraestrutura física, seus serviços de banda larga, sistema de ensino, preparo da força de trabalho, cuidados de saúde e políticas energéticas não acompanharam as necessidades de uma economia avançada”.

Há um discurso permanente a respeito do déficit federal, com o mercado insistindo em cortes de impostos para manter a competitividade. E o mantra de que qualquer regulamentação adicional irá “estrangular” a inovação.

A produtividade do trabalho aumentou inéditos 5,4% em 2009. Mesmo assim as empresas não começaram a contratar e o salário médio caiu.

As consequências políticas

As consequências vão muito além do aumento da concentração da renda: estão levando à própria falência da política. O retrato que traça da desagregação política é em tudo similar ao brasileiro: “À medida que os Estados Unidos entram em decadência, extremistas religiosos e políticos começam a explorar a insegurança e o descontentamento crescentes da população. Até o momento isso assumiu a forma principalmente de ataques ao governo federal, a impostos e gastos sociais. Contudo, algumas vezes também assume formas mais radicais: cristianismo anticientífico e fundamentalista, ataques à educação, ao ensino da evolução, a vacinas e atividades científicas, e demonização de grupos, como imigrantes, muçulmanos e pobres”.

Na base de tudo, os financiamentos políticos: “Ambos (partidos) recebem um enorme volume de dinheiro, sob muitas formas –doações de campanha, lobbies, contratações pelo setor privado, favores e acesso especial de diversos tipos. Políticos dos dois partidos enriquecem e traem os interesses do país, incluindo a maioria das pessoas que votaram neles. Mas os dois partidos ainda conseguem apoio porque exploram habilmente a polarização cultural dos Estados Unidos”.

Montam jogos de retórica. “Os republicanos alertam os conservadores para os perigos de secularismo, impostos, aborto, bem-estar social, casamento gay, controle de armas e liberais. Os democratas alertam os social-liberais para os perigos de armas, poluição, aquecimento global, proibição do aborto e conservadores. Ambos os partidos fazem uma cena pública de como seus confrontos são ácidos e como seria perigoso que o outro partido chegasse ao poder, enquanto se prostituem com o setor financeiro, indústrias poderosas e os ricos. Assim, a própria intensidade das diferenças entre os dois partidos quanto a “valores” permite a eles cooperar no que diz respeito a dinheiro”.

Qualquer semelhança com o quadro brasileiro não é, definitivamente, mera coincidência.