SOBRE JOÃO DÓRIA, MBL, A ESQUERDA E NÓS NEGRAS E NEGROS

Do Negro Belchior

15s-neoliberalismo

A campanha de João Dória, do PSDB em São Paulo, foi honesta.

Ele disse que não era político. De fato, nunca foi um político no conceito ao qual a maioria da população percebe.

Ele disse ser trabalhador. Eu também discordo. Mas há na sociedade a hegemonia de uma lógica meritocrática que valoriza o empenho e a prosperidade, logo, se ele enriqueceu dentro das regras do capital – a da exploração do homem pelo homem, tá tudo certo. Isso é sim honesto. Todos desejam. Se ele conseguiu, parabéns!

Ele se disse ultra-liberal, anti-PT (que tem o significado, por mais que discordemos, anti-esquerda); Ele prometeu privatizar ao máximo, diminuir o tamanho físico do estado, aumentar a repressão e acabar com secretarias “desnecessárias”, tais como Igualdade Racial, Mulheres, LGBT e Direitos Humanos. Ignorante que é, não se deu conta de que as de mulheres e Lgbts sequer são secretarias, e que Direitos Humanos e Igualdade Racial, sempre foram mais simbólicas que efetivamente valorizadas (do ponto da destinação de recursos) mesmo pelo atual governo. Ele, João Dória, disse e repetiu isso tudo. E conseguiu mais da metade dos votos válidos no pleito eleitoral. Bom reiterar: Maioria dos votos válidos, e não maioria em apoio popular, visto que votos brancos, nulos e abstenções superaram sua votação, dado este que merece reflexão exclusiva, mas em outro texto.

A Câmara de vereadores seguiu a mesma onda. A bancada fundamentalista, a bancada da bala e a bancada da especulação imobiliária e dos grandes interesses corporativos aumentou. Nossos inimigos de classe estão explícitos ali, tanto na nova Câmara quanto no novo executivo municipal, caçula do tripé dos infernos, Temer/Alckmin/Dória.

O rapaz do MBL, eleito em São Paulo, é só mais um no jogo. Estridente, barulhento, sarcástico e com marcas físicas que o aproxima ao grupo racial majoritário da classe trabalhadora. Tudo que a direita sempre quis ter. Paciência. Eles tem, nós não temos. Agora é enfrentar!

A direita entende muito mais de luta de classes que nós. Desde o fim da escravidão, cooptaram lideranças, movimentos, e iniciativas negras. Não há novidades nisso. Cabe perguntar porque a direita forjou, nesse momento político do Brasil, a sua liderança negra, cujo papel é o diálogo direto com a maioria da classe trabalhadora (negra que é), e a esquerda não.

No Brasil, a dominação de classe por parte dos ricos sempre se deu a partir das relações raciais. Somos um país fruto de quase 400 anos de escravidão. Eles sempre souberam que a manutenção do poder dependeria da continuidade da lógica escravocrata, mesmo no período pós escravidão. Eles a fizeram. Daí a importância do racismo estrutural para a sua permanência no poder. Do lado canhoto, no entanto, nunca se deu importância aos negros enquanto agentes e lideranças políticas, apesar de seu explícito potencial mobilizador.

O rapaz do MBL estará na Câmara Municipal de SP para desestabilizar, para fazer barulho, para provocar. Ele é uma encomenda. Deve ser enfrentado na política e não desqualificado por ser “um negro de direita”. Ele foi eleito a partir da defesa de uma plataforma ultra-liberal, de defesa do interesse privado e de crítica às bandeiras históricas dos diversos movimentos populares e de direitos humanos. É de se lamentar, mas tal deformação também é um direito. Há mulheres de direita, homossexuais de direita, nordestinos e pobres de direita. A questão central não é o fato de ele, sendo quem é, defender as pautas que defende. A questão central é, como enfrentaremos o projeto político nazi-fascista, racista, patriarcal e radicalmente liberal que, de tão eficaz, usa e convence o povo pobre, trabalhador, periférico e negro a cerrar fileiras nas redes, ruas e urnas juntos aos seus algozes. E convence mesmo, de maneira generalizada, não apenas os negros. E mais: o quanto interessa a branquitude de esquerda levar esse debate a sério e à prática.

Ou não aprendemos nada com a História.

Em tempo: Áurea Carolina e Mirielle Franco, BH e RJ, pretas e de esquerda, eleitas vereadoras pelo Psol, nos fazem ter fé no futuro. A sobrevida da esquerda brasileira é preta e periférica, ou não será!

 

Sobre o PT, a esquerda e as massas.

 

Do Luis Nassif

 

Por Diogo Costa

SOBRE O PARTIDO DOS TRABALHADORES, A ESQUERDA E AS MASSAS –

 

Volta e meia surgem vozes do senso comum a dizer que o PT se “divorciou” dos movimentos sociais, estudantis, dos sindicatos, das ruas e das massas, etc. É mesmo? Vejamos.

-O PSTU existe há vinte anos, disputou três eleições presidenciais e na última, em 2010, fez 0,08% dos votos.

-O PCO existe há dezoito anos, disputou três eleições presidenciais e na última, em 2010, fez 0,01% dos votos.

-O PSOL existe há oito anos, disputou duas eleições presidenciais e na última, em 2010, fez 0,87% dos votos.

-O PCB existe há noventa e um anos, depois da briga com o oportunista, renegado e quinta-coluna Roberto Freire (PPS), nos anos 90, disputou uma única eleição presidencial, em 2010. Fez 0,04% dos votos.

O PSTU, o PCO e o PCB até hoje não conseguiram eleger um mísero deputado federal sequer. O PSOL hoje conta com a “imensa” bancada de três deputados federais… É o PT que se “divorciou” das ruas ou são os outros partidos de esquerda aqui citados que infelizmente só convencem as paredes de seus próprios quartos?

Quem está dissociado das massas populares, é o PT? Não foi por acaso o PT que fez em 16% dos votos no primeiro turno da disputa em 1989? E 24% em 1994, e 32% em 1998, bem como conseguiu fazer 46% em 2002, 48% em 2006 e 47% em 2010? E uns e outros ainda tem coragem de dizer que o Partido dos Trabalhadores “se afastou das massas”!Quem sabe vamos lutar para eleger o Zé Maria do PSTU, em 2014, e cobrar dele que faça todas as reformas que a esquerda defende desde sempre! Não seria uma beleza? Lembro apenas que o PSTU não tem um único parlamentar no Congresso Nacional, talvez consiga fazer as reformas com uma varinha mágica de condão!

O PT (que alguns pensam equivocadamente ter a força do PSUV), infelizmente não tem sequer 1/6 dos parlamentares no Congresso Nacional! Como não ter um governo de coalizão dentro deste cenário?

Esse é o dilema!

Quando o PSOL, o PSTU, o PCO e o PCB elegerem uns 20 ou 25 deputados federais cada um, aí a correlação de forças no parlamento começará a mudar… Aliás:

-Porque cargas d’água o PSTU, que existe há 20 anos, não consegue eleger um único deputado federal?

-Porque cargas d’água o PCO, que existe há 18 anos, não consegue eleger um único deputado federal?

-Porque cargas d’água o PCB, que existe há 91 anos, não consegue eleger um único deputado federal?

-Porque cargas d’água o PSOL, que existe há 08 anos, não consegue eleger mais do que a “imensa” bancada de 03 deputados federais?

-Porque estes partidos de esquerda não conseguem se aproximar das massas?

Lamentavelmente, urge constatar que tirando o PT, que é um partido de massas, os outros partidos de esquerda no Brasil infelizmente não falam às massas, não alcançam as massas e não tem base social real. Somados, são menores do que o PT era em 1982, há incríveis 31 anos já passados!

Sabendo que o PT tem apenas 1/6 do parlamento, forçosamente isso quer dizer que os outros 5/6 do parlamento estariam, em tese, em disputa para os outros partidos de esquerda. No entanto, esses partidos não conseguem aumentar a sua base social e, somados, elegem apenas 03 deputados federais. Isso é um sintoma incontestável de que a tática e o discurso desses partidos culmina, ao fim e ao cabo, em sectarismo e principismo, logo, não dialogam com a vida real do povo brasileiro.

Na prática, vislumbra-se o quão equivocada é a tática atual do PSOL, do PSTU, do PCO e do PCB. Essa tática de bater violentamente no PT, para tentar ficar com nacos de suas bases, é contraproducente e infantil. Primeiro, porque com essa tática não disputam os já famosos 5/6 dos votos que os brasileiros não conferem ao PT para o parlamento. Segundo, porque obviamente essa tática apenas fraciona (ou tenta fracionar) os já parcos 1/6 de votos parlamentares que o PT tem.

O problema das esquerdas em Pindorama, infelizmente, segue sendo o sectarismo pueril. O PSOL chama o PT de traidor. O PSTU chama o PSOL de pelego. O PCO chama o PSTU de renegado. E o PCB diz que todos esses são burgueses e que somente ele é que representa a vanguarda do proletariado! Enquanto isso, o PT segue sendo o único partido de esquerda de massas no Brasil e os outros continuam brigando entre si, sem base social real e cada vez mais principistas, dogmáticos e sectários!

Enquanto ficarem só na crítica e elegerem, em conjunto, a “imensa” bancada de três deputados federais, pouca coisa vai avançar! Esses partidos não são a ‘vanguarda’ da classe operária no Brasil? Porque em 2010, somados, fizeram somente 01% dos votos na eleição presidencial?

Enfim, lamento ter que repetir isso pela milésima vez. Muitos certamente não irão gostar. Paciência… O Partido dos Trabalhadores é o único partido de massas no Brasil atual, gostem ou não os seus habituais detratores!

Entendem agora o porquê da luta inglória do PT contra as forças que sempre dominaram este país? Onde está a esquerda que “não se divorciou” das massas para ajudar o PT a fazer as transformações sociais? A verdade nua e crua é que temos partidos de esquerda que não alcançam a grande massa da população brasileira, eles é que precisam encontrar e convencer a massa, não o PT!

Quanto ao PT, segue a sua luta desigual, onde tem apenas 1/6 dos parlamentares no Congresso Nacional. Onde é a cabeça de um governo de coalizão, eivado de contradições, justamente porque a esquerda que se pretende revolucionária elege, em conjunto, a “imensa” bancada de três deputados federais…

Finalmente, constata-se que entre o sonho e a realidade vai um longo caminho a ser percorrido. Espero que os protestos do mês de junho de 2013 se traduzam em algo de concreto para 2014, no que tange ao parlamento nacional.

As ruas são importantíssimas, mas, para desespero de alguns, ainda continuam sendo necessários os votos de 50% dos deputados e senadores para se aprovar um simples projeto de lei. E 60% de votos no Congresso Nacional para se aprovar Emendas Constitucionais.