Em São Paulo, o teatro é alvo da perseguição política

da Carta Capital

por Eduardo Nunomura

Na esteira do congelamento de 43,7% do orçamento municipal para a Cultura, grupos da periferia sofrem cortes

Humbalada
Humbalada, cruzada contra o machismo, a homofobia e o racismo

Nos últimos 15 anos, a metrópole paulistana foi governada por quatro prefeitos que, juntos, injetaram 165 milhões de reais só no teatro. Foram contemplados 432 projetos de pesquisa e produção teatral pelo programa municipal de fomento. Marta Suplicy, então no PT, promulgou a lei de 2002, que foi rigorosamente respeitada pelos sucessores José Serra (PSDB), Gilberto Kassab (DEM) e Fernando Haddad (PT).

A alternância de poder, mesmo em uma capital polarizada como São Paulo, parecia obedecer à ordem democrática e ao bom senso. Então veio João Doria Jr. (PSDB), o político “novo” cujo modo de governar transita entre os personagens Brighella, Pantalone e Scaramuccia da Commedia dell’Arte.

Ao assumir, o tucano impôs um congelamento de 43,7% da verba da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o equivalente a 197,4 milhões de reais. Projetos de todas as expressões culturais estão sob ameaça em meio a uma velada caça às bruxas na classe artística.

Em 11 de março, o edital de fomento à dança foi revogado pelo secretário municipal André Sturm e “substituído por um outro que desconsidera a própria lei, indo contra as conquistas de classe das últimas 21 edições”, conforme denuncia a Frente Única da Cultura.

Na dança, foram contemplados 213 projetos num total de 63 milhões de reais até o ano passado. No dia 27, trabalhadores da cultura protestaram contra o congelamento, mas foram impedidos de se manifestar livremente.

“O autoritarismo já está impregnado nessa gestão. Ao cercarem o Theatro Municipal para que os artistas não pudessem protestar nas suas escadarias, separaram o artista de seu palco. É um símbolo muito forte”, declarou o ator Celso Frateschi, ex-secretário de Cultura na gestão Marta Suplicy.

Em nota, a SMC atribuiu o congelamento de 82 milhões de reais a um “equívoco” cometido pela equipe do ex-prefeito Haddad por ter enviado os programas em andamento com a rubrica de “projetos”. E, por se tratar de um novo gestor, recursos denominados de projetos foram congelados à espera de uma avaliação do time de Doria.

Theatro Municipal
Na rua: protesto foi barrado no Theatro Municipal (Foto: Nelson Antoine/AFP)

A nota informa que 30 milhões de reais já foram descontingenciados e programas serão retomados a partir deste mês, incluindo o lançamento dos editais de fomento ao teatro, ao circo e à música.

O drama está só começando. A realidade que acontece no campo cultural em São Paulo retrata uma farsa em nível nacional. As trocas de poder, democráticas ou não, estão servindo para desconstruir um processo de fortalecimento da produção artística duramente conquistado nos últimos anos. A ordem é eliminar a crítica. “Há um desmonte ideológico de apagamento da memória e da resistência”, resume a diretora da Cia. Sansacroma, Gal Martins.

A companhia completa 15 anos em julho, marco que deveria ser voltado para a alegria, mas desta vez será de apreensão. Daqui a três meses acaba o projeto de incentivo que possibilitou que o grupo de dança composto por integrantes negros do Capão Redondo, periferia da zona sul, pudesse circular pela capital com o espetáculo Sociedade dos Improdutivos (a performance mostra como a população negra é tratada nos manicômios), preparar um livro e promover ações artísticas com a comunidade.

A companhia desenvolveu a dança da indignação, uma metodologia em que cada dançarino usa o corpo contra símbolos sociais de opressão. “As periferias vão ser as mais atingidas, porque o desmonte engloba programas que envolvem a formação dos artistas”, afirma Gal.

Mais de 300 educadores e artistas foram dispensados do Programa de Iniciação Artística (PIÁ) e do Vocacional por Sturm. O primeiro permite que crianças de 5 a 14 anos tenham um contato inicial pela arte e funciona no contraturno escolar. Já o segundo trabalha com público desde os adolescentes até os idosos.

A gestão Doria retirou ainda esses programas dos Centros Educacionais Unificados, os CEUs, deixando pelo menos 4 mil alunos das periferias sem aulas. A SMC afirma que os antigos artistas educadores não teriam seus contratos renovados e já recrutou outros 130 profissionais.

O ator Bruno César Lopes, de 29 anos, é um dos dispensados do PIÁ. Sua colega Tatiana Monte, de 29, entrou na lista de corte do Vocacional. Os dois estão à frente da Cia. Humbalada, mais uma iniciativa que brotou na periferia. Com 20 integrantes, a companhia tem um galpão que é um ponto de cultura desde 2015.

Sediada no Grajaú, a Humbalada faz questão de dar visibilidade a uma linguagem e a uma estética periféricas, como na peça Grajaú Conta Dandaras, Grajaú Conta Zumbis. Contemplado com o edital de fomento, o espetáculo conta com artistas convidados para que, em cena, recontem quem são as Dandaras e os Zumbis das periferias atuais.

Numa reverência ao Teatro de Arena, dos anos 1960, e ao musical Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, a peça do Grajaú apresenta histórias brutais sobre machismo, homofobia, racismo, violência. Já são 13 espetáculos na trajetória, mas a Humbalada está ameaçada. Os recursos do fomento acabaram e os do ponto de cultura terminam em julho.

Teatro Commune
Teatro Commune: verdadeira escola de teatro(Foto: Emerson Natividade)

“Quando se olha na perspectiva da periferia, é muito difícil imaginar uma empresa aportando recursos. As pessoas daqui não têm dinheiro de sobra para promover um financiamento coletivo, nem para bancar a bilheteria. E não sobrevivemos só criando e vendendo coisas nossas”, afirma Lopes.

Marcelo Palmares, que dirige o Núcleo Teatral Filhos da Dita desde 2007, é um dos fundadores do Grupo Pombas Urbanas, uma das mais antigas experiências artísticas nascidas nas periferias e sediada em Cidade Tiradentes, zona leste. Surgiu em 1989 dentro do projeto Semear Asas, do dramaturgo peruano Lino Rojas, quando se apresentava em São Miguel Paulista.

Em 2005, o Pombas Urbanas fez parte da primeira geração de pontos de cultura federais, durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Cerca de 25 mil pessoas hoje circulam por ano nos espetáculos, oficinas, cursos e eventos do instituto criado com a expansão do projeto.

Mas, desde o fim de 2016, todos as fontes de recursos secaram. “Quando se limitam as possibilidades de se fazer cultura por toda parte, as vozes e as novas ressonâncias são eliminadas. E o espaço do não encontro é onde aumenta a violência”, alerta Palmares.

A circulação entre o centro e as periferias é o que tem experimentado o Teatro Commune, localizado próximo do Centro de São Paulo desde 2007 em um antigo prédio abandonado que hoje é um espaço com 99 lugares e um café.

O Commune Coletivo Teatral surgiu quatro anos antes com o objetivo de desenvolver pesquisas sobre a Commedia dell’Arte e formar jovens. Tornou-se ponto de cultura estadual entre 2009 e 2014. A cada semestre, 30 aprendizes de 15 a 24 anos vindos de Heliópolis participam de um ciclo completo na produção teatral.

Cerca de 500 jovens já passaram por esse processo no coletivo Commune, liderado por Augusto Marin e Michelle Gabriel, que usam seus conhecimentos acadêmicos (ambos são doutores em Teatro pela Universidade de São Paulo) para apresentar obras clássicas e criar, juntamente com os alunos, textos em processo de produção colaborativa.

Alguns dos jovens já se tornaram arte-educadores. “Trazê-los para o Centro é uma forma que encontramos para romper com as barreiras da própria cidade”, diz Marin. O atual projeto envolve a concepção de quatro peças e foi viabilizado por um edital da Petrobras para a área socioambiental, mas esses recursos se encerram em julho e não serão renovados. 

A única parceria que o Commune manterá é com o Sindipd, o Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados, além da locação do espaço para terceiros. A arte da sobrevivência é parte da história da cultura brasileira. O conflito agrava-se quando os poderes constituídos trabalham para apagar a cultura brasileira da história.

Em 100 dias, João Doria acelera com choque de marketing

da Carta Capital

por Débora Melo

Comunicador experiente e cotado para 2018, prefeito tucano abusa de fantasias para imprimir marca à sua gestão

O prefeito de São Paulo João Doria

 

João Doria (PSDB) completa 100 dias como prefeito de São Paulo nesta segunda-feira 10.

Com pouco tempo de governo e uma estratégia agressiva de marketing, o empresário tem sido apontado como potencial candidato tucano às eleições presidenciais de 2018 e, embora prometa “lealdade” ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), admite que sua popularidade é, hoje, maior que a de seu padrinho político.

Pesquisa Datafolha divulgada no sábado 8 aponta que 43% dos moradores da cidade de São Paulo aprovam a gestão Doria, o que representa um recorde na comparação com todos os antecessores, diz o instituto.

Comunicador experiente, treinado em programas de TV, o tucano se transformou em um fenômeno das redes sociais. O rótulo de “trabalhador” que colou durante a campanha eleitoral ganha força a cada nova aparição do prefeito fantasiado de gari ou de agente da CET.

Os passos de Doria são registrados por uma equipe própria, e os vídeos do prefeito em ação são compartilhados diariamente com 2,4 milhões de seguidores, sempre acompanhados de hashtags como #JoaoTrabalhador e #AceleraSP.

O choque de marketing pode, no entanto, não ser suficiente para sustentar a popularidade do prefeito no longo prazo. O levantamento do Datafolha mostra que a insatisfação do paulistano tem aumentado com o passar dos dias. Se no início de fevereiro 13% avaliavam a gestão como ruim ou péssima, hoje esse índice saltou para 20%.

Uma entrevista ao vivo exibida por um telejornal da Rede Globo na manhã do último dia 7 resume bem este momento da atual gestão. Após fortes chuvas, a cidade de São Paulo amanhecia debaixo d´água naquela sexta-feira.

Ao entrevistar um motorista que havia resgatado o próprio carro com a ajuda de amigos, o repórter perguntou: “Cansou de esperar e resolveu trazer o carro por conta própria?”. O motorista, então, respondeu: “Esperar o Doria trazer o rodinho para puxar a água?”.

Em março, o prefeito anunciou que os 30 milhões de reais destinados a ações de combate a enchentes e à construção de terminais de ônibus e de uma ponte seriam, na verdade, remanejados para a Secretaria de Desestatização e Parcerias, criada em sua gestão.

O pacote de privatizações é prioridade para o prefeito, que espera ver as medidas aprovadas pela Câmara Municipal até o final de maio. Entre as propostas está a “desestatização” de equipamentos públicos como o Estádio do Pacaembu, o Autódromo de Interlagos, o Centro de Convenções Anhembi e mercados e parques como o Ibirapuera.

Promessas

As promessas de Doria têm sido cumpridas, para o bem e para o mal. Dois meses após o aumento da velocidade nas marginais Tietê e Pinheiros, uma de suas principais bandeiras de campanha, o número de acidentes com vítimas aumentou.

A administração tucana divulgou os números de dois períodos após a mudança: de 25 de janeiro até 23 de fevereiro, quando foram registrados 102 acidentes com vítimas; e de 24 de fevereiro até 26 de março, com 117 acidentes.

A média de 2016, com as velocidades reduzidas, foi de 64 acidentes por mês. Implantada em julho de 2015 pela gestão Fernando Haddad (PT), a impopular redução da velocidade acompanhou o movimento de diversas metrópoles do mundo em prol da redução da letalidade do trânsito.

Doria afirma, porém, que o aumento do número de acidentes se deve à maior presença de agentes de trânsito nas vias – de 45 para 75 –, o que teria elevado o registro de ocorrências.

Doria-Alckmin
Doria jura lealdade a Alckmin, mas admite ser mais popular que o padrinho (Foto: Diogo Moreira/A2img)

O prefeito também prometeu zerar a fila de espera para a realização de exames médicos na rede municipal, e gosta de dizer que seu Corujão da Saúde bateu a meta em um período de três meses, com a realização de 342 mil procedimentos.

O programa do prefeito, no entanto, só atende pedidos feitos até dezembro de 2016, e os pacientes que procuraram as unidades de saúde a partir de janeiro deste ano foram colocados em segundo plano, formando uma nova fila. Para que a fila seja realmente zerada, é necessário atender a essas novas solicitações, e os médicos da rede pedem 110 mil novos exames, em média, por mês.

Dono de uma fortuna avaliada em 180 milhões de reais, o “gestor” tem ainda a sorte de poder contar com a “cidadania” das empresas, como ele mesmo diz. Segundo Doria, a iniciativa privada já doou mais de 256 milhões de reais em bens e serviços para a cidade. O tucano garante que não há contrapartidas, “nem agora, nem no futuro”, mas faz propaganda das colaboradoras em suas redes sociais.

O episódio mais controverso desse modelo de parceria se deu no dia 23 de março, durante jogo da seleção brasileira contra o Uruguai, em Montevidéu, quando placas eletrônicas do estádio Centenário exibiram a marca do Cidade Linda, programa de zeladoria de Doria.

O espaço publicitário foi cedido à gestão tucana pela farmacêutica Ultrafarma, do empresário Sidney de Oliveira, amigo de Doria, que doou medicamentos à prefeitura. No dia 11 de fevereiro, o prefeito já havia atuado como garoto-propaganda da Ultrafarma em uma divulgação nas redes sociais.

Em março, a Justiça de São Paulo negou um pedido de liminar em ação popular que pedia a proibição de doações à prefeitura. Em sua decisão, o juiz Danilo Mansano Barioni, da 1ª vara da Fazenda pública da capital, disse que, por enquanto, não há ilegalidade nas negociações.

“Não há dano, lesão ou ameaça de lesão concreta ou imediata a debelar.” Questionado pela Justiça, o Ministério Público Estadual também havia se manifestado contra o pedido de liminar.

Recentemente, Doria afirmou, por meio de seu perfil no Facebook, que aceitava uma oferta de doação de 5 mil livros do Instituto Mises, que leva o nome do austríaco Ludwig von Mises, neoliberal que defendia o Estado mínimo e é um dos ícones da nova direita brasileira.

Como entusiasta do movimento Escola sem Partido, pegou mal para o prefeito a possibilidade de que os livros fossem parar nos colégios, e a prefeitura afirmou que as doações, se concretizadas, irão para as bibliotecas.

O debate acerca da “doutrinação” está agora no centro da polêmica mais recente do governo tucano. Na semana passada, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider (PSD), fez críticas públicas ao comportamento do vereador Fernando Holiday (DEM), do Movimento Brasil Livre (MBL) e aliado de Doria, que visitou escolas para “fiscalizar” eventual doutrinação ideológica à esquerda por parte dos professores.

Schneider repudiou a ação e, após ser confrontado pelo MBL, chegou a pedir demissão no sábado 8, mas o prefeito conseguiu mantê-lo no cargo. O impasse, no entanto, não está encerrado. Holiday e outros líderes do MBL exigem uma retratação do secretário, que, segundo eles, cometeu um equívoco ao dizer que o vereador estaria usando o mandato para “intimidar” professores.

Resta saber, agora, de que lado o prefeito João Doria vai ficar.

Prefeitura de SP quer despejar catadores que trabalham há 11 anos sob viaduto

por Milena Buarque, especial para a Ponte Jornalismo

Coletores de materiais reutilizáveis e recicláveis foram autuados em março por “invasão de área pública”. Segundo movimento social, o local foi cedido pela gestão de Gilberto Kassab, mas atual prefeitura nega que haja cessão da área

Diversos atores sociais podem estar envolvidos em um bom projeto de cidade linda. No centro de São Paulo, quase 400 toneladas de resíduos – e não de lixo – são retirados das ruas todos os meses, segundo catadores que trabalham no bairro do Glicério. Em 10 anos, 220 mil toneladas de materiais foram recicladas. No entanto, as cooperativas CooperGlicério e Associação Nova Glicério, desde o último sábado (01/04), vivem o clima de tensão gerado pela possibilidade de despejo.

Autuados em março por “Invasão de área pública”, o local sob o viaduto da região, foi ocupado em 2006. “No sábado, às 5 horas, o Glicério começou a ficar fechado. Quando cheguei, umas 6 horas, tinha Polícia Militar e GCM [guardas metropolitanos]. Eles começaram a limpar tudo, tiraram o pessoal e prenderam carrinhos, onde dormem alguns”, conta Sérgio Bispo, catador e ex-presidente da CooperGlicério.

Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, o local foi cedido, aparado pelo decreto Nº 48.378, da gestão do então prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que dispõe sobre a cessão de uso de áreas localizadas nos baixos de pontes e viadutos municipais. O decreto destina essas áreas para uso urbanístico e social.

A atividade exercida pelas organizações, além de serem entendidas como importante serviço ambiental, geram trabalho e renda para famílias por meio da coleta de materiais recicláveis. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, os catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis desempenham papel importante na implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Desde 2006, as organizações participam de fóruns e núcleos de discussão sobre a questão do lixo e da coleta seletiva.

O clima de despejo também atinge as 120 famílias que dependem do trabalho dos catadores. “A maioria das famílias mora na região. E os filhos também estudam no centro. Se vão tirar a gente, pra onde vamos? A prefeitura não pode fazer as coisas assim. Tem que haver diálogo”, diz Bispo.

A atuação dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis é reconhecida como atividade profissional desde 2002 pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Ainda que seu trabalho contribua de forma significativa e substantiva para a cadeia produtiva da reciclagem, as condições precárias de coletas em ruas, edifícios públicos e privados ainda marcam a atividade dos catadores.

“Nós fazemos um trabalho de graça. A prefeitura não nos paga nada. Nós pagamos água, luz, telefone. Nossos uniformes, somos nós que mandamos fazer. Nós não estamos dando prejuízo nenhum pra prefeitura. Nós estamos ajudando”, diz Maria, atual presidente da CooperGlicério.

Procurada pela Ponte Jornalismo, a Prefeitura Regional Sé, que recebeu representantes das duas organizações na última terça-feira (04/04), alega que não há nenhum documento que ateste a cessão da área.

Sérgio Bispo, catador e ex-presidente da CooperGlicério – Foto: Milena Buarque

Com base no decreto 48.378, a prefeitura regional diz que deve zelar pela guarda e “efetuar fiscalização, impedindo invasões, ocupações irregulares e depósito de materiais, tomando todas as medidas necessárias, quando for o caso, para sua desocupação”.

A prefeitura afirma, ainda, que “nova reunião será marcada para acertar detalhes em relação às medidas de segurança que devem ser realizadas pelos ocupantes dos espaços, para garantir a segurança de quem trabalha e para os motoristas que trafegam pela região”.

O novo Plano Diretor Estratégico do munícipio, de 2014, afirma que o Plano de Bairro “poderá indicar áreas necessárias para a implantação de equipamentos urbanos e sociais, espaços públicos, áreas verdes, vias locais novas e de gestão de resíduos sólidos, inclusive para cooperativas de catadores de materiais recicláveis”.

Querendo permanecer onde estão, os catadores sintetizam: “como [é possível] uma cidade linda sem catador? Cidade limpa quem faz é a gente”.

Artista que pichou “Dória” é convidado a sair de casa

da Ponte/cartacapital

Iaco Viana entrou na mira da polícia após fazer pichação em protesto contra o prefeito João Doria na Avenida 23 de Maio, em São PaulO
Com esta pichação, Iaco obrigou o prefeito a apagar o próprio nome | Foto; Instagram @iaco_art

Depois do Carnaval, o artista plástico, pichador e grafiteiro Iaco Viana, 34 anos, pretende montar uma “exposição beneficente” dos seus trabalhos. A causa beneficiada é o próprio artista. “Vou vender alguns quadros e arranjar dinheiro para poder alugar um lugar para morar”, explica. Iaco está morando de favor na casa de uma amiga há duas semanas, quando as pessoas com quem dividia apartamento pediram sua saída. O motivo: não gostaram de receber a “visita” de uma viatura da Polícia Civil, que apareceu no local para convocar o artista a depor no Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais).

Especializado em investigar crimes graves como roubo a banco, lavagem de dinheiro e facções criminosas, o Deic passou também a caçar pichadores, depois que o prefeito João Doria, aliado politico do governador Geraldo Alckmin (ambos do PSDB), declarou “guerra” às pichações na cidade de São Paulo. Iaco tornou-se um dos primeiros suspeitos ouvidos por um inquérito do Deic que busca enquadrar os artistas por associação criminosa, crime que pode dar em até três anos de reclusão. Com isso, a polícia paulista segue os passos das autoridades de Minas Gerais, que em 2015 passaram a prender pichadores com base na mesma lei. Até então, a prática mais comum era enquadrá-los na Lei de Crimes Ambientais, que prevê até um ano de detenção — possível de ser substituído, na Justiça, pelo pagamento de uma cesta básica.

Foto: Instagram @iaco_art

Nome conhecido da arte de rua em São Paulo, Iaco protagonizou um dos protestos mais emblemáticos feitos contra o prefeito Doria por conta do apagamento dos grafites da Avenida 23 de Maio, no final de janeiro. Sobre a tinta cinza deixada nos muros pela prefeitura, o pichador escreveu 12 vezes o nome do prefeito. “Nada melhor do que escrever o nome da pessoa que está proibindo algo. Quando alguém manda apagar o próprio nome é como se estivesse apagando a si mesmo, destruindo seu ego”, explicou na época. À Ponte, Iaco faz questão de ressaltar que seu trabalho vai além das pichações e grafites. “Eu sou um artista plástico. A parede é só um suporte para mim. Eu faço milhares de outras coisas”, diz.

Fotos da pichação “Doria” na 23 de Maio, ao lado de várias outras, faziam parte de um dossiê com mais de 400 páginas com imagens do seu trabalho que Iaco viu nas mãos dos policiais ao ser interrogado na 1ª Delegacia de Policia de Investigações sobre Propriedade Imaterial do Deic, no último dia 7. Após ser ouvido, foi liberado sem indiciamento. “Eles estavam tentando me enquadrar em associação criminosa, mas ficou bastante óbvio que nunca tive nenhum intuito de participar de gangue nem de nada parecido”, conta.

A advogada do artista, Adriana Gregorut, lembra que “o crime de associação criminosa precisa de pelo menos três pessoas para sua tipificação e Iaco deixou muito claro em seu depoimento que fez a escrita no muro da Avenida 23 de maio sozinho, de forma autônoma, bem como não integra e nunca integrou qualquer ‘grupo de pichadores’”.

Foto: Instagram @iaco_art

Logo depois do depoimento à polícia, mesmo sem ter sido indiciado, Iaco foi convidado pelos antigos colegas de apartamento a deixar o local. Ele não insistiu para ficar. “As pessoas [com quem eu morava] me pediram para sair e eu também, depois que a polícia apareceu lá, me sinto mais seguro morando em outro lugar”, explica.

Para a advogada, a saída de Iaco da própria casa foi “uma consequência gravíssima” da investigação do Deic, que se mostra “ainda mais desproporcional” quando se pensa “na baixa ofensividade do crime ao qual ele pode eventualmente vir a ser indiciado ou denunciado”. Nas palavras de Adriana, “essa situação mostra como o estigma que a nossa sociedade impõe aos indivíduos que passam pelo sistema penal (sejam eles investigados, acusados ou condenados) faz com que sofram penas além daquelas previstas na lei”.

A cidade triste

Do Sustentabilidade e Democracia.

por Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

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“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”.

(Fernando Pessoa)

 

Em “A Flor e a Náusea”, Carlos Drummond de Andrade narra a luta de uma flor para romper o asfalto e o concreto, e nascer dentro do ambiente hostil de uma grande cidade. Era uma flor simples, vista como feia. Mas nas palavras do próprio mestre da poesia era uma flor, e por isso era capaz de derrotar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Por traz dos versos do poeta, a narrativa de uma sociedade combalida pela repressão e a dor de viver numa cidade onde a dura violência dos padrões pré-estabelecidos, da ausência de cores, da ausência de uma vida mais livre, causa um sentimento de opressão no íntimo das pessoas. Mineiro, da pequena Itabira, Drummond conhecia esta dor e, de certa forma, a flor que nascia por entre as barreiras urbanas também era uma reação própria contra a dureza desse mundo restrito, tendo a poesia como instrumento mais forte.

Pois cidades apagadas, cinzentas, são um fruto da Revolução Industrial e do início do domínio régio do capital sobre a alma de cidadãos e cidadãs. Primeiro, a cinza veio da fumaça das chaminés e cobria casas, janelas, árvores, flores. Deixava o ar irrespirável e o ambiente empobrecido. Os grandes centros industriais da Europa eram verdadeiros “bunkers” militares dominados pelo breu cinzento da poluição. Os matizes dos jardins foram substituídos por um padrão único de imagem, ao ponto das próprias mariposas mudarem de cor para fugir dos predadores, conforme se apercebeu o naturalista Kettlewell na cidade britânica de Manchester em 1850.

Para vencer os problemas de saneamento que acompanharam o crescimento das cidades, os planejadores urbanos capitalistas estabeleceram políticas construtivas baseadas na padronização, no uso do concreto e do asfalto. Ruas deixavam de ser ruas para virarem pistas. E mesmo que o resultado nem sempre repercutisse positivamente no ambiente de vida das pessoas, na medida em que a colocação de concreto e asfalto nas ruas, sem observância das condições ambientais e da infraestrutura adequada, pode resultar em efeito reverso, estas foram implantadas e surgiram as grandes periferias.

Nos projetos dos planejadores do capital os bairros eram vistos como locais monocromáticos, sem identidade, sem rosto, sem vida, eram uma reprodução estética do proletariado seguindo a visão dos membros das classes dominantes. Algo sem alma. Que estava ali apenas para reproduzir o crescimento exponencial dos lucros.

Mal esperavam, contudo, que surgisse a resistência! A luta continua de cidadãos e cidadãs contra os padrões, contra visão mecânica e militarista do planejamento capitalista. E isto é importante: para o planejador capitalista a melhor forma de organização de uma cidade é transformá-la em um grande quartel, onde todas as casas são iguais, seguem os mesmos modelos e as mesmas cores. É um exército de edificações monolíticas perfilhado esperando o comando da habitação.

Mas a resistência impôs a sua diferença, e os moradores destes blocos monocromáticos expuseram a sua inconformidade com uma explosão de cores, com jardins, com a arte das ruas e com os versos dos poetas insurgentes. Mesmo em regimes opressores, como as ditaduras latino-americanas, as cores silenciosamente mostraram a sua força contra o padrão, tal qual as pedras foram arremessadas contra os relógios na “comuna de Paris”. O ódio foi vencido pela alma dos artistas urbanos!

Pois, novamente, vemos emergir o pensamento padronizador. Assim como Hitler e Mussolini, com seus “camisas cinzentas ou pretas”, João Dória Júnior condenou a cor e a arte em São Paulo. De novo, não apresenta absolutamente nada! É apenas a reprodução contemporânea de uma mentalidade totalitária na qual a rua é o local do silêncio, mesmo que este silêncio se expresse na ausência de cores. O que Dória faz na maior cidade da América do Sul é criar campos de concentração para a arte. Logo a arte, maior símbolo do espírito humano e da sua criatividade!

As cenas grotescas que observamos nos últimos dias, com o fim do maior mural de grafiteiros do país, assemelham-se à queima de livros realizada pelos soldados da SS na Alemanha Nazista. É apenas mais um gesto de violência, de ódio travestido de moralidade. E isto, de forma alguma, pode ser aceito.

Triste é a cidade sem cores! Triste é o país que assiste em silêncio a destruição da arte, da democracia, da vida…