O conflito na Síria e a Segunda Guerra Fria

Da Carta Capital

O desfecho do conflito sírio, que envolve EUA, China e Rússia, será importante para definir o que virá pela frente no século XXI

 

Civil abandona área de Aleppo, na Síria
Sírios abandonam área controlada por rebeldes em Aleppo durante a tentativa de retomada da cidade pelas forças sírias na terça 13

Por Ricardo Alemão Abreu

Com o recente avanço das forças militares sírias e seus aliados na batalha contra o Estado Islâmico e outros grupos fundamentalistas e mercenários em Aleppo, surge uma forte tendência de vitória do atual governo sírio e de seus aliados nesse prolongado conflito que envolve interesses dos EUA e das potências europeias, de um lado, e mais diretamente interesses da Rússia e do Irã, mas também da China, de outro.

Depois do início das revoltas árabes, em 2011, segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, em seu livro A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos – das rebeliões da Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio, o motivo principal da intervenção dos Estados Unidos da América (EUA) e das potências europeias no Oriente Médio e na região do Magreb seria o controle do Mar Mediterrâneo e a contenção e isolamento do Irã, além de evitar a presença da Rússia, e ainda da China, nessa região.

Diferente do caso da agressão militar à Líbia, quando a Rússia e a China se abstiveram e não utilizaram o seu direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, e assim não tensionaram o equilíbrio de poder, desta feita no caso da Síria, os dois países tiveram outra posição.

Moniz Bandeira, o maior analista de relações internacionais brasileiro da atualidade, descreve e analisa o que se passou na preparação da agressão multinacional à Síria, que se deu paralelamente ao incitamento de conflitos internos no país árabe.

Os EUA e potências ocidentais como a França e a Inglaterra, aliados a outros países da região, se empenham, desde os preparativos feitos para o conflito, para derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad.

O papel específico do Catar e da Arábia Saudita consiste no financiamento e na mobilização de mercenários, além do abastecimento de armas para que esses grupos, como o Estado Islâmico, lutem contra as forças armadas e contra o regime sírio.

Uma intensa campanha de mídia e de guerra psicológica, como a realizada contra o governo de Kadafi na Líbia, foi feita para influenciar a opinião pública, na Síria e no mundo, contra o governo de Bashar al-Assad, e para criar um ambiente para a aprovação, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, de uma resolução que permitisse aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha e à França usarem a Otan para bombardear a Síria, como fizeram na Líbia.

No entanto, o plano esbarrou na posição da Rússia e da China. Moniz Bandeira relata que as propostas de resolução contra a Síria, apresentadas pelas potências ocidentais em 4 de outubro de 2011, e em 4 de fevereiro de 2012 no Conselho de Segurança da ONU, foram vetadas pela Rússia e pela China, que, com esses vetos deixaram claro que não abririam mão de sua presença na região, nem facilitariam os planos dos EUA e das potências europeias de alterar o equilíbrio regional de forças e de dominar completamente o Mar Mediterrâneo.

Meses depois, durante o ano de 2013, a Rússia foi além, realizou movimentos diplomáticos e militares, e não permitiu que a Otan bombardeasse a Síria com mísseis Tomahawk, a partir de navios localizados no Mediterrâneo, e o chanceler russo Sergey Lavrov liderou uma saída diplomática.

O conflito na Síria, porém, continuou.

A tentativa de contenção da Rússia, que vem recuperando parte da autonomia nacional e regional que tinha no período da União Soviética, fica muito evidente no conflito que envolve a Síria.

A Rússia, desde o período soviético, tem duas bases navais na Síria, em Tartus e Latakia. Moniz Bandeira sustenta que os EUA nunca aceitaram a presença militar da União Soviética, e depois da Rússia, no Mediterrâneo, por isso seu intento de derrubar o governo de Bashar al-Asssad, e depois pressionar o eventual novo governo para que as bases navais russas na Síria desapareçam.

A China tinha investimentos em petróleo na Líbia, e ampliava a cooperação econômica com o país de posição privilegiada no Mediterrâneo. Com as agressões à Líbia e à Síria, também são objetivos dos EUA e seus aliados da Otan a contenção da China e do Irã nas regiões do Oriente Médio e norte da África. O Irã, desde o início se aliou ao governo sírio e se envolveu militarmente no conflito.

Por isso tudo, para Moniz Bandeira, o conflito na Síria é na verdade uma guerra pelo controle do Mar Mediterrâneo, que é uma região de grande relevância geopolítica e geoestratégica, e essa guerra faz parte de um conflito maior, mas não declarado, que ele denomina a Segunda Guerra Fria.

Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, em discurso na ONU, dia 27 de setembro de 2014, criticou duramente os EUA ressaltando que “Washington declarou abertamente seu direito ao uso unilateral de força militar onde bem entenda, para fazer avançar seus próprios interesses”, citando as agressões militares no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, entre outras.

No conflito da Síria os interesses da Rússia, da China do Irã convergiram, e ao mesmo tempo conflitaram com os dos EUA. Não parece que China, Rússia e Irã, com esses movimentos conjuntos e alianças entre eles, deliberadamente querem confrontar-se com os EUA ou desafiar a supremacia do chamado Ocidente.

Fuga em massa de Aleppo – não é ficção…

Pelo contrário, evitam isso ao máximo, mas não deixam de defender seus interesses nacionais e estratégicos, dentro dos princípios da Carta da ONU. Isso já é demais e inaceitável para os EUA e as potências ocidentais.

A aliança, que se verifica no caso do conflito na Síria, entre Rússia, China e Irã, para defender os interesses comuns desses países frente aos EUA e as potências europeias, é de fato estratégica e duradoura?

Segundo Joseph Nye, em seu livro Compreender os Conflitos Internacionais: uma introdução à Teoria e à História, em sistemas internacionais “multipolares ou de poder disperso”, as alianças entre os estados são mais flexíveis, e as chances de guerra são menores que em sistemas internacionais bipolares e mais rígidos.

Em sistemas de bipolaridade, são maiores as chances de um conflito mais alargado ou mesmo em escala global. As futuras relações entre os EUA, China, Rússia e Irã – o seu grau de flexibilidade ou de enrijecimento, e se prevalecerá a cooperação ou o conflito entre esses países –, dirão muito sobre a ordem mundial futura.

Na verdade, são os EUA que retomam, para buscar defender a sua hegemonia mundial e tentar relançar o seu status de única superpotência global, elementos de sua estratégia imperialista utilizada durante a Guerra Fria contra a União Soviética e seus aliados de então.

Resta saber como se comportarão agora os EUA em sua política externa a partir de janeiro de 2017, com a posse do novo governo de Donald Trump.
O desfecho do conflito na Síria será importante para definir o que virá pela frente neste século XXI.

* Ricardo Alemão Abreu é Mestre pelo PROLAM/USP, diretor do Instituto de Estudos Contemporâneos e Cooperação Internacional (IECInt) e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

 

Trump e o enigma chinês

Da Carta Capital

por Delfim Neto

É imperdoável demonizar o país oriental pelos maus resultados da globalização

Globalização
Globalização: em 2015, líderes de países definem acordos

Conta a lenda que Paul Samuelson, grande economista do século XX, desafiado numa reunião de cientistas a apresentar uma proposição não evidente da teoria econômica, respondeu: a teoria das vantagens comparativas, exposta por David Ricardo em 1817. Mas o que significa “vantagens comparativas”? Para entendê-la, suponhamos dois náufragos numa ilha, John e Manuel. Experimentando, John descobriu que, se durante um dia se dedicasse à pesca, conseguiria, em média, 12 peixes e, se colhesse frutos, recolheria 4 cocos. Manuel, em um dia, pescava, em média, 10 peixes e, quanto aos cocos, recolheria 8.

Cada um precisa de uma dieta de peixe e coco. Se dividissem ao meio o seu dia, John comeria 6 peixes e 2 cocos e Manuel comeria 5 peixes e 4 cocos.

Mas John, que tinha alguma familiaridade com relações, percebeu que no tempo necessário para pescar um peixe recolheria um terço de um coco. Se Manuel sacrificasse a pesca de um peixe, recolheria quatro quintos de um coco. Manuel tinha uma “vantagem relativa” sobre ele na colheita de cocos. Não foi muito difícil convencê-lo a concentrar-se na colheita de cocos, enquanto ele se concentraria na pesca. Produziriam, então, conjuntamente, 12 peixes e 8 cocos que, divididos “igualmente” (esta é uma hipótese sempre esquecida), levariam à nova situação: John comeria 6 peixes e 4 cocos e Manuel comeria 6 peixes e 4 cocos, melhor para os dois.

A explicação é simples: o custo de oportunidade, isto é, quantos cocos é possível colher sacrificando um peixe, é de um terço para John e quatro quintos para Manuel. A cooperação entre os dois é a essência da teoria das vantagens comparativas. Trata-se da generalização dessa verdade física: os países especializariam-se na produção dos bens nos quais têm “vantagem comparativa”. A cooperação entre eles, isto é, a liberdade de comércio, melhora a situação (a disponibilidade de bens) de todos.

O problema é que John não é a Inglaterra, nem Manuel é Portugal! A generalização acima envolve outra hipótese implícita. No caso dos dois indivíduos, eles continuaram ocupando o mesmo tempo, faziam as duas atividades e apenas mudaram a ênfase em cada uma delas. Mantiveram-se plenamente empregados, sem maiores inconvenientes!

A especialização de cada país exigida pela liberdade de comércio e o consequente aumento do bem-estar geral que produzirá levará tempo e exigirá sacrifícios para materializar-se. Implicará a transferência, às vezes até locacional, da força de trabalho de outras atividades para aquelas em que ele revelou suas “vantagens comparativas”.

No médio prazo, significa desemprego e graves inconvenientes para segmentos específicos da população. Isso exige políticas públicas adequadas que lhes deem suporte, até que encontrem acomodação no futuro, quando eles (ou seus filhos ou netos!) colherem os benefícios produzidos pela globalização apoiada nas “vantagens comparativas”.

Quando os “perdedores” são empoderados pelo sufrágio universal e podem se defender nas urnas, como acontece nas democracias, a ausência de tais políticas pode tornar a rápida e descuidada globalização politicamente inaceitável, como está ocorrendo hoje em quase todas as democracias do Ocidente.

A sua última manifestação foi a trágica eleição de Trump nos EUA. Isso não tem nada a ver com “direita” ou “esquerda”, ou com “luta de classe”, como sugerem fanáticos prisioneiros de arcaicas visões do mundo. Tem a ver com a insensibilidade do poder político conquistado nos EUA e na Inglaterra no início dos anos 80 do século passado, apoiado numa perversão do liberalismo econômico que acreditou na mágica dos “mercados perfeitos”.

É imperdoável demonizar a China pelos maus resultados da globalização. Ela manipulou com inteligência e grande sucesso o governo dos EUA desde 1980, quando recebeu dele a condição de “nação mais favorecida”, denominada na lei americana Permanent Normal Trade Relations, que até o ano 2000 tinha de ser aprovada anualmente pelo Congresso.

É preciso lembrar o patético discurso do presidente Bill Clinton reproduzido pelo New York Times de 9 de março de 2000, quando sugeriu ao Congresso a aprovação definitiva da condição de PNTR às relações com a China porque a sua entrada na OMC seria um “xeque de rainha” no jogo do comércio entre os dois países.

A única dúvida de Clinton era se a China seria “o próximo tigre capitalista com o maior mercado do mundo, ou o último grande dragão comunista e uma ameaça à estabilidade da Ásia”. Hoje sabemos que é os dois! Não menos trágico é deixar de reconhecer que a China não é e, provavelmente, nem será, no horizonte visível, uma “economia de mercado”, o que torna ridículo acreditar que seu sucesso se deveu às vantagens comparativas.