Bolivariano, eu?

 

Da Carta Capital

por Mino Carta

 

Pergunto aos meus botões, tomado pela dúvida: “Serei eu um bolivariano?” Em silêncio, me encaram entre atônitos e perplexos. Insisto: “Seria por leviandade, inconsciência, irresponsabilidade, ou por convicta adesão ideológica?” Respondem em coro, alto e bom som: bo-li-va-ria-no. Três vezes seguidas. Ao cabo, gargalham.

De fato, a situação criada pelos derradeiros ruídos e senhas da política nativa seria simplesmente cômica se não tivesse seu lado dramático ao exibir primarismo, ignorância, grosseria, juntamente com arrogância e prepotência. Não disse trágico porque a tragédia tem outra dimensão, outra imponência em relação ao drama. Em todo caso, no palco estamos credenciados à encenação da farsa, ou da ópera-bufa.

Entre as personagens na ribalta, grandioso o desempenho de Gilmar Mendes, a prometer em memorável entrevista de página inteira na Folha de S.Paulo de segunda 3 a iminente transformação do STF em corte bolivariana. O que ele teme é a chegada ao Supremo dos novos integrantes nomeados por Dilma Rousseff, esquecido talvez que outros indicados anteriormente por Lula ou pela presidenta jamais aparentaram fé bolivariana.

O problema do STF é outro. Na cúspide da pirâmide da Justiça brasileira, representa-a à perfeição na sua mediocridade a serviço não da deusa vendada, e sim da casa-grande. É do conhecimento até do mundo mineral que no País só a choldra da senzala vai para a cadeia. O que está sempre em jogo são as consequências de três séculos e meio de escravidão, cujas raízes permanecem difíceis de extirpar. Quem defendeu a erradicação faz tempo era chamado de comunista, hoje a palavra mofada é substituída por bolivariano.

Estranho, muito estranho. Os caminhos da inclusão foram perseguidos pelo capitalismo nas mais diversas latitudes, em proveito da produção, ao sabor dos parâmetros éticos definidos por Adam Smith e cultivados por empresários, em primeiro lugar para seu benefício, do calibre de Henry Ford, o qual aumentava o salário dos seus empregados para habilitá-los a adquirir os carros fabricados por eles próprios.

Esta forma de sabedoria, ou de esperteza, não passou de mero esboço no Brasil, até o advento trágico, e aqui é tragédia mesmo, do neoliberalismo que se incumbiu de pô-la em xeque. Vale dizer que assistimos à negação do liberalismo, nascido da Revolução Industrial inglesa e da Revolução Francesa. Naquele contexto europeu, a Península Ibérica ficou isolada, de sorte a impedir que o Brasil, colônia portuguesa e refúgio de D. João VI, fosse alcançado pelo pensamento renovador. Já os países de colonização espanhola envolveram-se em regeneradoras guerras de independência, aquela que aqui não houve e nem poderia haver.

Não me desagradaria, muito pelo contrário, se um Bolívar campeasse na nossa história, em lugar, digamos, do Duque de Caxias. Nada disso, contudo, faz de mim um bolivariano, a partir da percepção de que o Brasil não precisa de um Chávez.

Em contrapartida, o Brasil não precisa de quantos entre os graúdos ainda sonham com o golpe. Não me refiro à patética passeata que recentemente percorreu ruas paulistanas, dividida na encruzilhada: derrubada manu militari ou impeachment da presidenta reeleita? Há mais senhores e senhores ainda reféns da mentalidade golpista do que imagina a nossa vã filosofia. O que não deixa de ser normal no país da casa-grande e da senzala, embora, na opinião de CartaCapital, tudo não passe de devaneio.

Grave, acabrunhador, é que não faltem entre quantos enxergam bolivarianos de tocaia atrás de cada esquina, prontos a devorar criancinhas como os comunistas de antanho, rentistas notáveis e pretensos intelectuais, de professores universitários a imortais da Academia. Uma nata da nata ou leite talhado? Servem apenas para provar o atraso cultural do País.

Arrisco-me a propor a fundação da Universidade do Humorismo Nativo, e logo me arrependo e volto atrás. Não me surpreenderia se a sugestão fosse aceita. Cuidado, recomendava Raymundo Faoro, refreie a sua ironia, eles vão entender que você fala sério.

Você sabe o que é o bolivarianismo?

 

Da Carta Capital

por Marsília Gombata

 

A palavra da moda no Brasil é usada por muita gente que não faz ideia de seu significado. Entenda o que é bolivarianismo e por que ele nada tem a ver com “ditadura comunista”

 

Após ser apropriado pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, o termo originado do sobrenome do libertador Simón Bolívar aterrissou no debate político brasileiro. São frequentes as acusações de políticos de oposição e da mídia contra o governo federal petista. Lula e Dilma estariam “transformando o Brasil em uma Venezuela”. Mas o que é o tal bolivarianismo de que tanto falam? É um palavrão? O Brasil é uma Venezuela? Bolivarismo é sinônimo de ditadura comunista? Antes de sair por aí repetindo definições equivocadas, leia as respostas abaixo:

 

O que é bolivarianismo?

O termo provém do nome do general venezuelano do século 19 Simón Bolívar, que liderou os movimentos de independência da Venezuela, da Colômbia, do Equador, do Peru e da Bolívia. Convencionou-se, no entanto, chamar de bolivarianos os governos de esquerda na América Latina que questionam o neoliberalismo e o Consenso de Washington (doutrina macroeconômica ditada por economistas do FMI e do Banco Mundial).

 

Bolivarianismo e ditadura comunista são a mesma coisa?

Não. Mesmo considerando a interpretação que Chávez deu ao termo, o que convencionou-se chamar bolivarianismo está muito longe de ser uma ditadura comunista. As realidades de países que se dizem bolivarianos, como Venezuela, Bolívia e Equador, são bem diferentes da Rússia sob o comando de Stalin ou mesmo da Romênia sob o regime de Nicolau Ceausescu. Neles, os meios de produção estavam nas mãos do Estado, não havia liberdade política ou pluralidade partidária e era inaceitável pensar diferentemente da ideologia dominante do governo. Aqueles que o faziam eram punidos ou exilados, como os que eram enviados para o gulag soviético, campo de trabalho forçado símbolo da repressão ditatorial da Rússia. Na Venezuela, por exemplo, nada disso acontece. A oposição tem figuras conhecidas como Henrique Capriles, Leopoldo López e Maria Corina Machado. Cenário semelhante ocorre na Bolívia, no Equador e também no Brasil, onde há total liberdade de expressão, de imprensa e de oposição ao governo.

 

Foi Chávez quem inventou o bolivarianismo?

Não. O que o então presidente venezuelano Hugo Chávez fez foi declarar seu país uma “república bolivariana”. A mesma retórica foi utilizada pelos presidentes Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). A associação entre bolivarianismo e socialismo, no entanto, é questionável segundo a própria biógrafa de Bolívar, a jornalista peruana Marie Arana, editora literária do jornal americano The Washington Post. De acordo com ela, esse “bolivarianismo” instituído por Chávez na Venezuela foi inspirado nos ideais de Bolívar, tais como o combate a injustiças e a defesa do esclarecimento popular e da liberdade. Mas, segundo a biógrafa, a apropriação de seu nome por Chávez e outros mandatários latinos é inapropriada e errada historicamente: “Ele não era socialista de forma alguma. Em certos momentos, foi um ditador de direita”.

 

O que se tornou o bolivarianismo na Venezuela?

Quando assumiu a Presidência da República em 1999, Chávez declarou-se seguidor das ideias de Bolívar. Em seu governo uma assembleia alterou a Constituição da Venezuela de 1961 para a chamada Constituição Bolivariana de 1999. O nome do país também mudou: era Estado Venezuelano e tornou-se República Bolivariana da Venezuela. Foram criadas ainda instituições de ensino com o adjetivo, como as escolas bolivarianas e a Universidade Bolivariana da Venezuela.

 

Mas esse regime que Chávez chamava de bolivarianismo era comunista?

Não, apesar de o ex-presidente venezuelano ter usado o termo “Revolução Bolivariana” para referir-se ao seu governo. A ideia era promover mudanças políticas, econômicas e sociais como a universalização à educação e à saúde, além de medidas de caráter econômico, como a nacionalização de indústrias ou serviços. Chávez falava em “socialismo do século XXI”, mas o governo venezuelano continua permitindo a entrada de capital estrangeiro no País, assim como a parceria com empresas privadas nacionais e estrangeiras. Empreiteiras brasileiras, chinesas e bielo-russas, por exemplo, constroem moradias para o maior programa habitacional do país, o Gran Misión Vivienda Venezuela, inspirado no brasileiro Minha Casa Minha Vida.

 

O Brasil “virou uma Venezuela”?

Esta afirmação não faz sentido. O Brasil é parceiro econômico e estratégico da Venezuela, mas as diretrizes do governo Dilma e do governo de Nicolás Maduro são bastante distintas, tanto na retórica quanto na prática.

 

Os conselhos populares são bolivarianos?

Não, e aqui o engano vai além do uso equivocado do adjetivo. Parte da Política Nacional de Participação Social, os conselhos populares seriam a base de um complexo sistema de participação social, com a finalidade de aprofundar o debate sobre políticas públicas com representantes da sociedade civil. Ao contrário do alegado por opositores, os conselhos de participação popular não são uma afronta à democracia representativa. Conforme observou o ex-ministro e fundador do PSDB Luiz Carlos Bresser-Pereira, os conselhos estabeleceriam “um mecanismo mais formal por meio do qual o governo poderá ouvir melhor as demandas e propostas [da população]”.

 

 

O ano em que nos tornamos “bolivarianos”

 

Da Carta Capital

por Josué Medeiros

 

Os governos progressistas da América do Sul são resultado de lutas sociais contra a crise neoliberal dos anos 90, e compartilham a redução da pobreza. Hoje, apresentam dilemas políticos decisivos

 

Eleições geram não somente vencedores e perdedores. Das urnas emergem também agendas e projetos. O voto, por mais importante que seja, é um dos momentos da cidadania, e a síntese produzida pelo sufrágio não encerra os conflitos sociais. Da escolha dos governantes/representantes, nasce uma nova dinâmica de contradições, debates, de ruas e de luta. Esse processo é a própria essência da democracia, e por isso a vitória de Dilma Rousseff abre um novo tempo de possibilidades. A disputa acirrada, com alta polarização dos dois lados, terminou com a derrota da cruzada conservadora diante da intensa mobilização progressista. A vitória mais programaticamente à esquerda desde 2002 nos aproxima das demais dinâmicas políticas sul-americanas, em que a mobilização popular produziu conjunturas quentes e invenções democráticas importantes.

Os derrotados nas eleições também identificam semelhanças entre a conjuntura brasileira e a situação política dos nossos vizinhos, denunciando a radicalização e a “divisão” do País em pobres e ricos. É a “Venezuelização” do Brasil, termo que deixa evidente a arrogância e os preconceitos das classes dominantes, menosprezando, bem ao estilo “Casa Grande”, as experiências populares sul-americanas. Os mais sofisticados conceituam o “bolivarianismo” brasileiro, combinação de aparelhamento do Estado com clientelismo, os pobres (menos instruídos segundo o sociólogo ex-presidente) capturados pelos programas sociais e pela democracia participativa. Por mais elaborado que seja o argumento, não esconde a demofobia estrutural das nossas elites, ignorando o sentido estratégico da Constituição de 1988 enquanto organizadora da prática cidadã e da cultura de direitos no Brasil e que autoriza tanto as políticas sociais quanto o aprofundamento da democracia.

Vamos contrapor a esse autoritarismo uma narrativa democrática sobre o virtuoso processo sul-americano, sem deixar de encarar de frente as contradições. Os governos progressistas são resultado das lutas sociais contra a crise neoliberal nos anos 1990. Em comum, apresentam uma vigorosa redução da pobreza. A ONU registrava 190 milhões de pobres na América Latina (41,7% da população) em 2000 e 133 milhões hoje, ou 25% da população. Conquistamos marcos civilizatórios significativos: o fim do analfabetismo na Bolívia e na Venezuela e a saída do Brasil do Mapa da Fome. Outras dimensões estão presentes, porém são desiguais entre os países. Fortalecimento do Estado, integração regional, processos constituintes que aprofundam a democracia, dinâmicas de regulação do capital, geração de emprego e aumento salarial, expansão de direitos (saúde, educação).

Hoje essas experiências apresentam dilemas políticos e estruturais decisivos. A crise internacional aumenta o poder de chantagem do capital. Ademais, a principal contradição está na própria virtude da ascensão social. Esta se dá em meio ao império do consumo. Todos querem ter o último celular, o carro próprio. Sonham e trabalham muito (12, 14 horas!) para isso. Não aceitam ser excluídos novamente. Esse pobre que ascendeu consumidor converte-se eleitor. Não dará a maioria para quem não garantir a continuidade dessas conquistas. As vitórias eleitorais apertadas no Brasil, na Venezuela e no Uruguai são expressão de uma dúvida quanto à capacidade das esquerdas de manter o rumo.

 

Do pessimismo da razão ao otimismo da vontade: avançar com as novas energias sociais

As mudanças recentes na região são também potencialidades extraordinárias. Os setores ascendentes se tornam atores políticos novos. As periferias estão plenas de novas manifestações culturais, novas formas de associativismo. As classes médias não são apenas “reacionárias”. Frações significativas dos estratos médios são progressistas, defendem e partilham os valores de esquerda, e ajudaram na produção dos símbolos mais caros da identidade latino-americana.

Ambos partilham a dura experiência de vida nas cidades, uma vivência comum que gera não só violência e competição, mas também solidariedades e alianças entre as classes subalternas. Daí brotam as energias das lutas sociais recentes. As mobilizações juvenis no Chile contra a mercantilização da educação produzem uma Bachelet renovada em um reformismo forte. No Uruguai, o caldo de cultura progressista alimenta e se alimenta da prática socialista de Mujica.

 

De junho disruptivo à vitória em 2014

Essas energias transbordam e explodem também no Brasil. As jornadas de junho de 2013 mesmo com todas as ambiguidades, mesmo com a presença da direita, mesmo com tentativa de captura por parte das elites guinaram a agenda do governo Dilma para a esquerda depois dos milhões de jovens nas ruas. Nem o programa que levou médicos cubanos às periferias nem o Marco Civil, a legislação sobre internet mais avançada do mundo, seriam aprovados em uma conjuntura fria.

Não é possível dissociar a própria reeleição da presidenta dessa nova dinâmica de mobilização. A negação da política não prevaleceu, a abstenção eleitoral não explodiu. Pelo contrário, o que se viu foi uma mobilização em torno do processo eleitoral que lembrou a disputa de 1989.

O que vivenciamos no segundo turno foi a reativação de uma sociedade petista em sentido mais amplo. Militantes antigos do partido, afastados e/ou acomodados, se juntaram a uma nova juventude que se identifica com os avanços dos governos sem abrir mão de criticar as contradições. Repactuações de antigos companheiros foram produzidas, com a militância do PSOL (partido que é cisão à esquerda do PT) engajada em impedir a volta do neoliberalismo.

Foram todos juntos “petralhar” nas ruas e redes sociais, combatendo o ódio antipetista e reafirmando a vitalidade dos valores de esquerda.

O desafio é manter essa energia ativa e mobilizada para fazer as causas progressistas avançarem. A direita reagiu derrubando o decreto presidencial que regulamenta a participação social. As contradições do governo se mantém como um desafio. Por exemplo, o ministério será, necessariamente, ambíguo e contraditório e não é possível fazer luta contornando as instituições.

Felizmente, o programa político para manter a mobilização esteve presente tanto nas eleições quanto nas jornadas de junho: não ao ajuste neoliberal, saúde e educação para todos e todas, direitos civis plenos, potencialização das práticas culturais inovadoras. E ainda o combate ao genocídio da juventude negra, morta diariamente pelo próprio Estado na figura sinistra das polícias militares, combate que mobiliza os pobres que ascendem e a classe média progressista e que se articula com o tema do direito à cidade.

Essa plataforma vem das lutas concretas, e por isso tem o potencial de manter viva a mobilização, unificando os diferentes atores sociais, das novas formas de associativismo aos movimentos sociais clássicos. Podemos com isso organizar uma ampla frente de esquerda que reúna o ativismo social independente e os partidos de esquerda nas batalhas que se anunciam para 2015 no parlamento e no próximo embate eleitoral de 2016, quando teremos uma grande oportunidade de avançar à esquerda nas duas principais cidades brasileiras. Em São Paulo, com a reeleição Fernando Haddad, do PT, cuja gestão vem impressionando justamente pela capacidade de se abrir para as dinâmicas mobilizadoras do ativismo paulistano. E no Rio de Janeiro, com Marcelo Freixo, do PSOL, cuja luta pelos direitos humanos canaliza todas as energias da cidadania carioca.

Em suma, da vitória de 2014 extrair as forças para novas conquistas progressistas que ajudem a esquerda sul-americana a encontrar seus caminhos rumo a um futuro de justiça social e democracia, com ampliação de direitos e aprofundamento da cidadania, para desespero daqueles que tanto prezam seus privilégios e tanto temem a participação popular.

* Josué Medeiros é professor de Ciência Política e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

 

CEPAL: crescimento dos salários na AL é puxado por Brasil e Argentina

 

Boletim da Fundação Perseu Abramo 58

 

Estudo publicado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) analisa a participação dos salários no PIB a preços correntes em 15 países da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) de 1950 a 2010. Essa é uma forma de medir a distribuição da renda no país: quanto maior a participação dos salários, menor seria a desigualdade.

Segundo o estudo, na Argentina, Brasil, Chile, México, Panamá, Uruguai e Venezuela se observam dois ciclos completos da relação salários/PIB, enquanto nos outros países há somente um ciclo completo ou uma situação menos definida. Em geral, na América Latina, entre os anos de 1950 a 1970 são registrados os maiores percentuais de participação dos salários sobre o PIB regional, com um valor mínimo nos anos 1980, outro aumento em nível menor nos anos 1990 para uma nova queda até 2005, para constatar novamente uma tendência crescente.

O estudo evidencia uma participação salarial de em média 38,8%, com um valor máximo em 1967 (41,7%) e mínimo em 2004 (33,7%). Ainda se defende que, a partir da segunda metade dos anos 2000, há tendência crescente da participação dos salários no PIB da América Latina como um todo, com maior contribuição a esse fenômeno sendo da Argentina e do Brasil. No longo prazo, segundo o estudo, as economias que contribuem para que a participação salarial da América Latina seja mais elevada também são Argentina e Brasil e na média se destaca o Chile, enquanto Colômbia, México, Panamá e Peru tendem a diminuí-la.

Para o Brasil, o estudo mostra que as mais altas participações dos salários sobre o PIB ocorrem na virada dos anos 1950-60, época marcada por maior poder reivindicativo dos trabalhadores, que termina com o golpe de 1964. O Brasil (e Argentina) apresenta expressivo refluxo da participação dos salários em dois intervalos de tempo: durante a ditadura civil-militar (1964-1985) e com o neoliberalismo, na década de 1990 e início dos anos 2000. A partir de meados da década de 2000, a participação salarial sobre a riqueza bruta tendeu a crescer no Brasil. O México, por outro lado, envolvido em acordos de livre comércio com EUA e Canadá e sob influência neoliberal desde os anos 1980, demonstra números continuamente decrescentes para os salários em relação ao PIB.

Veja o estudo completo aqui.

América Latina: Dois Oceanos, Uma Voz

 

Por Luiz Ignácio Lula da Silva e Ricardo Lagos (ex-presidente do Chile)

 

São tempos de convergência na América Latina e, especialmente, na América do Sul. Alguém, por miopia, capaz de enxergar apenas as tendências ideológicas contrapostas na região, pode até questionar esta afirmação. Mas existem determinados fatos que mostram como vai se formando, com o passar dos anos, uma segunda pele de mais cooperação sob aquela mais visível, anunciando outra identidade latino-americana para o século XXI.

Durante a primeira semana de abril, uma delegação da CELAC-Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe, integrada por Cuba, Costa Rica e Equador, teve importantes reuniões em Pequim com o intuito de montar uma agenda, dar conteúdo e projeção ao recém-criado Fórum CELAC-China, que fará sua primeira reunião oficial em julho, no Brasil, logo após o encontro dos BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Quase ao mesmo tempo, aconteceu em Quito o lançamento da Escola Sul-americana de Defesa, com a participação de delegados da Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Peru, Suriname, Uruguai, Venezuela e do próprio Equador, com o objetivo de desenvolver uma visão compartilhada de defesa regional, sem ingerências ou hegemonias externas, em um processo de institucionalização da União das Nações Sul-americanas (UNASUL).

Apesar desses fatos, pessimistas insistem em negar a existência real da América Latina ou consideram ser um “disparate” o incremento dos vínculos entre países do Atlântico e do Pacífico. Atmosfera que leva mais de um jornalista a fazer perguntas como: “Junto com o México, o Peru e a Colômbia, o Chile faz parte da Aliança do Pacífico. Alguns analistas afirmam que o bloco, considerado liberal, surgiu para se contrapor politicamente ao MERCOSUL. É verdade?”.

Certamente, não é verdade. Mas é preciso ratificá-lo com uma visão estratégica clara e contundente. A América Latina está voltada tanto para o Atlântico quanto para o Pacífico, o que é um privilégio no reordenamento mundial que emerge no século XXI.

E, no meio, se encontra esta nossa geografia convocada a ser um todo articulado e coordenado, para aproveitar as diversas oportunidades que se abrem aos nossos países de um lado e de outro. Por uma parte, está a história já secular do Atlântico como polo econômico que nos ligou à África, Europa e ao Mediterrâneo. Por outra, está o Pacífico, onde estão as potências econômicas do Japão, da China, dos membros da ASEAN- Associação de Nações do Sudeste Asiático, bem como da Austrália e da Nova Zelândia.

A América Latina tem uma oportunidade histórica ímpar: estar no centro deste cenário que vai construindo novas correntes entre o Atlântico e o Pacífico. Mas este desafio contemporâneo nos chama a definir — agora, e não mais tarde — uma só voz para falar com ambos os oceanos.

Eis um desafio que nos faz reencontrar uma palavra tantas vezes dita em nossa trajetória de nações independentes: integração. A integração capaz de incorporar e transcender as múltiplas experiências regionais e sub-regionais que acabaram não concretizando todos os objetivos pretendidos. Diferentes atores sociais — empresários, sindicalistas, artistas, estudantes, turistas e outros — foram muito mais rápidos que os governos para se integrarem com seus vizinhos latino-americanos.

Chile, país do Pacífico, é o maior investidor latino-americano no Brasil, país do Atlântico. São mais de 25 bilhões de dólares investidos e dezenas de milhares  de empregos gerados em vários estados brasileiros por empreendimentos nas áreas de celulose, eletricidade, tecnologia da informação, química e metais. E, por certo, também se acrescentam as companhias colombianas, peruanas e mexicanas que produzem cada vez mais no Brasil para um mercado interno de 200 milhões de pessoas  com  grande horizonte de expansão. Da mesma forma, Brasil e Argentina, além dos investimentos recíprocos, demonstram o seu dinamismo em  inúmeros projetos industriais e de infraestrutura nos mais diversos países  da América Latina, gerando igualmente uma enorme quantidade de empregos locais.  Até 2006, apenas duas empresas brasileiras atuavam na Colômbia; hoje, são quarenta. E o mesmo vale para os demais países do Pacífico. No Chile, por exemplo, atuam cerca de 70 empresas brasileiras.  No Peru, 44. Sem falar na crescente presença dos países Sul-Americanos na América Central e no Caribe, onde investem em novas plantas industriais e financiam a construção de portos, aeroportos, estradas, metrôs.

A Aliança do Pacífico, que se propõe a ser um acordo econômico e de modernização de relações — e não outra coisa — terá realmente peso e projeção se atuar em uma ligação estreita com o Brasil, a Argentina e as demais nações de vocação atlântica. Do mesmo modo, o peso dos países atlânticos poderá ser ainda mais relevante se eles tiverem uma atuação internacional vinculada aos do Pacífico.

É aí que deve ser fortemente valorizado o papel da UNASUL na integração. Pela sua pluralidade e pela autoridade que já adquiriu, ela pode ser decisiva no enfrentamento de nossas tarefas pendentes, que não são poucas: infraestrutura em malha rodoviária e pontes; integração energética em uma região rica em hidrocarbonetos, recursos hídricos e gás; melhor fluxo de mercadorias por nossas alfândegas, para dinamizar um comércio intra-regional que saltou de US$ 49 bilhões em 2002 para US$ 189 bilhões em 2013, mas ainda não chega a 20% do nosso fluxo total; novas políticas para responder ao fenômeno de migrações e trânsito cada vez maior de cidadãos que estão demandando efetiva liberdade de circulação. E também, como foi dito em Quito, uma política de defesa comum que, dentre outras questões, desenhe estratégias para a defesa dos recursos naturais e consolide toda a América Latina como Zona de Paz.Além disso, a CELAC deve ser o espaço para debater os grandes temas da política e da economia mundial. Por exemplo, a entidade regional poderia se reunir dois meses antes do G-20, e os países da região poderiam pedir aos três que fazem parte desse fórum global — Argentina, Brasil e México — que sejam portadores de nossas posições sobre mudanças climáticas, migrações, protecionismo, narcotráfico e drogas, nova arquitetura financeira internacional e mecanismos de segurança e paz, entre outros temas debatidos nas Nações Unidas.

Será que os países latino-americanos podem chegar a um acordo para atuarem assim? Vemos sinais e gestos auspiciosos nesse rumo. Como se afirmou recentemente em um seminário do Conselho de Relações Internacionais para América Latina (RIAL), “a integração bem sucedida é aquela onde prevalecem os elementos de cooperação, buscando convergências possíveis, sem a pretensão de eliminar as diferenças, mas fazendo-as gerenciáveis”.

Não é uma informação menos importante que exista um diálogo conjunto com a China através da CELAC, da mesma forma que seguramente existirá com os Estados Unidos e com a União Europeia. Também não é menos importante que a agenda sul-americana esteja sendo reativada com realismo e visão de futuro. A chave em tudo isto é atuar — para dentro e para fora do continente — pensando em nossos cidadãos de hoje que almejam democracias não apenas legais, onde o voto seja o grande instrumento, mas também democracias legítimas, realmente participativas, onde a política saiba interpretar os sinais dos tempos e agir em consequência.