O que o PCC ganhou no acordo com o governo de São Paulo e como cresceu tanto sob Alckmin?

do DCM

por Kiko Nogueira

Alckmin em 2010 com o então candidato a deputado estadual Ney Santos, acusado de ligação com o PCC
Alckmin em 2010 com o então candidato a deputado estadual Ney Santos, acusado de ligação com o PCC; prefeito eleito de Embu das Artes, ele estava foragido, mas já tomou posse

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O que o PCC ganhou no acordo com o governo paulista em 2006?

Na época, a facção realizou vários ataques, especialmente a postos da Polícia Militar, de maneira coordenada. Eles foram interrompidos após uma reunião no presídio de Presidente Bernardes, no interior do estado.

De acordo com o Estadão, a solução foi encaminhada pela advogada Iracema Vasciaveo, então presidente da ONG Nova Ordem, que defendia os direitos dos presos e representava o PCC.

Iracema esteve com Marcola, o líder. O substituto de Geraldo, Claudio Lembo, deu aval para o encontro, bem como os secretários da Segurança Pública e da Administração Penitenciária — Saulo de Castro Abreu Filho e Nagashi Furukawa, respectivamente.

A história foi revelada pelo delegado José Luiz Ramos Cavalcanti, que depunha  num processo contra advogadas supostamente ligadas ao crime organizado. “Eu apenas autorizei a viagem. O que aconteceu lá dentro, não tenho detalhes”, afirma Lembo.

O diabo está nos detalhes. Em tese, garantiu-se a rendição dos criminosos, desde que se assegurasse a integridade física deles. Os atentados cessaram, subitamente, e o poder do PCC só fez crescer. Geraldo sempre negou qualquer tipo de acordo, mas o fato é que a relação com o Primeiro Comando da Capital só se tornou mais confusa, para usar um eufemismo, com o passar do tempo.

O deputado Conte Lopes, ex-capitão da PM, declarou, certa vez, que “essa facção criminosa é cria do PSDB”. O PCC nasceu em 1993 na Cadeia Pública de Taubaté e sua relação com o governo paulista é recheada de episódios assombrosamente estranhos.

Em 2010, Alckmin pediu votos para um candidato a deputado estadual do PSC chamado Claudiney Alves dos Santos, conhecido como Ney Santos.

Pouco depois, Santos seria preso, acusado de adulteração de combustível, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha.

Era também investigado por envolvimento com o PCC. Em seu nome, um patrimônio de 50 milhões de reais, incluindo uma Ferrari e um Porsche.

Ok. Alckmin provavelmente não sabia do passado, do presente e do futuro de Santos. Mas nem sua equipe?

Em 2012, um inquérito sobre o envolvimento de PMs com o PCC foi arquivado. Um ano depois, aconteceu outro episódio de ampla repercussão, em que o governador saiu-se como herói na luta contra os bandidos.

Ele teria sido ameaçado de morte, segundo um recado interceptado. “Os bandidos dizem que as coisas ficaram mais difíceis para eles, pois eu quero dizer que vai ficar muito mais difícil”, disse GA, triunfal, em Mirassol. “Nós não vamos nos intimidar. É nosso dever zelar pelo interesse público.”

Não contavam com a astúcia do ex-secretário Antônio Ferreira Pinto, que revelou que a escuta dos membros do PCC circulava desde 2011.

“Esse fato não tinha credibilidade nenhuma. A informação é importante desde que você analise e veja se ela tem ou não consistência. Essas gravações não tinham. Tanto que o promotor passou ao largo delas”, falou.

“Aí vem o governo e diz: ‘Não vou me intimidar’. Ele está aproveitando para colher dividendos políticos”. De novo: Geraldo, muito possivelmente, não tinha ideia de que as tais ameaças tinham dois anos de idade e nunca foram levadas a sério.

No início de 2014, outro evento inacreditável. Um relatório vazado do Ministério Público dava conta de um esquema para tirar Marcola e outros três chefões da penitenciária de Presidente Venceslau.

O plano estaria sendo arquitetado há oito meses. Os homens já tinham serrado as grades das janelas de suas celas, colocando-as de volta em seguida, devidamente pintadas. Eles sairiam dali para uma área do presídio sem cobertura de cabos de aço, de onde seriam içados por um helicóptero com adesivos da Polícia Militar.

O “vazamento” do documento criou situações surreais. Policiais ficaram de tocaia aguardando os meliantes. Jornalistas correram para lá. No Jornal Nacional, um repórter perguntava, sussurrando, a um franco atirador como funcionava a arma dele. Diante da falta de ação, era o jeito.

Claro que não aconteceu nada. Alckmin, no entanto, estava pronto para faturar. Na Jovem Pan, elogiou “o empenho da polícia de São Paulo, 24 horas, permanentemente, contra qualquer tipo de organização criminosa, tenha a sigla que tiver. São Paulo não retroage, não se intimida”. Para ele, “lamentavelmente, isso acabou vazando.”

O PCC, hoje, controla áreas inteiras da cidade, as cadeias, tem ligação com escolas de samba e mantém bases no Paraguai e na Bolívia. Um fenômeno. Graças à transferência de presos, São Paulo exportou membros da organização para todo o país.

Naquele ano de 2006, Geraldo deu uma entrevista a uma rede de televisão australiana. A jornalista quis saber sobre os “grupos de extermínio” e sobre as ações da facção. Irritado, o “Santo” se levantou da cadeira e encerrou o papo abruptamente.

“Esse é um problema do governo estadual. Você deveria ir falar com eles. Tchau, tchau. Bye, bye”, diz. “Se eu soubesse que era sobre isso, não tinha entrevista. Não faz o menor sentido”, continua, numa indireta a seus assessores.

A entrevistadora ainda tentou, inutilmente, um apelo: “Alguém precisa falar sobre isso”.

Na semana passada, o ministro do TSE Napoleão Nunes Maia Filho autorizou a posse de Ney Santos como prefeito de Embu das Artes.

O Ministério Público o acusa de lavar o dinheiro oriundo do tráfico de drogas do PCC. Ele estava foragido desde 9 de dezembro, quando foi deflagrada a Operação Xibalba, da Polícia Federal.

Em 100 dias, João Doria acelera com choque de marketing

da Carta Capital

por Débora Melo

Comunicador experiente e cotado para 2018, prefeito tucano abusa de fantasias para imprimir marca à sua gestão

O prefeito de São Paulo João Doria

 

João Doria (PSDB) completa 100 dias como prefeito de São Paulo nesta segunda-feira 10.

Com pouco tempo de governo e uma estratégia agressiva de marketing, o empresário tem sido apontado como potencial candidato tucano às eleições presidenciais de 2018 e, embora prometa “lealdade” ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), admite que sua popularidade é, hoje, maior que a de seu padrinho político.

Pesquisa Datafolha divulgada no sábado 8 aponta que 43% dos moradores da cidade de São Paulo aprovam a gestão Doria, o que representa um recorde na comparação com todos os antecessores, diz o instituto.

Comunicador experiente, treinado em programas de TV, o tucano se transformou em um fenômeno das redes sociais. O rótulo de “trabalhador” que colou durante a campanha eleitoral ganha força a cada nova aparição do prefeito fantasiado de gari ou de agente da CET.

Os passos de Doria são registrados por uma equipe própria, e os vídeos do prefeito em ação são compartilhados diariamente com 2,4 milhões de seguidores, sempre acompanhados de hashtags como #JoaoTrabalhador e #AceleraSP.

O choque de marketing pode, no entanto, não ser suficiente para sustentar a popularidade do prefeito no longo prazo. O levantamento do Datafolha mostra que a insatisfação do paulistano tem aumentado com o passar dos dias. Se no início de fevereiro 13% avaliavam a gestão como ruim ou péssima, hoje esse índice saltou para 20%.

Uma entrevista ao vivo exibida por um telejornal da Rede Globo na manhã do último dia 7 resume bem este momento da atual gestão. Após fortes chuvas, a cidade de São Paulo amanhecia debaixo d´água naquela sexta-feira.

Ao entrevistar um motorista que havia resgatado o próprio carro com a ajuda de amigos, o repórter perguntou: “Cansou de esperar e resolveu trazer o carro por conta própria?”. O motorista, então, respondeu: “Esperar o Doria trazer o rodinho para puxar a água?”.

Em março, o prefeito anunciou que os 30 milhões de reais destinados a ações de combate a enchentes e à construção de terminais de ônibus e de uma ponte seriam, na verdade, remanejados para a Secretaria de Desestatização e Parcerias, criada em sua gestão.

O pacote de privatizações é prioridade para o prefeito, que espera ver as medidas aprovadas pela Câmara Municipal até o final de maio. Entre as propostas está a “desestatização” de equipamentos públicos como o Estádio do Pacaembu, o Autódromo de Interlagos, o Centro de Convenções Anhembi e mercados e parques como o Ibirapuera.

Promessas

As promessas de Doria têm sido cumpridas, para o bem e para o mal. Dois meses após o aumento da velocidade nas marginais Tietê e Pinheiros, uma de suas principais bandeiras de campanha, o número de acidentes com vítimas aumentou.

A administração tucana divulgou os números de dois períodos após a mudança: de 25 de janeiro até 23 de fevereiro, quando foram registrados 102 acidentes com vítimas; e de 24 de fevereiro até 26 de março, com 117 acidentes.

A média de 2016, com as velocidades reduzidas, foi de 64 acidentes por mês. Implantada em julho de 2015 pela gestão Fernando Haddad (PT), a impopular redução da velocidade acompanhou o movimento de diversas metrópoles do mundo em prol da redução da letalidade do trânsito.

Doria afirma, porém, que o aumento do número de acidentes se deve à maior presença de agentes de trânsito nas vias – de 45 para 75 –, o que teria elevado o registro de ocorrências.

Doria-Alckmin
Doria jura lealdade a Alckmin, mas admite ser mais popular que o padrinho (Foto: Diogo Moreira/A2img)

O prefeito também prometeu zerar a fila de espera para a realização de exames médicos na rede municipal, e gosta de dizer que seu Corujão da Saúde bateu a meta em um período de três meses, com a realização de 342 mil procedimentos.

O programa do prefeito, no entanto, só atende pedidos feitos até dezembro de 2016, e os pacientes que procuraram as unidades de saúde a partir de janeiro deste ano foram colocados em segundo plano, formando uma nova fila. Para que a fila seja realmente zerada, é necessário atender a essas novas solicitações, e os médicos da rede pedem 110 mil novos exames, em média, por mês.

Dono de uma fortuna avaliada em 180 milhões de reais, o “gestor” tem ainda a sorte de poder contar com a “cidadania” das empresas, como ele mesmo diz. Segundo Doria, a iniciativa privada já doou mais de 256 milhões de reais em bens e serviços para a cidade. O tucano garante que não há contrapartidas, “nem agora, nem no futuro”, mas faz propaganda das colaboradoras em suas redes sociais.

O episódio mais controverso desse modelo de parceria se deu no dia 23 de março, durante jogo da seleção brasileira contra o Uruguai, em Montevidéu, quando placas eletrônicas do estádio Centenário exibiram a marca do Cidade Linda, programa de zeladoria de Doria.

O espaço publicitário foi cedido à gestão tucana pela farmacêutica Ultrafarma, do empresário Sidney de Oliveira, amigo de Doria, que doou medicamentos à prefeitura. No dia 11 de fevereiro, o prefeito já havia atuado como garoto-propaganda da Ultrafarma em uma divulgação nas redes sociais.

Em março, a Justiça de São Paulo negou um pedido de liminar em ação popular que pedia a proibição de doações à prefeitura. Em sua decisão, o juiz Danilo Mansano Barioni, da 1ª vara da Fazenda pública da capital, disse que, por enquanto, não há ilegalidade nas negociações.

“Não há dano, lesão ou ameaça de lesão concreta ou imediata a debelar.” Questionado pela Justiça, o Ministério Público Estadual também havia se manifestado contra o pedido de liminar.

Recentemente, Doria afirmou, por meio de seu perfil no Facebook, que aceitava uma oferta de doação de 5 mil livros do Instituto Mises, que leva o nome do austríaco Ludwig von Mises, neoliberal que defendia o Estado mínimo e é um dos ícones da nova direita brasileira.

Como entusiasta do movimento Escola sem Partido, pegou mal para o prefeito a possibilidade de que os livros fossem parar nos colégios, e a prefeitura afirmou que as doações, se concretizadas, irão para as bibliotecas.

O debate acerca da “doutrinação” está agora no centro da polêmica mais recente do governo tucano. Na semana passada, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider (PSD), fez críticas públicas ao comportamento do vereador Fernando Holiday (DEM), do Movimento Brasil Livre (MBL) e aliado de Doria, que visitou escolas para “fiscalizar” eventual doutrinação ideológica à esquerda por parte dos professores.

Schneider repudiou a ação e, após ser confrontado pelo MBL, chegou a pedir demissão no sábado 8, mas o prefeito conseguiu mantê-lo no cargo. O impasse, no entanto, não está encerrado. Holiday e outros líderes do MBL exigem uma retratação do secretário, que, segundo eles, cometeu um equívoco ao dizer que o vereador estaria usando o mandato para “intimidar” professores.

Resta saber, agora, de que lado o prefeito João Doria vai ficar.

A prisão de Guilherme Boulos é recado do Estado a quem quiser resistir

por Leonardo Sakamoto

PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo
PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo

A acusação de que Guilherme Boulos incita ao crime por mediar uma reintegração de posse e sua detenção são tão bizarras quanto as ações que foram movidas contra o coordenador do MTST por ter afirmado que parte da sociedade iria resistir nas ruas às reformas que reduzem direitos propostas pelo governo Michel Temer.

A Polícia Militar de São Paulo deteve Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), na manhã desta terça (17). Ele dava apoio a cerca de 700 famílias em uma reintegração de posse na ocupação ”Colonial”, em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo.

Boulos tentava mediar, junto com outras pessoas, o diálogo entre os moradores e a Tropa de Choque e foi acusado de incitação à violência e desobediência. ”Cometem a violência de despejar 700 famílias e eu que sou preso por incitação à violência?”, afirmou Boulos a este blog. Um comandante da polícia militar que participava da reintegração afirmou que o caso de incitação à violência era uma reincidência e citou manifestações realizadas com a participação de Boulos perto da casa de Temer.

Levado para o 49o Distrito Policial, em São Mateus, ele foi ouvido pelo delegado e, até a publicação deste post,  não havia sido solto. A PM afirmou, em nota, que atendeu a uma solicitação de apoio aos oficiais de Justiça e que moradores resistiram à reintegração de posse com pedras, tijolos e barricadas com fogo. A situação de acalmou e a reintegração seguiu com a retirada de móveis.

Guilherme Boulos foi liberado na noite de terça. Ele assinou um termo circunstanciado sob acusação de resistência (opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio). ”O secretário vai ter que se explicar, porque sequer os policiais que me prenderam colocaram no depoimento que eu teria atirado rojões”, disse ele, criticando nota da Secretaria de Segurança Pública que afirmou que ele teria atirado rojões contra a PM.

Resistência significa utilizar os meios possíveis e ao alcance de cada um para demonstrar sua insatisfação. Isso ocorre com as elites econômica e social brasileiras, que não fazem de rogadas ao usar recursos financeiros para fazer valer sua vontade. Mas quando trabalhadores e movimentos sociais prometem resistência, ocupando ruas, avenidas e outros espaços, a ação vira caso de polícia? Onde o pessoal acha que está? Ou quando gostaria que estivéssemos? No Brasil do final do século 19 ou em plena ditadura civil-militar?

A criminalização da resistência de apenas um dos lados mostra o quanto os atores de nosso sistema político são incapazes de entender o que é, de fato, uma democracia. Chamar de violenta toda forma de resistência com a qual não concordamos é, no mínimo, infantil. Como, por exemplo, mostrar resistência diante de uma injustiça, como aquela que ocorre quando se retira centenas de famílias em um dia de chuva, sem saberem para onde ir, nem como.

Dessa forma, ao que tudo indica, a detenção de Guilherme Boulos não ocorre por sua atuação na mediação da manhã desta terça, mas por seu papel na resistência social e política brasileira. Sua voz tem sido uma das principais nas críticas ao governo Michel Temer, assim como também era durante o governo Dilma Rousseff. Ou seja, essa é sim uma prisão política.

Por isso, é preciso calá-lo ou reduzir sua credibilidade. Para que a narrativa da criminalização de movimentos sociais seja efetiva na mídia, nas redes sociais, nos espaços políticos. Narrativa que quer inverter os sentidos das palavras e transformar resistência popular em ameaça à democracia e à governabilidade.

Boulos é liderança do principal movimento social de massa deste país em termos de centralidade da pauta, capacidade de mobilização e visão de atuação hoje. Um movimento com uma agenda antiga, mas com uma equipe que sabe se comunicar e influenciar a disputa simbólica da narrativa, pela mídia, pelas redes sociais.

E vem exatamente do posicionamento crítico adotado contra a administração federal anterior o respeito de vários setores da esquerda para com o movimento e com ele. Esse respeito e essa capacidade de mobilização, que conseguem colocar dezenas de milhares de militantes nas ruas quando preciso, assusta muita gente.

Que prefere vê-lo preso do que articulando ou em cima de um caminhão de som.

Essa seria uma forma do poder público de São Paulo, mas não apenas ele, dar um ”recado” aos movimentos sociais, de acordo com fontes ligadas a ele ouvidas por este blog. Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo. Esse tipo de ação é uma amostra do que está acontecendo com parte da esquerda brasileira, com um macarthismo à brasileira se instalando aos poucos, como ação sistemática de limpeza ideológica. Já vimos, aqui e ali, a perseguição a quem usa roupas vermelhas e a agressão em espaços públicos contra quem defende determinado ponto de vista. Até o juramento de Hipócrates foi rasgado por médicos que acham normal não prestar atendimento a alguém que não compartilha da mesma opinião política que eles.

Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo.

Apesar de conquistas sociais obtidas na última década, o governo do PT não atendeu às pautas históricas propostas pelos movimentos sociais – o que, como já disse aqui, não seria nenhuma ”revolução”, mas melhoraria a vida de milhões de brasileiros que se mantêm excluídos. Pelo contrário, em nome da ”governabilidade” fez alianças espúrias, apoiando forças econômicas e políticas que eram contrárias a esses interesses populares, ignorando o suporte oferecido por esses mesmos movimentos para um mandato que significasse uma mudança de paradigma.

E o Brasil sob Michel Temer só piora esse quadro, com o desmonte do simulacro de Estado de bem-estar social que temos por aqui por conta da Constituição Federal de 1988 e por décadas de lutas do sociais.

Todos os movimentos sociais sabem o que é serem considerados criminosos simplesmente por lutarem pelos direitos que lhes são garantidos pela Constituição. Sabem o que é levar cacete por representar o que está em desacordo com a visão hegemônica de ”progresso” e crescimento econômico, seja no campo ou na cidade. E ainda guardam na memória as cicatrizes deixadas pelo passado, temendo que voltem a ser caçados dependendo do clima político do país.

Você pode não gostar de Guilherme Boulos. Mas, se preza pela liberdade, deveria repudiar a sua criminalização e dos movimentos sociais populares, da mesma forma que deve ser repudiada a criminalização de qualquer liderança social, de direita ou esquerda.

Pois, hoje é com ele. Depois, com uns sindicalistas, operários, padres, jornalistas…

Amanhã, quem sabe, não vai ser com você?

Post atualizado às 23h30 do dia 17/01/2017 para inclusão de informação sobre a soltura de Boulos.

O Xadrez do Golpe

Do Luiz Nassif

XADREZ DO FATOR EDUARDO CUNHA

 

A graça de um cenário é quando consegue identificar fatos pouco conhecidos, montar ilações pouco percebidas, tirar conclusões inesperadas.

Não é o caso da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha, respeitosamente detido pela Polícia Federal, com autorização do juiz Sérgio Moro, e com a recomendação de não fazerem espetáculo.

As conclusões unânimes são as seguintes:

1.     Eduardo Cunha era pato manco desde o ano passado. Era um caso de prisão óbvia.

2.     Nunca pertenceu ao establishment político e midiático, como Aécio Neves e José Serra. Portanto, seria mínima a linha de resistência à prisão.

3.     O grupo da Lava Jato, juiz Sérgio Moro à frente, conta que, com a prisão, se consiga demonstrar um mínimo de imparcialidade, ampliando a força para uma futura prisão de Lula.

Essas são as conclusões óbvias. Os desdobramentos, são mais imprevisíveis.

Ninguém minimamente informado tem a menor dúvida sobre a parcialidade da Lava Jato e sobre as estratégias políticas por trás de cada operação. Nas vésperas das eleições municipais, foram mais três operações com estardalhaço sobre alvos petistas.

Agora, uma operação discreta sobre um não-petista.

Há os objetivos óbvios da Lava Jato e os desdobramentos ainda obscuros.

Peça 1 – Prisão e/ou inabilitação de Lula para 2018.

Dias atrás, a Vox Populi soltou uma pesquisa sobre eleições presidenciais. Em todas elas, dava vitória de Lula no primeiro turno. Nenhum veículo de imprensa repercutiu.

Ontem, foi a vez da CNT-IBOPE divulgar outra pesquisa com resultados semelhantes.

Mais ainda. No segundo turno, o único em condições de enfrentar Lula seria Aécio Neves (devido ao recall das últimas eleições) e mesmo assim haveria empate técnico.

Com todos os demais candidatos, haveria vitória de Lula.

Um dado da pesquisa Vox Populi foi pouco notado. Na relação dos brasileiros mais admirados, o primeiro é Sérgio Moro, com 50%. O segundo, Lula, com 33%. O terceiro, Dilma com 23%. Os demais vêm mais abaixo.

Hipoteticamente, a única pessoa capaz de peitar Lula seria Sérgio Moro. E em seu terreno, o Judiciário e no terreno comum da opinião pública.

Peça 2 – Os tucanos blindados

Para analisar os desdobramentos da eventual delação de Eduardo Cunha, o primeiro passo é identificar os que NÃO serão atingidos.

Obviamente, serão as lideranças tucanas, devidamente blindadas pela Lava Jato e pela Procuradoria Geral da República (PGR).

Aécio Neves

Os jornais soltam fogos de artifício para demonstrar isenção. Foi o caso da denúncia de que Aécio Neves viajou para os Estados Unidos com recursos do fundo partidário, um pecadilho.

A dúvida que ninguém respondeu até agora: porque Dimas Toledo, o caixa político de Furnas, jamais foi incomodado pela Lava Jato ou pela Procuradoria Geral da República (PGR)?

Dimas é a chave de todo esquema de corrupção de Furnas.

Há o caso do helicóptero com 500 quilos de cocaína, que jamais mereceu uma iniciativa sequer do Ministério Público Federal.

Em 2013, o MPF aliou-se à Globo para derrubar a PEC 37, que pretendia restringir seu poder de investigação. A alegação é que o MPF não poderia ficar a reboque da Polícia Federal, quando percebesse pouco empenho nas investigações.

A PF abafou o caso do helicóptero. E o MPF esqueceu.

José Serra

A recente decisão da Justiça, de anular a condenação dos réus do chamado “buraco do Metrô”, escondeu um escândalo ainda maior. Os réus eram funcionários menores das três empreiteiras envolvidas – Odebrecht, Camargo Correia e OAS.

Fontes que acompanharam as investigações, na época, contam que a intenção inicial do Ministério Público Estadual era indiciar os presidentes das companhias. Houve uma árdua negociação política, conduzida por instâncias superiores do Estado, que acabou permitindo que as empreiteiras indicassem funcionários de escalão inferior. O custo da operação teria sido de R$ 15 milhões, divididos irmãmente entre as três empreiteiras.

O governador da época era José Serra.

Na Operação Castelo de Areia (que envolveu a Camargo Correia, e que foi anulada graças a um trabalho político do advogado Márcio Thomas Bastos) havia indícios veementes do pagamento de R$ 5 milhões pela empreiteira. Agora, a delação da Odebrecht menciona quantia similar. Interromperam a delação do presidente da OAS, mas não seria difícil que revelasse os detalhes.

São bolas quicando na área do PSDB e que dificilmente serão aproveitadas pela Lava Jato ou pelo PGR.

Peça 3 – os desdobramentos da delação de Cunha

Desdobramento 1 – Temer

Eduardo Cunha é obcecado, mas não rasga dinheiro. Tem noção clara de seus limites. Sabe que uma delação só aliviará suas penas se aceita pela Lava Jato ou pelo PGR.

Como existe o privilégio de foro para políticos com mandato ou cargos, o árbitro para as delações envolvendo o andar de cima é o PGR Rodrigo Janot. O conteúdo das delações dependerá muito mais das intenções de Janot e da Lava Jato do que do próprio Cunha.

Portanto, todos os desdobramentos da prisão de Cunha dependerão nas relações entre PSDB-mídia-Judiciário e a camarilha dos 6 (Temer, Cunha, Jucá, Geddel, Padilha, Moreira Franco) que assumiu o controle do país.

Poderá haver acertos de conta pessoais de Cunha com um Moreira Franco, por exemplo, que poderá ser defenestrado sem danos maiores ao grupo de Temer.

Mas qualquer ofensiva mais drástica sobre o grupo teria que ser amarrada, antes, com a mídia (especialmente Globo), com o PSDB e sentir os ventos do STF (Supremo Tribunal Federal). São esses os parâmetros que condicionam os movimentos da Lava Jato e da PGR.

Temer tem se revelado um presidente abaixo da crítica. Mas ainda é funcional, especialmente se entregar a PEC 241. A cada dia, no entanto, amplia seu nível de desgaste. Em um ponto qualquer do futuro se tornará disfuncional. E aí a arma Eduardo Cunha poderá ser sacada pelo PGR.

Desdobramento 2 – Lava Jato

A Lava Jato vive seus últimos momentos de glória. Seu reinado termina no exato momento em que pegar Lula. Justamente por isso, é possível que queira tirar alguns fogos de artifício da gaveta para o pós-Lula.

À medida em que se esgote, os tribunais superiores passarão a rever suas ilegalidades, a fim de poupar os políticos até agora não atingidos por ela.

Mas ainda é uma caixa de Pandora.

Desdobramento 3 – as novas lideranças

A prioridade total é a inabilitação e/ou prisão de Lula.

Só depois disso é que haverá o novo realinhamento político, e aí com novo atores.

Do lado do PSDB:

1.     Geraldo Alckmin subindo, depois da vitória de João Dória Jr.

2.     Aécio em queda, pelos indícios de crime, mesmo não levando a consequências legais.

3.     Serra fora do jogo, tentando decorar siglas de organizações multilaterais, sem apoio no PSDB e no DEM.

Do lado das oposições:

1.     Já está em formação um núcleo de governadores progressistas, visando costurar estratégias e alianças acima das executivas dos partidos. Anote que daqui para a frente tenderão a ter um protagonismo cada vez maior na cena política, substituindo as estruturas partidárias, imobilizadas em lutas internas.

2.     Ciro Gomes é o opositor de maior visibilidade, até agora, mas mantendo o mesmo estilo carbonário da juventude. Suas verrinas contra Temer fazem bem ao fígado, mas preocupam as mentes mais responsáveis.

3.     Há uma tendência de crescimento de Fernando Haddad, prefeito derrotado nas últimas eleições. Na expressão do governador baiano Rui Costa, Haddad caiu para cima. Sua avaliação, no MEC e na prefeitura de São Paulo, crescerá com o tempo.

Propina para o “Santo”

Da Carta Capital

Documentos indicam mais pagamentos ilícitos em obras do Metrô de São Paulo e até no Ministério Público do Estado
Geraldo Alckmin
Sempre presente em todos os episódios. Os documentos falam por si

Sob muitas críticas pelo tom político de suas operações, a Lava Jato terá mais uma oportunidade de tentar desfazer essa imagem. A nova janela abriu-se durante a 35ª fase, denominada Operação Omertà e deflagrada na segunda-feira 26, que culminou com a prisão do ex-ministro Antonio Palocci.

Além do conteúdo que envolve o petista e a Petrobras, documentos obtidos pela Polícia Federal revelam uma série de e-mails que tratam de propinas em dezenas de grandes obras da construtora Odebrecht pelo País.

Todas os e-mails com indícios de supostos esquemas de corrupção com participação da companhia são de seus funcionários e datados a partir de 2003. A maioria é do chamado Setor de Operações Estruturadas da empresa, intitulado pela Polícia Federal como “departamento de propina”.

São pelo menos 30 mensagens que tratam de pagamentos indevidos, identificados internamente pelos empregados com a sigla DGI, que foram trocados entre executivos da companhia e o próprio Marcelo Odebrecht, preso desde junho deste ano.

 Muitas fazem menção a obras no Porto de Rio Grande (RS) e de Laguna (SC), Metrô de Ipanema (RJ), ou a reforma de um Centro Educacional Unificado (CEU) de São Paulo, entre outras. Até mesmo o processamento e tratamento do lixo paulista é envolvido.

No entanto, mais uma vez, aparecem indícios de pagamentos para agentes públicos envolvidos nas obras das Linhas 2 (Verde) e 4 (Amarela) do Metrô de São Paulo. Dois casos se destacam: um relato de propina para um beneficiário identificado como “Santo” e supostos pagamentos destinados a um receptor no Ministério Público de São Paulo, com o objetivo de favorecer a empresa.

“Com as deflagrações, em decorrência de investigações policiais, descortinou-se que o grupo empresarial Odebrecht aparelhou um setor dentro de sua estrutura societária voltado exclusivamente para pagamentos ilícitos e à margem de qualquer contabilidade legal para agentes públicos e políticos”, diz o texto da PF.

Os indícios acerca de “Santo” mostram que esse agente público, ainda não identificado pela Polícia Federal, pode ter relação com atividade política e eleitoral no estado de São Paulo. Em uma das várias menções ao apelido, há um e-mail que fala no pagamento de 500 mil reais ao beneficiário para “ajuda de campanha” com “vistas a interesses locais”. O e-mail, datado de setembro de 2004, programa o pagamento do valor em duas parcelas de 250 mil reais, com intervalo de cinco dias entre a primeira e a segunda.

Para a Polícia Federal, a propina não era simples “caixa 2” de campanha. “Verificou-se que alguns pagamentos eram solicitados explicitamente a título de contribuição para campanhas eleitorais, mas, ao contrário de qualquer alegação de que se trataria apenas de contribuição popularmente conhecida como ‘caixa 2’, encontravam-se diretamente atrelados ao favorecimento futuro da Odebrecht em obras públicas da área de interferência dos agentes políticos” afirma a representação.

O pagamento do valor ao agente público foi pedido por um diretor de contrato da Odebrecht que era responsável justamente pelas obras na Linha 4 do Metrô. Os e-mails mostram que a porcentagem de propina em cima desses pagamentos podia chegar até a 4% do valor recebido pela construtora.

Documento

O governador de São Paulo na época dos pagamentos e, portanto, responsável pelas obras de transporte, era o tucano Geraldo Alckmin, de novo à frente do Palácio dos Bandeirantes. 

Além de “Santo”, há menção ao pagamento de propina referente às obras no Metrô paulista para outros apelidos, como “Estrela”, “Corintiano”, “Santista”, “Brasileiro”, “Bragança”, “Vizinho” e “Cambada de SP”. Nenhum dos codinomes foi identificado ainda.

Em um dos e-mails referentes a obras da Linha 4, datado de 2006, um dos executivos daOdebrecht encaminha uma planilha com o que seriam propinas para alguns desses nomes por conta de um aditivo no valor contratual da obra, de 37,7 milhões de reais.

Com isso, o “Estrela” teria direito a 4% desse valor e teria recebido pouco mais de 1,5 milhão de reais em apagamentos ilícitos. Também com esse aditivo, “Brasileiro” e “Bragança” teriam recebido mais 188 mil reais cada um.

Mas essa não é a primeira vez que “Santo” aparece em anotações ou documentos da Odebrecht apreendidos pela PF, em referência a obras do PSDB. Em março deste ano, um manuscrito foi encontrado na casa de um dos executivos da empreiteira com referência à formação de cartel e pagamento de propina em uma obra de 2002.

Tratava-se da duplicação da Rodovia Mogi-Dutra (SP) e de um suposto pagamento de 5% do valor do contrato para o “Santo”. O papel ainda apresentava um cálculo: essa obra custaria 68,7 milhões, a implicar pouco mais de 3,4 milhões de reais em propina. Assim como agora, Alckmin também era o governador.

Desde março, quando “Santo” apareceu pela primeira vez, já foram deflagradas mais de dez fases da Lava Jato e a Polícia Federal ainda não conseguiu identificar qualquer um dos codinomes mencionados acima.

Acidente no Metrô
A cratera subitamente surgida em janeiro de 2007 na Linha 4 engoliu 7 trabalhadores (Foto: Victor R. Caivano/AP)

A justificativa, a princípio, era de que a força-tarefa estava concentrada em outra área. “O foco da nossa investigação são os crimes cometidos contra a Petrobras”, disse, em coletiva, na segunda 26, o delegado da Polícia Federal Filipe Hille Pace, quando questionado sobre indícios de ilícitos no Bando Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No dia seguinte, no entanto, Pace resolveu abrir um novo inquérito para investigar as 38 obras mencionadas em planilhas e e-mails da construtora.

Outro braço de investigação que pode ser iniciado pela Polícia Federal a partir desse inquérito envolve até o Ministério Público do Estado de São Paulo. Em uma das mensagens coletadas na Odebrecht aparece um e-mail datado de julho de 2007 que trata, supostamente, de propina para um promotor do MP.

Na mensagem, um executivo da construtora escreve que ficaram acertados quatro pagamentos mensais de 50 mil reais, totalizando 200 mil reais, com um montante de 40 mil reais de responsabilidade da Odebrecht.

O e-mail não deixa claro quem seria o responsável pelo restante do pagamento. No mesmo e-mail, o funcionário da empresa escreve que essa ação representava “apoio no processo de invest.MP”, o que pode significar “investigação no Ministério Público”.

Naquele mesmo ano, em janeiro de 2007, um acidente aconteceu na Linha 4 do Metrô. No local onde estava sendo construída a estação Pinheiros, um desmoronamento provocou a abertura de uma cratera de 80 metros de diâmetro.

Arquivo

Caminhões e equipamentos foram engolidos. Sete funcionários morreram. Juntamente com outras empreiteiras, como OAS, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez, a Odebrecht era uma das empresas que formavam o Consórcio Via Amarela, responsável pela obra.

“Ao que parece, o pagamento em questão destinava-se à obtenção de algum favorecimento nos resultados da apuração e talvez da ação para ressarcimento que foi proposta pelo parquet estadual”, afirma a Polícia Federal no documento.

O destinatário do valor é nomeado como Rui Falcão, mas não há nenhum promotor com esse nome no Ministério Público de São Paulo. A menção pode ser errada, ou representar um codinome. A PF descarta relacionar essa propina ao presidente do PT.

“Não é possível afirmar, por ora, se o beneficiário identificado por Rui Falcão faz referência a Rui Goethe da Costa Falcão, a algum homônimo ou mesmo a outro agente cujo nome não guarde relação com o trecho da mensagem”, explica o documento.

Procurada, a Odebrecht não quis se pronunciar sobre o assunto. O Ministério Público de São Paulo minimizou, por meio de sua assessoria de imprensa, a possibilidade de pagamento de propina no órgão, já que 14 pessoas foram indiciadas pelo MP em 2009, por causa do acidente na Linha 4.

Ninguém foi a julgamento até agora. Já o Metrô de São Paulo respondeu que “a relação do governo do Estado de São Paulo e seus contratados para a realização de obras ou prestação de serviços é baseada nos princípios legais e com aprovação de suas contas pelos órgãos competentes”.

“O Metrô desconhece qualquer irregularidade em suas obras. A empresa, contudo, está à disposição para colaborar com a força-tarefa da Lava Jato e esclarecer toda e qualquer informação”, conclui.