A Paixão de Cristo em Salto

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Encenação de 2014

Em nossa cidade temos algumas tradições que mobilizam milhares de pessoas.

Uma delas, sem dúvida nenhuma, é a encenação da Paixão de Cristo às vésperas da Semana Santa. Até o ano de 2016 foram 22 apresentações realizadas. Toda sua estrutura, montagem e execução acontecem com pessoas da cidade: atores, atrizes, bailarinos e bailarinas, artistas em geral, diretores, coreógrafos, maquiadores, figurinistas, dentre outros, juntam-se para proporcionar um espetáculo grandioso e esperado por toda a população da cidade e também da região. Já é um marco na cultura do estado.

À Prefeitura sempre coube o papel de organizar, coordenar e investir os recursos necessários para que o evento acontecesse, a partir da Secretaria da Cultura.

Semana passada uma nota da prefeitura jogou um balde de água fria em todos aqueles e aquelas que aguardavam ansiosamente por esse evento, seja para participar da execução do espetáculo, seja para “descer” até o Pavilhão das Artes a fim de assistir o magnífico espetáculo. A nota resumidamente dizia que neste ano não teremos a Paixão de Cristo por dificuldades financeiras. Na nota um número que não deixa de ser coerente para sua execução: $ 170.000,00.

Depois da nota várias manifestações se observaram em todos os cantos da cidade. Apesar da pouca divulgação da imprensa local (que parece ter “assumido” o atual governo…) muitas foram as pessoas que não se conformaram com essa atitude. O atual secretário da cultura em algumas manifestações se diz muito chateado com tudo isso, que não gostaria de ser o portador dessa triste notícia, mas enquanto gestor não poderia fugir a realidade da falta de recursos.

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Falta de recursos é um discurso que neste ano cola muito bem. Afinal nosso país vive uma crise como nunca tivemos. No acumulado dos dois últimos anos o PIB (Produto Interno Bruto) já caiu 7,6%, o que demonstra uma recessão profunda sentida na pele por todos nós.

A falta de recursos definitivamente mobiliza a gestão municipal para priorizar aquilo que é fundamental e importante para a cidade, procurando fazer com que isso caiba nos poucos recursos existentes. Isso é fato.

Agora, é fato também que não pode ser inibidora de ações, não pode ser muleta para ostracismos, nem justificativas para paralisia de realizações.

A secretaria da cultura tem um orçamento previsto para esse ano da ordem de $ 5,4 milhões. Desse valor 78% está reservado para folha de pagamentos ($ 4,2 milhões). Os demais 22% podem ser ajustados, remanejados, realocados para onde bem entender o gestor e, em alguns casos, assim aprovar a Câmara Municipal.

Estamos falando de algo em torno de $ 1,2 milhões.

Se quisermos ser mais específicos, podemos olhar o orçamento e verificar que $ 731 mil estão reservados para pagamentos de pessoas jurídicas; $ 50 mil para pagamentos de pessoas físicas; $ 28 mil para equipamentos e materiais permanentes e mais $ 81 mil para materiais de consumo. Temos ainda $ 152 mil reservados para o pagamento dos projetos culturais via editais de cultura (esperamos que aconteçam).

Poderão dizer os pessimistas: mas isso é orçamento! Não é dinheiro em caixa! Perfeitamente.

Então vamos ao “dinheiro em caixa”.

Entre janeiro e fevereiro os recursos recebidos pela prefeitura somaram $ 65,6 milhões ($ 31 em janeiro e $ 34 em fevereiro), já descontados os valores que vão para o FUNDEB. Nos mesmos meses a prefeitura gastou $ 38 milhões ($ 16 em janeiro e $ 22 em fevereiro).

Isso nos dá um superávit nos dois meses da ordem de $ 27,6 milhões.

E aqui não estamos considerando o que o governo anterior deixou em caixa ($ 7 milhões em recursos próprios e $ 21 milhões em recursos de emendas).

Isso quer dizer que da receita arrecadada em dois meses a prefeitura investiu somente 58% dela.

Quanto disso foi para a Cultura? $ 685 mil!!! 13% do orçamento da cultura!!!

Desses dados (que estão disponíveis no Portal da Transparência), muitas perguntas podem ser feitas, mas que aqui vamos limitar a questão da cultura.

No carnaval foi feito um estardalhaço para dizer que as poucas atrações que tivemos na cidade foram bancadas pela iniciativa privada. Aplausos!!!

Agora, no evento seguinte, a Paixão de Cristo, a nota diz que por falta de recursos ela não acontecerá.

Como assim falta de recursos se até agora a prefeitura investiu somente 685 mil reais na cultura e tem em caixa 27 milhões de reais?

Qual a prioridade que está sendo preservada e que nós míseros mortais não sabemos?

O que justifica nenhum investimento em ações da cultura e um superávit de 27 milhões de reais nas receitas (sem considerar o que já estava em caixa)?

O valor estimado pelo secretário de cultura para a realização da Paixão de Cristo (170 mil reais) representa 23% do que está reservado para pagamento de pessoas jurídicas na cultura. Representa 3% do orçamento total da cultura. Representa 0,7% do que a prefeitura ainda tem em caixa dos meses de janeiro e fevereiro.

A conclusão não pode ser outra: a prefeitura não quer fazer a Paixão de Cristo, assim como não quis manter o transporte universitário, o cartão material escolar e o cartão do servidor.

Não é uma questão de falta de recursos, mas uma questão de escolhas. Uma escolha que priva toda a população da cidade de momentos de encantamento na apresentação da Paixão de Cristo. Uma escolha que priva inúmeros artistas e fazedores de cultura de mostrarem seus trabalhos. Uma escolha que empobrece nossa cidade em suas tradições e cultura.

Fácil jogar na crise a culpa pelas escolhas. Difícil é fazer da crise momentos de superação e de realizações.

Dinheiro tem. Não menosprezem a inteligência de nosso povo.

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2 comentários sobre “A Paixão de Cristo em Salto”

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