As mulheres que protagonizaram a Revolução Russa e se tornaram invisíveis para a História

do Huff Post Brasil

por Andréa Martinelli

Há 100 anos Nadiéjda Krúpskaia, Aleksandra Kollontai e Inessa Armand e tantas outras protagonizaram uma revolução.

Manifestação das mulheres pelas ruas de Petrogrado, capital da Rússia, em 1917.

“Quem foram elas? Indivíduos? Não, uma massa, dezenas, centenas de milhares de heroínas anônimas que caminharam lado a lado com operários e camponeses em nome da bandeira vermelha, com o lema dos sovietes, através das ruínas do odioso passado religioso e tsarista em direção a um novo futuro”

(Aleksandra Kollontai, 1927).

Invisibilidade. Apagamento histórico. Anonimato.

Estas três palavras podem definir o grande fardo que as mulheres russas Aleksandra Kollontai, Nadiéjda Krúpskaia, Inessa Armand, Elena Dimítrievna Stássova, Klavdia Nikolaeva e tantas outras carregaram ao longo da História.

Em 1917, elas faziam parte das defensoras do terço da população trabalhadora da Rússia, que era composto apenas por mulheres. Mulheres estas que encabeçaram uma revolução radical no país, ao lutar por direitos e enfrentar um sistema de dominação que culminou com a Revolução Russa.

Mas não é possível conhecer estas mulheres ou descobrir sua visão sobre a “grande revolução” nos livros.

“No caso específico das Revoluções Russas [de Fevereiro e Outubro de 1917], a participação e importância das mulheres foi, por questões políticas, pela dominação masculina, suprimida, ignorada, começando a ser pesquisada e explicitada em estudos mais tardiamente na própria Rússia e, no Brasil, foi pouco traduzida e analisada”, explica Graziela Schneider, que estuda há mais de 20 anos a cultura russa e é organizadora do livro A Revolução das Mulheres: Emancipação feminina na Rússia soviética, lançado neste mês pela editora Boitempo.

Há exatos 100 anos, com o pedido latente por igualdade, pão, paz e terra, foi pelas mãos delas que nasceu uma revolução.

O livro é uma coletânea de 40 artigos de 11 mulheres russas sobre feminismo, prostituição, trabalho, luta de classes, família, leis e religião, no contexto de uma época em que o mundo via o crescimento de uma das maiores agitações sociais e políticas: a Revolução Russa de 1917.

Selecionados e organizados por Graziela, que estuda a cultura russa há cerca de 20 anos e dedicou os três últimos às figuras políticas femininas da Rússia e suas reivindicações, os textos são em sua maior parte inéditos e trazem uma breve biografia de cada uma das autoras.

A publicação ainda guarda um fator simbólico e pragmático: foi um trabalho inteiramente de mulheres desde a organização, tradução, edição, revisão, diagramação e design de capa.

“O principal papel desse livro é retomar o protagonismo das mulheres na Revolução de Fevereiro. De 1917 até 1930 nós tivemos um avanço nunca visto nos direitos das mulheres. Em 1920, a União Soviética foi o primeiro país a legalizar o aborto. É impressionante que algo que aconteceu há 100 anos seja algo tão fora dos nossos horizontes atualmente”, explica Daniela Lima, escritora que assina o prefácio da publicação.

Protagonismo e invisibilidade

DIVULGAÇÃO

A revolução já vinha se desenhando em datas anteriores, mas foi em 8 de março de 1917 que uma manifestação reuniu, na Rússia, mais de 90 mil mulheres contra o czar Nicolau II e a participação do país na Primeira Guerra Mundial, o que provocou um entusiasmo nacional e culminou com a chamada Revolução de Outubro.

“As mulheres russas lutaram em condições extremamente precárias, de fome e miséria; foram décadas de lutas, com a criação de organizações e periódicos/publicações, a realização de reuniões, a participação em eventos e manifestações, a partir de várias frentes, operárias, camponesas, revolucionárias”, conta Graziela.

E por mais que o papel das mulheres e seu significado permaneça para além do tempo no resultado de suas lutas, elas se tornaram invisíveis para a História durante muito tempo.

“Esse é o meu principal ponto e uma das maiores questões do livro: dar voz às mulheres; deixar as mulheres e suas expressões ‘aparecerem’. Elas sempre foram pensadas, retratadas, lidas, analisadas por homens. Sempre me perguntei como era possível não haver publicações de mulheres – nesse caso, russas – e sempre pensei: elas escreviam! Elas sempre escreveram! Só não eram publicadas.”

Na Rússia do início do século 20, a vida dos 6 milhões de proletárias não tinha luz nem esperança; sua existência era repleta de fome, dificuldades e humilhações. O turno de trabalho de 12 horas (ou, no menor do casos, 11), o miserável salário de 12 a 15 rublos por mês, o cotidiano nos quartéis superlotados, a ausência de qualquer ajuda por parte do Estado ou da sociedade no caso de doença, gravidez ou desempregoAlekssandra Kollontai, em A história do movimento das trabalhadoras na Rússia

Segundo a pesquisadora da USP na área de Literatura e Cultura Russa, os escritos das mulheres russas estão sendo cada vez mais descobertos a partir de pesquisas de outras mulheres interessadas em conhecer e dar visibilidade a um olhar não hegemônico da História da humanidade, como o livro Uma Antologia Improvável – A Escrita das Mulheres (Séculos XVI a XVIII), organizado por Vanda Anastácio.

“Há pouquíssimos textos de mulheres russas e soviéticas publicados no Brasil e também não há livros ou coletâneas de fontes escritas por mulheres russas, com exceção da Kollontai (até agora apenas em tradução indireta); na realidade, não há muitas compilações do gênero inclusive no exterior e na própria Rússia.”

A chamada Revolução Russa começou com elas e vai muito além de Lenin, Trotsky e outros atores políticos que ganharam notoriedade e se perpetuaram como símbolos históricos.

“Não é que a História não tenha sido contada, mas foi contada do ponto de vista hegemônico, masculino. – o livro explicita não apenas a participação das mulheres na política, mas principalmente demonstrar o protagonismo de seus pensamentos, expressões e ações em vários movimentos revolucionários, e sua principal questão é que a mulher não é somente uma participante na história, mas ela faz e narra a história do ponto de vista feminino.”

De 1917 direto para 2017

RICARDO MORAES / REUTERS

“Está na hora, finalmente, de compreender que o movimento feminista não tem como objetivo a luta contra o sexo masculino, mas sim está direcionado à organização das mulheres, à mobilização daquela metade da população que está inerte para o combate dos preconceitos, independentemente de quem seja o agente deles.”

O trecho acima poderia facilmente ter sido escrito por uma mulher, feminista, em 2017. Mas quem leva a assinatura por ele é a russa Anna Andréievna Kalmánovitch. Em 1907, ela já usava a palavra “feminismo” e a colocou no título de seu texto, batizado de Algumas palavras sobre o feminismo.

“As raízes do ou dos feminismos na Rússia remontam a meados do século XIX. Então, pode-ser dizer que o feminismo russo é extremamente peculiar, difere-se do feminismo ocidental, que, no contexto do liberalismo, reivindicava a igualdade de direitos em relação aos homens, mas sem buscar uma modificação dos padrões sociais; já na Rússia e na URSS a verdadeira transmutação da mulher e de seus papéis e costumes era fundamental”, explica Graziela.

Para a especialista, é importante ter em mente que o feminismo na Rússia se apresenta de uma forma particular, específica, como se as russas tivessem “sido feministas desde o século 18, mas sem essa denominação”.

“Muitas questões [de 1917 para cá] não foram e estão longe de ser resolvidas (como a legalização do aborto, a cultura do estupro etc), outras sequer melhoradas (como a divisão de tarefas, a igualdade de salários); sabe-se, por exemplo, que as mais atingidas por condições precárias de trabalho, pela fome, pelas consequências das guerras – no Brasil e no mundo – são as mulheres; além disso, objetificação das mulheres é perpetuada e os índices de violência doméstica e feminicídio continuam entre os mais altos do mundo.”

Os contextos e épocas são diferentes, mas o texto de Kalmánovitch e de tantas outras mulheres da época permanecem atuais. Na Rússia de 1900, as mulheres lutavam por igualdade no mercado de trabalho, uma nova possibilidade de organização social da família, em que o homem participa de uma forma mais ativa; além do direito ao aborto e da liberdade sobre os próprios corpos.

Trazer a público e colocar em pauta a luta das mulheres russas, segundo as especialistas, é uma forma de reconstruir a História e de exemplificar que lutas atuais por direitos pertencem a um cenário que se constrói através dos tempos. E não pode ser apagado.

“Muitas coisas que parecem inalcançáveis no mundo atual já foram feitas por outras mulheres. Existem problemas que são colocados hoje como impossíveis de resolver, por exemplo, a igualdade de gênero no trabalho ou a legalização do aborto. A Rússia legalizou o aborto em 1920, por exemplo”, exemplifica Daniela Lima.

Para ela, “conhecendo as mulheres russas, saímos da utopia. É preciso olhar para o presente, revisitando o passado. Pensar sobre as que vieram antes de nós e no que elas já conseguiram mudar. Faz parte do sistema de dominação acreditar que um mundo mais igualitário é impossível”.

Conheça as “principais soldadas invisíveis” da Revolução Russa:

Aleksandra Kollontai

Alexandra Kollontai foi a primeira mulher a ocupar um cargo junto ao alto escalão do governo russo, foi protagonista ao unir as mulheres russas para lutar por seus direitos desde antes do histórico ano de 1917 e já naquela época concebia a problemática feminina como uma questão social, expondo a ligação direta entre exploração e opressão da mulher (tanto no mercado de trabalho quanto no âmbito familiar) e o regime capitalista. Ela se destacou, principalmente, durante o regime de transição socialista iniciado com a Revolução Russa de 1917.

Kollontai ainda fazia parte do conselho editorial da publicação russa intitulada Trabalhadora ao lado de Nadiéjda Krúpskaia e Inessa Armand que tinha como objetivo educar as trabalhadoras para a consciência política e restaurar os interesses comuns de cada uma com o resto da classe trabalhadora não só na Rússia, como no mundo todo.

Em 1926, em sua autobiografia batizada de Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente antecipada, ela escreveu:

“Mas, no fim das contas, havia ainda a tarefa infinda de libertação das mulheres. As mulheres, é claro, tinham recebido todos os direitos, mas na prática viviam ainda sob a velha opressão: sem autoridade na vida familiar, escravizadas por mil tarefas domésticas, carregando todo o fardo da maternidade, mesmo os cuidados materiais, porque agora muitas delas conheciam a vida desacompanhada, em consequência da guerra e das outras circunstâncias.”

Com esta ideia, Kollontai faz uma tentativa de repensar a estrutura das relações sociais tanto no âmbito privado, quanto no âmbito externo, em uma sociedade de exploradores e explorados. Para ela, homens e mulheres deveriam pensar por si mesmos para além do jugo capitalista.

Além do livro citado acima, Kollontai é autora de numerosos artigos de temática política, econômica e feminista.

Nadiéjda Krúpskaia

 

É, inclusive, por causa de um texto de Kollontai, traduzido pela primeira vez para o livro A revolução das mulheres – emancipação feminina na Rússia soviética, que é possível conhecer melhor o papel de Nadezhda Konstantinovna “Nadya” Krupskaya e outras mulheres que lutaram no front da revolução.

Com um nome impactante, Krupskaya, segundo Kollontai, tinha uma presença forte e, ao mesmo tempo, sutil:

“O modesto vestido cinza e seu costumeiro esforço por permanecer à sombra, entrar na sala de reunião sem ser percebida, sentar-se atrás de uma coluna. Mas ela mesma vê, ouve e observa tudo para transmitir a Vladimir Ilitch, acrescentar comentários precisos e buscar um pensamento racional, correto e necessário.”

O Vladimir a que Kollontai se refere é Vladimir Lenin, marido de Krupskaya. Ela continua:

“Mas ela [Krupskaya] trabalhou incessantemente, foi o braço direito de Vladimir Ilitch e às vezes fazia nas reuniões do partido uma observação curta, mas de peso. Nos momentos mais difíceis e perigosos, nos dias em que muitos camaradas fortes perdiam o ânimo e começavam a ter dúvidas, Nadiêjda Konstantínovna se mantinha igualmente convicta, confiante da justeza do trabalho iniciado e com fé na vitória.

Kollontai ainda afirma que “ela irradiava uma crença inabalável, e essa firmeza de espírito, oculta sob rara discrição, sempre encorajava a todos que se juntavam aos companheiros de armas do grande criador de Outubro”.

Em 1936, Krupskaya foi uma das mulheres que, como membro do governo Russo, defendeu que as restrições impostas ao aborto pelo governo soviético naquele ano deveriam ser derrubadas. Em um contexto de revolução, a Russia descriminalizou o aborto em 1920.

Ela também escreveu o livro mais detalhado sobre a vida de Lenin, Memories of Lenin (Memórias de Lenin, em tradução livre).

Inessa Armand

Inessa Fyodorovna Armand é uma peça chave na hora de falar dessas personagens. Ela nasceu na França, mas morou na Rússia grande parte de sua vida. Com o papel de trabalhar no partido na organização da revolução de Outubro, ela trouxe ideias criativas principalmente na hora de pensar em ações práticas entre as mulheres.

Em seu texto, Kollontai afirma que ela era “inexorável em suas convicções e sabia se manter firme naquilo que considerava correto, mesmo quando se tratava de fortes opositores”:

“Apesar de toda sua feminilidade e delicadeza no tratamento com as pessoas, Inessa Armand era inexorável em suas convicções e sabia se manter firme naquilo que considerava correto, mesmo quando se tratava de opositores bastante fortes. Após os dias de Outubro, ela dedicou sua energia à construção de um amplo movimento de mulheres trabalhadoras. As assembleias de delegados são sua cria.”

Apesar de Armand ser uma figura importante no movimento comunista russo pré-revolucionário e nos primeiros dias da era comunista, sua história foi apagada e invisibilizada durante muito tempo. Isso não só por causa de sua militância, mas também por seu relacionamento com Lenin. Alguns arquivos históricos remontam que, durante o tempo que foi casado com Krupskaya, Lenin teve um romance com Armand e que ela foi uma peça chave em sua vida política e crescimento político.

Elena Dimítrievna Stássova

A russa Elena Stássova, segundo Kollontai, tinha muitas responsabilidades no partido mas “se algum camarada estivesse necessitado ou sofrendo naqueles dias turbulentos, ela respondia de forma breve, até seca, e fazia o que era possível”.

Em seu texto, a escritora e militante russa ainda afirma que Stássova “vivia atolada de trabalho, mas sempre a postos” e que não gostava de ir para a linha de frente nos protestos. Aparentemente, não gostava de ser vista.

“O grande e amado trabalho do comunismo, motivo pelo qual esteve no exílio, contraiu doenças nas prisões tsaristas… Na lida, era forte como um sílex, de aço. E, para a infelicidade dos camaradas, tinha a sensibilidade e a empatia que só as mulheres de grande alma têm”, finaliza Kollontai.

Klavdia Nikolaeva

Segundo o texto de Alexandra Kollontai, Klavdia Nikolaeva era uma trabalhadora das mais dedicadas, chamadas popularmente de “chão de fábrica”, dos estratos mais baixos. Ainda em 1908, nos anos da reação, juntou-se aos bolcheviques. Ela escreve:

“Ainda jovem, era toda impulsividade e impaciência. Mas segurava firme a bandeira. E dizia com coragem: É preciso trazer as mulheres trabalhadoras, soldadas e camponesas para o partido. Ao trabalho, mulheres! Em defesa dos sovietes e do comunismo. Quando discursava nas reuniões ainda ficava nervosa, não tinha autoconfiança, mas fascinava a todos. É uma das que carregaram sobre os ombros toda a dificuldade de estabelecer os fundamentos para o engajamento amplo e massivo das mulheres na revolução, que lutou em duas frentes: por um lado, pelos sovietes e o comunismo e, por outro, pela emancipação da mulher.

 

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