Gilmar Mauro: “Mandado de prisão foi pretexto para invadir escola do MST”

Da Carta Capital

por Miguel Martins

Segundo o dirigente, dez viaturas da Polícia Civil se deslocaram para a instituição, à procura de uma única mulher, que não estava no local

Gilmar Mauro
“Fiquei sensibilizado com o grande número de mensagens de apoio”, diz Gilmar Mauro

Parecia uma cena de guerra. Agentes fortemente armados, com fuzis, escopetas e coletes balísticos, prontos para neutralizar o inimigo. As imagens, captadas por câmeras de um circuito interno de segurança, mostram o exato momento em que a Polícia Civil de São Paulo invadiu, na manhã desta sexta-feira 4, a Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Guararema, no interior de São Paulo. Em outros vídeos, gravados por celulares, policiais são flagrados efetuando disparos no chão.

Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, estava no local no momento da chegada dos agentes. Segundo ele, dez viaturas da Polícia Civil chegaram à escola, sem a presença de um oficial de Justiça, para cumprir o mandato de prisão de uma mulher do Paraná. “Parece-me um mero pretexto para entrar aqui, sem autorização judicial. Estamos vivendo um Estado de exceção“.

CartaCapital: O que aconteceu exatamente?
Gilmar Mauro: Eles chegaram com um mandado de prisão, assinado por um juiz, contra uma mulher do Paraná. Mostraram o documento no celular. Pedimos ao menos uma cópia em papel, e eles entregaram. Mas não havia informação alguma. Era só o pedido de prisão dessa pessoa, do Paraná. Dissemos que ela não se encontrava no local, que aqui funciona uma escola. Eles decidiram entrar à força. Casualmente, eu estava aqui, para participar de um seminário.

CC: Houve disparos de arma de fogo?
GM: Sim. Quando os policiais entraram, nosso pessoal se aproximou. Eles ficaram afobados, começaram a efetuar disparos no solo. Como tem muita pedra por aqui, a possibilidade de um estilhaço atingir alguém era significativa. Dá para ver os buracos no chão da escola. Recolhemos algumas cápsulas e projéteis. Criou-se um alvoroço muito grande. Aqui tem muita criança, há uma creche, a Ciranda Infantil, além de pessoas que estão fazendo curso aqui.

CC: Algum militante do MST foi detido?
GM: Sim, dois. Um deles é um senhor que trabalha aqui como voluntário, inclusive ele tem problemas de saúde, e acabou com uma costela fraturada. Está no pronto-socorro nesse momento. A outra pessoa foi tentar argumentar com os policiais, dizer que ele é uma pessoa doente, sofre de mal de Parkinson, a acabou sendo detida também. Foram detidos por desacato, esse foi o argumento deles.

CC: A Polícia Civil do Paraná afirma que a operação foi deflagrada para desbaratar uma quadrilha, com integrantes do MST envolvidos.
GM: Muito bem, então poderia ter vindo um oficial de Justiça, dois ou três policiais, coisa do tipo. Não foi o que ocorreu. Vieram para a escola mais de dez viaturas da Polícia Civil. Havia um plano de entrar nas dependências da escola, independentemente do mandado de prisão dessa pessoa, que nem se encontra aqui. Não tem nenhuma relação das prisões no Paraná com a Escola Nacional Florestan Fernandes. Parece-me um mero pretexto para entrar aqui, sem autorização judicial. Estamos vivendo um Estado de exceção.

CC: Por que o senhor chegou a esta conclusão?
GM: Basta ver a violência, como estão sendo tratados os estudantes que ocupam escolas. Não se respeita os procedimentos legais, o amplo direito à defesa… O que ocorreu hoje aqui está ocorrendo no Brasil inteiro. É a implantação de um Estado de exceção, que busca criminalizar os movimentos sociais. Esse é o clima que a sociedade está vivendo e precisamos enfrentar. Apesar de tudo, fiquei sensibilizado com o grande número de mensagens de apoio de artistas e de personalidades públicas contra essa arbitrariedade.

 

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