Descrença

Apesar de ser otimista por natureza.

Apesar de lutar desde que me conheço por gente por uma sociedade mais fraterna e igualitária.

Apesar de conhecer inúmeras pessoas que tem o mesmo otimismo (até mais) que eu e lutam a décadas por essa tal sociedade igualitária.

Apesar de acreditar que a democracia é o melhor dos regimes que o homem conseguiu criar até agora.

Apesar de acreditar que nossa sociedade precisa de um mínimo de regramento e esse regramento deve ser garantido por aquilo que chamamos de justiça.

Apesar de acreditar que as divergências podem ser o caminho para construções mais elevadas de relacionamentos.

Apesar de acreditar que o voto deve direcionar nossas escolhas para aqueles que queremos enquanto gestores públicos.

Apesar de confiar sobremaneira em muitos daqueles que estão nas estruturas lutando para que esses princípios se sobressaiam.

Apesar de tudo isso o que vejo em nossos dias é a negação desses princípios elementares.

Estamos vivendo um momento em que a exceção é a regra: na presidência, um golpista que usou de mecanismos escusos acobertados pela “justiça” e pela grande mídia. E agora cumpre tudo aquilo por que tanto lutou: o distanciamento cada vez maior entre os desiguais, preservando e aumentando as chances dos que tem muito e cortando e reduzindo os direitos dos que tem pouco.

Em nossa cidade um prefeito que se sustenta no poder graças a uma liminar concedida pela Justiça Comum e até agora não apreciada por aqueles que deveriam fazer isso. Um prefeito que elimina duas secretarias importantíssimas para a cidade; elimina toda a política social implantada para aqueles que mais precisam delas, cortando as coordenadorias específicas; eliminará com certeza o cartão material escolar e o cartão do servidor; corta diversos cargos sob a alegação de que “precisa economizar”, mas (como já era esperado) traz os seus para debaixo de suas asinhas.

O mais triste é que os processos crime contra ele agora só serão julgados pelo Tribunal de Justiça, já que, por conta dessa mesma “justiça”, assumiu a cadeira de prefeito mesmo pesando sobre suas costas todos os delitos já vastamente conhecidos.

Mas a tirania não tem limites.

Nesta semana demite uma funcionária (Daniela Roger) que está afastada do trabalho por conta de um tratamento de câncer. A menina foi chamada para assinar a rescisão e (claro) não pode ir pois está em tratamento.

Esse tipo de mal não acaba. Pelo contrário alastra-se cada vez e mais em nosso meio. O que importa são os objetivos pessoais, por mais escusos que sejam. Afinal, na justiça sempre se dá um jeitinho.

O texto abaixo é de Marcos Pardim, homem da cultura e de uma sensibilidade maior que todos nós juntos. Replico o texto por considera-lo profundo e demarcador das diferenças entre políticas vividas em nossa cidade. Mas infelizmente não acredito que as coisas mudarão. Mesmo que o pedido incisivo de Pardim venha a ser atendido, o mal já está feito. Não será a revisão do feito que mudará tal feito. O mal já se manifestou. A tirania já está posta.

Espero que esse fato não seja mais um daqueles que daqui a algum tempo as pessoas se esqueçam e voltem a catalogar Geraldo Garcia como “o bom moço”, título alias que o Sr. Lenzi precisa nos explicar.

 

Postagem aberta ao Exmo. sr. Prefeito da Estância Turística de Salto, José Geraldo Garcia:

Senhor prefeito, agora a pouco recebi uma notícia monstruosa. Soube que a sua administração exonerou uma funcionária comissionada que há algum tempo está afastada para se tratar de um câncer. Monstruosidades, por obviedade semântica, são cometidas por monstros. Decerto que há entre nós, os seres humanos, gente capaz de ser monstro. Não sei se foi o senhor que autorizou esta monstruosidade. Se foi, peço-lhe a dignidade e a decência (as mesmas que eu disse que lhe faltavam em meu discurso de despedida do extinto Teatro Verdi, quando me demiti da coordenação, em 1989) de desautorizar. Política ainda, tenho a esperança, permite ética. Solidariedade é também um gesto ético. Alteridade, então, nem se fala. Se não foi o senhor, desautorize o seu subalterno que foi capaz de tal monstruosidade. Câncer, qualquer pessoa sabe, não é uma gripe, um resfriado. Eu já perdi pessoas queridas por conta desta doença. Minha mãe e uma de minhas irmãs faleceram vitimadas por esta devastadora doença. Ela, a doença, é por si só demasiadamente perversa. Não é preciso mais perversão de ninguém. Pare, respire, reflita. Há de existir dentro de Vossa Excelência alguma réstia de humanidade. Faça-a agir, senhor prefeito. A humanidade agradece.

Atenciosamente

Marcos Antonio Pardim, um simples cidadão saltense.

 

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