O que o PCC ganhou no acordo com o governo de São Paulo e como cresceu tanto sob Alckmin?

do DCM

por Kiko Nogueira

Alckmin em 2010 com o então candidato a deputado estadual Ney Santos, acusado de ligação com o PCC
Alckmin em 2010 com o então candidato a deputado estadual Ney Santos, acusado de ligação com o PCC; prefeito eleito de Embu das Artes, ele estava foragido, mas já tomou posse

Este texto está sendo republicado.

O que o PCC ganhou no acordo com o governo paulista em 2006?

Na época, a facção realizou vários ataques, especialmente a postos da Polícia Militar, de maneira coordenada. Eles foram interrompidos após uma reunião no presídio de Presidente Bernardes, no interior do estado.

De acordo com o Estadão, a solução foi encaminhada pela advogada Iracema Vasciaveo, então presidente da ONG Nova Ordem, que defendia os direitos dos presos e representava o PCC.

Iracema esteve com Marcola, o líder. O substituto de Geraldo, Claudio Lembo, deu aval para o encontro, bem como os secretários da Segurança Pública e da Administração Penitenciária — Saulo de Castro Abreu Filho e Nagashi Furukawa, respectivamente.

A história foi revelada pelo delegado José Luiz Ramos Cavalcanti, que depunha  num processo contra advogadas supostamente ligadas ao crime organizado. “Eu apenas autorizei a viagem. O que aconteceu lá dentro, não tenho detalhes”, afirma Lembo.

O diabo está nos detalhes. Em tese, garantiu-se a rendição dos criminosos, desde que se assegurasse a integridade física deles. Os atentados cessaram, subitamente, e o poder do PCC só fez crescer. Geraldo sempre negou qualquer tipo de acordo, mas o fato é que a relação com o Primeiro Comando da Capital só se tornou mais confusa, para usar um eufemismo, com o passar do tempo.

O deputado Conte Lopes, ex-capitão da PM, declarou, certa vez, que “essa facção criminosa é cria do PSDB”. O PCC nasceu em 1993 na Cadeia Pública de Taubaté e sua relação com o governo paulista é recheada de episódios assombrosamente estranhos.

Em 2010, Alckmin pediu votos para um candidato a deputado estadual do PSC chamado Claudiney Alves dos Santos, conhecido como Ney Santos.

Pouco depois, Santos seria preso, acusado de adulteração de combustível, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha.

Era também investigado por envolvimento com o PCC. Em seu nome, um patrimônio de 50 milhões de reais, incluindo uma Ferrari e um Porsche.

Ok. Alckmin provavelmente não sabia do passado, do presente e do futuro de Santos. Mas nem sua equipe?

Em 2012, um inquérito sobre o envolvimento de PMs com o PCC foi arquivado. Um ano depois, aconteceu outro episódio de ampla repercussão, em que o governador saiu-se como herói na luta contra os bandidos.

Ele teria sido ameaçado de morte, segundo um recado interceptado. “Os bandidos dizem que as coisas ficaram mais difíceis para eles, pois eu quero dizer que vai ficar muito mais difícil”, disse GA, triunfal, em Mirassol. “Nós não vamos nos intimidar. É nosso dever zelar pelo interesse público.”

Não contavam com a astúcia do ex-secretário Antônio Ferreira Pinto, que revelou que a escuta dos membros do PCC circulava desde 2011.

“Esse fato não tinha credibilidade nenhuma. A informação é importante desde que você analise e veja se ela tem ou não consistência. Essas gravações não tinham. Tanto que o promotor passou ao largo delas”, falou.

“Aí vem o governo e diz: ‘Não vou me intimidar’. Ele está aproveitando para colher dividendos políticos”. De novo: Geraldo, muito possivelmente, não tinha ideia de que as tais ameaças tinham dois anos de idade e nunca foram levadas a sério.

No início de 2014, outro evento inacreditável. Um relatório vazado do Ministério Público dava conta de um esquema para tirar Marcola e outros três chefões da penitenciária de Presidente Venceslau.

O plano estaria sendo arquitetado há oito meses. Os homens já tinham serrado as grades das janelas de suas celas, colocando-as de volta em seguida, devidamente pintadas. Eles sairiam dali para uma área do presídio sem cobertura de cabos de aço, de onde seriam içados por um helicóptero com adesivos da Polícia Militar.

O “vazamento” do documento criou situações surreais. Policiais ficaram de tocaia aguardando os meliantes. Jornalistas correram para lá. No Jornal Nacional, um repórter perguntava, sussurrando, a um franco atirador como funcionava a arma dele. Diante da falta de ação, era o jeito.

Claro que não aconteceu nada. Alckmin, no entanto, estava pronto para faturar. Na Jovem Pan, elogiou “o empenho da polícia de São Paulo, 24 horas, permanentemente, contra qualquer tipo de organização criminosa, tenha a sigla que tiver. São Paulo não retroage, não se intimida”. Para ele, “lamentavelmente, isso acabou vazando.”

O PCC, hoje, controla áreas inteiras da cidade, as cadeias, tem ligação com escolas de samba e mantém bases no Paraguai e na Bolívia. Um fenômeno. Graças à transferência de presos, São Paulo exportou membros da organização para todo o país.

Naquele ano de 2006, Geraldo deu uma entrevista a uma rede de televisão australiana. A jornalista quis saber sobre os “grupos de extermínio” e sobre as ações da facção. Irritado, o “Santo” se levantou da cadeira e encerrou o papo abruptamente.

“Esse é um problema do governo estadual. Você deveria ir falar com eles. Tchau, tchau. Bye, bye”, diz. “Se eu soubesse que era sobre isso, não tinha entrevista. Não faz o menor sentido”, continua, numa indireta a seus assessores.

A entrevistadora ainda tentou, inutilmente, um apelo: “Alguém precisa falar sobre isso”.

Na semana passada, o ministro do TSE Napoleão Nunes Maia Filho autorizou a posse de Ney Santos como prefeito de Embu das Artes.

O Ministério Público o acusa de lavar o dinheiro oriundo do tráfico de drogas do PCC. Ele estava foragido desde 9 de dezembro, quando foi deflagrada a Operação Xibalba, da Polícia Federal.

Governo apresenta cálculo com erros e omite dados de material para justificar reforma da previdência

do Intercept Brasil

por Helena Borges

VINTE ESPECIALISTAS EM ECONOMIA, matemática, engenharia e computação analisaram a metodologia que o governo usou para justificar a Reforma da Previdência. Eis a conclusão: os números fornecidos não apenas contrariam as políticas econômicas traçadas pelo próprio Ministério da Fazenda – como a PEC do Teto de Gastos e a Lei da Terceirização – como também se chocam com princípios básicos de matemática financeira e de estatística.

Em uma audiência pública da Comissão Especial da Reforma da Previdência, no dia 15 de março, representantes do Ministério da Fazenda entregaram aos deputados um CD com explicações sobre os cálculos do famoso “rombo da previdência”. O disco continha três avisos ministeriais em formato PDF (que você pode ler clicando aqui, aqui e aqui) e um arquivo em formato Excel com 423 planilhas. O material foi repassado a especialistas da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), que trabalharam em colaboração com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e com o Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindCT).

Brasília - Manifestantes tentam invadir a Câmara em protesto contra reforma da Previdência (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Manifestantes tentam entrar na Câmara em protesto contra reforma da Previdência, no dia 18 de abril de 2017. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Eles desenvolveram um software para rodar os dados e checar as informações. Em nota técnica enviada aos deputados da Comissão, a que The Intercept Brasil teve acesso, os analistas afirmam que as informações fornecidas foram insuficientes e não permitem estimar nem minimamente os impactos da reforma proposta pelo governo:

 

“Continuam sem respostas as questões que se referem a como foram realizadas as projeções atuariais da proposta de reforma previdenciária e quais os seus impactos em termos de número de pessoas afetadas.”

Erros levam “rombo da previdência” a ser superestimado

Segundo a nota entregue aos deputados, as estimativas do governo “superestimam a população de idosos e subestimam a população de jovens”. Isso acontece porque a base de dados populacionais utilizada é a PNAD e não as projeções e estimativas da população, ambas feitas pelo IBGE. Para se ter uma idéia da diferença, em 2014 — ano usado como base de cálculo para a maioria das previsões da Previdência — as duas pesquisas davam estimativas divergentes para a população acima de 50 anos prevista para 2060, com uma diferença de 7 milhões de pessoas entre elas.

Brasília - Policiais protestam contra a PEC da reforma da Previdência em frente ao Congresso Nacional (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Policiais protestam contra a PEC da reforma da Previdência em frente ao Congresso Nacional no dia 18 de abril de 2017. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O economista Claudio Puty, professor da Universidade Federal do Pará e um dos autores da análise, critica a pretensa precisão acerca do futuro. Ele explica que, quando se tratam de previsões a longo prazo, caso da proposta de Reforma da Previdência, o comum é que analistas façam pelo menos três “possíveis cenários”, considerando as variáveis socioeconômicas (por exemplo, saída da crise econômica a longo, médio ou curto prazo). Não é esse o método adotado pelo governo, que usa um tom determinista com apenas um cenário possível:

“Se eles dissessem que estão sendo conservadores para ter um cuidado maior, mas não é o caso. O problema é que você não publica intervalos de confiança, a famosa margem de erro. Você pode imaginar, com uma previsão visando 2060, que a variação de confiança é muito ampla. Mas eles tratam com uma certeza pseudo-científica.”

As estimativas do governo também subestimam o potencial de contribuição a ser arrecadado. O número de desempregados cresceu 9,3% em 2014, segundo a PNAD. Usar estes dados como base de cálculo afeta negativamente o número estimado de contribuintes, puxando para baixo a previsão de receita previdenciária. Além disso, ao usar dados de 2014, a conta ignora possíveis consequência das ações do próprio governo, como a Reforma Trabalhista e a terceirização.

Brasília - Presidente Michel Temer, discute reforma da previdência durante café da manhã, com deputados e senadores da base aliada ( Marcos Corrêa/PR)
Michel Temer toma café da manhã com deputados e senadores da base aliada sobre Reforma da Previdência, no dia 18 de abril de 2017.Foto: Marcos Corrêa/PR/Agência Brasil

O cálculo do salário mínimo também apresenta erros. O crescimento anual previsto nos documentos está na média constante de 6%, enquanto a inflação e o PIB caem. Como os dois índices servem de base de cálculo para o reajuste do mínimo, a não ser que fórmula do salário mínimo mude, a conta não fecha.

“Ao manter esse padrão de correção do salário mínimo, as estimativas do modelo atuarial são contraditórias com as mudanças legislativas promovidas pelo próprio governo, como é o caso daquelas oriundas da aprovação da PEC do Teto dos Gastos” criticam os analistas.

O que está faltando nos dados apresentados?

Segundo os analistas, o governo não apresentou as fontes de muitos dos números utilizados, nem explicou quais os cálculos e fórmulas matemáticas foram utilizados para se chegar às previsões catastróficas que justificariam os cortes drásticos na Previdência Social.

Quando se clica no botão “fonte” para saber de onde vieram os números da planilha apresentada pelo governo, a informação não aparece em em muitas das tabelas.

Solon de Carvalho é pesquisador titular do Laboratório Associado de Computação e Matemática Aplicada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e participou da avaliação dos arquivos entregues pelo governo. Ele conta que o formato e a qualidade dos arquivos dificultaram a avaliação dos dados:

“Os três avisos foram escaneados de forma torta e pouco legível. Trabalhamos para analisar na melhor maneira. O arquivo de Excel continha 423 planilhas onde colaram apenas os valores, excluindo as fórmulas que levaram a esses números. Por isso, se tornou um quebra-cabeças matemático.”

Fragmento de um dos avisos ministeriais enviados à Comissão; a tabela reproduzida no documento é ilegível.

Carvalho explica que, nos cálculos do governo, é como se os índices do mercado de trabalho estivessem congelados. O matemático critica duramente essa metodologia, afirmando que ela compromete a credibilidade dos resultados:

“Como é que pode alguém se basear em previsões que têm erros como o congelamento de todas as variáveis econômicas? E por que eles estão usando especificamente os dados de 2014? Henrique Meirelles [ministro da Fazenda] disse recentemente que, se nada for feito, em 2060 as despesas da Previdência subirão para 17,2% do PIB. É o quarto ou quinto número a que eles chegam em poucos meses. Como eles chegam a esses números? E, ainda por cima, na precisão de décimos… O problema não é a previsão, é o determinismo. Então todo mundo sabe de tudo que vai acontecer até 2060? Mas, isso, ninguém explica.”

Aviso ministerial entregue à Comissão em março dizia que as despesas com a Previdência custariam 16,7% do PIB até 2060 mas, um mês depois, ministro Meirelles falava em 17,2%.

Ausência de dados impede cálculos dos efeitos

Os economistas também sentiram falta de uma simulação que mostre os impactos da reforma – para além dos impactos fiscais – caso ela seja efetivada. Eles se dizem incapacitados de fazer esse cálculo porque faltam números no material entregue. Para isso, seria necessário que as planilhas digitais apresentassem um conjunto de informações mais detalhadas.

Relatório ministerial entregue em março à Comissão, não entra em detalhes sobre os impactos socioeconômicos da reforma, com gráficos simples e focados apenas nos resultados fiscais.

Carvalho cita um exemplo: a única análise de renda feita é a diferenciação entre quem ganha um salário mínimo e quem ganha mais do que um salário mínimo. O matemático lembra que o Brasil é muito mais plural que isso. Também explica que uma análise detalhada das demais faixas de renda demonstrá perda significativa do poder de compra da aposentadoria de quem ganha entre dois a dez mínimos.

“Esses dados existem, é claro, porque existe um cadastro da Previdência. Mas eles não dão.”

Outra projeção que faltou foi a do impacto da exigência de idade mínima sobre a contribuição. Algumas pessoas poderiam se sentir desestimuladas a contribuir – uma vez que só poderão se aposentar, no mínimo, aos 65 anos – e passar a investir somente em pacotes de previdência privada.

Brasília - Presidente Michel Temer, discute reforma da previdência durante café da manhã, com deputados e senadores da base aliada ( Marcos Corrêa/PR)
Michel Temer discute Reforma da Previdência durante café da manhã com deputados e senadores da base aliada, no dia 18 de abril de 2017. Foto: Marcos Corrêa/PR/Agência Brasil

Os números de novos planos de previdência privada já registraram um crescimento de 26%. Esse percentual é referente apenas ao último mês de novembro, segundo levantamento feito pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi). Apenas em novos planos abertos naquele mês, foram acumulados R$ 11,26 bilhões. A FenaPrevi não divulgou novos dados desde então.

Para calcular o impacto da mudança na idade mínima no volume de contribuição seria necessário ter informações detalhadas sobre o tempo e o volume de contribuição por faixa etária, algo que não consta na base de dados. Puty questiona os motivos da ausência de dados e acusa: “Esses dados existem, é claro, porque existe um cadastro da Previdência. Mas eles não dão”.

 

Foto do topo: Policiais protestam contra a PEC da Reforma da Previdência em frente ao Congresso Nacional no dia 18 de abril de 2017.

Em São Paulo, o teatro é alvo da perseguição política

da Carta Capital

por Eduardo Nunomura

Na esteira do congelamento de 43,7% do orçamento municipal para a Cultura, grupos da periferia sofrem cortes

Humbalada
Humbalada, cruzada contra o machismo, a homofobia e o racismo

Nos últimos 15 anos, a metrópole paulistana foi governada por quatro prefeitos que, juntos, injetaram 165 milhões de reais só no teatro. Foram contemplados 432 projetos de pesquisa e produção teatral pelo programa municipal de fomento. Marta Suplicy, então no PT, promulgou a lei de 2002, que foi rigorosamente respeitada pelos sucessores José Serra (PSDB), Gilberto Kassab (DEM) e Fernando Haddad (PT).

A alternância de poder, mesmo em uma capital polarizada como São Paulo, parecia obedecer à ordem democrática e ao bom senso. Então veio João Doria Jr. (PSDB), o político “novo” cujo modo de governar transita entre os personagens Brighella, Pantalone e Scaramuccia da Commedia dell’Arte.

Ao assumir, o tucano impôs um congelamento de 43,7% da verba da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o equivalente a 197,4 milhões de reais. Projetos de todas as expressões culturais estão sob ameaça em meio a uma velada caça às bruxas na classe artística.

Em 11 de março, o edital de fomento à dança foi revogado pelo secretário municipal André Sturm e “substituído por um outro que desconsidera a própria lei, indo contra as conquistas de classe das últimas 21 edições”, conforme denuncia a Frente Única da Cultura.

Na dança, foram contemplados 213 projetos num total de 63 milhões de reais até o ano passado. No dia 27, trabalhadores da cultura protestaram contra o congelamento, mas foram impedidos de se manifestar livremente.

“O autoritarismo já está impregnado nessa gestão. Ao cercarem o Theatro Municipal para que os artistas não pudessem protestar nas suas escadarias, separaram o artista de seu palco. É um símbolo muito forte”, declarou o ator Celso Frateschi, ex-secretário de Cultura na gestão Marta Suplicy.

Em nota, a SMC atribuiu o congelamento de 82 milhões de reais a um “equívoco” cometido pela equipe do ex-prefeito Haddad por ter enviado os programas em andamento com a rubrica de “projetos”. E, por se tratar de um novo gestor, recursos denominados de projetos foram congelados à espera de uma avaliação do time de Doria.

Theatro Municipal
Na rua: protesto foi barrado no Theatro Municipal (Foto: Nelson Antoine/AFP)

A nota informa que 30 milhões de reais já foram descontingenciados e programas serão retomados a partir deste mês, incluindo o lançamento dos editais de fomento ao teatro, ao circo e à música.

O drama está só começando. A realidade que acontece no campo cultural em São Paulo retrata uma farsa em nível nacional. As trocas de poder, democráticas ou não, estão servindo para desconstruir um processo de fortalecimento da produção artística duramente conquistado nos últimos anos. A ordem é eliminar a crítica. “Há um desmonte ideológico de apagamento da memória e da resistência”, resume a diretora da Cia. Sansacroma, Gal Martins.

A companhia completa 15 anos em julho, marco que deveria ser voltado para a alegria, mas desta vez será de apreensão. Daqui a três meses acaba o projeto de incentivo que possibilitou que o grupo de dança composto por integrantes negros do Capão Redondo, periferia da zona sul, pudesse circular pela capital com o espetáculo Sociedade dos Improdutivos (a performance mostra como a população negra é tratada nos manicômios), preparar um livro e promover ações artísticas com a comunidade.

A companhia desenvolveu a dança da indignação, uma metodologia em que cada dançarino usa o corpo contra símbolos sociais de opressão. “As periferias vão ser as mais atingidas, porque o desmonte engloba programas que envolvem a formação dos artistas”, afirma Gal.

Mais de 300 educadores e artistas foram dispensados do Programa de Iniciação Artística (PIÁ) e do Vocacional por Sturm. O primeiro permite que crianças de 5 a 14 anos tenham um contato inicial pela arte e funciona no contraturno escolar. Já o segundo trabalha com público desde os adolescentes até os idosos.

A gestão Doria retirou ainda esses programas dos Centros Educacionais Unificados, os CEUs, deixando pelo menos 4 mil alunos das periferias sem aulas. A SMC afirma que os antigos artistas educadores não teriam seus contratos renovados e já recrutou outros 130 profissionais.

O ator Bruno César Lopes, de 29 anos, é um dos dispensados do PIÁ. Sua colega Tatiana Monte, de 29, entrou na lista de corte do Vocacional. Os dois estão à frente da Cia. Humbalada, mais uma iniciativa que brotou na periferia. Com 20 integrantes, a companhia tem um galpão que é um ponto de cultura desde 2015.

Sediada no Grajaú, a Humbalada faz questão de dar visibilidade a uma linguagem e a uma estética periféricas, como na peça Grajaú Conta Dandaras, Grajaú Conta Zumbis. Contemplado com o edital de fomento, o espetáculo conta com artistas convidados para que, em cena, recontem quem são as Dandaras e os Zumbis das periferias atuais.

Numa reverência ao Teatro de Arena, dos anos 1960, e ao musical Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, a peça do Grajaú apresenta histórias brutais sobre machismo, homofobia, racismo, violência. Já são 13 espetáculos na trajetória, mas a Humbalada está ameaçada. Os recursos do fomento acabaram e os do ponto de cultura terminam em julho.

Teatro Commune
Teatro Commune: verdadeira escola de teatro(Foto: Emerson Natividade)

“Quando se olha na perspectiva da periferia, é muito difícil imaginar uma empresa aportando recursos. As pessoas daqui não têm dinheiro de sobra para promover um financiamento coletivo, nem para bancar a bilheteria. E não sobrevivemos só criando e vendendo coisas nossas”, afirma Lopes.

Marcelo Palmares, que dirige o Núcleo Teatral Filhos da Dita desde 2007, é um dos fundadores do Grupo Pombas Urbanas, uma das mais antigas experiências artísticas nascidas nas periferias e sediada em Cidade Tiradentes, zona leste. Surgiu em 1989 dentro do projeto Semear Asas, do dramaturgo peruano Lino Rojas, quando se apresentava em São Miguel Paulista.

Em 2005, o Pombas Urbanas fez parte da primeira geração de pontos de cultura federais, durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Cerca de 25 mil pessoas hoje circulam por ano nos espetáculos, oficinas, cursos e eventos do instituto criado com a expansão do projeto.

Mas, desde o fim de 2016, todos as fontes de recursos secaram. “Quando se limitam as possibilidades de se fazer cultura por toda parte, as vozes e as novas ressonâncias são eliminadas. E o espaço do não encontro é onde aumenta a violência”, alerta Palmares.

A circulação entre o centro e as periferias é o que tem experimentado o Teatro Commune, localizado próximo do Centro de São Paulo desde 2007 em um antigo prédio abandonado que hoje é um espaço com 99 lugares e um café.

O Commune Coletivo Teatral surgiu quatro anos antes com o objetivo de desenvolver pesquisas sobre a Commedia dell’Arte e formar jovens. Tornou-se ponto de cultura estadual entre 2009 e 2014. A cada semestre, 30 aprendizes de 15 a 24 anos vindos de Heliópolis participam de um ciclo completo na produção teatral.

Cerca de 500 jovens já passaram por esse processo no coletivo Commune, liderado por Augusto Marin e Michelle Gabriel, que usam seus conhecimentos acadêmicos (ambos são doutores em Teatro pela Universidade de São Paulo) para apresentar obras clássicas e criar, juntamente com os alunos, textos em processo de produção colaborativa.

Alguns dos jovens já se tornaram arte-educadores. “Trazê-los para o Centro é uma forma que encontramos para romper com as barreiras da própria cidade”, diz Marin. O atual projeto envolve a concepção de quatro peças e foi viabilizado por um edital da Petrobras para a área socioambiental, mas esses recursos se encerram em julho e não serão renovados. 

A única parceria que o Commune manterá é com o Sindipd, o Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados, além da locação do espaço para terceiros. A arte da sobrevivência é parte da história da cultura brasileira. O conflito agrava-se quando os poderes constituídos trabalham para apagar a cultura brasileira da história.

‘Galeria F’ refaz fuga de preso político condenado à morte durante ditadura

de Tela Tela

por Diego Olivares

Em 1970, Theodomiro Romeiro dos Santos, andava pela rua com dois amigos quando o grupo foi abordado por uma ronda militar. Ligado ao partido comunista e perseguido pela ditadura no Brasil, ele reagiu à ação e matou um sargento do exército. Foi preso e chegou a ser condenado à morte, antes de ter a pena reduzida para a prisão perpétua.

Nove anos depois, encarcerado na galeria F, ala do presídio Lemos Brito, em Salvador, onde já havia sofrido tortura física e psicológica, Theodomiro começou a ouvir que seu assassinato era planejado. Decidiu fugir.

 Em Galeria F, documentário de Emília Silveira em cartaz nos cinemas, Theodomiro, ou simplesmente Theo, refaz o trajeto pelo qual escapou pelo interior da Bahia, 40 anos depois, passando por lugares inusitados, como um cemitério e um convento.

 

Num registro que lembra uma reportagem estendida, a cineasta ouve figuras importantes na trajetória de seu protagonista, e coloca ele e seu filho numa espécie de road movie pelas memórias de um tempo sombrio.

Emília Silveira, jornalista de formação com passagens por Jornal do Brasil, O Globo e TV Globo, conversou com TelaTela sobre o filme, seu segundo longa-metragem documental:

TelaTela – Como surgiu a ideia de fazer Theodomiro revisitar os locais por onde passou durante a fuga e essa ser a espinha dorsal do documentário?

Emília Silveira – A jornalista e roteirista Margarida Autran é a dona da história. Foi ela quem me falou sobre o Theo, suas lutas e aventuras no período da ditadura militar no Brasil. Quando eu soube que existia esse personagem, que tinha sido condenado à morte, tinha ficado nove anos preso, e tinha conseguido fugir, imediatamente eu acreditei que ali tinha um filme.

Por todo o filme, o protagonista aparente muita tranquilidade. Qual é sua percepção sobre a maneira com a qual ele encara o que aconteceu naquela época?

Para mim, o Theo é uma pessoa que a ditadura conseguiu secar emocionalmente. Foi muita violência, muita tortura, e muita tensão em tantos anos na prisão. No filme eu tentei desvendar uma ternura por trás da aparente frieza.

Qual é a importância deste resgate histórico num momento como este?

A importância é reviver na memória do espectador sinais de tempos difíceis e com isso acender um sinal de alerta para que aqueles fatos não se repitam.

Você acha que o clima de perseguição política, pela qual passou Theodomiro, tem paralelos com o que vemos hoje na sociedade?

O tempo passa e os métodos mudam. Hoje as restrições civis são mais sofisticadas, mais difíceis de identificar. Se temos, por exemplo, um abuso da Justiça, como eu acredito, com vários direitos civis violados, temos também grande parte da mídia formando a opinião pública, no sentido de legitimar atos autoritários. E fica difícil de combater isso porque não é explicito.

Assim como Theodomiro, você também foi presa durante a Ditadura. O que sente quando vê parte do povo e, até figuras políticas, exaltarem o período?

Acho que o direito de opinião é garantido pela Constituição. A minha preocupação não é com as opiniões pessoais mas sim com abusos de autoridade que estamos constatando todos os dias no país. A ameaça de retrocesso está na nossa porta.

Prefeitura de SP quer despejar catadores que trabalham há 11 anos sob viaduto

por Milena Buarque, especial para a Ponte Jornalismo

Coletores de materiais reutilizáveis e recicláveis foram autuados em março por “invasão de área pública”. Segundo movimento social, o local foi cedido pela gestão de Gilberto Kassab, mas atual prefeitura nega que haja cessão da área

Diversos atores sociais podem estar envolvidos em um bom projeto de cidade linda. No centro de São Paulo, quase 400 toneladas de resíduos – e não de lixo – são retirados das ruas todos os meses, segundo catadores que trabalham no bairro do Glicério. Em 10 anos, 220 mil toneladas de materiais foram recicladas. No entanto, as cooperativas CooperGlicério e Associação Nova Glicério, desde o último sábado (01/04), vivem o clima de tensão gerado pela possibilidade de despejo.

Autuados em março por “Invasão de área pública”, o local sob o viaduto da região, foi ocupado em 2006. “No sábado, às 5 horas, o Glicério começou a ficar fechado. Quando cheguei, umas 6 horas, tinha Polícia Militar e GCM [guardas metropolitanos]. Eles começaram a limpar tudo, tiraram o pessoal e prenderam carrinhos, onde dormem alguns”, conta Sérgio Bispo, catador e ex-presidente da CooperGlicério.

Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, o local foi cedido, aparado pelo decreto Nº 48.378, da gestão do então prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que dispõe sobre a cessão de uso de áreas localizadas nos baixos de pontes e viadutos municipais. O decreto destina essas áreas para uso urbanístico e social.

A atividade exercida pelas organizações, além de serem entendidas como importante serviço ambiental, geram trabalho e renda para famílias por meio da coleta de materiais recicláveis. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, os catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis desempenham papel importante na implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Desde 2006, as organizações participam de fóruns e núcleos de discussão sobre a questão do lixo e da coleta seletiva.

O clima de despejo também atinge as 120 famílias que dependem do trabalho dos catadores. “A maioria das famílias mora na região. E os filhos também estudam no centro. Se vão tirar a gente, pra onde vamos? A prefeitura não pode fazer as coisas assim. Tem que haver diálogo”, diz Bispo.

A atuação dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis é reconhecida como atividade profissional desde 2002 pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Ainda que seu trabalho contribua de forma significativa e substantiva para a cadeia produtiva da reciclagem, as condições precárias de coletas em ruas, edifícios públicos e privados ainda marcam a atividade dos catadores.

“Nós fazemos um trabalho de graça. A prefeitura não nos paga nada. Nós pagamos água, luz, telefone. Nossos uniformes, somos nós que mandamos fazer. Nós não estamos dando prejuízo nenhum pra prefeitura. Nós estamos ajudando”, diz Maria, atual presidente da CooperGlicério.

Procurada pela Ponte Jornalismo, a Prefeitura Regional Sé, que recebeu representantes das duas organizações na última terça-feira (04/04), alega que não há nenhum documento que ateste a cessão da área.

Sérgio Bispo, catador e ex-presidente da CooperGlicério – Foto: Milena Buarque

Com base no decreto 48.378, a prefeitura regional diz que deve zelar pela guarda e “efetuar fiscalização, impedindo invasões, ocupações irregulares e depósito de materiais, tomando todas as medidas necessárias, quando for o caso, para sua desocupação”.

A prefeitura afirma, ainda, que “nova reunião será marcada para acertar detalhes em relação às medidas de segurança que devem ser realizadas pelos ocupantes dos espaços, para garantir a segurança de quem trabalha e para os motoristas que trafegam pela região”.

O novo Plano Diretor Estratégico do munícipio, de 2014, afirma que o Plano de Bairro “poderá indicar áreas necessárias para a implantação de equipamentos urbanos e sociais, espaços públicos, áreas verdes, vias locais novas e de gestão de resíduos sólidos, inclusive para cooperativas de catadores de materiais recicláveis”.

Querendo permanecer onde estão, os catadores sintetizam: “como [é possível] uma cidade linda sem catador? Cidade limpa quem faz é a gente”.