Cantareira se aproxima do ponto sem volta

 

Do Correio do Brasil

 

Alguns milímetros de chuva foram suficientes, nesta madrugada, para estancar por algumas horas o drama da seca que se avizinha na maior cidade da América Latina. Ao longo de quase toda esta semana o tempo ficou instável no Estado de São Paulo, no entanto, até a quinta-feira a capital e o sistema Cantareira só haviam recebido poucos períodos de chuva muito leve, que não chegavam a acumular 1 mm no pluviômetro.

“Nesta sexta-feira, finalmente, a chuva tão esperada chegou. Uma frente fria vinda do Sul do Brasil reforçou as áreas de instabilidade que já estavam sobre São Paulo e provocou chuva de moderada a forte intensidade que acumulou volumes expressivos”, escreveu o meteorologista Ruibran dos Reis, em sua coluna no site Climatempo..

De acordo com os dados da SABESP, a chuva das últimas 24 horas acumulou aproximadamente 23 mm no Sistema Cantareira. Esta chuva ainda não conseguiu elevar o volume armazenado, mas, pelo menos, ajudou com que não diminuísse. Hoje o Sistema Cantareira manteve os mesmos 7,2% que havia sido registrado antes da chuva.

“No Sistema Alto Tietê, a chuva foi mais volumosa e, segundo a SABESP, foram acumulados 64,2 mm. Antes desta chuva, o volume armazenado neste reservatório era de 11, 9%. Hoje, após a chuva, o volume passou para 12,3%” calcula o cientista.

Quarenta dias

 

“É muito crítico” o estado em que as reservas do Sistema Cantareira se encontram, concorda o especialista em água da ONG internacional The Nature Conservancy (TNC), Samuel Barreto.

– Se nada for feito, restam menos de 40 dias; diria 38 dias de abastecimento de água para São Paulo e região – acrescentou.

O Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de 14 milhões de pessoas da grande São Paulo e de 62 cidades do interior, opera, neste momento, com 7,2% de sua capacidade total. É o menor índice da história. Mais baixo até do que em 15 de maio deste ano, quando o Cantareira operava com 8,2% de suas capacidades e o chamado ‘volume morto’ passou a ser captado.

Na época, além do acesso ao volume morto, o Governo do Estado passou a dar descontos na conta de água para quem economizasse. Mas esse bônus não foi o suficiente para sanar o problema. “Precisamos fazer um esforço como o que é feito no combate à inflação”, diz Barreto. Ainda dá pra economizar muito mais. Mas só o processo voluntário não é o suficiente. É preciso perguntar ao Governo por que ele não toma outras medidas”, diz.

 

Volume morto

 

Hoje, um segundo volume morto ainda pode ser acessado. Mas essa segunda alternativa não representa, necessariamente, a salvação.

– Esse segundo volume morto representaria 90 bilhões de metros cúbicos de água a mais. Mas o ponto é discutir as regras para operar esse volume – diz Barreto.

O biólogo explica que, usando essa alternativa e se a estiagem permanecer, no ano que vem não haverá reserva alguma para socorrer a crise do abastecimento.

– Acessando esse segundo andar do volume morto, você torna mais vulnerável o sistema para o ano que vem – diz.

Segundo Barreto, a obra para explorar essa nova reserva já foi autorizada, mas o acesso a ela ainda não foi permitido. E um dos órgãos responsáveis por autorizar esse acesso é a Agência Nacional de Água (ANA), órgão controlado pelo Governo federal e que, na sexta-feira passada, anunciou a sua saída do Grupo de Técnico de Assessoramento para a Gestão do Sistema Cantareira (GTAG), por discordar da postura da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos sobre os limites adotados para a captação de água e abastecimento. Criado em fevereiro deste ano, o Grupo tinha como função assessorar a administração do armazenamento de água do Cantareira.

Segundo Barreto, para que a crise hídrica começasse a ser resolvida seria preciso que um esforço como o que aconteceu, involuntariamente, em 2001, ocorresse novamente.

– É preciso estabelecer uma meta de redução e ir além do ato voluntário – conclui.

 

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