O triste conto da mulher que cala

por Matê da Luz, no Luis Nassif

Desde criança observara o silêncio das mulheres daquela casa. Lembrando bem, o silêncio das mulheres não estava presente somente ali: era notoriamente perceptível que a enorme maioria das mulheres parecia estar com algo parado na garganta, como se desejasse cuspir palavras que, inconscientemente, sabia que não deveria.

Na adolescência houve um movimento familiar em torno de uma certa acareação, mas a memória é traiçoeira e, então, escondeu detalhes para se proteger. Ela, a memória. A mulher continuava se sentindo parte integrante do presente grupo de mulheres que não falam. E, desta forma, familiarizou-se com aquele contexto.

Alguns anos se passaram e as palavras ficaram grandes demais para a garganta e começaram a sair pela pele: o corpo sempre encontra uma forma de expurgar dor pra abrir espaço pro que quer que seja de possivelmente vivo. Mas esta é uma constatação que somente um bom observador pode perceber. Neste momento, quando a pele escancara as dores, os movimentos externos tendem a tomar duas direções: o acolhimento ou a repulsa, pela simples natureza das coisas e, claro, pelo encaixe energético. Enorme parte das vezes a repulsa toma a frente porque, oras, quem é que deseja conscientemente lidar com tamanhas feridas purulentas no outro? E é justamente aí que se tem a oportunidade de conhecer as pessoas raras – elas não somente querem lidar com as feridas purulentas das pessoas machucadas como se esforçam sem medir tamanho para limpar, cuidar e fortalecer aquele organismo que, àquela altura, mal se assemelha a um ser vivo. Também podem ser chamados de anjo.

Fato é que aquela mulher não teve a sorte de encontrar um anjo pelo caminho e, anos depois, já casada, ainda silenciada por si e pelo contexto naturalmente quieto e falsamente sorridente das mulheres que compunham seu enredo, sentia rotineiramente o cortar daqueles gritos que não foram dados: mas naquele tempo, veja bem, já era chamada de esquisita-neurótica-mal-agradecida porque, oras, afinal de contas, ele era o marido. Ao toca-la enquanto dormia, mas tudo bem – ele era o marido. Ao salientar suas decisões com desdém e chacota, mas tudo bem – ele era o marido. Ao se masturbar sem que ela percebesse, acamada após uma cirurgia, mas tudo bem – ele era o marido.

Ela acorda e, silenciosa como sempre, caminha até a cozinha. Seu destino, porém, não é o armário do pó de café. Abre a gaveta das facas, escolhe aquela que é afiada o suficiente e, premedita, não grossa demais, afinal os ossos podem resistir, e decide que as palavras que gritará naquela manhã serão vermelho cor de sangue. Dará um só golpe na altura do peito, angulado de forma a fugir das costelas, apoiando o peso de seu pequeno corpo no antebraço para que pelo menos a ponta atinja um aorta, se errar a direção do coração. A cândida está à postos, mas ela pensa mesmo em telefonar para a polícia, dizendo-se exausta, ameaçada e ter agido em legítima defesa. Sabe, entretanto, que provavelmente continue presa, mesmo que num outro lugar físico, com mulheres que, assim como ela, seguraram palavras demais por tempo demais e, um dia, extravasaram poesia pelas mãos. Mas tudo bem – ele era o marido e ela, do jeito que estava, não tinha mais a menor noção de quem era.

Onde está a Taís???

do DCM

Taís, a mulher que surtou quando a gasolina foi a R$ 2,80 no governo Dilma, sumiu. Por Joaquim de Carvalho

 

Agora que a gasolina já chega a R$ 5,00, grupos da internet perguntam: onde está Taís Helena Galon Borges?

Para quem não se lembra, recomendo o vídeo abaixo. Ele foi muito divulgado quando Dilma Rousseff era presidente.

No vídeo, Taís parece surtada em um posto de gasolina. Grita para que os motoristas não abasteçam. E alerta para o caos: os caminhoneiros parariam e faltaria comida na mesa dos brasileiros.

Na rede social, há um perfil dela. É gerente administrativa e mora em Caxias do Sul. Assim se define:

“Profissional dinâmica, comunicativa, fácil relacionamento interpessoal, capaz de trabalhar em equipe, dedicada ao trabalho, atualizada na sua área de competência e focada em resultados.”

Nos dias que antecederam o golpe, parecia revoltada. Hoje, como a maioria das pessoas que foram à rua protestar naqueles dias, permanece em silêncio.

Óbvio que nunca foi contra a corrupção nem em defesa da Petrobras.

Era ódio.

Ódio ao PT.

 

 

Como Aécio usou o Judiciário para calar a imprensa de Minas Gerais

por Joaquim de Carvalho do DCM

Oswaldo, um dos homens das malas de Aécio, e o ex-governador

Decisão judicial de 2013 que proibiu site de noticiar tudo que agora se sabe ser verdadeiro

Ainda há muito por ser revelado a respeito do submundo da administração do senador Aécio Neves no Estado de Minas Gerais, que foi de 1o. de janeiro de 2003, quando ele assumiu o governo, até 31 dezembro de 2014, quando terminou o mandato de Antonio Anastasia.

Uma das frestas para essa realidade é representada pelo conjunto de ações judiciais movidas contra o Novo Jornal e seu proprietário, Marco Aurélio Carone.

O Novo Jornal, site na internet com estrutura minúscula e audiência gigantesca, foi alvo de tantas investidas do grupo ligado a Aécio que seu proprietário acabou preso, e os arquivos do jornal desapareceram, depois de serem confiscados pela Polícia Civil, com autorização da Justiça e anuência do Ministério Público do Estado.

Enquanto a velha imprensa de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, apresentavam Aécio como estadista, probo e moderno, o Novo Jornal denunciava as falcatruas ocorrida no Estado.

E também o comportamento estranho de Aécio — foram eles que noticiaram sua internação no hospital Mater Dei por overdose de cocaína, informação desmentida pelo hospital.

Também foi veementemente desmentida na época a informação veiculada pelo Novo Jornal de que o empresário Oswaldo Borges, casado com uma filha do padrasto de Aécio, era operador das propinas recebidas em nome de Aécio.

Borges foi presidente da Codemig, a companhia de desenvolvimento de Minas Gerais, responsável pelo maior obra de Aécio, a Cidade Administrativa, entre 2003 e 2014.

Depois que a Lava Jato deixou de ser obra exclusiva de Sergio Moro, a investigação acabou por bater nas portas de Borges, investigado por receber malas de dinheiro enquanto Aécio governava o Estado.

Mas poderia ter chegado muito antes, se a Justiça de Minas Gerais não tivesse blindado o grupo do ex-governador. O Novo Jornal denunciou várias ações suspeitas de Codemig, inclusive relacionadas à Cidade Administrativa, quando ainda não havia nem os alicerces da obra.

Em vez de investigar o que Carone e o jornalista Geraldo Elísio, editor do Novo Jornal, denunciaram, a Justiça proibiu o site de publicar notícias relacionadas à Codemig e ordenou que tudo o que havia sido publicado fosse retirado do ar.

É o que se pode ver no processo 13.042.227-2, na 5a. Vara da Fazenda Pública e Autarquias de Belo Horizonte. Em abril de 2013, quando lava jato era apenas sinônimo de uma empresa de limpeza de automóveis, o juiz Adriano de Mesquita Carneiro atendeu a um pedido da empresa, presidida por Oswaldo, e censurou o Novo Jornal.

“Determino que Marco Aurélio Flores Carone e Nova Opção Ltda. (empresa proprietária do site) retirem do site www.novojornal.com, bem como de todos os outros com os quais tenham gerência, administração ou poder de interferir, de alguma forma, todas as matérias que envolvam o nome da Codemig, citadas ou não”, sentenciou.

O juiz Adriano de Mesquitas Carneiro decidiu ainda que o Novo Jornal não poderia mais publicar nada a respeito da Codemig sem citar expressamente fonte, observando-se “rigorosamente as normas éticas e tradicionais do jornalismo sério”. Ainda assim, sem fazer comentário.

Carone tomou conhecimento de que o processo ainda está aberto e que ainda vigora a decisão de ele não pode fazer nenhum comentário sobre a Codemig esta semana. Foram servidores públicos que enviaram a ele, depois que encontraram os autos nos escaninhos da 5a. Vara.

No processo, um dos argumentos da Codemig para silenciar o Novo Jornal foi uma reportagem da revista IstoÉ que noticiou sua prisão, que, como se sabe hoje, foi descabida.

“Um achacador na cadeia” é o título do artigo, publicado no início de 2014. “Justiça de Minas enfrenta quadrilha de falsários, determina a prisão de empresário que usava site para extorsões e polícia encontra documentos que podem ligá-lo a atentado contra um promotor”.

Nada dessas afirmações ficou comprovada — e seria interessante saber como e por quanto esta reportagem foi parar nas páginas da IstoÉ —, ainda assim contribuíram para que Carone passasse quase um ano preso — três meses em solitária.

No cárcere, onde teve ataque cardíaco, Carone conta que tinha a companhia de um rato, com o qual, para manter a lucidez, costumava conversar. “Eu perguntava a ele como a mentira podia triunfar, como os maus se davam bem, na época não tinha muita esperança”, afirma.

Para alívio de Carone, Aécio não venceu a eleição em 2014. “Tenho até medo de pensar no que aconteceria comigo e com qualquer outra adversário do grupo de Aécio”, afirma.

O grupo de Aécio perdeu até em Minas, mas, a rigor, não está de todo destituído de poder.

No governo de Fernando Pimentel, o grupo de Aécio conserva alguns nacos de autoridade, inclusive na Polícia Civil, onde um delegado que tenta investigar o submundo de Aécio sofre resistência, inclusive da corregedoria.

Mas o maior poder do ex-governador ainda se encontra no Ministério Público e no Judiciário, que deram cobertura para que Aécio pudesse se apresentar como uma solução para o Brasil.

Nada mais fora da realidade, como se vê pelo processo contra Carone e o Novo Jornal que, em última análise, foi contra a liberdade de imprensa.

Se a liberdade (e a verdadeira Justiça) tivesse prevalecido, quem deveria ter ido para a cadeia era o presidente da Codemig, Oswaldo Borges, não o dono do jornal que ele denunciou.

Marco Aurélio Carone, do Novo Jornal: ele perguntava a um rato na cadeia como era possível os maus se darem bem

Juíza penhora triplex que nunca foi de Lula

Do DCM

Decisão de juíza federal sobre o triplex do Guarujá contradiz frontalmente Moro

De acordo com o blog do jornalista Mino Pedrosa, uma decisão da juíza Luciana Corrêa Tôrres de Oliveira, da 2ª Vara de Execução e Títulos no Distrito Federal, se contrapõe à investigação da Lava Jato sobre o triplex do Guarujá.

O processo atende uma empresa que solicita o pagamento de dívidas em desfavor da OAS Empreendimentos.

O Centro Empresarial que estava sendo construído no Distrito Federal tinha contrato em Sociedade de Propósito Específico (SPE). A empresa credora impetrou uma ação de cobrança no valor de R$ 7,2 milhões corrigidos.

A juíza acatou e determinou ao Banco Central o bloqueio nas contas da OAS, encontrando apenas R$ 10 mil reais. A empresa credora fez busca nos cartórios e achou num mesmo CNPJ quatro imóveis no Guarujá em nome da OAS.

Para a surpresa dos empresários brasilienses, um deles é o apartamento atribuído a Lula.

A guerra das togas confronta o juízo de Moro e o de Luciana, diz Pedrosa.

Em Brasília, a juíza entende que cabe penhora do triplex por se tratar de dívidas contraídas pela OAS — que seria, de fato e de direito, proprietária do imóvel.

Registro do triplex em nome da OAS no cartório do Guarujá, em São Paulo