Habemus Clitoris

dos Jornalistas Livres 

por Florence Poznanski | Edição Agatha Azevedo

NO MÊS DA MULHER, QUEREMOS HOMENAGEAR TODAS ELAS COM MUITO GOZO E PRAZER.

Na segunda parte da nossa série sobre o prazer feminino, vamos explicar um pouco da história do clitóris. Algumas pessoas mal sabem o que é, outras acham ele se resume àquela pequena bolinha rosa acima da vulva. Nada disso! O clitóris mede cerca de 10 centímetros e é o único órgão humano exclusivamente dedicado ao prazer. O mais assustador é que nós levamos anos para descobrir a sua real forma, popularizada em 2016 quando o primeiro projeto de impressão 3D do clitóris foi criado em arquivo aberto para que todxs possam ter o seu, mas o clitóris é conhecido desde o século XVI. Depois de 500 anos de negação e mentiras a respeito do prazer feminino, é hora de falar sobre a nova revolução sexual que essa descoberta pode propiciar a nós, mulheres.

EI, EU SOU O CLITÓRIS 🙂

Foto: Maxwell Vilela / Jornalistas Livres

A primeira pessoa a descobrir o clitóris, em 1559, foi um homem, Matteo Realdo Colombo, professor de anatomia italiano. Nessa época, ele já tinha identificado que o clitóris era o despertador do prazer feminino, e o bichinho também já era bem conhecido e os desenhos científicos e médicos da época o mostravam quase por completo.

Cinco séculos depois, em 1998, foi a vez de uma equipe de pesquisadores australianos coordenada pela doutora Helen O’Connell, da Universidade de Melbourne, revelar a anatomia exata do clitóris com seus bulbos e  propriedades.  Além da glande, que debaixo do prepúcio é a parte mais visível e sensível (a tal de bolinha), ele também é composto por um corpo, dois pilares e dois bulbos, que formam um duplo arco na entrada da vagina, na altura dos dois lábios externos. Totalmente formado de corpo cavernoso, o mesmo tecido erétil do pênis, ele se enche de sangue quando excitado para produzir a ereção. O clitóris também é um órgão móvel que acompanha os movimentos do pênis durante a penetração. De todos os órgãos, ele é o mais sensível e, como diz a diz a jornalista do New York Times Natalie Angier “há mais terminações nervosas na sua extremidade de que em todos os outros órgãos, inclusive a língua ou o pênis”.

Para ela, enquanto o pênis é uma simples espingarda, o clitóris é uma verdadeira metralhadora!

Anatomia do Clitoris

Fazem mais de vinte anos que o tema voltou a tona, com o protagonismo militante dessas pesquisadoras. Mas como podemos constatar, ainda está longe de ser amplamente conhecido na opinião pública. Hoje qualquer adolescente sabe desenhar um pênis com seus testículos, mas sequer as mulheres sabem como seu próprio clitóris é feito. Entre dogmas e superstições a historia do clitóris é uma verdadeira epopeia. “1998 é exatamente a data de comercialização do Viagra. Ou seja, quando sequer se sabia como era feito um clitóris, os homens já tinham um remédio pronto para tratar seus distúrbios de ereção”, nota Odile Buisson, ginecologista membro da equipe francesa que fez o primeiro ultrassom in vivo do clitóris em 2007. A palestra completa feita na na Universidade Paris-Diderot em 2011 você pode conferir aqui.

ERA UMA VEZ, O CLITÓRIS…

“Mas então como podemos ter passado de uma época na qual sabia-se tanto sobre o botãozinho rosa para um tal nível zero de informação? O papel da ciência não é de progredir sempre? Não senhora! Quando falamos de prazer feminino tudo se complica sempre”. Esses são os comentários da jornalista Clarence Edgard-Rosa, da revista francesa Causette que publicou em janeiro desse ano um especial integralmente dedicado ao clitóris e da qual tiramos grande parte das nossas fontes.

O ponto central que captou a atenção dos cientistas nos séculos XVI e XVII era a crença de que o clitóris tinha um papel central na procriação. O sexólogo Jean-Claude Piquard (autor do livro ainda não traduzido em português, a Fabulosa historia do clitóris) explica que na época “a estimulação do clitóris é considerada como uma prática importante na cama do casal. Até a Igreja o recomenda aos maridos. Alguns médicos vão até dizer que o orgasmo simultâneo é condição necessária para reprodução”.

Mudança total de cenário no século XVIII. A masturbação feminina passa a ser chamada de “conspiração natalista” ainda segundo Piquard. O prazer feminino, quando ocorre sem penetração vem sendo considerado com forma de contracepção. Casos de excisão terapêutica começam a ser praticados pelos médicos na França e na Alemanha, com a ilusão de conter o que pensava-se podia causar o fim da humanidade.

Na mesma época, o clitóris encontra-se no centro dos tratamentos psicanalistas para curar as pacientes consideradas histéricas. Após ter queimado milhares de bruxas nos séculos anteriores, a histeria se tornou a doença do século para controlar mulheres inconformadas e com supostos comportamentos desviantes. Enquanto alguns psicanalistas preconizavam a ablação do clitóris, outros indicavam cessões de … masturbação!  A chegada do orgasmo contribuía a parar as crises e acalmar as pulsões. Piquard conta que essa atividade constituía cerca de 30% do lucro dos psicanalistas, extremamente rentável. A comédia romântica Hysteria da britânica Tanya Wexler (2011) descreve esse contexto histórico que contribuiu para invenção do vibrador por … um médico cansado de masturbar suas pacientes!

Imagem do filme Hysteria de Tanya Wexler (2011)

Por fim, o que devia acontecer aconteceu: os psicanalistas entenderam que o clitóris não tinha nada a ver com procriação, e o querido clitóris caiu no esquecimento. Segundo a historiadora Aude Fauvel, especialista em sexualidade feminina no instituto universitário de Lausanne, “surgem na época teorias darwinistas especulando que o clitóris era um órgão em desaparecimento na evolução da espécie. Algumas até chegaram a dizer que tratava-se de um vestígio da pré-história”. Tais especulações deram assim embasamento para teorias racistas estipulando que as mulheres negras teriam o clitóris mais desenvolvido porque mais primitivas.

Confira o videoclip de Dorian Electra, “Our music Ode to the clitóris” que relata a historia da opressão masculina sobre o prazer feminino.

Imagem do videoclipe Dorian Electra, “Our music Ode to the clitóris” .

ORGASMO CLITORIDIANO VERSUS ORGASMO VAGINAL

No século XX, o clitóris cai em desuso e a única fonte considerada normal de prazer feminino se torna a penetração graça ao célebre psicanalista Sygmund Freud. O pai da psicanalise dizia desde 1905 que o prazer clitoridiano era infantil e que a penetração vaginal era a única forma de se praticar a sexualidade adulta. “Para ele as meninas tinha inveja dos meninos por não ter pênis”, diz a doutora O’Connell. Ele escrevia que “a eliminação da sexualidade clitoridiana é a única condição para desenvolvimento da feminidade adulta”, reporta a revista Causette.

Sendo assim, as mulheres que se masturbam não seriam verdadeiras mulheres, afirmação muito diferente da visão de outras culturas, como a de Ruanda, da África. Tais teorias espalharam universalmente e são à base da frustração de milhões de mulheres que até hoje sentem vergonha ao não “conseguir” chegar ao tão desejado orgasmo vaginal. A ideia que o orgasmo clitoridiano seja algo secundário, menos gostoso ainda prevalece nas mentes femininas e vem sendo veiculado em muitas revistas contemporâneas.

Tais injustiças continuaram vigentes enquanto só os homens tinham legitimidade para falar e teorizar sobre o corpo da mulher. Com a entrada na profissão das primeiras mulheres começa um novo discurso sobre a sexualidade não reprodutiva. Entrada que como se sabe, acompanha-se de muitos preconceitos.

A VIRADA DE PROTAGONISMO DO NOSSO SININHO 

Uma das primeiras vozes femininas a ressoar contra a moral masculina foi a da princesa Maria Bonaparte, descendente de Napoleon, que em 1924, após uma pesquisa empírica junto a 200 mulheres contesta o dogma teórico imposto por Freud e recoloca o clitóris no centro do debate em torno do prazer da mulher. Segundo ela a frigidez seria a consequência do extenso afastamento entre o clitóris e vagina (ver o livro ainda não traduzido em português deAlix Lemel, “es 200 clitoris de Marie Bonaparte”(2010)).

A grande revolução chega em 1976 com a cientista social norte americana, Shere Hite que pública seu famoso “relatório Hite: um profundo estudo sobre sexualidade feminina”, que causou grande polêmica na sociedade da época ao ponto de obrigar a pesquisadora a se exilar fora do país. De fato Hite ousou fazer o mais evidente: perguntar às mulheres o que elas sentem durante a penetração. E foi assim que ao mandar questionários para uma amostra de 3000 americanas, através de associações, anúncios em revistas e até paroquias, ela demostra que só 30% das mulheres afirmam ter orgasmos frequentes durante a penetração. Portanto, a maioria delas conhecem o orgasmo clitoridiano. Um cataclismo que revela que falo não seria mais o principal objeto do prazer feminino.

Outra peça chave dessa revolução dos paradigmas, o casal norte americano Virginia Johnson e William Masters, ambos sexólogos que desde os anos 50 deram maior divulgação na sociedade sobre a importância do clitóris na sexualidade feminina. A série “Master of Sex” relata essa historia.

Imagem do vídeo realizado por Marie Docher sobre a impressão 3D do clitóris. Vídeo legendado aqui pela TV Folha.

Muita luta está ainda por vir até que o clitóris chegue ao mesmo patamar que o pênis. Mas grandes ações já foram realizadas. A última foi o trabalho da pesquisadora francesa Odile Fillod que divulga desde 2016 uma modelização 3D do clitóris podendo ser baixada e impressa por qualquer pessoa. O link com arquivo e modus operandi (em francês) está aqui. Com isso ela espera alcançar escolas e projetos educativos e assim, sair do mundo acadêmico.

Segundo a historiadora francesa Stéphanie Wyler , a etimologia do clitóris vem do grego “kleitor”, literalmente “o fechador/lacrador”, nome de um rei de Tessalia, pelo fato dele precisar conter fatos, segredos e poderes.   Nada de mais claro: está na hora de rebentar de vez essas correntes!  Porém no meio dessa confusão outro pesquisador alemão em 1848, o Dr Georg Ludwig Kobelt, ao pesquisar sobre prazer masculino e feminino, faz um paralelo entre as glandes do clitóris e do pênis e chega à conclusão que o prazer feminino seria mais intenso.

DEPOIS DE TANTA INFORMAÇÃO, QUE TAL ENTRAR NO CLIMA DO NOSSO PRAZER? INDICAMOS O FILME  “CLITORIS, PRAZER PROIBIDO” DE MICHÈLE DOMINICI (2003). DESFRUTE-SE!

Dieese: Comparação entre atividades terceirizadas e diretamente contratadas

Da FPA – Nota Técnica 407

Estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) aponta que por volta de 25% do emprego no Brasil provêm de atividades tipicamente terceirizantes. Na comparação entre setores contratantes e terceirizantes, ocorre que:

  • A taxa de rotatividade descontada é duas vezes maior nas atividades tipicamente terceirizadas (57,7%, contra 28,8% nas atividades tipicamente contratantes). Em 2014, os vínculos nas atividades tipicamente terceirizadas duravam, em média, 34,1 meses ou dois anos e dez meses, contra 70,3 meses ou cinco anos e dez meses nas atividades tipicamente contratantes. A rotatividade representa um custo de seleção e treinamento para os empregadores e, para os trabalhadores, a incerteza de encontrar um novo emprego num curto espaço de tempo e o risco de ter que aceitar menores salários e benefícios, além de ter impactos no cálculo da aposentadoria. Para o Estado, despesas com seguro-desemprego aumentam com alta rotatividade.
  • 85,9% dos vínculos nas atividades tipicamente terceirizadas tinham jornada contratada entre 41 e 44 horas semanais. Nos setores tipicamente contratantes, a proporção era de 61,6%
  • O percentual de afastamentos por acidentes de trabalho típicos nas atividades tipicamente terceirizadas é maior do que nas atividades tipicamente contratantes – 9,6% contra 6,1%.
  • Os salários nas atividades tipicamente terceirizadas eram, em média, 23,4% menor do que nas atividades tipicamente contratantes (R$ 2.011 contra R$ 2.639, como mostra gráfico abaixo). Entre os vínculos com nível médio completo e superior incompleto, que são a maioria no mercado de trabalho formal, a diferença salarial média acumulada chega a 11,1%. Ainda, quanto a sexo, homens empregados em atividades tipicamente terceirizadas concentram-se em estratos intermediários de remuneração e as mulheres nos estratos com menores rendimentos.

O levantamento é feito a partir de dados da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), que classifica atividades econômicas cujas características se aproximam de “atividades-meio”, passíveis hoje de terceirização.

Segundo o Dieese, caso haja uma regulamentação irrestrita da terceirização, é provável que as diferenças identificadas se aprofundem, com aumento da precarização do trabalho e piora na própria distribuição de renda no país.

Para ler o documento na íntegra, acesse aqui.

‘Para enfrentar a obesidade é necessário fazer muito mais que descascar alimentos in natura’

da ABRASCO

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No dia 14 de março, o Ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou que, para enfrentar a obesidade infantil, é preciso “ensinar a população de novo a descascar mais e desembalar menos”. Ainda que a afirmação seja pertinente, trata-se de apenas uma entre as inúmeras ações necessárias para enfrentar, de maneira efetiva, o problema, que exige uma abordagem coletiva e estrutural, e não apenas focada nos indivíduos. Nós pesquisadores, militantes, professores e ativistas defensores do direito humano à alimentação adequada e saudável vimos a público repudiar afirmações como esta que reduzem a relevância deste tema na agenda da alimentação e nutrição em saúde coletiva. Afirmações descontextualizadas podem soar negativamente no contexto das ações de emancipação feminina, as quais precisam ser fortalecidas frente ao cenário político atual de ataques aos direitos sociais. O papel das mulheres frente à preparação de refeições, historicamente relacionado à cozinha e à organização das tarefas domésticas, precisa ser discutido e problematizado a fim de se romper com a divisão sexual do trabalho e criar uma divisão social e/ou familiar colaborativa e compartilhada. É preciso ressignificar as práticas alimentares e a alimentação como um fenômeno social, estimulando que a preparação e o compartilhamento de refeições sejam reincorporados ao cotidiano das pessoas, mas não delegando esta função exclusivamente às mulheres. Se, por um lado, novas práticas alimentares podem ser assumidas pela população, por outro há processos que cabem fundamentalmente ao governo, que é responsável por implementar ações que fogem ao escopo de atuação dos indivíduos, especialmente aquelas que visam regular as práticas do setor privado comercial que são contrárias à saúde da  população, e induzir processos que facilitem as escolhas alimentares saudáveis. Portanto, é preciso (e urgente) avançar em medidas intersetoriais, de cunho estrutural, que incidam sobre o sistema alimentar em favor da saúde e do direito humano à alimentação adequada.

De 14 a 16 de março, o Brasil sedia o Encontro Regional para o Enfrentamento da Obesidade Infantil, na sede da Organização Panamericana da Saúde, em Brasília. Na solenidade de abertura do evento, foi abordada a importância do resgate da culinária tradicional e da socialização, por meio de refeições preparadas com alimentos in natura ou minimamente processados. A população urbana e, sobretudo, as crianças que têm pouco ou nenhum contato com o Brasil rural, desconhecem a origem dos alimentos que consomem, já que os encontram embalados, empacotados, congelados, preparados e ultraprocessados nos supermercados ou nas redes de lanches rápidos.

São alarmantes as informações disponíveis sobre a qualidade da alimentação infantil no Brasil. Desde tenra idade, as crianças recebem, rotineiramente, alimentos não saudáveis como refrigerantes, biscoitos recheados, macarrão instantâneo. Além de gerar excesso de peso, o consumo cotidiano deste tipo de produto eleva a ingestão de sal, açúcar e gorduras para além dos limites seguros.  Em decorrência desses hábitos, convivemos com o aumento acelerado e preocupante de excesso de peso entre crianças. Por esse motivo, é urgente e inadiável que o enfrentamento da obesidade na infância receba prioridade na agenda das políticas públicas. O excesso de peso que se instala na infância torna-se mais difícil de tratar na idade adulta.

O desafio de enfrentamento da obesidade tem sido reconhecido em nosso País. Para tanto, registram-se importantes iniciativas setoriais ou intersetoriais como: o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis no Brasil (2011-2022), a Estratégia Intersetorial de Prevenção e Controle da Obesidade (publicada em 2014), o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PLANSAN) 2016-2019; além de estratégias de promoção do aleitamento materno e da alimentação complementar saudável, que podem e devem ser intensificadas e ampliadas. Some-se a isso o fato de que o Brasil firmou acordos internacionais voltados à redução da obesidade, como é o caso do Plano de Ação para Prevenção da Obesidade na Infância e Adolescência (OPS/OMS, 2014), no qual são apresentadas estratégias muito claras de enfrentamento desse problema. Urge, agora, colocar essas estratégias em andamento.

Os determinantes estruturais da obesidade

Na análise deste problema, cada vez mais comum e com o qual praticamente todos convivem, direta ou indiretamente, é fundamental superar o senso comum, que se volta a responsabilizar o indivíduo pelo mal do qual padece. São recorrentes reportagens e pronunciamentos culpabilizando famílias, indivíduos e, em especial, as mães, pelo atual padrão alimentar das crianças e, portanto, pelo aumento dos casos de obesidade na infância. Acumulam-se evidências, de estudos internacionais e nacionais, demonstrando que a autonomia dos indivíduos em relação às suas escolhas alimentares é relativa e determinada por suas condições de vida e pelas características dos ambientes em que vivem (território onde moram, locais onde trabalham, fazem suas compras e estudam). A abordagem que transfere a responsabilidade do atual cenário para as famílias, e que indica como solução prioritária, se não exclusiva, a informação e a educação, só interessa a quem não quer enfrentar os determinantes estruturais da obesidade, que são complexos, envolvem interesses de grandes e poderosos grupos econômicos e requerem políticas públicas robustas e amplas. Entre estes determinantes destacamos:

  • O sistema alimentar hegemônico em nosso País baseia-se em processos produtivos insustentáveis (dos pontos de vista ambiental, social e econômico) e no uso intensivo de agrotóxicos, além de concentrar fluxos produtivos e comerciais em grandes corporações transnacionais, como as de insumos e sementes, as indústrias de alimentos e as mega redes varejistas. Um sistema com tais características favorece o consumo de alimentos ultraprocessados e dificulta o acesso (em termos de oferta e de preço) a alimentos in natura ou minimamente processados;
  • Os ambientes alimentares também favorecem a obesidade.  No caso das crianças, destacam-se as cantinas escolares que praticamente só comercializam lanches não saudáveis. Outro exemplo são as gôndolas de supermercados e lojas de conveniência, organizadas de forma que produtos ultraprocessados fiquem à altura dos olhos desses consumidores. Também contribuem para a obesidade os rótulos dos alimentos ultraprocessados, que não informam claramente as características do produto, confundindo o consumidor, e induzem sua compra via artifícios como cores e formatos das embalagens e, também, uso de imagens de celebridades ou personagens infantis;
  • Ainda em relação ao ambiente, merecem destaque a publicidade dirigida ao público infantil e a publicidade de alimentos com altos teores de gordura, açúcar e sal e, também, outras estratégias mercadológicas (além daquelas utilizadas no rótulo dos produtos), muitas vezes abusivas e/ou enganosas, que valorizam o consumismo e induzem o consumo de produtos alimentícios ultraprocessados. É o caso, por exemplo, da venda casada: brindes (geralmente brinquedos) associados a alimentos que são comercializados em supermercados e nas redes de lanches rápidos;
  • Outro aspecto importante do ambiente são as condições de insegurança frente à violência, a mobilidade urbana deficiente e a carência de espaços públicos adequados e seguros para a prática cotidiana de atividade física. Até há relativamente pouco tempo, a maioria das crianças brasileiras brincava nas ruas e nas praças e fazia sozinha, a pé, o trajeto casa–escola desde tenra idade, em segurança.
  • A abordagem limitada e insuficiente de temas relacionados à alimentação na formação: em geral escolas e livros escolares ainda abordam a alimentação sob o do ponto de vista estritamente biológico, que reduz a compreensão do alimento à sua composição nutricional, um conteúdo desprovido da sua importância na vida cotidiana das pessoas e que não enfoca a alimentação como prática social. Portanto, a educação tem um papel valioso no processo de prevenção e controle da obesidade, mas enquanto instrumento de geração de consciência critica sobre as práticas alimentares e sobre os processos sociais, econômicos e políticos que as influenciam, e não para informar o que cada indivíduo pode ou não pode fazer em relação à sua alimentação.
  • A limitada visão biológica da alimentação que a ignora enquanto um fenômeno social que desempenha funções fundamentais e inerentes à organização da vida em sociedade por meio da comensalidade, subjetividade do corpo, atitudes, significados, aspectos simbólicos e práticas relacionadas à comida, percepção e influência dos afetos nas escolhas alimentares, transtornos de saciedade e privação alimentar, patrimônio alimentar etc. Há um universo de dimensões que compõem o ato alimentar profundamente negligenciado na abordagem nutricional em saúde.
  • A questão de gênero na partilha dos afazeres domésticos: por exemplo, a entrada da mulher no mercado de trabalho não foi acompanhada de uma redefinição das responsabilidades em relação a esses afazeres, levando a uma grande sobrecarga de trabalho para ela. Assim, ao contrário do que recorrentemente se divulga, não é a presença legítima da mulher no mercado de trabalho, ou em qualquer outro espaço social, que levou à piora da alimentação das famílias. É, sim, a concentração da responsabilidade do cuidado das famílias e das crianças sobre a mulher que continua gerando duplas e até triplas jornadas de trabalho. A resistência de um padrão cultural desigual repercute na vida de todas e todos.

Além desses fatores, há ainda aqueles cujos mecanismos precisam ser mais bem elucidados, como é o caso da atuação de agrotóxicos (muitos deles são disruptores endócrinos) e de antibióticos presentes nos alimentos (estes últimos alteram o equilíbrio da flora intestinal, levando a processos inflamatórios que podem contribuir com a ocorrência da obesidade).

Metas e estratégias para o enfrentamento da obesidade

As metas brasileiras em relação ao enfrentamento da obesidade, que foram apresentadas pelo Ministério da Saúde na abertura do evento, referem-se a toda a população brasileira e foram pactuadas por diferentes setores do governo federal, no âmbito da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, quando da elaboração do PLANSAN 2016-2019. São elas:

  • Deter o crescimento da obesidade na população adulta;
  • Reduzir em pelo menos 30% o consumo regular de refrigerante e suco artificial (de 20,8% para 14% ou menos da população; e
  • Ampliar em no mínimo 17,8% (de 36,5 para 43%) o percentual de adultos que consomem frutas e hortaliças regularmente.

O PLANSAN 2016-2019 prevê a expansão das ações de atenção à saúde, principalmente atenção básica, além das ações de caráter educativo. O Plano prevê, também, inúmeras medidas que demandam que o Ministério da Saúde dialogue com os demais Ministérios e setores que desenvolvem ações que podem afetar o sistema alimentar como um todo (produção – comercialização – abastecimento – consumo). Urge a decisão de as implementar, favorecendo a ampliação da produção de alimentos saudáveis e seguros e da rede de mercados locais.

A experiência acumulada mundialmente e as evidências científicas produzidas em diversos países apontam como ações estratégicas e efetivas:

  • o fortalecimento de sistemas alimentares que garantam a produção e o acesso a alimentos saudáveis, produzidos de maneira sustentável ambiental, social e economicamente e acessíveis física e financeiramente;
  • a regulação de toda publicidade dirigida ao público infantil e da publicidade de alimentos ricos em açúcar, gordura e sal;
  • a melhoria da rotulagem dos alimentos de forma a facilitar a compreensão do produto pelo consumidor e influenciar sua decisão de compra, como incluir símbolos que resumam a informação nutricional sobre o produto (a exemplo do que vem fazendo o Chile);
  • medidas fiscais que desencorajem a aquisição de produtos alimentícios não saudáveis, como refrigerantes (a exemplo do que vem sendo feito no México) e que facilitem a aquisição dos alimentos saudáveis;
  • a promoção de ambientes alimentares saudáveis, com destaque, no caso de crianças, para o ambiente escolar (regulação da venda e propaganda de alimentos nas escolas, fornecimento de refeições saudáveis, desenvolvimento de estratégias efetivas de Educação Alimentar e Nutricional);
  • a promoção do aleitamento materno e da alimentação complementar saudável;
  • o desenvolvimento de abordagens de Educação Alimentar e Nutricional que contribuam para a autonomia das pessoas, para que a alimentação ganhe novo sentido no seu dia a dia e possa ser fonte de prazer, saúde, sociabilidade, para o resgate da culinária e da comensalidade (comer e beber juntos, socializar por meio da comida), para a valorização do tempo dedicado à alimentação (incluindo compra dos alimentos e preparo das refeições de forma partilhada entre crianças e adultos – homens e mulheres), e possibilidade de efetivamente desfrutar desse tempo como uma atitude de cuidado consigo e com o outro.

Lições aprendidas

Há experiências valorosas no enfrentamento da obesidade e, no decorrer do dia 15/3, os diversos países presentes no Encontro Regional foram enfáticos em relação às seguintes mensagens:

  • o elemento propulsor central das experiências bem sucedidas foi a vontade política dos tomadores de decisão;
  • a intersetorialidade é imprescindível: os grandes avanços ocorreram quando os compromissos foram além do setor saúde;
  • a grande barreira a ser superada é a resistência dos setores econômicos envolvidos (por exemplo, indústrias de alimentos não saudáveis e a mídia) e de membros do poder público ligados a estes setores econômicos; e
  • as intervenções devem ser baseadas nas melhores evidências disponíveis e devem, por sua vez, ser monitoradas e ter seu impacto mensurado.

Por fim, cabe dizer que não há cumprimento de metas sem processo. A Abrasco entende que, para um avanço efetivo no enfrentamento da obesidade (incluindo a obesidade na infância) no Brasil, é necessário, por um lado, definir claramente objetivos e ações que concretizem as metas estabelecidas, com alocação de orçamento específico; e, por outro, definir mecanismos que garantam a transparência e a participação da sociedade, e que protejam as políticas públicas da interferência de interesses comer­ciais contrários à saúde da população. Além disso, é necessário implementar o que já está decidido, considerando o acúmulo das proposições existentes.

Associação Brasileira de Saúde Coletiva

Brasil, 17 de março de 2017

A mais nova investida da Folha contra os sites progressistas.

do DCM

por Paulo Nogueira

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A mídia continua sua louca cavalgada contra os sites progressistas.

Por trás dos ataques está uma saudade imensa dos dias em que apenas a opinião dos donos da mídia era veiculada — e imposta aos brasileiros.

Com escassos recursos, os sites progressistas romperam o monopólio dos barões.

Os precursores da essencial voz alternativa à gritaria conservadora de jornais e revistas foram Nassif e Paulo Henrique Amorim. (No meio impresso, o pioneirismo foi de Mino Carta.)

Um exemplo da perseguição aos blogueiros está numa enquete que a Folha promoveu em sua página no Facebook sobre o caso Guimarães.

O pretexto era colher a opinião dos leitores sobre a condução coercitiva de Guimarães.

Mas o real intento era atacar os sites progressistas como um todo.

Para ilustrar a enquete, a Folha destacou um trecho de um texto de seu colunista Demetrio Magnolli.

“Guimarães é uma das tantas vozes que, organizadas em matilha e muitas vezes financiadas pelo dinheiro fácil das estatais, consagraram-se à difamação sistemática dos críticos do lulopetismo. Nada, porém, autoriza uma perseguição policial amparada em pretextos.”

A palavra matilha dá o tom do incômodo que os sites progressistas — ou de esquerda, ou centro esquerda — provocam na Folha e em Magnolli.

Se fôssemos simplificar e retrucar, poderíamos dizer que a grande mídia e seus colunistas amestrados — amplamente beneficiados com o dinheiro fácil da publicidade federal — propagam em matilha uma implacável caça aos valores e às pessoas que representam uma visão de mundo mais igualitária e menos reacionária.

É curioso que até dinheiro de propaganda federal seja invocada por Magnolli. Apenas a Rede Globo, nos anos de PT no poder, levou 8 bilhões de reais em publicidade federal.

Jamais vi um único anúncio no Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães.

Outros sites progressistas, entre eles o DCM, jamais receberam publicidade federal à altura de sua audiência. Foram sempre migalhas — e não estou falando em sentido figurativo — comparadas às multimilionárias verbas da grande mídia.

Várias vezes o DCM defendeu um corte de gastos na propaganda governamental. Estávamos inspirados nos países mais avançados, onde o governo só anuncia coisas de claro interesse público.

Nunca a imprensa — tão ciosa (aspas) dos gastos elevados do governo — tocou na questão dos bilhões torrados com ela em publicidade feita com o dinheiro do contribuinte.

Mesmo assim, a Folha e Magnolli se sentem autorizados a falar no “dinheiro fácil” das estatais para atacar as vozes alternativas.

Os barões da mídia e propostos são tomados, na verdade, por uma invencível nostalgia da era em que só eles falavam.

A imprensa brasileira não suporta concorrência na disputa por corações e mentes — e nem em nada, a rigor. Basta ver que ainda hoje ela é beneficiada com reserva de mercado — a despeito de seus intermináveis e maçantes discursos pela livre concorrência.

Este é o ponto central do ataque a Eduardo Guimarães e demais sites progressistas: a ojeriza à competição.

“A terceirização no setor público pode virar nepotismo e clientelismo”

da Carta Capital

por Ingrid Matuoka

O presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho alerta para os riscos das subcontratações de mão-de-obra

Votação da terceirização
Parlamentares da oposição levantam patos em protesto no plenário

Na noite da quarta-feira 22, como prometido pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a terceirização irrestrita do trabalho foi aprovada. O PL 4302, de 1998, foi aprovado com 231 votos favoráveis, 188 contrários e oito abstenções, e agora depende apenas da sanção de Michel Temer.

Germano Siqueira, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), acredita que os deputados aprovaram “o pior projeto possível”, e faz um alerta: ele “pode servir de instrumento para o nepotismo e o clientelismo” no setor público.

CartaCapital: Quais são as consequências práticas para os trabalhadores?
Germano Siqueira: Serão milhões de trabalhadores a não receber o que lhes é devido. Os salários serão mais baixos, com pouca proteção jurídica, aumenta a possibilidade de restringir férias e 13º, e cresce a quantidade de acidentes de trabalho. Além disso, há aspectos absolutamente graves na área pública.

Esse projeto diminuirá muito a quantidade de concursos públicos. Agora, nada impede que o prefeito, governador, ou mesmo no âmbito da União, destine suas atividades a empresas prestadoras de serviço terceirizado, como na Caixa Econômica, no Banco do Brasil, e na Petrobras. Isso por si só já é um absurdo, mas há outro maior: pode servir de instrumento para o nepotismo e o clientelismo.

O governador, o prefeito, o deputado, o vereador, podem, quando há uma contratação intermediária desse tipo, colocar como terceirizados afilhados políticos e parentes.

Na área privada, ele amplia na atividade-meio e fim de forma discriminatória, porque um contratado direto da empresa, com salário de mil reais, estará ao lado de outro com salário inferior.

A questão sindical também preocupa. Não foi definido nada sobre quem é o sindicato que vai reger aquela categoria. Eles aprovaram o pior projeto possível.

CC: De que forma as novas regras de terceirização beneficiam os empregadores?
GS: Com economia na iniciativa privada. Se eu tenho uma folha de pagamento que me custa um milhão, após terceirizar ela vai custar 30% menos. Isso é lucro para a empresa, com transferência de renda do trabalho para o capital.

CC: Pode haver prejuízos para as empresas em longo prazo?
GS: Pode, porque ao contrário do que se fala, não há segurança jurídica. A quantidade de processos na Justiça do Trabalho com base nessa lei vai aumentar muito, porque há vários pontos de inconstitucionalidade.

Se os empregadores pensassem um pouco mais, também não aceitariam essa lei, mas temos uma maioria no governo que é arrogante e não dialoga.

“Haverá transferência de renda do trabalho para o capital”

CC: A terceirização vai de fato acelerar a economia e gerar empregos, como prometido?
GS: No máximo ela vai gerar subempregos, como aconteceu em outros países. E também vai rebaixar o poder de compra do mercado consumidor, o que, por consequência, reduz a arrecadação previdenciária e tributária.

Se o mercado consumidor, que é formado pela classe média trabalhadora, não pelo grande empresariado, tem suas condições de renda rebaixadas, esse amplo mercado consumidor será igualmente rebaixado.

O grande recolhimento tributário do país, dos estados e municípios, é com cada compra que se faz.

CC: A aprovação da terceirização facilita a aprovação de outras reformas propostas por Temer, como a da Previdência?
GS: Não sei se facilitará, porque o placar ontem foi apertado, mas talvez os brasileiros comecem a entender qual é o projeto que está em curso. Tomara que fiquem mais atentos, porque o projeto é de perdas de direitos.

CC: O que a aprovação dessa reforma indica sobre os rumos que o Brasil está tomando?
GS: São rumos de desmonte do Estado de bem-estar social, que é um projeto político, uma carta-compromisso firmada na Constituição de 1988. Mas o que se pretende agora é desfigurar completamente essa Carta com a reforma constitucional ou por projetos de lei.