“Essa reforma que está acontecendo é o fim da escola”

da Carta Educação

por Thais Paiva

Em vídeo, professores de universidades estrangeiras criticam reforma curricular brasileira e comentam seus desdobramentos para Artes

Nora Sternfeld, sobre o ensino de artes no Brasil: “era algo que eu sempre pensei que nós, na Finlândia, poderíamos aprender”

Antes citada como obrigatória pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) para os três anos do Ensino Médio, a disciplina de Artes tem futuro incerto após a aprovação da reforma curricular da etapa. Com a obrigatoriedade eliminada, seu ensino ficou sujeito ao previsto na futura Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sendo que as escolas precisarão apenas adotar “estudos e práticas” da disciplina.

Amplamente criticada no Brasil, a decisão também causa espanto mundo afora, como mostra o vídeo Manifesto pelo Ensino das Artes no Brasil. Nele, pesquisadores e professores de diferentes universidades estrangeiras comentam a reforma e seus prejuízos para uma educação mais crítica.

“Ouvir que esta habilidade de alguém se relacionar com seus próprios afetos através de práticas artísticas, que é profundamente necessária na educação, vai ser cortada é impressionante para mim, pois era algo que eu sempre pensei que nós, na Finlândia, poderíamos aprender”, diz Nora Sternfeld, professora da Universidade de Aalto, de Helsinki.

O vídeo foi produzido por Felipe Peres Calheiros, Emanuele Siebert e Ilda de Sousa, doutorandos em Educação Artística na Universidade do Porto. Veja na íntegra:

 

“Se fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação”

da Carta Educação

por Thais Paiva

António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, comenta a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro e aponta novos modelos de formação docente

Os percursos formativos, na prática, mantêm a tradição de que os pobres servem para ser operários e os ricos, doutores

Muito discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educação pública. É com essa crítica que o português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e candidato às últimas eleições presidenciais de Portugal, resume sua visão sobre o cenário educacional no Brasil.

Professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (França), Nóvoa é hoje uma das principais vozes na área pedagógica e tornou-se uma referência em formação docente ao propor modelos inovadores como uma espécie de residência médica para os professores.

Em São Paulo, onde palestrou no 12ª Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa conversou com Carta Educação sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educação pública como compromisso social e criticou os equívocos que sustentam a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro. “O melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário é a pior escola do mundo”, resume.

Carta Educação: O senhor cobra uma maior participação da sociedade na educação tendo, inclusive, formulado o conceito de espaço público da educação. Como vê esse cenário de sinergia no Brasil?

António Nóvoa: Nós temos um discurso muito gongórico, excessivo sobre a importância da educação, quando as condições básicas não estão sequer asseguradas. Portanto, a primeira coisa que a sociedade brasileira precisa fazer coletivamente, independentemente de partidos e políticos, é garantir essas condições básicas de funcionamento para as escolas, que incluem as condições para o exercício do trabalho dos professores. Se não fizer isso, todo o resto é conversa, coisas para ilustrar a mídia, mas que não têm nenhum impacto. Não conseguimos mudar a educação se isso não for um desígnio coletivo da sociedade. Não pode ser um problema dos professores ou dos pais ou dos pedagogos ou do partido A ou do partido B. No Brasil, vejo que há muita conversa, muito discurso, mas pouco compromisso concreto com a educação pública brasileira. Há pouca indignação e, se eu fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação pública.

CE: Essa falta de indignação não está relacionada ao fato das classes mais abastadas no Brasil matricularem seus filhos na escola privada, isto é, da educação pública ser um “problema” das classes mais pobres?

AN: Com certeza. Para quem vem de fora e olha para o Brasil, esse continua a ser o problema maior, o da desigualdade. É um raciocínio de vistas estreitas, de quem não percebe que não resolvemos nossos problemas se não resolvermos o problema dos outros. E as elites brasileiras são muito separadas do compromisso social. Fazem umas coisinhas filantrópicas para se justificarem, para fazerem de conta, mas não têm compromisso social nenhum. Enquanto não houver uma consciência coletiva de que o problema é de todos, o Brasil não avançará do ponto de vista da educação pública. Em Portugal, desde a revolução de 74, houve uma espécie de compromisso do país com a escola pública. Demorou 40 anos para isso acontecer, mas hoje estamos nos indicadores educacionais acima de países que investiram em educação quando éramos o último da Europa. Vejamos o Pisa, por exemplo, que é um indicador que eu não gosto muito, mas que serve para ilustrar. O Pisa tem dois indicadores: um do qual se fala muito que é classificação dos países, o ranking de qualidade, e outro do qual não se fala quase nada, que é o indicador de equidade, isto é, os países que possuem menos desigualdades educacionais. Portugal vai bem no ranking da classificação, mas, sobretudo, vai melhor no ranking da equidade. E é isso que torna um país melhor. Enquanto continuar cada um tratando de si, da escola dos seus filhos, dos seus problemas, o Brasil estará caminhando para um precipício.

CE: O senhor diz que o papel do professor é ajudar o aluno a transformar informação em conhecimento e que o bom profissional é aquele capaz de conseguir com que, no fim, o aluno goste daquilo que não gostava. Como formar o docente para esses papéis?

AN: Há um escritor português, Gonçalo M. Tavares, um dos mais brilhantes da nova geração, que utiliza uma metáfora muito interessante: “nós somos as imagens que temos”. O que isso quer dizer? Tudo aquilo que vemos na vida compõe o que somos. Vou explicar de outra maneira. Ontem, estava aqui em São Paulo e liguei a televisão. Mudando de canais, vi aquelas imagens, músicas, telejornais horríveis e pensei que ninguém pode se educar se sua vida é aquilo, aquele imaginário paupérrimo. Os professores precisam alargar o seu repertório cultural, terem contato com mais realidades para serem capazes de passar isso para os seus alunos. Ninguém pode gostar daquilo que não conhece. Se eu não fizer um esforço para conhecer as regras do xadrez, eu não posso gostar de xadrez. Uma pessoa que não lê muito, que para ler um texto fica quase a juntar as letras, dificilmente gostará de leitura. Enquanto as crianças tiverem as imagens diárias que têm será muito difícil subir o nível da educação. E isso é verdade para professores e para crianças. Só se pode gostar depois de se conhecer muito. As crianças fazem isso com os jogos de informática: treinam muito até ganharem proficiência e, a partir desse momento, começam a ter prazer. É preciso fazer a mesma coisa com leitura, matemática, história e biologia. E esse é o trabalho do professor. Agora, para que o professor faça esse trabalho, ele próprio precisa alargar o seu repertório de imagens.

CE: Esse parece ser um caminho individual de aperfeiçoamento. Mas no campo da qualificação formal, o que as universidades poderiam fazer? O senhor já propôs um esquema semelhante à residência médica para que os docentes aprendessem a ensinar com outros mais experientes.

AN: Primeiramente, é preciso ter um lugar para formar os professores nas universidades de forma unificada. Estou a dar apoio ao reitor da UFRJ, no Rio de Janeiro, para tentar construir uma coisa que ele designa de “complexo de formação de professores”, um lugar onde o professor terá sua formação completa. Sobre o esquema de residência, na formação médica na Universidade de Harvard, por exemplo, nos primeiros dias do curso, há uma cerimônia na qual os médicos dos hospitais trazem jalecos e vestem os jovens estudantes de medicina. Quando fazem isso estão a dizer “a tua formação agora é de nossa responsabilidade, nós agora vamos te conduzir pelos caminhos da profissão”. E isso vai ajudando a criar uma rotina, um saber profissional que não é apenas da prática, é um conhecimento que vai sendo construído na relação entre profissionais mais experientes e jovens estudantes. É isso que é preciso na formação do professor, que os jovens das licenciaturas tenham contato com os professores mais antigos, mais experientes, com professores das faculdades, das universidades. O ideal seria que quando acabassem a licenciatura fossem para as escolas acompanhados, em uma espécie de residência docente para que, progressivamente, fossem adquirindo a autonomia profissional.

CE: Qual sua opinião sobre a reforma curricular que foi feita no Ensino Médio no Brasil que inclui o agrupamento por áreas do conhecimento, maior foco no ensino técnico, permissão para que pessoas com “notório saber” possam dar aulas, entre outros pontos?

AN: O mundo inteiro é um cemitério de reformas; reformas curriculares então nem se fala. É muito fácil fazê-las, o mais difícil é aquilo que falamos no princípio: dar as coisas básicas e simples, as condições de funcionamento para escolas, professores. Isso dito, o Ensino Médio foi um problema no mundo todo 20 anos atrás, período em que os países passaram a educação obrigatória para o final da etapa. Nesse sentido, o Brasil está bastante defasado. No que diz respeito à diminuição do currículo, sou sensível ao argumento. Acho que as escolas têm muitas coisas para ensinar. Desde o século XIX, ninguém tirou nada da escola, só meteu mais conteúdo. Sou também sensível a um segundo ponto que está na retórica da reforma que é a ideia dos percursos formativos. São argumentos importantes no sentido de tornar mais coerente o currículo e, por outro lado, permitir uma certa diferenciação da trajetória de cada. O problema dessas duas retóricas é que elas conduzem para três coisas que não estou de acordo e que, para mim, são as coisas que estão a acontecer no Brasil.

CE: Quais são elas?

AN: A primeira coisa é que quando se fala em diminuição do currículo não pode ser sinônimo da velha ideologia do back to basics, isto é, de voltar aos fundamentos, dar só matemática e português. Tornar os currículos mais simples trata-se de conseguir que, em cada uma das matérias, se valorize a dimensão das linguagens e não a dimensão dos conteúdos. Isto é, que nós tenhamos os instrumentos para ascender ao conhecimento. Os conteúdos estão todos disponíveis na internet, em todo lado, logo, o que é preciso adquirir é a linguagem matemática, científica, da escrita, artística, corporal. Ora, o que está a acontecer no Brasil agora é o back to basics. Há um livro agora muito famoso no Brasil chamado Sapiens, do israelense Yuval Harari, no qual ele diz que hoje temos máquinas de aprendizagem que podem fazer coisas muito mais inteligentes que os humanos. Então, pela primeira vez na história, a inteligência não está só do lado dos humanos. Logo, qual é a última fronteira da humanidade? É a consciência, algo que não pode ser substituído por nenhuma máquina. E a dimensão da consciência precisa estar presente no currículo, por isso, não podemos esquecer da história, da sociologia, da filosofia, tudo que nos dá essa outra dimensão.

Minha segunda crítica é a ideia da formação profissional. Há 20 anos também se falava muito sobre isso e deixou-se de falar por várias razões, mas há algumas óbvias. A expectativa de vida das pessoas está a aumentar exponencialmente. Hoje, estamos a aprender a conviver com quatro gerações ocupando o mesmo espaço – bisavós, avós, pais e filhos. Isso tem de significante que a entrada na vida adulta vai ser cada vez mais tardia. Há um século, a expectativa média de vida era 40 anos, logo, a entrada na vida do trabalho tinha que ser aos 14, 15. Hoje, a média é 80 anos, então a entrada na vida adulta se faz mais tarde, inevitavelmente. Portanto, falar de uma formação técnica ou tentar que, hoje, uma pessoa com 14 anos tenha uma relação com o mundo do trabalho não faz nenhum sentido. Não é essa a evolução da sociedade: nós queremos pessoas que saibam pensar. Que saibam trabalhar também, com certeza, mas não é aquela visão que tínhamos antigamente da formação técnica, do operário. Nos próximos 20 anos, cerca de 30%, 40% dos trabalhos vão ser feitos pela tecnologia. Portanto, manter hoje essa formação técnica é uma ideia de discriminação social sobre os pobres. Os percursos formativos, na prática, mantêm a tradição de que os pobres servem para ser operários e os ricos, doutores. É o que chamamos de novo vocacionalismo. Agora o melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário é a pior escola do mundo.

CE: E qual sua opinião sobre a adoção do “notório saber“?

AN: O programa Teachers For America, do George Bush, que recrutava pessoas de notório saber para serem professores foi um desastre porque, obviamente, ser professor não é ter notório saber em uma matéria, é muito mais complexo que isso. Tem uma dimensão social, pedagógica, cultural muito mais ampla. Aliás, há um equívoco enorme que é o de achar que a missão de um professor de matemática é ensinar matemática. Não é. A missão de um professor de matemática é formar uma criança através da matemática, o que é completamente diferente. Porque não se pode ser cidadão sem saber matemática. A cidadania implica saber matemática, português, história. Ora, não é por termos notório saber em química que seremos bons professores dessas disciplinas. Isso é acabar com a alma, com a identidade da profissão.

CE: O senhor foi candidato independente às eleições presidenciais de Portugal de 2016. Como foi a experiência?

AN: Foi uma experiência extraordinária porque eu não tinha vida política, nunca pertenci a nenhum partido, mas sempre estive envolvido em causas sociais. Militei quando era estudante contra a ditadura e sempre estive do lado da liberdade de pensamento, de crítica, de discordar dos outros. Por volta de 2013, Portugal vivia um momento horrível, com políticas de austeridade absurdas e um neoliberalismo cego que colocaram o país em uma situação dramática. A essa altura, era preciso dar um murro na mesa, dizer um basta. Como participei de grandes manifestações contra a austeridade e tinha acabado de ser reitor da universidade, isso me deu uma grande visibilidade. Como dizia Martin Luther King sobre o caráter das pessoas não se mostrar nos tempos fáceis, mas nos tempos difíceis, entendi que precisava tomar uma posição. E concorrer foi uma experiência extraordinária pela mobilização que trouxe das pessoas e pelo resultado. Estive a 1% ou 2% de passar ao segundo turno e se passasse acho que ganhava. Foi a primeira vez que um candidato independente teve uma candidatura com envergadura e isso para a política de Portugal foi muito positivo e trouxe uma renovação. O que está a acontecer em Portugal agora é boa parte do que defendi em minha candidatura.

CE: O senhor cogitaria concorrer mais uma vez?

AN: Se o país continuar tal como está, não tenho nenhuma vontade porque acho que está muito bom. Nesse momento, apoio o trabalho do atual presidente da república [Marcelo Rebelo de Sousa]. Mas se o país entrar em uma situação difícil novamente, voltamos ao Martin Luther King e eu, como um homem de caráter, preciso me apresentar. Os portugueses sabem que podem contar comigo que eu estarei lá de novo.

Cinco textos feministas centenários que continuam atuais

da Carta Capital

por Tori Oliveira

No início do século 20, mulheres já escreviam sobre a relação do feminismo com os partidos políticos, o aborto e a divisão do trabalho doméstico

Nadiéjda Krupskaia, Sojourner Truth e Madeleine Pelletier
Nadiéjda Krupskaia, Sojourner Truth e Madeleine Pelletier: pioneiras na luta pelos direitos da mulher

Apesar de terem conquistado novos espaços de discussão nos últimos anos, há muito tempo mulheres debatem e escrevem sobre o feminismo.

Ao observar textos antigos, de 100 anos atrás, é inescapável a sensação de deja-vu nos temas abordados e nos argumentos das feministas de então. De lá para cá, muita coisa mudou, mas os principais desafios permanecem.

No livro A Revolução das Mulheres – Emancipação Feminina na Rússia Soviética (Boitempo), antologia de artigos, atas, panfletos e ensaios de mulheres e feministas russas escritos nas duas primeiras décadas do século 20, encontram-se temas debatidos até hoje, como a questão do aborto, a divisão do trabalho doméstico e o tratamento dispensado às mulheres nos partidos políticos. 

“Infelizmente, as questões que essas mulheres discutiam há cem anos ainda são muito atuais. Quiséramos nós que fossem textos meramente históricos”, diz Graziela Schneider, organizadora da edição no Brasil.

Confira trechos de cinco textos de feministas que continuam atuais:

O uso do feminismo pelos partidos políticos

No texto O movimento feminista e a relação dos partidos com ele, de 1908, a ativista russa do movimento das mulheres, Anna A. Kalmánovitch, escreve sobre a dificuldade de inserção das mulheres nos partidos políticos da época. Em carta à Kalmánovitch, a psiquiatra e ativista Madeleine Pelletier descreve as hostilidades enfrentadas por aquelas que se engajavam politicamente.

Atualmente, as mulheres ainda enfrentam barreiras para uma participação plena e igualitária na política. Segundo dados da ONU, elas ocupam, em média, 23% dos assentos nos parlamentos nacionais. No Brasil, a taxa de representação política feminina é ainda mais baixa: menos de 10% do Congresso Nacional.

Banheiro feminino no Senado
Só em 2016 o Senado ganhou um banheiro feminino no plenário. Atualmente, dos 81 senadores, só 12 são mulheres

Espero provar aqui também que a expressão “igualdade da mulher” serve apenas para adornar o programa político [dos partidos social-democratas]. Anseio convencer as mulheres que não devem esperar a liberdade dos homens, não importa como eles se nomeiem: liberais, conservadores ou social-democratas. Enquanto o homem tiver a oportunidade de oprimir e humilhar a mulher, ele o fará […] Não pensei que eu prego uma cruzada contra os homens. Eu diria o mesmo para todos os desprovidos e oprimidos”

Anna A. Kalmánovicht, O movimento feminista e a relação dos partidos com ele, 1908

“Ao ingressar no partido, a mulher – se não estiver acompanhada do marido – encontra hostilidade. Caso ela, apesar de tudo, consiga entrar, faz-se o possível para que ela perca a vontade de ir às sessões: não se sentam perto dela, não conversam com ela e tudo oque lhe é interessante é resolvido sem a sua participação. Finalmente, se ela se destaca de alguma forma, isso provoca ódio e inveja”

Madeleine Pelletier (1874-1939), psiquiatra e ativista francesa, em carta a Anna K. Kamánovicht, 1908

Divisão do trabalho doméstico

No ensaio Deve-se ensinar “coisas de mulher” aos meninos?, de 1909, Nadiéjda Krúpskaia (1869-1939) critica a desigualdade de gênero na execução de tarefas domésticas, que recaía quase totalmente sobre a mulher.

Políticos atuais, como o presidente Michel Temer e o ministro da Saúde, Ricardo Barros, fizeram declarações recentes associando exclusivamente a figura feminina aos trabalhos domésticos e aos cuidados com a casa.

Cartaz anti-sufragista
‘Dia de Eleição’ (1909), de E.W. Gustin. Cartaz anti-sufragista fantasia sobre o que aconteceria quando as mulheres pudessem votar

Dados revelam que a desigualdade de gênero no trabalho doméstico no Brasil continua alta: 90% delas realizam atividades domésticas ante 46% dos homens. O quadro desigual contribui para a perpetuação de estereótipos e para a sobrecarga de trabalho feminino.

De uma forma ou de outra. todo o trabalho doméstico recai exclusivamente sobre a mulher […] Mas se entre os trabalhadores às vezes ocorre do marido ajudar a esposa com o trabalho doméstico, nas assim chamadas famílias da intelligentsia, por mais desprovidas que sejam, o homem nunca participa desse serviço. deixando que a esposa faça suas “coisas de mulher” da maneira como ela sabe.

Todas essas conversas sobre a mulher ser “naturalmente predestinada” à execução dos afazeres domésticos são bobagens semelhantes ao discurso que, na época, os donos de escravos faziam sobre estes serem “naturalmente predestinados” à condição de escravos.

Nadiéja K. Krúpskaia, Deve-se ensinar “coisas de mulher” aos meninos?, 1909

Aborto

A polêmica questão da interrupção da gravidez já era central para algumas feministas do início do século 20. A prática do aborto era difundida na Rússia, apesar da rigorosa proibição legal contra o mesmo.

Uma carta enviada na primavera de 1920 ao comissário da Saúde relatava a realidade em uma fábrica de trabalhadoras jovens: “Nos últimos seis meses, das 100 a 150 jovens com menos de 25 anos de idade, vi de 15% a 20% delas praticarem aborto sem ajuda médica. Elas simplesmente usam produtos caseiros: bebem alvejante e outras misturas venenosas”, dizia a carta, transcrita no livro Mulher, Estado e Revolução (Boitempo), de Wendy Goldman.

A Rússia Soviética foi o primeiro país a legalizar o aborto, em 1920. A legislação foi, no entanto, revertida em 1936 e a interrupção da gravidez foi novamente proibida.

Manifestação a favor da legalização do aborto
Manifestação a favor da legalização do aborto em 2017

No Brasil, atualmente está em discussão no STF uma proposta de legalização do aborto até a 12ª semana de gravidez. Estima-se que, aos 40 anos, uma em cada cinco brasileiras já tenha praticado pelo menos um aborto. Para a OMS, leis mais restritivas, além de não reduzirem a prática, levam mulheres a buscar procedimentos ilegais e inseguros.

A luta contra o aborto não deve consistir na perseguição das mulheres, que muitas vezes arriscam a própria vida ao abortar. Tal esforço deve ser direcionado para a eliminação das causas sociais que colocam a mãe em uma situação em que, para ela, só resta abortar ou afogar-se. Enquanto essas circunstâncias gerais não forem extintas, as mulheres continuarão abortando, não importa quão cruéis sejam os castigos sofridos por ela.

Nadiéja K. Krúpskaia, Guerra e Maternidade, 1920

Mulheres são “frágeis” 

Durante as discussões do movimento sufragista nos Estados Unidos no século 19, a feminista negra e abolicionista Sojourner Truth (1797- 1883) enfrentou a argumentação masculina de que a fragilidade das mulheres seria um empecilho para a concessão do voto feminino.

Sojourner Truth
Sojourner Truth: ‘Eu não sou uma mulher?’

Em seu poderoso discurso “Eu não sou uma mulher?”, proferido em 1851, Soujourner, que nasceu sob a escravidão, questionou a lógica do “sexo frágil” e demandou direitos iguais para todas as mulheres, incluindo as negras.

Pesquisadoras como Angela Davis apontam, no livro Mulheres, Raça e Classe (Boitempo) para o racismo e a dificuldade das primeiras sufragista nos Estados Unidos em contemplar as demandas das mulheres negras em seu movimento.

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam.

Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços!

Arei a terra, plantei, enchi os celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! Não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem – quando eu conseguia comida – e aguentava o chicote da mesma forma! Não sou eu uma mulher? 

Discurso de Sojouner Truth, em uma convenção de mulheres em 1851

Feminismo é um movimento contra os homens?

Um dos maiores mitos a respeito do feminismo é que se trata de um movimento que busca a superioridade das mulheres em relação aos homens. Na verdade, trata-se de um movimento com muitas vertentes, mas que, de forma geral, busca a igualdade entre homens e mulheres.

Em 1907, Anna A. Kalmánovicht já buscava desconstruir essa narrativa:

“Conscientemente ou por falta de familiaridade com o assunto, os opositores e as opositoras do movimento de libertação das mulheres o imaginam como uma luta direcionada contra os homens, em geral compreendendo o feminismo como algum tipo de motim armado, uma guerra de amazonas”

Anna A. Kalmánovicht, Algumas Palavras sobre o feminismo, 1907

“A solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca”

da Carta Capital

por Ingrid Matuoka

Gabriela Shimabuko, militante do movimento asiático, fala sobre como o mito da minoria modelo colabora para o racismo anti-negro

Manifestação
‘Perigo Amarelo apoia o poder negro’, diz cartaz

Dentre os diversos mitos que existem no ocidente, um deles envolve os japoneses e nipo-brasileiros, a chamada “minoria modelo”, que migrou principalmente para o Brasil e para os Estados Unidos em navios, geralmente fugindo da guerra, e que prosperou.

A história não passaria de uma generalização superficial e aparentemente inocente, não fosse um porém: ela é usada para reforçar o racismo contra negros.

Gabriela Shimabuko, militante do movimento asiático e autora do texto “Anti-negritude é global: a participação asiática no racismo anti-negro”, explica a questão e discute formas de combater esse meio de opressão.

CartaCapital: O que é uma “minoria modelo”? Quem faz parte dela?

Gabriela Shimabuko: A minoria modelo, no ocidente, é um mito dialético do Perigo Amarelo, que são os asiáticos principalmente do extremo oriente vistos como ameaça econômica por terem muita mão de obra e recursos. A minoria modelo não existe sem o mito do Perigo Amarelo, porque ela surge quando o extremo oriente é uma ameaça direta às civilizações do ocidente.

Trata-se de um estereótipo, mas que não é real, materialmente não existe. Seria o “japonês da USP”, alguém bom no âmbito acadêmico, econômico, bem educado.

Fazem parte dela principalmente japoneses e chineses. Como a imigração coreana está aumentando no Brasil, eles também entram. Aqui no país não tem uma migração indiana ou tailandesa intensa, então muitas vezes não incluímos o sudeste asiático.

CC: Essas pessoas se sentem pressionadas a seguir este padrão? Isso é prejudicial a elas?

GS: Nos Estados Unidos já existem estudos sobre isso. O mito da minoria modelo afeta a autoestima de crianças asiáticas de uma forma negativa. Quando somos bons, é o esperado. Quando somos ruins, é o que marca, dizem: “você é japonesa mas não sabe matemática”.

Isso também faz com que professores sejam mais tendenciosos no tratamento dos alunos. A criança que tem dificuldade já sente vergonha porque perante a família ela é uma decepção, e se sente excluída da ajuda dos professores porque o mínimo que se espera é que ela seja excelente.

CC: Ao mesmo tempo em que tem pontos negativos, fazer parte de uma minoria modelo pode ser um privilégio?

GS: No contexto brasileiro, o que a gente enfrenta são micro agressões, que individualmente são prejudiciais, mas que estruturalmente podem nos beneficiar.

Por mais que sejamos racializados, não somos perseguidos pela polícia, não precisamos ficar com medo de alguém preferir uma pessoa branca com o mesmo currículo que o nosso.

Também é preciso um recorte de gênero e imigração. O nipo-brasileiro, em certas ocasiões, está na mesma condição de privilégio do branco, mas um sino-brasileiro, por exemplo, vai enfrentar obstáculos a mais, porque ainda se lê a imigração chinesa como ilegal.

CC: De que forma a existência dessa “minoria modelo” reforça o racismo anti-negro?

GS: Lembro claramente de uma imagem que vi ano passado dizendo que os japoneses também vieram para o Brasil à força em navios, em condições sub-humanas, para trabalhar em condições análogas à escravidão. Em seguida, comparava o sucesso dos nipo-brasileiros com o dos negros.

Isso reforça o estereótipo. Enquanto se coloca os asiáticos como uma minoria esforçada, estudiosa, e que consegue ascensão econômica e social sem assistencialismo, o negro fica do outro lado, como oposição. Isso tem um gosto de determinismo biológico, racial, sendo usado em pleno século XXI.

Então usam duas histórias completamente diferentes para argumentar a favor da democracia racial e contra cotas e ações afirmativas, como se realmente não existe racismo estrutural no Brasil.

Hoje, isso também acontece com muçulmanos. Estamos em uma época em que a islamofobia é o maior instrumento para pavimentar o totalitarismo. Aqui no Brasil esse discurso não é tão pronunciado, mas nos EUA é mais forte.

Civil Rights
Da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos surgiu um laço de solidariedade entre asiáticos e negros

CC: O que essa “minoria modelo” pode fazer para, no mínimo, não reforçar o racismo anti-negro?

GS: É reconhecer privilégios. O movimento asiático é fundamentado em política identitária. O perigo disso é não fazer um recorte de classe e de gênero. Em relação à anti-negritude, é reconhecer privilégios.

Isso significa não tentar equiparar nenhuma das lutas, em nenhum aspecto, e o mais importante é o diálogo dentro das nossas comunidades, que muitas vezes são muito conservadoras. É dialogar para tentar desmantelar a anti-negritude de dentro para fora.

CC: Historicamente, negros e japoneses estiveram juntos na luta pelos direitos civis americanos. A ligação surgiu aí?

GS: Vem daí, com certeza, porque na época que começou o movimento do Perigo Amarelo com os Panteras Negras, foi depois da guerra, depois do internamento forçado de japoneses e nipo-estadunidenses, então começaram a questionar isso, bem como a exclusão a asiáticos que ocorreu nos EUA. Foi então que começaram a criar essa solidariedade, e é lógico que a solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca.

A minoria modelo existe antes disso, mas ela se reforça, passa a ser essencial no discurso da branquitude para tentar dividir o movimento. Isso, aliado com várias outras políticas, como a guerra às drogas, influenciam muito na desestruturação dos movimentos e das comunidades.

CC: No Japão, mesmo, alguns lugares e seus descendentes são menosprezados, como Okinawa. Por que isso acontece?

GS: Okinawa é étnica e culturalmente diferente do Japão. Eu não sei se é uma comparação que extrapola, mas no contexto brasileiro, para as pessoas entenderem, eu digo que okinawano é tão japonês quanto um Guarani Kaiowá é português.

Tanto o território okinawano, quanto o norte do Japão, são territórios indígenas que sofreram um processo de colonização. Em 1888, aboliu-se a escravidão no Brasil. Apenas dois anos antes Okinawa foi anexado politicamente ao Japão. É muito recente.

Lá, o preconceito é fundamentado principalmente na língua, porque o japonês de Okinawa é quase um dialeto, além de terem outro idioma próprio.

Secretária das Mulheres de Temer faz culto evangélico em gabinete

da Carta Capital

por Débora Melo e Renan Truffi

Rodas de oração na sede do órgão, com a participação de Fátima Pelaes, têm constrangido funcionários

Culto
A secretária Fátima Pelaes (primeira à esquerda), durante roda de oração em seu gabinete

A secretária Especial de Políticas para as Mulheres, Fátima Pelaes, tem realizado cultos evangélicos na sede do órgão em Brasília, o que tem constrangido profissionais da pasta.

Uma foto enviada à reportagem de CartaCapital mostra a secretária e funcionárias de sua equipe em um momento de oração dentro do gabinete, acompanhadas de um homem ao violão.

De acordo com uma fonte que não quis se identificar, subordinadas diretas de Pelaes têm aproveitado eventos de confraternização para fazer rodas de oração com os funcionários. “A equipe que assumiu chegou, digamos, com essa mania. Isso tem causado mal-estar”, disse a fonte. “Quem já estava na secretaria se surpreendeu, porque isso nunca fez parte da lógica dali.”

O Estado brasileiro é laico, e a Igreja não pode interferir no Estado. Além disso, o artigo 5º da Constituição Federal define que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”.

A secretária tomou posse em junho de 2016, ainda no governo interino de Michel Temer. O nome de Pelaes, que é presidenta do PMDB Mulher, foi indicado a Temer por deputadas do Partido Republicano Brasileiro (PRB), sigla ligada a Edir Macedo e à Igreja Universal do Reino de Deus.

A escolha do governo para a pasta das Mulheres foi fortemente criticada por movimentos feministas. Socióloga, Pelaes foi deputada federal pelo PMDB do Amapá e chegou a defender a legalização do aborto durante sua trajetória no Congresso, mas mudou radicalmente de opinião a partir de 2002, quando sobreviveu a um naufrágio no Rio Amazonas.

Após uma “busca por Deus”, Pelaes decidiu se converter à religião evangélica. Ela foi presidente da Frente Parlamentar Evangélica e passou a militar pelo direito à vida “desde a concepção”.

Em 2010, a então deputada fez um discurso em defesa da aprovação do Estatuto do Nascituro, projeto de lei que dá direitos ao feto e dificulta ainda mais o acesso ao aborto legal, mesmo em casos de estupro. Na ocasião, Pelaes revelou que nasceu de um estupro que sua mãe sofreu na prisão.

“Eu já estive também em alguns momentos, nesta comissão, defendendo [o aborto], dizendo que toda mulher tem direito, que a vida não começa na concepção. Mas eu precisava ser curada, porque eu estava com trauma. Eu não conseguia falar disso”, disse em uma comissão.

O episódio foi resgatado com a nomeação de Pelaes para a pasta das Mulheres e, após repercussão negativa, a secretária emitiu uma nota na qual recuava de suas posições. “A mulher vítima de estupro que optar pela interrupção da gravidez deve ter total apoio do Estado, direito hoje já garantido por lei”, dizia o texto.

A gafe mais recente da secretária ocorreu neste Dia Internacional da Mulher. Ao defender Temer de suas declarações machistas, Pelaes foi mais uma vez alvo de críticas de movimentos que lutam pelos direitos das mulheres.

Em um discurso infeliz, o peemedebista afirmou que “seguramente” cabe à mulher cuidar da casa e da formação dos filhos, palavras que ganharam as redes e correram o mundo.

Naquele mesmo dia, em entrevista no Palácio do Planalto, Pelaes minimizou as declarações e disse que se trata de uma realidade. “Acho que estamos falando do que a mulher ainda vive hoje”, afirmou.

CartaCapital tentou contato com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, mas não localizou os responsáveis pela comunicação do órgão. O canal segue aberto, caso a pasta queira comentar a reportagem.