Jacques Vèrges e a tática da ruptura

Do Luiz Nassif

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Aqui mesmo no GGN publiquei um texto sobre o uso da tática da ruptura de Jacques Vergès no caso Lula.

Volto ao assunto para dar algumas idéias aos defensores de Lula.

Qual é a característica mais evidente do caso Lula? A discrepância entre a forma que o Procurador Geral da República e seus pupilos estão tratando Lula e os líderes do PSDB e do PMDB que foram delatados na Lava Jato. Até o presente momento Aécio Neves, Aloysio Nunes, FHC, José Serra, Geraldo Alckmin, Michel Temer e outros figurões do governo em exercício  várias vezes delatados não foram incomodados na Justiça. Apesar de não ser referido como beneficiário de propina, Lula foi denunciado com base num Power Point como se fosse chefe de quadrilha.

 

No sistema brasileiro existem três tipos de ação penal:

1- ação penal pública incondicionada

2- ação penal pública condicionada

3- ação penal privada

As primeiras devem ser promovidas pelo Ministério Público. As segundas dependem de autorização da vítima para que o MP ofereça a denúncia. As últimas devem ser ajuizadas pelas próprias vítimas.

O que se deve fazer quando, por razões políticas e partidárias, o Ministério Público resolve perseguir injustamente um líder partidário e deixar impune os bandidos de dois outros partidos que deveriam ser denunciados pelos crimes que cometeram segundo dois ou mais delatores (como ocorre no caso Lula)?

Recorrer aos Tribunais Internacionais é uma coisa que a vítima pode fazer, pois o Brasil é signatário de Convenções Internacionais que garantem aos cidadãos o direito de ser julgado por juízes isentos. Não há isenção quando o Estado escolhe quem perseguir e quem manterá impune.

Lula denunciou o Brasil na Corte de Direitos Humanos da ONU. Ponto para o petista. Ao invocar fora do país direitos que estão sendo tripudiados pelo Ministério Público, Lula começou a romper a lógica da perseguição político-judiciária que lhe está sendo imposta.

Outra coisa que Lula pode fazer é organizar os advogados e juristas ligados ao PT para começar a oferecer na Justiça as denúncias que o Procurador Geral da República se recusa a fazer por razões políticas. Se os Juízes recusarem as denúncias privadas substitutivas nos casos das ações públicas que não foram ajuizadas para preservar a impunidade de tucanos e peemedebistas, os advogados e juristas do PT devem recorrer e oferecer novas denúncias.

A tática do MP é soterrar Lula com processos criminais para destruir sua imagem e/ou impedi-lo de ser candidato a presidente. A do PT deve ser desmoralizar totalmente o Procurador Geral da República e seus pupilos dentro e fora do Brasil soterrando o Judiciário com processos criminais tão inócuos quando aqueles que estão sendo movidos contra Lula.

No texto referido no início afirmei que:

“Os advogados de Lula são ousados e extremamente competentes. Mas eles insistem em ser técnicos diante de juízes e Tribunais que há quase uma década jogaram a técnica na lata do lixo ao se colocarem como partes na guerra de classes contra o PT.”

Há um componente teatral na atuação do Ministério Público. A evidência deste fenômeno também pode ser vista no caso Lula.

O Procurador Geral da República impediu a nomeação do ex-presidente petista como Ministro de Dilma Rousseff para que ele não ganhasse foro privilegiado.  O mesmo não ocorreu no caso dos líderes do PSDB e do PMDB que foram nomeados Ministros por Michel Temer. Vários deles receberam propinas da Odebrecht e estão numa lista que era conhecida pelo Procurador Geral da República antes do golpe de 2016, mas ele teatralmente se fez de morto para não prejudicar o usurpador Michel Temer como havia prejudicado Dilma Rousseff.

É, portanto, evidente que o Ministério Público agiu de maneira teatral para beneficiar Michel Temer enquanto ajudava a destruir o governo Dilma Rousseff . Se fosse técnico, o PGR teria tratado Lula e os candidatos a Ministros de Temer da mesma forma.

Os defensores de Lula também devem começar a ser teatrais. Não só fora, mas principalmente dentro dos Tribunais brasileiros. Tenho algumas idéias do que pode ser feito para escandalizar tanto os Juízes e Promotores quanto o respeitável público, mas não vou expor as mesmas aqui. Afinal, a eficácia da tática da ruptura de Jacques Vergès depende da surpresa.

 

A bula de Vèrges

Do Luiz Nassif

por Fabio de Oliveira Ribeiro

Há quatro anos, antes do julgamento do Mensalão começar, publiquei o texto abaixo no CMI:

“Geraldo Brindeiro, Procurador Geral da Republica ao tempo de FHC, ficou famoso por sentar em cima de processos que eventualmente prejudicassem o próprio FHC e seus Ministros e comparsas no governo e fora dele. Resultado todos os escândalos denunciados nos livros OS CABEÇAS DE PLANILHA (http://www.midiaindependente.org/pt/red/2007/08/390072.shtml ) e A PRIVATARIA TUCANA (http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Privataria_Tucana ) envolvendo FHC e sua quadrilha ficaram impunes.  Na época a mídia defendeu vigorosamente FHC e a vaga neoliberal que enriqueceu vários personagens do governo e do circulo privado tucano e nunca fez questão da apuração e julgamento rigoroso daqueles escândalos.

Gurgel, que ocupa hoje o mesmo cargo que Brindeiro ocupou no passado, preferiu uma nova abordagem: ele se notabiliza como Procurador do Espetáculo em razão de ter se esforçado bastante para fornecer à mídia o julgamento do Mensalão que a própria mídia encenou nos jornais, revistas e telejornais, inclusive com a condenação prévia ou preventiva dos adversários de FHC e seus aliados. 

No Brasil a “desigualdade” perante a Lei e perante a mídia, portanto,  continua a mesma antes e depois de Brindeiro. Gurgel é apenas um novo capítulo na longa duração do princípio jurídico senhorial que rege esta estranha Republica de aristocratas.

De todos os escândalos da época de FHC e da era Lula apenas o Mensalão foi a julgamento no STF. Sabemos exatamente o que pode ocorrer: ou os réus serão condenados, o que seria justo; ou os réus serão absolvidos, o que também seria justo. Qualquer que seja a decisão ela terá que ser considerada justa, porque o STF diz a Justiça em ultima instancia. É o que consta da Constituição em vigor que a todos deveria se aplicar.

O que eu quero mesmo saber, e isto seria novidade, é se os graves fatos narrados nos livros OS CABEÇAS DE PLANILHA e A PRIVATARIA TUCANA, que envolvem amigos e colaboradores de FHC, o próprio FHC e José Serra, também serão submetidos a julgamento.

Mas a Constituição da mídia é outra. A mesma mídia que defendeu e blindou FHC e sua quadrilha não cobrando o julgamento e punição dos crimes narrados em OS CABEÇAS DE PLANILHA e A PRIVATARIA TUCANA, exige rigor na punição de crimes que pressupõe terem ocorrido no caso do Mensalão. Como defender réus que já foram condenados pela mídia?

O defensor de qualquer um destes coitados que durante anos tem sido condenados e executados previamente pela mídia e na mídia pode e deve usar a tática de ruptura de Jacques Vergès (http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Verg%C3%A8s ) na Tribuna do STF. Em primeiro lugar deveria fazer uma leitura de fragmentos relevantes dos livros OS CABEÇAS DE PLANILHA e A PRIVATARIA TUCANA para forçar o STF e a platéia jornalística a reconhecer que os escandalos narrados e documentados nestes dois livros são semelhantes ou tem a mesma origem (os desmandos do Estado brasileiro e o patrimonialismo de quem o controla ou disputa seu controle) que o Mensalão mas nem todos os suspeitos ou criminosos foram ou estão sendo levados a julgamento. Justiça e rigor tem que ser para todos (tucanos, petistas e seus comparsas), não para alguns (petistas e aliados).

Uma outra coisa a ser feita seria denunciar de maneira espalhafatosa a tentativa de vários órgãos de comunicação de colocar a população contra o STF forçando uma condenação muito desejada pela própria mídia. Neste caso uma decisão tomada pelo STF seria nula em razão da falta de isenção da Corte.

Mais importante, o defensor pode e deve atacar de maneira virulenta o acusador exigindo do Procurador Geral da República que denuncie todos os políticos, jornalistas e empresários de comunicação que conspiram para subtrair a autoridade e a isenção dos Ministros do STF ao arrepio da Constituição, do Código de Processo Penal e do próprio Código Penal.

A imprensa tem mostrado diariamente que quer transformar o julgamento do Mensalão num show. Então cabe a defesa desconstruir o show montado pela mídia (com aquiescência de alguns Ministros do STF, Gilmar Mendes por exemplo) e providenciar outro show ainda mais espetacular. Afinal como afirma Jacques Derrida sobre a desconstrução e a tática da ruptura de Jacques Vergès:

“A fascinação admirativa exercida sobre o povo pela ‘figura do grande criminoso’ (die Gestalt des ‘grossen’ Verbrechers) assim se explica: não é alguém que cometeu determinado crime, pelo qual experimentaríamos uma secreta admiração; é alguém que, desafiando a lei, põe a nu a violência da própria ordem jurídica. Poderíamos explicar da mesma maneira o fascínio que exerce, na França, um advogado como Jacques Vergès, que defende as causas mais insustentáveis, praticando o que ele chama de ‘estratégia de ruptura’: contestação radical da ordem dada pela lei, da autoridade judicial e, finalmente, da legitimidade da autoridade do Estado que faz seus clientes comparecerem diante da lei. Autoridade judicial diante da qual, em suma, o réu comparece então sem comparecer, só comparece para testemunhar (sem testemunhar) sua oposição á lei que o faz comparecer. Pela voz de seu advogado, o réu pretende ter o direito de contestar a ordem do direito – por vezes, a identificação das vítimas.” (FORÇA DE LEI, Coleção Tópicos, Jacques Derrida, martins fontes,  2007, p. 78/79).

Que autoridade tem o STF para condenar os réus do Mensalão se todos aqueles que cometeram os crimes narrados nos livros OS CABEÇAS DE PLANILHA e A PRIVATARIA TUCANAS sequer foram levados a julgamento pelos seus atos? Como pode o Tribunal exercer sua autoridade se a mesma tem sido limitada pela mídia que exige a condenação destes réus e ajudou a manter impunes os possíveis réus dos escandalos de OS CABEÇAS DE PLANILHA e A PRIVATARIA TUCANAS? Qualquer que seja a decisão do STF ela não será justa, porque a Justiça ou se aplica a todos ou não pode ser aplicada a ninguém.”

http://www.brasil.indymedia.org/en/green/2012/08/510278.shtml

Todos os advogados dos réus do Mensalão, sem exceção, optaram por fazer defesas extremamente técnicas. Alguns deles, além de fazer referência à doutrina e ao texto da Lei, fizeram questão de citar jurisprudências do próprio STF. O resultado foi uma verdadeira tragédia. Todos os réus foram condenados com argumentos estapafúrdios: condeno porque o réu não fez prova de sua inocência, Luiz Fux; condeno porque a literatura me permite, Rosa Weber; condeno com base na teoria do domínio do fato mesmo inexistindo prova da ordem para cometer crimes, Joaquim Barbosa; condeno porque é possível presumir que o presidente do PT e o Chefe da Casa Civil tinham conhecimento dos crimes cometidos, vários Ministros…

Apesar da inexistência de indícios de provas (ou justamente por causa deste fato) Lula tem sido massacrado por Inquéritos Policiais e ações criminais. Os advogados dele são muito competentes e parecem também ter optado por uma defesa técnica em Juízo e política fora dele. O texto abaixo evidencia a nova estratégia:

http://jornalggn.com.br/noticia/midia-diz-que-advogados-de-lula-radicalizam-mas-esconde-abusos-e-erros-de-sergio-moro

Preocupados com o resultado do Mensalão, os advogados de Lula usam os espaços que dispõe na mídia alternativa para discorrer sobre Lawfare https://pt.wikipedia.org/wiki/Lawfare. Um livro sobre o caso Lula foi publicado, entrevistas foram dadas a jornalistas do calibre de Luis Nassif.

Vendo tudo como mero advogado expectador, creio que talvez as coisas tivessem seguido outro rumo se durante o Mensalão os advogados dos réus tivessem adotado a tática da ruptura de Jacques Vergès. O desmascaramento do espetáculo através de outro espetáculo em Juízo certamente teria causado um impacto imenso inibindo novas investidas judiciárias contra os líderes de esquerda. Os advogados de Lula são ousados e extremamente competentes. Mas eles insistem em ser técnicos diante de juízes e Tribunais que há quase uma década jogaram a técnica na lata do lixo ao se colocarem como partes na guerra de classes contra o PT.

No Twitter, o jornalista Noblat afirmou que Lula será condenado. Antes dele eu mesmo já havia levantado esta possibilidade aqui no GGN http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/a-devassa-da-lava-jato. Os advogados de Lula resolveram processar Noblat. Não sei se isto surtirá algum efeito.  Ao fim e ao cabo, Lula pode acabar como Garotinho justamente porque os defensores do ex-presidente não deram um espetáculo espalhafatoso em Juízo para desmascarar os garotinhos do Judiciário brasileiro http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/os-garotinhos-na-sociedade-do-espetaculo. A conferir.

 

“Nada mais justo…”

Do Luiz Nassif

por Cintia Alvez

Testemunha admitiu que corretores espalhavam boatos de que Lula era o dono do apartamento no Guarujá para alavancar as vendas, mesmo não tendo nenhum documento provando a compra.

Jornal GGN – O ex-zelador do Condomínio Solaris José Afonso Pinheiro admitiu o ao juiz Sergio Moro que usava os boatos de que Lula era o dono de um apartamento triplex – que a Lava Jato afirma ter sido pagamento de propina da OAS – para tentar ganhar a eleição para vereador em Santos, em outubro passado.

Pinheiro foi demitido do Condomínio em abril de 2016, quando o caso envolvendo o ex-presidente da República passou para as mãos da Lava Jato. Exaltado por conta da “crise” e se dizendo prejudicado pelo escândalo, o ex-zelador se exaltou com a defesa de Lula quando passou a ser questionado sobre como entrou para a política. Ele foi convidado a se filiar ao PP e adotou em sua campanha o slogan “Afonso do Triplex”.

“Eu perdi meu emprego, perdi a minha moradia, e aí você vem querer me acusar, falar alguma coisa contra mim? Como é que você sustentaria a sua família? Você nunca passou por isso! Quem é você para falar alguma coisa contra mim? Vocês são um bando de lixo! Isso que vocês são. O que vocês estão fazendo, fizeram com nosso país, isso é coisa de lixo!”, disparou a testemunha.

Moro disse, então, que respeitava a opinião de Pinheiro, mas pediu um pouco mais de “calma” e objetividade nas respostas.

O advogado Cristiano Zanin Martins retomou o interrogatório, tentando produzir provas de que Pinheiro não é uma testemunha que tenha compromisso com a verdade, uma vez que tem interesse em explorar politicamente o caso envolvendo Lula.

Quando Zanin perguntou se nas conversas com o PP, já teria ficado acertado que o triplex seria citado na campanha, Pinheiro respondeu. “Nada mais justo. Eu era o afetado, eu que fui prejudicado. Nada mais justo que usar o triplex como outros candidatos usam outro nome qualquer. Nada mais justo que as pessoas saberem que eu era o zelador do triplex.”

Zanin tentou obter mais detalhes sobre atuação política de Pinheiro, mas Moro interrompeu a audiência e ameaçou indeferir as perguntas: “Tá uma linha um pouco ofensiva mesmo e acho que a testemunha já respondeu. Qual a relevância disso?”, indagou. O advogado de Lula não quis explicar qual a estratégia da defesa e reafirmou seu direito de deixar as perguntas registradas.

Moro impediu que o ex-zelador respondesse as seguintes perguntas: quem apoiou para o cargo de prefeito de Santos em 2016; na campanha, fez referências ou discursos citando Lula; participava de coligações políticas de oposição ao PT?

O juiz da Lava Jato disse que, de seu ponto de vista, a defesa de Lula estava “sugerindo que a testemunha está mentindo em juízo por causa da campanha eleitoral. É ofensivo!”

Mais à frente, Pinheiro disse que Marisa Letícia visitou o triplex no Guarujá se comportando como se fosse proprietária, e não apenas interessada no imóvel. “Eu tenho mais de 20 anos de experiência como zelador e você percebe quando a pessoa se apresenta como proprietária ou alugante. Eu não sou ignorante.”

Zanin rebateu: “Você viu documento que prova que Lula era dono?”

O procurador da Lava Jato tentou impedir a resposta: “Ele já disse que [Marisa] se comportava como dona. Essa pergunta era irrelevante!”

Moro permitiu a resposta, e Pinheiro admiti: “Não, não vi documento.”

A testemunha também admitiu que corretores “falavam verbalmente, sem documentos”, que Lula era dono do apartamento 164-A para tentar alavancar as vendas no Condomínio. “Não me deram [explicações] e eu nunca perguntei [por que faziam isso], nunca me interessei por esses detalhes”, disse o ex-zelador.

Em outra situação, o procurador também quis impedir que a testemunha respondesse que recebeu orientação para não dizer que Lula era dono do triplex, pois estava em nome da OAS.

Ao final, Moro reiterou que Pinheiro não estava sendo acusado de nada e “lamentou” que ele tenha perdido o emprego ou que tenha sido “ofendido” pelo advogado de Lula.

Quando a audiência estava encerrada, foi possível ouvir uma voz questionar Moro se ele também não lamentava que a defesa de Lula tenha sido desrespeitada durante a oitiva, ao que o juiz respondeu que não, porque o advogado escolheu adotar uma linha ofensiva. Para Moro, inclusive, chamar a defesa de “lixo” foi apenas “um pouco de excesso da testemunha”.

Assista aqui

 

Leis da ditadura ainda valem para o governo golpista

Do Luiz Nassif

Governo usou lei da ditadura para prender 88 por “inconformismo político” com Temer

Polícia do Distrito Federal só recuou de também usar a Lei de Segurança Nacional para indiciar 88 pessoas por atuação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Todos os detidos estão soltos, mas vão responder por depredação, de acordo com o Código de Processo Penal

Jornal GGN – Uma operação das forças de segurança no Distrito Federal para reprimir protestos contra a aprovação da PEC do Teto dos Gastos, e outras reformas impopulares encampadas pelo governo Temer, acabou com 88 manifestantes presos, na noite de terça (13), com base na Lei de Segurança Nacional. Editada durante o regime militar, a norma só deveria ser acionada, segundo juristas, em casos de extrema necessidade, como risco à vida de autoridades de alto escalão ou à soberania nacional.

Em entrevista ao GGN, nesta quarta (14), o deputado Padre João (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, informou que a Polícia Civil do Distrito Federal admitiu que usou a Lei 7170/83 para encarcerar os manifestantes.

O artigo 20 diz que é “crime contra a segurança nacional, a ordem política e social devastar, saquear, extorquir, roubar, sequestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas.” A pena gira em torno de três a 10 anos de reclusão.

O artigo já foi usado por alguns governos estaduais e pela Polícia Federal durante protestos de junho de 2013, para deter a depredação organizada por grupos adeptos da tática black bloc. Mas especialistas em Direito alegam que o Código do Processo Penal, que prevê penas de multa e até seis meses de reclusão, seria o recomendável quando as prisões ocorrem em meio a manifestações de teor político.

Relatos de lideranças que organizaram os atos no DF indicam que os manifestantes foram presos de maneira arbitrária e coletiva. Segundo Padre João, uma comissão de parlamentares visitou o local para fiscalizar a ação da Polícia junto aos 88 presos e identificou que eles foram, inicialmente, enquadrados na LNS e proibidos de consultar um advogado.

“Como estavam todos nos corredores, mais de 60 jovens ali, e eles [policiais] tinham de colocar [os manifestantes] para dentro das celas, essa então foi essa justificativa. Pelo menos, a princípio, houve sim esse enquadramento coletivo, para eles se resguardarem no sentido da custódia desses jovens.”

O deputado disse que foi necessário fazer um apelo aos delegados para que os manifestantes tivessem preservado o direito constitucional à ampla defesa e para que não fossem indiciados com base numa lei ditatorial.

“Isso foi dito a um dos advogados pelos policiais antes de chegarmos ao local, que eles [advogados] que fossem procurar a Justiça, porque ali dentro [da delegacia], eles [delegados] que mandavam. Então combinamos o procedimento durante as oitivas, com acompanhamento dos advogados, e pedimos uma reconsideração do uso da Lei de Segurança Nacional, que é uma lei de 1983, usada num momento de regime de exceção. A essa altura, aplicar uma lei da ditadura não está bem”, disse Padre João.

Nesta quarta, os manifestantes foram colocados em liberdade, mas devem ser indiciados pela Polícia Civil do Distrito Federal por danos materiais, com base no Código do Processo Penal.

“O que a gente tem denunciado, e formalizamos isso ao governador [Rollemberg], é que esse aparato repressivo que está sendo montado seja revisto. Até porque, quando os manifestantes chegam de verde e amarelo, não há repressão nenhuma. Agora quando há quem se oponha ao desmonte que vem sendo feito por Temer – como ocorreu em atos pelo pré-sal, contra a reforma do ensino médio, agora contra a PEC 55 e ainda virá com a reforma da previdência – toda manifestação tem esse aparato conjugado entre governo federal e estadual, impedindo um direito assegurado na Constituição, que é o direito à livre manifestação.”

Para Padre João, os manifestantes contrários à PEC 55 – que vai congelar investimentos em saúde e educação por 20 anos – deveriam ter sido tão bem acolhidos e protegidos pelos policiais quanto foram os manifestantes pró-impeachment. Ao contrário disso, sequer foram autorizados a se aproximar da Esplanada.

Segundo o parlamentar, é preciso, ainda, “retomar o diálogo com as lideranças que foram presos no sentido de que passar para toda a sociedade de que eles estão prestando um serviço à Nação, diferente daqueles que estão presos em casa, em frente à televisão, acomodadas enquanto o Estado é desmontado. Não podemos deixar que isso passe como uma intimidação.“

Em nota à imprensa, a Secretaria de Segurança Pública do DF disse que está preparada para atuar contra “distúrbios sociais” como o que foi visto ontem, e não descarta fazer uso novamente da Lei de Segurança Nacional.

 

Dom Paulo Evaristo Arns, presente!

Do Luiz Nassif

Jornal GGN – Morreu, em São Paulo, o Arcebispo emérito Dom Paulo Evaristo Arns. Dom Paulo, que estava com 95 anos e completou 50 anos de bispado, estava internado desde o dia 28 de novembro no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, por problemas decorrentes de uma broncopneumonia.

Dom Odilo Scherer, da Arquidiocese de São Paulo, fez o comunicado da morte de Dom Paulo. A nota enfatiza os 76 anos de consagração religiosa, 71 anos de sacerdócio ministerial, 50 anos de episcopado e 43 anos de cardinalato. Mais importante, a nota lembra o engajamento corajoso de D. Paulo na defesa da dignidade humana e dos direitos inalienáveis de cada pessoa.

Dom Paulo foi ordenado sacerdote em 1945, logo depois foi estudar na Sorbonne, em Paris, onde completou letras, pedagogia e defendeu seu doutorado. Entre 1960 e 1970 realizou seus trabalhos na Zona Norte de São Paulo, dedicando-se aos trabalhos voltados para a população de baixa renda.

Na vida, Dom Paulo foi jornalista, professor e escritor, tendo publicado 57 livros.

Durante o período negro da ditadura militar, ele travou sua luta mais dura em defesa dos direitos humanos, contra as torturas e a favor das Diretas Já. Em 1971 denunciou a prisão e tortura de dois agentes de pastoral, o padre Giulio Vicini e a assistente social Yara Spadini. Neste ano fez a defesa de Dom Hélder Câmara e de Dom Waldyr Calheiros, pressionados que estavam pelo regime militar.

A Comissão Justiça e Paz de São Paulo foi criada por ele em 1972, quando era presidente regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na ocasião, tomou a frente com a publicação de “Testemunho da paz”, um documento com críticas ao regime militar.

Na Catedral da Sé, realizou celebrações corajosas em memória de vítimas da ditadura militar. Em 1973 fez em honra de Alexandre Vannucchi Leme, estudante universitário e, em 1975, por honra de Vladimir Herzog, jornalista assassinado no DOI-CODI.

Em 1977 movimentou-se contra a invasão da PUC, comandada pelo coronel Erasmo Dias, quando secretário de Segurança de São Paulo. E atuou também em favor das vítimas da ditadura na Argentina. Adolfo Perez Esquivel, Nobel da Paz em 1980, disse que, por duas vezes, Dom Paulo o salvou durante a ditadura no Brasil.

Ele foi o grande responsável pela preservação da nossa história, facultando e apoiando o importante projeto de denúncia dos desfeitos da ditadura, o projeto Brasil Nunca Mais.

Dom Paulo foi a voz de milhares de pessoas em vários momentos da história do país. E será lembrado com orgulho e carinho por seus feitos. Dom Paulo, presente!