O fenômeno José Serra – parte II

Do Intercept Brasil

por João Filho

EU NÃO QUERIA ter que voltar a falar sobre José Serra e as relações ocultas do tucanato com a Odebrecht. Não quero ser repetitivo nem parecer obcecado pelo chanceler como Paulo Henrique Amorim, mas a apatia dos principais veículos de imprensa me obrigam a dedicar este espaço novamente para o assunto.

Em 14 agosto, afirmei que notícias ruins sobre o Serra são como vídeos do snapchat: duram 24 horas e somem. Permitam-me o momento cabotino: eu estava certíssimo. Naquela época, a Folha de S. Paulo noticiou que executivos da Odebrecht diriam em delação que a campanha de José Serra em 2010 recebeu ilegalmente R$23 milhões. Surpreendentemente, a notícia teve grande destaque no jornal, com direito à manchete de capa. Mas, assim como a funcionária fantasma que Serra contratou para seu gabinete, evaporou no dia seguinte. Sexta passada, porém, após 3 meses na escuridão, ela ressurgiu das cinzas e voltou para a capa da Folha. É a mesma notícia de agosto, mas com um adendo: executivos da Odebrecht afirmaram ter pago parte do caixa 2 para Serra numa conta na Suíça. Um deles, Pedro Novis, é “amigo de longa data” do ministro e chegou a ser seu vizinho. Nas planilhas da empreiteira, Serra era identificado como “careca” e “vizinho”.

No dia seguinte, a notícia não teve desdobramentos no jornal, apenas uma nota minúscula e envergonhada no fundão da página A5, cujo título era “Governo Temer silencia sobre acusação a Serra”. Nos dias seguintes, porém, quem silenciou foi a Folha, e o padrão snapchat se repetiu. Durante o resto da semana também. O script foi cumprido.

Nas redes sociais, algumas pessoas lembraram o tratamento diferenciado que o chanceler e seu partido costumam ter nas manchetes:

Em sua defesa, a Folha pode dizer que, diferentemente da Andrade Gutierrez, a delação da Odebrecht não revelou a existência de nenhuma contrapartida, o que, portanto, não configuraria propina. Isso seria verdade se a própria Folha não tivesse apurado em agosto que houve “propina paga a intermediários de Serra no período em que ele foi governador de São Paulo (de 2007 a 2010) vinculados à construção do trecho sul do Rodoanel Mário Covas.” São as sutilezas da corrupção. Em um tempo em que políticos se mobilizam para conceder anistia a quem cometeu caixa 2, é importante que se faça essa diferenciação dos termos, não é mesmo?

O UOL, portal associado à Folha, manteve durante toda a manhã da sexta-feira a notícia como principal destaque da home. À tarde, ela se apequenou e foi para o rodapé. No dia seguinte sumiu e até hoje não foi mais vista. Novamente, seguiu-se o padrão.

A BandNews, a Record e o SBT foram as únicas emissoras de TV a darem um pouco mais de atenção ao assunto. Com destaque para a Record, que dedicou quase 2 minutos – uma eternidade perto das outras – para falar do escândalo do ministro.

O Grupo Globo não gastou tinta nem com uma notinha de rodapé. O único vulto que se viu foi na coluna de Matheus Leitão, que dedicou dois parágrafos sobre o assunto num post em que faz um resumo das principais notícias dos jornais. O Jornal Nacional, que sempre repercute a manchete de capa do maior jornal do país, dessa vez não dedicou nem um milissegundo na edição de sexta-feira (28/10), nem no sábado, nem em nenhuma edição no decorrer da semana. Teve até matéria mostrando um recado que bancos suíços estão mandando para correntistas brasileiros, mas nenhuma menção à conta tucana na Suíça.

Os outros veículos do grupo também silenciaram. Parece que para o Grupo Globo, essa grave acusação contra o atual ministro das relações Exteriores não é de interesse público. Até a lista de compras de supermercado da Dilma pareceu mais relevante para o jornalismo global. O Globo informou ao Brasil detalhes de uma listinha de compras para o lanche da tarde. “Três salsichas, 100g de mussarela e uma tapioca” de uma ex-presidenta têm mais relevância jornalística para O Globo do que uma empreiteira financiando ilegalmente um ministro que representa o país no exterior. É incrível, mas até o Hipster da Federal e o Dr. Cuca Beludo tiveram mais espaço nas organizações Globo que a caixinha do Serra na Suíça.

Nosso chanceler publicou nota oficial negando tudo e, assim como no caso da funcionária que assombrava seu gabinete, nunca mais foi incomodado com o assunto. Mas o que mais me impressiona é que nenhum dos nossos combatentes jornalistas, na era da cruzada contra a corrupção, teve a curiosidade de saber o que pensa o presidente do PSDB sobre o caso.

A campanha presidencial do partido de 2010 está no olho do furacão do escândalo, mas ninguém considerou pertinente ir atrás da palavra do seu presidente. Apesar de andar sumido, Aécio é senador, todos sabem onde encontrá-lo, não há mistério. Só mesmo o Sensacionalista poderia dar essa manchete:  “Equipe de jornalistas que esperava pronunciamento de Aécio sobre Serra e Odebrecht desiste e vai pra casa”. Toda aquela voracidade para denunciar a corrupção na política parece ter murchado, tal qual o Pato da Fiesp – cujo presidente, diga-se de passagem, também está sendo acusado por Duda Mendonça de ter usado a Odebrecht via caixa 2 para pagar seus serviços.

O próprio Aécio nunca desfrutou de tamanha simpatia da mídia. Suas contas secretas em Liechtenstein, por exemplo, foram objeto de longa reportagem da revista Época, da editora Globo. O fato logo em seguida caiu no esquecimento, é verdade, mas pelo menos houve um certo aprofundamento no assunto. Henrique Alves, ex-ministro do Turismo de Temer, caiu após ser acusado de receber R$1,55 milhão de propina da Transpetro. Serra é acusado de receber 12 vezes mais e continua inabalável no cargo. Não temos, como de costume, colunistas pressionando pela sua saída nem editoriais indignados. É ou não é um fenômeno?

A cobertura da política brasileira tem se pautado pela escandalização da corrupção. Cabe perguntar se há mesmo uma genuína preocupação com a ética nas relações políticas ou se  isso varia conforme o personagem envolvido e os interesses dos empresários de mídia. De qualquer forma, prometo ficar um tempo sem falar sobre o nosso fenômeno. Semana que vem, quem sabe, talvez eu traga uma entrevista com Dr. Cuca Beludo para falar sobre a dieta sem glúten da Dilma –  revelada no vazamento da lista de supermercado publicada pela Globo.

Foto de cima: Serra, “meio grogue”, após ser atingido na cabeça por um objeto na campanha presidencial em 2010.

Gilmar Mauro: “Mandado de prisão foi pretexto para invadir escola do MST”

Da Carta Capital

por Miguel Martins

Segundo o dirigente, dez viaturas da Polícia Civil se deslocaram para a instituição, à procura de uma única mulher, que não estava no local

Gilmar Mauro
“Fiquei sensibilizado com o grande número de mensagens de apoio”, diz Gilmar Mauro

Parecia uma cena de guerra. Agentes fortemente armados, com fuzis, escopetas e coletes balísticos, prontos para neutralizar o inimigo. As imagens, captadas por câmeras de um circuito interno de segurança, mostram o exato momento em que a Polícia Civil de São Paulo invadiu, na manhã desta sexta-feira 4, a Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Guararema, no interior de São Paulo. Em outros vídeos, gravados por celulares, policiais são flagrados efetuando disparos no chão.

Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, estava no local no momento da chegada dos agentes. Segundo ele, dez viaturas da Polícia Civil chegaram à escola, sem a presença de um oficial de Justiça, para cumprir o mandato de prisão de uma mulher do Paraná. “Parece-me um mero pretexto para entrar aqui, sem autorização judicial. Estamos vivendo um Estado de exceção“.

CartaCapital: O que aconteceu exatamente?
Gilmar Mauro: Eles chegaram com um mandado de prisão, assinado por um juiz, contra uma mulher do Paraná. Mostraram o documento no celular. Pedimos ao menos uma cópia em papel, e eles entregaram. Mas não havia informação alguma. Era só o pedido de prisão dessa pessoa, do Paraná. Dissemos que ela não se encontrava no local, que aqui funciona uma escola. Eles decidiram entrar à força. Casualmente, eu estava aqui, para participar de um seminário.

CC: Houve disparos de arma de fogo?
GM: Sim. Quando os policiais entraram, nosso pessoal se aproximou. Eles ficaram afobados, começaram a efetuar disparos no solo. Como tem muita pedra por aqui, a possibilidade de um estilhaço atingir alguém era significativa. Dá para ver os buracos no chão da escola. Recolhemos algumas cápsulas e projéteis. Criou-se um alvoroço muito grande. Aqui tem muita criança, há uma creche, a Ciranda Infantil, além de pessoas que estão fazendo curso aqui.

CC: Algum militante do MST foi detido?
GM: Sim, dois. Um deles é um senhor que trabalha aqui como voluntário, inclusive ele tem problemas de saúde, e acabou com uma costela fraturada. Está no pronto-socorro nesse momento. A outra pessoa foi tentar argumentar com os policiais, dizer que ele é uma pessoa doente, sofre de mal de Parkinson, a acabou sendo detida também. Foram detidos por desacato, esse foi o argumento deles.

CC: A Polícia Civil do Paraná afirma que a operação foi deflagrada para desbaratar uma quadrilha, com integrantes do MST envolvidos.
GM: Muito bem, então poderia ter vindo um oficial de Justiça, dois ou três policiais, coisa do tipo. Não foi o que ocorreu. Vieram para a escola mais de dez viaturas da Polícia Civil. Havia um plano de entrar nas dependências da escola, independentemente do mandado de prisão dessa pessoa, que nem se encontra aqui. Não tem nenhuma relação das prisões no Paraná com a Escola Nacional Florestan Fernandes. Parece-me um mero pretexto para entrar aqui, sem autorização judicial. Estamos vivendo um Estado de exceção.

CC: Por que o senhor chegou a esta conclusão?
GM: Basta ver a violência, como estão sendo tratados os estudantes que ocupam escolas. Não se respeita os procedimentos legais, o amplo direito à defesa… O que ocorreu hoje aqui está ocorrendo no Brasil inteiro. É a implantação de um Estado de exceção, que busca criminalizar os movimentos sociais. Esse é o clima que a sociedade está vivendo e precisamos enfrentar. Apesar de tudo, fiquei sensibilizado com o grande número de mensagens de apoio de artistas e de personalidades públicas contra essa arbitrariedade.

 

Movimento secundarista (2)

Da Carta Capital

A ocupação das escolas e a falta de habilidade do Judiciário

por Justificando*
A infindável sequência de arbitrariedades perpetradas por policiais, promotores e juízes desnuda a herança autoritária da ditadura

 

Ocupação em Brasília
Ocupação de uma escola em Brasília em ato contra reforma do ensino médio

Por Fernanda Valente

Até o momento, 1.197 escolas estão ocupadas em todo o país de acordo com o levantamento da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas(UBES). O movimento, que se popularizou como “Primavera Secundarista”, com o lema “Ocupar e resistir”, tem unido milhares de alunos da rede pública que se posicionam por motivos em comum: eles são contra a PEC 241, que irá cortar os investimentos na educação, tal como a Medida Provisória do Ensino Médio, a MP 746, que visa reformular o ensino, e a Lei da Mordaça ou Escola sem Partido.

O Paraná conta com 843 escolas ocupadas. Na semana passada (26), o discurso da estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, surpreendeu os deputados paranaenses na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e viralizou mundialmente, chegando a ser compartilhado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e virando pauta para a revista americana Forbes. No discurso (veja aqui), a Ana Júlia mostrou a legitimidade nas ocupações, defendendo que os alunos aprenderam mais sobre política e cidadania nas escolas tomadas do que em suas escolas no padrão antigo. Além disso, a estudante afirmou que o movimento não tem incentivo político. “A nossa única bandeira é a educação e é apartidária”, disse.

No entanto, desde que as ocupações começaram, a atuação violenta e desenfreada de promotores, juízes e policiais está gerando críticas.

Na última semana, mais de 20 alunos que ocupavam um colégio em Miracema do Tocantins foram retirados do local pela Polícia Militar, após a atuação do promotor de Justiça Vilmar Ferreira de Oliveira, o qual foi aos portões da escola ameaçar e determinar a prisão dos secundaristas. Vilmar foi bem sucedido, afinal, os estudantes não só foram presos como também foram algemados, como ficou explícito em fotos que circularam nacionalmente. Os estudantes apenas foram soltos após a atuação da Defensoria Pública do Estado.

O jornalista da Folha de S. Paulo, Elio Gaspari lembrou em sua coluna de domingo que tal ação ocorreu na mesma semana em que o presidente do Senado, Renan Calheiros, chamou um magistrado de “juizeco”. Gaspari criticou o governo [de Michel Temer] ao dizer que “os mecanismos de protesto e manipulação que resultaram na ocupação das escolas foram disparados pela bagunça dos adultos poderosos de Brasília“. E ainda provocou dizendo que “nem durante a ditadura aconteciam coisas assim“.

Em Londrina, o promotor de Justiça, Marcelo Briso Machado, que atua na Vara da Infância e Juventude, foi vaiado por alunos após discursar na Câmara em uma audiência pública taxando as ocupações escolares como “invasões”. Briso também as comparou com “biqueiras” de droga.

Quando o desconhecimento e alienação política são levadas às práticas institucionais ocorrem episódios como o da última sexta, 28, quando o Ministério Público Federal de Goiás instaurou uma investigação para apurar o que chamou de “invasões” da Universidade Federal do Estado. O responsável pela ação foi o Procurador Ailton Benedito, que, dias mais tarde, revelaria-se muito semelhante ao colega do Tocantins:

Post

A cereja do bolo até o momento foi colocada pelo magistrado do Distrito Federal, Alex Costa de Oliveira. O Juiz da Vara de Infância e Juventude foi além de todos ao determinar, a pedido do Ministério Público, a desocupação de um colégio, uma vez que autorizou o emprego de métodos torturantes na ação da polícia militar.

Entre as técnicas de interrogatório estavam isolamento físico, privação de sono e corte de água e energia. Segundo o juiz, as técnicas servirão “como forma de auxiliar no convencimento à desocupação”, a cargo da Polícia Militar.

Entidades declaram apoio aos secundaristas

Na contramão da falta de competência em lidar com o tema, ontem (31), a AJD (Associação dos Juízes para a Democracia) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgaram nota de apoio aos secundaristas e demonstraram preocupação com a forma como as ocupações estão sendo tratadas no país.

Para a AJD, trata-se de exercício de liberdade de expressão para atrair a atenção do Estado e da sociedade à questão. Leia a nota na íntegra.

O Unicef afirmou em nota que “é imprescindível o diálogo dos gestores das políticas de educação com os estudantes em todas as questões que impactam a Educação“. Além disso, afirmaram que cabo ao Estado preservar a integridade de cada pessoa.

* Artigo publicado originalmente no site Justificando.

Movimento secundarista (1)

Da Carta Capital

Sob pressão da Justiça, secundaristas completam um mês de ocupações nas escolas

Multa e até técnicas de tortura são usadas por magistrados para tentar sufocar um movimento que tem como bandeira a educação pública.

Estudantes ocupam Núcleo de Educação de Curitiba
Estudantes são cercados por PMs no Núcleo de Educação de Curitiba

Contrários a duas das principais medidas anunciadas pelo governo Michel Temer recentemente, os estudantes secundaristas completaram, nesta quinta-feira (3), um mês do início das ocupações de escolas públicas pelo País. Até a semana passada, registrava-se mais de mil escolas sob o comando dos estudantes. Mas uma semana depois, e 30 dias desde a primeira ocupação, o movimento secundarista é sufocado por decisões de reintegração de posse da Justiça brasileira, com direito até a técnicas de tortura.

Embrião do movimento, o Paraná é o foco da maior parte das reintegrações de posse. A pedido da Procuradoria-Geral do Estado, a Justiça determinou ontem a desocupação de 45 colégios apenas em Curitba. Entre eles está o Colégio Estadual do Paraná (CEP), maior e mais simbólico do Estado.

Esse é a segunda decisão envolve escolas da capital paranaense nos últimos dias. Um outro despacho, da juíza Patrícia de Almeida Gomes Bergonse, da 5ª Vara de Fazenda Pública, determinava que os estudantes deixassem 25 colégios imediatamente e de forma voluntária, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. Um alto valor para estudantes que, muitas vezes, são de famílias de baixa renda.

O mesmo aconteceu em outras partes do Estado. Em São José dos Pinhas, cidade vizinha à Curitiba, foram autorizadas desocupação em 13 escolas. Em Cascavel, no interior do Paraná, os estudantes deverão deixar outros 31 colégios nos próximos dias. A estratégia capitaneada pelo governo Beto Richa (PSDB-PR) produziu efeitos e várias unidades foram liberadas, de forma espontânea, pelos secundaristas nos últimos dias. De acordo com integrantes do movimento, cerca de 300 escolas ainda estariam sob o controle dos estudantes no Paraná. Já segundo a Secretaria de Educação do Paraná, esse número está em torno de 140.

Para pressionar o governo, estudantes chegaram a ocupar ainda, na última segunda-feira (31), o prédio do Núcleo Reginal de Educação de Curitiba.  Segundo relatos do grupo Advogados e Advogadas pela Democracia, que auxilia os estudantes, a Polícia Militar teria cortado os fornecimento de água, energia elétrica e alimentação. O argumento é que a corporação não iria “negociar com mascarados”. Os secundaristas acabaram deixando o local após uma acordo.

Esse tipo de tática também foi utilizada, com autorização de um juiz de Direito, em Brasília. No último dia 30 de outubro, a Justiça do Distrito Federal autorizou a Polícia Militar a utilizar privação de sono, restrição de alimentos, energia e gás de cozinha para forçar a desocupação do Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab), em Taguatinga Sul. Em sua decisão, o juiz Alex Costa de Oliveira instruiu a PM a utilizar “instrumentos sonoros contínuos, direcionados ao local da ocupação para impedir o período de sono”, mesmo diante da possibilidade de haver menores de idade na escola. Outra sugestão do magistrado foi restringir a entrada de alimentos, além de corte de água, energia e gás. Os estudantes desocuparam a escola no dia seguinte.

Mas há ainda resistência em outras unidades da federação. No Espírito Santo, o número de escolas ocupadas saltou, nos últimos dias, para quase 60 unidades. Já em Minas Gerais, cerca de 90 escolas estaria sob controle dos adolescentes como forma de protesto. No Distrito Federal, a Universidade de Brasília (UnB) foi ocupada como forma de apoio ao protesto.

Em várias das decisões judiciais contra os estudantes, os magistrados argumentam que as ocupações seriam ilegais e abusivas porque feririam o direito da maioria que deseja trabalhar e estudar. Mas o movimento de ocupações escolares é muito mais complexo do que as canetadas da Justiça brasileira fazem parecer.

Ana Julia Ribeiro

No dia 26 de outubro, esse movimento ganhou um rosto e um discurso que ajudam a entender o que pensam os secundaristas do Paraná e do Brasil. A estudante Ana Julia Ribeiro, de 16 anos, subiu ao Plenário da Assembleia Legislativa do Paraná para falar aos deputados sobre as ocupações nas escolas do Estado. (veja o vídeo aqui)

“De quem é a escola? A quem a escola pertence?”, questionou os parlamentares com a voz ainda embargada ao citar o inciso 6º, do artigo 16, da lei 8.069. “Acredito que todos aqui já saibam a resposta. E é com a confiança de que vocês conhecem essa resposta que eu falo sobre a legitimidade desse movimento”, emendou. A legislação de 1990, mencionada pela estudante, garante à criança e ao adolescente o direito de participar da vida política.

A partir dessa pergunta, diante de dezenas de políticos paranaenses, alguns incomodados, ela explicou de forma dura e sensível, alternadamente, como a educação era a única bandeira de um movimento apartidário.

“Eu convido vocês a participar das nossas ocupações, a nos visitar, a nos conhecer de perto”, disse aos deputados. “É um insulto a nós que estamos lá, nos dedicando, procurando motivação todos os dias, sermos chamados de doutrinados. […] Não estamos lá pra fazer baderna, não estamos de brincadeira, a gente está lá porque acredita no futuro do nosso País. […] O movimento estudantil nos trouxe mais conhecimento de política e cidadania do que todo tempo que estivemos sentados e enfileirados em aulas padrões”.

Poucas horas após a participação na Assembleia, o vídeo com o depoimento de Ana começou a se alastrar nas redes sociais. No dia seguinte, já tinha mais de um milhão de visualizações em apenas uma das postagens no Facebook.

Como a estudante explica aos deputados, o movimento de ocupação de escolas públicas começou em 3 de outubro, no Paraná, por conta da MP 746, publicada pelo governo Michel Temer em setembro, que impôs uma reforma no ensino médio sem que os pontos fossem debatidos com a sociedade brasileira.

Início do movimento

As primeiras ocupações, que serviriam de embrião ao movimento, aconteceram justamente em escolas localizadas em regiões periféricas. A primeira delas foi no Colégio Estadual Padre Arnaldo Jansen, que fica em um bairro de São José dos Pinhais.

“A gente se reuniu no shopping com uma galera de vários colégios para falar da MP. A partir disso, marcamos uma reunião na praça, aqui de São José dos Pinhais, e criei um evento no Facebook. Foram 400 pessoas. Vieram secundaristas até de Curitiba”, explica Mariana da Silva Gomiela, de 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio no Jansen.

Para saber como entrar nas escolas e permanecer em forma de protesto, a estudante conta que leu um manual, que reúne dicas de estudantes chilenos e argentinos sobre o assunto. O documento foi produzido a partir da experiência do movimento secundarista no Chile em 2011. “A gente saiu pelas ruas em protesto, mas a gente sabe que passeata não dá mais em nada no Brasil. Então deliberamos sobre ocupar os colégios”, complementa.

Atendente de telemarketing antes do início das ocupações, e por conta do movimento, ela acabou perdendo o emprego, Mariana vê a questão do ensino em tempo integral como o principal obstáculo para os estudantes mais pobres. “A reforma do ensino médio prevê aula em tempo integral. Isso é irreal porque muitos dos alunos de escola pública, principalmente, trabalham por necessidade, para ajudar a família ter o que comer”, afirma. “E mesmo assim muitos deles já deixam a escola. Se for aula integral, ele vai optar por trabalhar em vez de estudar”, conta.

A partir da primeira ocupação, os secundaristas de outros colégios começaram a levar o debate para suas escolas e outras unidades foram ocupadas em São José dos Pinhais. Em dois dias, o movimento chegou à Curitiba, alcançou mais de 20 escolas e se alastrou pelo Paraná. Nesse meio tempo, os estudantes ganharam mais uma razão para o levante: a aprovação da PEC 241. No dia 11 de outubro, a proposta que congela os gastos primários pelos próximos 20 anos, como saúde e educação, passou em primeiro turno na Câmara dos Deputados, com 366 votos. Com isso, surgiram os primeiros cartazes e faixas contra a proposta nas grades e portões das escolas ocupadas.

A onda chegou à Minas Gerais, Estado que possui a segunda maior quantidade de escolas ocupadas. Os secundaristas mineiros chegaram a ocupar mais de 60 escolas nas primeiras semanss de outurbro, sendo a maioria na região de Uberlândia. Na sequência, foram registrados movimentos semelhantes em estados como Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo. No total, 19 estados e o Distrito Federal já tiveram escolas ocupadas.

Em São Paulo, a maioria das intervenções foi feita em institutos federais. Nas duas tentativas de ocupação de escolas estaduais, rapidamente, a Polícia Militar, a mando do governador Geraldo Alckmin, reprimiu o movimento. O Estado foi palco de grande mobilização dos secundaristas no ano passado, quando os estudantes conseguiram evitar que o governo tucano fechasse algumas escolas, na chamada “reorganização escolar”. Esse movimento foi uma das inspirações para as primeiras ocupações no Paraná.

Assim como estado sulista, uma parte considerável dos secundaristas paulistas vinham de regiões periféricas ou de famílias de baixa renda. Na época, uma pesquisa feita por professores da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo, junto a uma passeata dos estudantes do ensino médio, mostrou que 46% deles tinham renda familiar de no máximo até três salários-mínimos e 33,6% eram negros ou pardos.

“Há a educação formal, com aulas de química, física, matemática, que não dialoga mais com o jovem, e este não suporta mais ficar somente sentado escutando, e há uma educação informal, que o jovem tem pela internet, grupos, rede social, fora da escola. Por isso, mesmo com a escola sucateada, o jovem está se politizando”, opina a professora Esther Solano (Unifesp), que estuda manifestações. E acrescenta: “Talvez ele não tenha uma boa aula de química, mas vai para as manifestações, conversa em grupos, tem todo uma rede informal de educação que não passa mais pela escola”.

Embrião das ocupações

Como mais de 80% das escolas ocupadas estavam no Paraná e a mídia ignorou o movimento nacionalmente, o debate se tornou mais intenso na capital paranaense e em cidades do interior do Estado. Logo virou assunto também das eleições em Curitiba, onde Ney Leprevost (PSD) e Rafael Greca (PMN) disputavam a prefeitura em segundo turno. Vencedor do pleito, Greca conta com o apoio do governador do Estado.

Quando o movimento ainda era tímido, Beto Richa disse que os estudantes estavam sendo usados por políticos do PT e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e iniciou a ofensiva por meio de diversos pedidos de reintegração de posse. Debochou: “uma perfeita doutrinação”. Não imaginava que a afirmação seria respondida por Ana Júlia Ribeiro, na própria Assembleia Legislativa, quase um mês depois.

Assim que o movimento se espalhou pelas cidades do Paraná, o governador mudou o discurso. Pela imprensa, garantiu aos estudantes que não aplicaria a reforma do ensino médio no Estado antes de um amplo debate. O governo federal entrou, então, em cena. O ministro da Educação, Mendonça Filho, chegou a dizer há algumas semanas que cancelaria o Exame Nacional do Ensino Médio nas escolas ocupadas, caso os protestos continuassem.

Uma semana após essa afirmação, um estudante foi morto dentro de uma das escolas ocupadas. Lucas Eduardo Araújo Mota, de 16 anos, morreu após ser esfaqueado na região do tórax e pescoço por um amigo de infância, de 17 anos. Ambos participavam da ocupação no Colégio Estadual Santa Felicidade, em Curitiba. Estudantes ouvidos pela Polícia Militar afirmam que os dois chegaram à escola com comportamento estranho e um deles, quando questionado, teria assumido que os dois usaram uma droga psicodélica mais cedo.

A tragédia despertou, na ocasião, a ira dos que classificam as ocupações como “badernas” e acusam os estudantes de depredar os locais de ensino, usar drogas e praticar sexo. E agora o mesmo argumento é usado por magistrados para determinar as reintegrações de posse.

Além de alvos do governo do Estado e de uma parcela de professores ou diretores de colégios, os estudantes secundaristas parecem estar no meio da polarização que tomou conta do País. No Paraná, os secundaristas relatam que rojões ou pedras são usados contra as escolas durante a noite. Alguns atribuem os ataques aos movimentos de direitaque intensificaram suas ações no estado após o crescimento das ocupações.

Os estudantes reclamando ainda dos líderes de movimentos estudantis de esquerda, ligados a partidos políticos tradicionais, que costumam entrar nas ocupações para colocar bandeiras ou passar palavras de ordem. Esse tipo de imposição gerou rejeição às principais uniões estudantis. Muitos colégios não têm sequer a bandeira da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

“Chegou um líder da União Paraense dos Estudantes Secundaristas (UPES) aqui, tirou uma foto dele na ocupação e cinco minutos depois foi embora porque tinha que viajar. Nem ajudar a carregar as coisas, ele ajudou”, diz uma secundarista que prefere não se identificar.

Nas visitas em que fez aos colégios ocupados, CartaCapital encontrou um cenário bem distinto do descrito pela Procuradoria-Geral do Paraná ou em grupos de Facebook que são críticos às ocupações. Muitos colégios colocam, como condição para a entrada, uma revista dos pertences pessoais de alunos, pais e professores. Mais do que isso, os estudantes adotaram escalas e divisão de tarefas. Todos reproduzem um sistema parecido. Os ocupantes dividem-se em comissões de comunicação, segurança e cozinha, entre outras. Cada qual fica responsável por atividades de uma área.

 Além disso, em todos as ocupações, há cartazes com os horários estabelecidos para limpeza, almoço, jantar e horário de dormir. Os estudantes também dividiram as salas em dormitórios masculinos e femininos. Muitos pais passam a noite na ocupação com seus filhos e ajudam nas atividades de limpeza, cozinha ou segurança.

 “Uma grande parte da sociedade, ainda que aceite que a educação deve melhorar, coloca a ordem pública acima de tudo. As escolas estão rompendo com essa ordem. Mas eles querem uma escola diferente. Não querem mais essas escolas tradicionais”, afirma Esther.

Mas essa organização interna nas ocupações não impediu que o Ministério Público, e atéconselheiros tutelares, também se empenhado contra a o movimento. Em Miracema de Tocantins (TO), cerca de 20 estudantes da Escola Dona Filomena Moreira de Paula foramretirados à força de uma das escolas e levados algemados à delegacia com o aval de um promotor.

Ameaças também foram registradas em escolas do interior do Paraná, onde promotores estariam preparando ações civis contra os jovens. “Parecia haver promotores tentando identificar alguns dos estudantes”, explica a advogada Tânia Mandarino, do grupo Advogados e Advogadas pela Democracia.

Apesar disso, parte dos estudantes ainda quer continuar com o movimento. Umsecundarista do 3º ano do ensino médio, que está em uma das escolas fechadas de São José dos Pinhais e prefere não se identificar, conta que trabalha como porteiro em um clube de classe média da cidade. Recebe pouco mais de 600 reais por mês e não é registrado.

“Todo mundo do ensino médio aqui nessa escola trabalha. Se eu estivesse no 1º ou no 2º ano, com essa MP de educação integral, eu já teria saído da escola. Não é porque vou terminar o curso que não vou lutar, é o direito do meu irmão, da minha família. Em vez de aumentar os gastos com educação, querem cortar o que já não tem?”

*Colaborou Ingrid Matuoka