“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”

Do VioMundo

publicado em 24 de abril de 2015 às 20:08

CAMPEONATO PAULISTA 2015: SANTOS FC X SÃO PAULO FC

Na Vila Belmiro, o protesto. Vai ter camisa do Santos com o símbolo da Record?

“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”

por Ester Rabello, especial para o Viomundo

É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido o bordão que dá título a esse artigo, gritado em manifestações de rua, comícios e outros tipos de aglomeração, como no discurso de vitória de Dilma Roussef, quando a presidente eleita teve que se calar enquanto ouvia o desabafo.

Em meio a outras palavras de ordem, sempre sai o clássico “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Nos dias de hoje, muitas vezes a frase vem junto com outra: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”.

Neste ano em que a Globo completa meio século, as manifestações contra a emissora, fundada um ano após o golpe militar de 1964, estão acontecendo com maior intensidade. No 3 de março houve protestos em algumas capitais, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Vitória. Em nenhum deles havia mais que 500 pessoas, mas o barulho acabou sendo grande nas redes sociais.

— Sempre quis enterrar a Globo, desde criancinha, afirmou uma manifestante fantasiada de viúva, ao lado de uma caixão de papelão com o logo da emissora.

Na concentração diante da sede do império global, no Jardim Botânico, organizada pelo Sindipetro, o Sindicato dos Petroleiros, ficaram claros os motivos do protesto: a cobertura desequilibrada da Operação Lava Jato, a sonegação de impostos da Globo e a conivência com a ditadura militar…

A maioria dos manifestantes era de pessoas com mais de 50 anos de idade. Reclamavam da falta de cobertura da emissora à campanha das Diretas, nos anos 80, algo que os jovens de hoje não vivenciaram.

Este “choque de gerações” pode até levar quem tenha nascido nos anos 90 a acreditar que o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” seja coisa recente.

Se perguntarmos a um jovem na faixa entre 20 e 30 anos de onde vem a frase contra a emissora, talvez ele responda como Daniella Teixeira, 22 anos, que participou das manifestações de junho de 2013 na cidade de Guiratinga, em Mato Grosso:

— Olha, não posso afirmar com certeza, mas ela [a frase] estava sempre presente nas caminhadas, talvez como resposta ao enfoque que a Globo dava, como se fossem todos baderneiros. O povo não é bobo, mas a massa é manipulável, muita gente vai só no oba oba e o povo percebeu que havia muita manipulação da informação, mostrando só um lado da notícia. Os jovens percebiam a manipulação da imprensa, que taxava todo mundo de vândalo. Aqui, por exemplo, o movimento foi pacífico.

Na cidade da artesã, que faz decalques de unha para vender pela internet, as manifestações foram contra desde o gasto de 1 milhão de reais para tapar um buraco na rodovia, até o corte de uma árvore antiga. Sobre a frase relativa à Globo, Daniella acha que ela nasceu em 2013.

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Mas se você perguntar ao deputado federal Vicentinho (PT-SP), um dos líderes das greves do ABC, ele diz que lembra muito bem da primeira vez que ouviu o grito contra a emissora dos irmãos Marinho. Foi em São Bernardo do Campo, numa das assembleias de metalúrgicos grevistas, no final dos anos 70, no estádio da Vila Euclides.

— Sempre gritavam. Nós tínhamos boas relações com os jornalistas. O foco era a Globo. A gente lotava o estádio e a Globo minimizava, sempre diminuindo a quantidade de pessoas. Tinha gente da direita infiltrada na greve, gente que fazia quebra-quebra. A gente pegava, denunciava e a Globo não dava [noticiava].

Vicentinho lembra de ajudar a proteger repórteres da emissora para que não apanhassem dos grevistas.

— A gente ficava em volta deles e o Lula gritando, “gente, eles são trabalhadores, uma coisa é a empresa, outra são os jornalistas”.

Ricardo Kotscho, ex-secretário de imprensa do governo Lula, era repórter da revista IstoÉ na época. Viu várias vezes metalúrgicos chutando os carros de reportagem da Globo, desde a época em que as assembleias ainda eram feitas nas ruas de São Bernardo.

Cobrindo as assembleias naquela época, Kotscho recorda:

— Eles [equipes da emissora] iam cobrir, mas depois a Globo mostrava só um registro.

Os gritos de “fora Rede Globo, o povo não é bobo” continuaram ao longo dos anos 80. Por exemplo, na campanha das “Diretas Já” e no movimento pelo impeachment do presidente Fernando Collor.

— Menos na [manifestação] de março, agora. Nessa, a Globo não só apoiou, como apoiou de forma ostensiva, aponta Kotscho.

O jornalista Osvaldo Maneschy, um dos assessores de Leonel Brizola, está no PDT desde os anos 80.

Afirma que ouviu pela primeira vez uma multidão gritando “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” na Cinelândia, em 1986, em um comício de campanha do então vice-governador do Rio, Darcy Ribeiro, que disputava o Palácio Guanabara contra o candidato preferido da Globo, Moreira Franco.

Ele acredita que a fúria contra a Globo começou, entre os militantes do PDT, por causa da artilharia pesada da imprensa na época, com matérias negativas contra o governo de Leonel Brizola, o que gerou mais tarde um direito de resposta do gaúcho no Jornal Nacional.

— A Globo é a pauteira. Depois [o assunto] sai no [jornal] Globo do dia seguinte, no fim de semana na Veja e assim vai…

Foi o caso, segundo Maneschy, das notícias que acusavam Brizola de ter feito acordo com traficantes de drogas.

Para Fernando Brito, assessor de Brizola, a Globo fez uma péssima cobertura já da chegada dos exilados políticos. Mas, segundo ele, foi o “caso Proconsult” que levou ao primeiro enfrentamento do povão com a emissora. Durante a primeira eleição direta para governador do Rio, em 1982, a Globo foi acusada por Brizola de tentar manipular o resultado das apurações, o que a emissora sempre negou

— Até então, quem sabia que a Globo era a favor da ditadura eram os analistas políticos, não era algo de domínio da rua.

Brito lembra também do movimento “Diretas Já”, que durou quase um ano e reuniu, no seu ápice, 1 milhão de pessoas no comício da Candelária, no Rio de Janeiro, e 1,5 milhão no Anhangabaú, em São Paulo.

— A Globo só cobriu três comícios, sentencia.

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Fernando Borges, jornalista recém formado na UERJ, cobriu as manifestações de 2013 para a plataforma internacional de notícias “Blasting News”.

Segundo ele, várias equipes de grandes emissoras de televisão (Band, SBT e Record) foram hostilizadas com o uso do bordão criado contra a Globo.

— A imprensa ficou estigmatizada, afirma Borges, que também viu gente gritando “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, frases que ele considera “bem ultrapassadas”.

Ultrapassadas ou não, os gritos de “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” também foram ouvidos nas passeatas de protesto contra a morte do garoto Eduardo, de 10 anos, no Morro do Alemão, há menos de um mês.

E um novo grito parece estar surgindo nos estádios de futebol.

Revoltados com o pequeno número de jogos transmitidos pela Globo — que, segundo eles, privilegia o Corinthians –, torcedores do Santos levaram faixas de protesto à Vila Belmiro na semifinal do Campeonato Paulista, dia 18 último. Depois que o Santos fez 2 a 0 no São Paulo, passaram a gritar em coro o “chupa, Rede Globo, o nosso Santos vai ser campeão de novo”.

Com o Santos classificado para a final, torcedores do clube fazem campanha nas redes sociais para que a equipe entre em campo com o símbolo da TV Record no peito. Detalhe: os dois jogos serão transmitidos pela Globo. Seria a repetição do que aconteceu em 2001, na final contra o São Caetano, no Rio, quando Eurico Miranda, presidente do Vasco, colocou o logotipo do SBT nas camisas do clube para protestar contra a Globo.

Independentemente de o Santos atender ou não a seus torcedores, as finais contra o Palmeiras tem tudo para serem tão interessantes nas arquibancadas quanto no gramado.

Globo e as idas e vindas frente ao golpe – Vamos descomemorar

Do VioMundo

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por Luiz Carlos Azenha

O locutor anuncia que a Globo, ao comemorar seus 50 anos, vai mostrar “cenas de novelas proibidas pela ditadura”. Existe aí um avanço: a Globo chamou a ditadura de “ditadura”. É muito diferente dos antigos programas do repórter Amaral Neto — também conhecido como Amoral Nato –, se não me engano aos domingos de manhã.

Neles, ao longo do que agora se tornou “ditadura”, o “governo” fazia milagres — propagados para todo o Brasil pela Globo.

Não faz muito tempo as Organizações Globo admitiram que foi um erro apoiar o golpe de 64. Mais recentemente, no Jornal Nacional, admitiram que na cobertura da campanha das Diretas, nos anos 80, a emissora enfatizou o aniversário de São Paulo num dia em que milhares de pessoas se reuniram na praça da Sé para pedir eleições diretas para presidente.

Sobre o episódio, escrevi no Facebook parafraseando a atriz Kate Lyra, que popularizou a frase fazendo humor na própria Globo:

BRASILEIRO É TÃO BONZINHO…

Os telespectadores do Jornal Nacional estão se desmanchando pelo fato de que a Globo fez mea culpa sobre o episódio das Diretas, admitindo que enfatizou o aniversário de São Paulo quando se tratava de uma gigantesca manifestação por eleições. As pessoas acham lindo quando repórteres com os quais desfrutam de uma intimidade televisiva de décadas recontam a História da emissora com toques de sinceridade, como este. O fato é que por baixo da forma atraente se esconde, de novo, uma grande mentira. O problema não foi APENAS a Globo ter chamado a manifestação das Diretas em São Paulo falando do aniversário da cidade. O fato PRINCIPAL é que a Globo desconheceu completamente todos os comícios anteriores, com milhares de pessoas em várias cidades do Brasil. Isso não é um “erro”, mas um crime jornalístico pelo qual a emissora deveria pedir desculpas sinceras aos telespectadores. Mas, circunscrever os fatos históricos, para vender deles a versão mais palatável para a emissora, na Globo tornou-se uma forma de arte. Não deixa de ser outra forma de manipulação de incautos.

Pois é disso que se trata. A contrição marqueteira da Globo permite à emissora apresentar o “outro lado”, segundo o qual ela foi vítima da ditadura. Na censura às novelas, por exemplo.

Isso permite encobrir o essencial e historicamente verdadeiro: houve uma simbiose entre a Globo e a ditadura militar. Roberto Marinho foi promotor e beneficiário da ditadura. Ainda em 1984, ou seja, mais de 20 anos depois do golpe, escreveu:

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Mas a Globo aposta na desinformação dos mais jovens, que não viveram sob a ditadura, nem acompanharam pessoalmente o comportamento da Globo ao longo da História.

A eles, dedico minhas lembranças dos anos 60 e 70, em Bauru, no interior de São Paulo.

Era o tempo em que a Globo ainda estava em expansão. As imagens da emissora não chegavam a todo o Brasil via satélite. Um coronel do Exército, se não me engano de nome Amazonas, era o encarregado de implantar as torres rebatedoras que transmitiam o sinal da Globo cidade a cidade.

Havia clamor público, na época, por um sinal limpo de TV, já que era irritante ver fantasmas ou as imagens tremidas que nos chegavam, quando chegavam. Era comum que prefeitos da época se propusessem a resolver o problema, em busca de votos.

Havia outras emissoras, mas o sinal da Globo era o mais desejado. A emissora tinha herdado boa parte do elenco da Excelsior, cujo dono Mário Wallace Simonsen vinha sendo escorraçado pelos militares, por não ter apoiado o golpe tanto quanto Marinho.

Era projeto do “governo” — segundo a Globo, que hoje chama de “ditadura” –, por uma questão de segurança nacional, interligar todo o Brasil numa única rede de telecomunicações. E a Globo vinha na esteira da Embratel, a empresa estatal.

Como funcionava o esquema? As prefeituras doavam terrenos, num primeiro momento à Embratel. As torres eram espetadas com dinheiro público. Mas o sinal que carregavam era privado! Foi assim o parto de um telejornal de alcance nacional, o JN!

Já então, um caso de apropriação do público pelo privado. Um caso de simbiose entre um regime e um empresário, que em troca ofereceu uma cobertura jornalística amigável à ditadura, com programas como o de Amaral Neto.

Essa é uma História que a Globo não vai contar em seu especial de 50 anos.