Os resultados da dubiedade do PMDB no RJ

 

Da Rede Brasil Atual

 

Governistas ‘rebeldes’ tentam emplacar o tucano na chapa peemedebista, mas crescimento de Dilma, que está na frente nas pesquisas no Rio, murcha movimento de ruptura com o PT

 

Rio de Janeiro – Candidato a vice na chapa do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) que disputa o Governo do Rio de Janeiro e coordenador da campanha de seu primo Aécio Neves (PSDB) à Presidência da República no estado, o senador Francisco Dornelles (PP) tem sido nos últimos dias correia de transmissão para a mútua insatisfação que contaminou tucanos e peemedebistas após a falta de resultados do movimento denominado “Aezão”.

Segundo informações passadas por integrantes da campanha de Pezão, a relação entre os dois partidos azedou de vez após a baixa participação do PMDB na caminhada realizada por Aécio domingo (19) na orla do Rio, ato que contou, segundo a Polícia Militar, com cerca de quatro mil pessoas.

Principal ponto das críticas feitas por Aécio na conversa com o primo, que teria sido travada depois do ato na orla, a postura dúbia em relação à disputa presidencial se tornou este ano a marca do PMDB fluminense, já que oficialmente o partido declarou apoio a Dilma Rousseff (PT). Sempre dividido, o PMDB ainda conseguiu ajudar Aécio no primeiro turno, quando os candidatos à Câmara dos Deputados ou à Assembleia Legislativa (Alerj) ainda estavam na disputa. Já no segundo turno, sem a massa de candidatos a deputado e com Pezão sempre ao lado de Dilma e nunca ao seu, Aécio acabou mesmo ficando sem palanque no Rio.

No início da campanha, tendo como pretexto a decisão do PT de lançar candidato próprio ao governo estadual, a direção do PMDB, com o presidente regional Jorge Picciani à frente, estimulou o “Aezão”, ao mesmo tempo em que Pezão e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, se declaravam alinhados a Dilma.

Com a ascensão de Marina Silva (PSB) e o declínio de Aécio, o movimento murchou, mas voltou com força total depois que o tucano passou ao segundo turno. Nesta última semana de campanha, no entanto, praticamente não se ouve mais falar da aliança branca entre o PMDB e o PSDB, ao passo em que Pezão, que disputa o segundo turno contra o senador Marcelo Crivella (PRB), grudou na candidata petista em suas recentes visitas ao Rio.

Dois dias depois da confirmação do resultado do primeiro turno, em meio ao clima de euforia que tomou conta dos tucanos, uma reunião que teve a participação do ex-governador Sérgio Cabral, além de Pezão, Paes, Picciani, Dornelles e Paulo Melo, presidente da Assembleia Legislativa, traçou “os rumos da vitória de Aécio no Rio”, como definiu um dos presentes.

Sem disfarçar mais o apoio, Cabral indicou o secretário Wilson Carlos, um de seus homens de confiança, para acompanhar as ações promovidas pelo “Aezão”. Na estratégia definida, caberia a Picciani coordenar apoios e eventos em grandes bolsões de voto como São Gonçalo, Baixada Fluminense e Zona Oeste: “Ninguém abandonou o barco”, resumiu o presidente do PMDB-RJ à saída da reunião.

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Pezão prometeu fidelidade a Dilma, apesar de divisões dentro do PMDB do Rio, e deixa campanha fortalecido neste aspecto

 

Na prática, no entanto, Aécio jamais conseguiu penetrar nas áreas mais carentes do estado durante todo o segundo turno, não restando a ele alternativa senão “pregar para convertidos” em Copacabana e Ipanema. Com isso, o candidato tucano parece ter prejudicado sua intenção de “herdar 90% dos votos da Marina no Rio”, como prometeu, já que as pesquisas de opinião feitas nos últimos dias registram crescimento de Dilma entre os eleitores fluminenses, sobretudo nas áreas mais carentes. Essa lacuna na comunicação com os eleitores poderia ter sido corrigida com uma ampla distribuição de material de campanha, mas este foi escasso, e panfletos unindo Aécio e Pezão se tornaram peças raras no Rio de Janeiro.

 

Efeito sanfona

Enquanto o movimento “Aezão” sofria com seu efeito sanfona, Luiz Fernando Pezão, assim como Eduardo Paes, se manteve irremovível no apoio declarado a Dilma: “Tenho o maior orgulho de poder dizer que nesta campanha trabalhei todos os dias, de manhã até a noite, para reeleger a presidenta Dilma, que é minha grande amiga e grande amiga do povo do Rio de Janeiro”, disse o governador durante carreata realizada segunda-feira (20) no bairro de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio.

Já Cabral permanece submerso, após ter deixado o governo em abril com índice de rejeição superior a 70%. Instado pelo PMDB a desistir de disputar o Senado por conta das dificuldades que teria para se eleger, o ex-governador abriu mão de sua candidatura em favor do ex-desafeto Cesar Maia (DEM), em uma engenharia política feita durante a formação do “Aezão”. Para não atrapalhar Pezão, Cabral só apareceu uma única vez em sua propaganda gratuita na televisão. Nas raríssimas vezes em que apareceu em público, como no dia da votação do primeiro turno, se valeu do mantra repetido nos últimos meses: “O candidato é o Pezão. Quem tinha que ficar conhecido era o Pezão.”

 

Por que a Veja apelou destemperadamente desta vez

 

Do Luiz Nassif

 

A ULTIMA TACADA DE FÁBIO BARBOSA E DA EDITORA ABRIL

 

O amigo liga em pânico: “A imprensa vai acabar com a democracia no Brasil”. Respondo: “É a democracia que vai acabar com a imprensa e implantar o jornalismo”.

A aventura irresponsável de Veja – recorrendo a uma matéria provavelmente falsa para pedir o impeachment de um presidente da República – não se deve a receios de bolivarianos armados invadindo a Esplanada. Ela está sendo derrotada pelo mercado, pelo fato de que, pela primeira vez na história, a Internet trouxe o mercado para o setor fechado, derrubando as barreiras de entrada que permitiram a sobrevida de um jornalismo anacrônico, subdesenvolvido, a parte do país que mais se assemelha a uma republiqueta latino-americana.

É um caso único, de uma publicação que se aliou a uma organização criminosa – de Carlinhos Cachoeira – e continuou impune, fora do alcance do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

A capa de Veja não surpreende. Há muito a revista abandonou qualquer veleidade de jornalismo.

Acusa a presidente da República Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de conhecerem os esquemas Petrobras com base no seguinte trecho, de uma suposta confissão do doleiro Alberto Yousseff:

– O Planalto sabia de tudo – disse Youssef.

– Mas quem no Planalto? – perguntou o delegado.

– Lula e Dilma – respondeu o doleiro.

Era blefe.

Na sequência, a reportagem diz:

“O doleiro não apresentou – e nem lhe foram pedidas – provas do que disse. Por enquanto, nesta fase do processo, o que mais interessa aos delegados é ter certeza de que o depoente atuou diretamente ou pelo menos presenciou ilegalidades”.

Na primeira fase da delação premiada tem-se o criminoso falando o que quer. Enquanto não apresentar provas, a declaração não terá o menor valor. E Veja tem a fama de colocar o que quer nas declarações de fontes.

Ligado ao PSDB do Paraná, o advogado de Yousseff desmentiu as informações. Mas não se sabe ainda qual é o seu jogo.

 

As apostas erradas da Abril

Golbery do Couto e Silva dizia que a mentira tem mais valor que a verdade. A verdade é monótona, tem uma só leitura. Já a mentira traz um enorme conjunto de informações a serem pesquisadas, as intenções do mentiroso, a maneira como a mentira foi montada.

Daí a importância da capa de Veja: permitir desvendar o que está por trás da mentira.

A primeira peça do jogo é entender a posição atual do Grupo Abril.

Apostas de altíssimo risco só são bancadas em momentos de altíssimo desespero. A tacada da Veja torna quase irresistível a proposta de regulação da mídia e de repor as defesas do cidadão que foram suprimidas pelo ex-Ministrio Ayres Britto, ao revogar a Lei de Imprensa.

Qual a razão de tanto desespero nessa aposta furada?

A explicação começa alguns anos atrás.

No mercado de mídia, o futuro acenava para o advento da Internet e da TV a cabo e para o fim das revistas e do papel. As apostas da Abril foram sempre na direção errada.

Ela montou um dos primeiros portais brasileiros, o BOL, que posteriormente fundiu-se com a UOL. Graças à sua influência política, conseguiu frequências de UHF e canais de TV a cabo.

A editora endividou-se e, para tapar buracos, Civita foi se desfazendo de todas as joias da coroa. Passou os 50% que detinha na UOL para a Folha – por um valor insignificante; vendeu a TV A para a Telefonica.  Associou-se ao grupo sul-africano Naspers, em uma operação confusa, visando burlar o limite de 30% para capital estrangeiro em grupos de mídia, previstos na lei.

Não parou por aí.

Adquiriu duas editoras – a Atica e a Scipionne –, que dependem fundamentalmente de compras públicas, confiando no poder de persuasão dos seus vendedores junto à rede escolar. A decisão do MEC (Ministério da Educação) de colocar todos os livros em uma publicação única, para escolha dos professores, eliminou sua vantagem comparativa.

Aí decidiu investir em cursos apostilados para prefeituras, um território pantanoso. Finalmente, “descobriu” o caminho das pedras, passando a direcionar todas suas energias para a área de educação.

 

Para tanto, criou uma nova empresa, a Abril Educação, colocou debaixo dela as editoras e os cursos e contratou um executivo ambicioso, Manoel Amorim,  que aumentou exponencialmente o endividamento do grupo, para adquirir cursos e escolas. Foi uma sucessão de compras extremamente onerosas, que deixaram o grupo em má situação financeira. A solução foi vender parte do capital para um grupo estrangeiro. Nem isso resolveu sua situação.

No ano passado, em conversa com especialistas do setor de mídia, Gianca Civita, o primogênito, já antecipava que a editora iria ser reduzida a meia dúzia de revistas e à Veja. Colocara à venda suas concessões de UHF e esperava que algum pastor eletrônico se habilitasse.

 

O cartel da jabuticaba

A editora viu-se depauperada em duas frentes. Uma, a própria decadência do mercado de revistas; outra, a descapitalização ainda maior para financiar a aventura educacional da Abril.

Além disso, foi vítima do maior tiro no pé da história da mídia brasileira: o “cartel da jabuticaba”.

Um cartel tradicional consiste em um pacto comercial entre competidores visando aumentar os preços e os ganhos de todos. O “cartel da jabuticaba” brasileiro foi uma peça genial (da Globo) em que todos se uniram contra a distribuição de parte ínfima da publicidade pública para a imprensa regional e para a Internet.

Alcançaram seu intento, mas não levaram o butim. A Internet não cresceu mas o resultado foi uma enorme concentração de verbas na TV aberta — e, dentro dela, na TV Globo.

Poucos meses atrás, o próprio João Roberto Marinho – um dos herdeiros da Globo – manifestava a interlocutores sua preocupação com a concentração da mídia. A Globo jogou em seu favor, óbvio; mas não contava com o despreparo das demais empresas sequer para entender onde estavam seus interesses.

Quando o faturamento do papel minguou, todos pularam para a Internet. Mas a piscina estava vazia graças às pressões que eles próprios fizeram sobre a Secom e as agências.

Hoje em dia, o mercado de TV a cabo passou a disputar acirradamente as verbas publicitárias. Se indagar de um executivo do setor se a disputa é com as revistas e jornais, ele dará de ombros: a imprensa escrita não tem mais a menor relevância; a disputa é com a TV aberta.

 

A bala de prata de Fábio Barbosa

É esse quadro de crise nas duas frentes que explica a bala de prata de Fábio Barbosa.

Nos últimos meses, Fábio Barbosa contratou o INDG, de Vicente Falconi, para um trabalho de redução de custos da Abril, paralelamente à própria redução da Abril..

Falconi constatou o que o Blog já levantara alguns anos atrás: a estrutura de Veja era superdimensionada para o conteúdo semanal.

Na época, montei um quadro com todas as reportagens de uma edição, estimei o tempo-hora de cada repórter e editor e, no final, mostrava que seria possível entregar o mesmo conteúdo com um terço da redação.

Com metodologia muito mais gerencial, Falconi chegou às mesmas conclusões, resultando daí a demissão de várias pessoas em cargos-chave – inclusive Otávio Cabral, repórter das missões sensíveis da revista, que acabou indo trabalhar na campanha de Aécio.

Apenas amenizou um pouco a queda. Com as duas frentes comprometidas, a Abril entrou em uma sinuca de bico.

Com a morte de Roberto Civita, começou a enfrentar dificuldades crescentes para renovar os financiamentos. Desde o início do ano, os herdeiros de Roberto Civita estão buscando compradores para a outra metade da Abril Educação.

Antes disso, desde o ano passado, decidiram sair definitivamente da área editorial. Mas a legislação não permite à Naspers ampliar sua participação na editora. E, se não teve nenhum corte de verba oficial para suas publicações, por outro lado a Abril jamais encontrou espaço no governo Dilma para acertos e grandes negócios, como uma mudança na legislação sobre capital estrangeiro na mídia..

É nesse quadro dramático, que o presidente do grupo, Fábio Barbosa, tenta a última tacada, apostando todas as fichas em Aécio.

 

A última chance

A carreira anterior de Barbosa foi no mercado bancário. Foi sucessivamente presidente do ABN Amro, depois do ABN-Real, quando o banco holandês adquiriu o Real; depois do Santander, quando o banco espanhol adquiriu os dois.

 

No ABN e no Santander foi responsável por uma das maiores operações imobiliárias do mercado. No ABN participou do empréstimo de R$ 380 milhões para a WTorres adquirir o esqueleto da Eletropaulo, na marginal Pinheiros. Seis meses depois, a companhia não tinha mais recursos para quitar o financiamento. Entregou parte do capital aos credores.

Em 2008, ainda na condição de presidente indicado para o Santander, Fábio anunciou a aquisição da torre pelo banco por R$ 1 bilhão. “A aquisição desse imóvel é um marco e demonstra a determinação do Santander em investir para que tenhamos um Banco cada vez mais forte e competitivo”, afirma ele. (http://migre.me/ms7aW).

Atuou no início e no final da operação, assessorado por seu homem de confiança, José Berenguer Neto.

Em pouco tempo começaram a pipocar os problemas da WTorre. Atrasou a entrega da sede do Santander, que ingressou em juízo com pedido de indenização de R$ 135 milhões. A dívida fez com que a WTorre desistisse de lançar ações na Bolsa de São Paulo.

Em outubro de 2010 a obra continuava causando transtorno, sem ser entregue (http://migre.me/ms7Pc)

Em agosto de 2011, Fabio saiu do Santander. O clima azedou quando a direção se deu conta dos problemas criados. O presidente mundial Emilio Botin colocou um homem de confiança como espécie de interventor, levando Fabio a se demitir. Junto com ele saiu José Berenguer Neto, que assumiu um cargo na Gávea Investimentos, para atuar na área imobiliária.

Na época, executivos do banco ouvidos pela imprensa disseram que no ABN Fabio tinha plena liberdade; no Santander, não mais. Fabio deixou o banco sendo elogiado pelo sucessor.

O episódio não causou tanto estardalhaço quanto a tentativa de Barbosa, no comando da Veja, de tentar um golpe de Estado armado com um 3 de paus.

 

 

Desespero. VEJA: a gente já sabia de tudo. – Artigo

 

Da Rede Brasil Atual

 

Revista semanal volta a praticar seu jornalismo desqualificado na tentativa de eleger seu candidato e deixa no ar prenúncio de articulação para desestabilizar possível novo governo Dilma

 

por Flávio Aguiar

 

Ora, ora: no fundo não há novidade na capa de Veja para este fim de semana eleitoral, acusando a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de “já saberem de tudo”, com base em denúncias sem provas de um criminoso.

A gente já sabia que Veja iria tentar algo assim, com doleiro ou sem doleiro, com denúncia ou sem denúncia, algo baseado na presunção de que o inimigo é sempre culpado, com ou sem provas, com credibilidade das denúncias ou sem etc.

Travou-se intensa conspirata jornalística durante esta semana para tirar o PSDB do foco das denúncias do doleiro e concentrar todo o fogo sempre no PT e agora na presidenta Dilma e, inevitavelmente, em Lula.

Neste fim de semana, a direita brasileira e seus arautos estão dormindo com um pesadelo, que pode ser chamado de 12 + 12. São 12 anos em que seu apetite pelo Planalto ficou à míngua. Para o imaginário da direita, a possibilidade de uma vitória da presidenta Dilma Rousseff no domingo representa mais doze anos de seca, pois para ela (a direita) isto significaria a inevitável volta do “intragável” Lula em 2018 e sua reeleição em 2022.

É verdade que falta ainda combinar com Lula, que declarou que, se depender dele, não será candidato. Mas para este tipo de direita isto não conta. Ela não aceita ser contrariada, nem mesmo em suas fantasias negativas.

E Veja hoje, além de ser um poço de mau jornalismo, é a vanguarda do jornalismo marrom no Brasil. Uma curiosidade: a origem mais aceita para a expressão “imprensa marrom” no Brasil é de que se trata de uma adaptação da expressão yellow press, termo corrente para a imprensa sensacionalista e até chantagista nos Estados Unidos. “Amarela”, que seria a tradução literal de “yellow”, não pegou. Dizem alguns porque seria uma cor alegre, identificada com a bandeira nacional, com a cor da camiseta da seleção etc. Já marrom seria uma cor que lembra excremento. Há outras versões para a expressão, mas esta é a mais aceita. E Veja faz jus a ela.

A gente já sabia, portanto, que a revista semanal cometeria algo deste tipo. Não surpreende.

Veja também é conhecida por grandes “barrigas” – jargão para erros grosseiros de jornalismo. Como aquele de ter saído saudando a queda do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, quando este já estava de volta ao Palácio Presidencial de Miraflores, reconduzido ao poder por um contragolpe fulminante e popular.

A capa de Veja, aliada aos dois pedidos de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, protocolados  pelo advogado Luís Carlos Crema ao findar esta semana, mostram o caminho que a direita pretende trilhar, caso a presidenta seja reeleita. Lembram a famosa frase de Carlos Lacerda sobre Vargas:

“O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.”

“Revolução”, no nosso vocabulário político então corrente, significava simplesmente “movimento armado”, no caso, um golpe militar. Hoje, como não há mais golpes militares no nosso horizonte, o que a direita pode almejar é um golpe a la Paraguai ou Honduras, uma destituição “legal” que impeça o seu pesadelo de se realizar.

Quer dizer: a capa de Veja tem dois alvos simultâneos: a eleição deste domingo e um golpe posterior, o impeachment já sinalizado pelos pedidos de Crema, caso o candidato da direita não consiga vencer.

Portanto, não há nada de novo sob o sol nem sob a chuva. Vindo da Veja, é o que a gente podia esperar.

 

“Veja e seus cúmplices terão respostas nas urnas e na Justiça”

 

Da Rede Brasil Atual

 

Presidenta usa parte de seu último programa de TV para condenar matéria ‘criminosa’ de revista, que antecipou edição semanal para atacar Lula e Dilma com objetivo de interferir na eleição

 

São Paulo – A presidenta Dilma Rousseff fez hoje (24) um depoimento contundente ao que chama de ação criminosa da revista Veja. A publicação da Editora Abril começou a divulgar ontem sua edição antecipada, trazendo supostas denúncias do doleiro Alberto Youssef, que teria dito ao delegado que investiga irregularidades na Petrobras que Lula e Dilma sabiam de tudo.

Dilma afirma que a atitude envergonha a imprensa e a tradição democrática, que não é a primeira vez que a revista tenta interferir no processo eleitoral e tampouco que atenta contra a sua imagem e a do ex-presidente.

O advogado Antonio Figueiredo Basto, que defende o doleiro, disse desconhecer o depoimento de seu cliente: “Eu nunca ouvi nada que confirmasse isso. Não conheço esse depoimento, não conheço o teor dele. Estou surpreso”, afirmou. “Estamos perplexos e desconhecemos o que está acontecendo.”

A candidata à reeleição lembra que o gesto da revista se dá num momento em que todas as pesquisas exibem ampliação de sua liderança nas intenções de voto sobre seu adversário, mas avisa que desta vez a publicação não ficará impune.

“Sou defensora intransigente da liberdade de imprensa. Mas a consciência livre da Nação não pode aceitar que mais uma vez se divulguem falsas denúncias no meio de um processo eleitoral em que o que está em jogo é o futuro do Brasil. Os brasileiros darão sua resposta a Veja e seus cúmplices nas urnas. E eu darei a minha resposta a eles na Justiça”, afirmou Dilma.

 

Leia a íntegra de sua fala:

Minhas amigas e meus amigos, eu gostaria de encerrar minha campanha na TV de outra forma, mas não posso me calar frente a esse ato de terrorismo eleitoral articulado pela revista Veja e seus parceiros ocultos. Uma atitude que envergonha a imprensa e a agride a nossa tradição democrática. Sem apresentar nenhuma prova concreta, e mais uma vez baseando-se em supostas declarações de pessoas do submundo do crime, a revista tenta envolver diretamente a mim e ao presidente Lula em episódios da Petrobras que estão sob investigações da Justiça.

Todos os eleitores sabem da campanha sistemática que essa revista move há anos contra Lula e contra mim. Mas desta vez a Veja excedeu todos os limites. Desde começaram as investigações sobre as ações criminosas do senhor Paulo Roberto Costa, tenho dado total respaldo ao trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público. Até a sua edição de hoje, às vésperas da eleição, em que todas as pesquisas apontam minha nítida vantagem sobre meu adversário, a maledicência da Veja se limitava a insinuar que eu teria sido omissa na apuração dos fatos.

Isso já era um absurdo. Já era uma tremenda injustiça. Hoje a revista excedeu todos os limites da decência e da falta de ética, pois insinua que eu teria conhecimento prévio dos malfeitos na Petrobras, e que presidente Lula seria um de seus articuladores. A revista comete esta barbaridade, esta infâmia, contra mim e ao presidente Lula sem apresentar a mínima prova. Isso é um absurdo, isso é um crime.

É mais do que clara a intenção malévola da Veja de interferir de forma desonesta e desleal no resultado das eleições. A começar pela antecipação de sua edição semanal para hoje, quando normalmente chega às bancas no domingo. Mas como em outras vezes, em outra eleições, Veja vai fracassar no seu intento criminoso. A única diferença é que desta vez ela não ficará impune. A Justiça livre deste país seguramente vai condená-la por este crime. Ela e seus cúmplices tampouco terão sucesso em seu intento de confundir o eleitor.

O povo brasileiro tem maturidade suficiente para discernir entre a mentira e a verdade. O povo brasileiro sabe que não compactuo nem compactuei com a corrupção. A minha história é um testemunho disso. E sabe que farei o necessário, doa a quem doer, toda vez que houver necessidade de punir os que mexem com o patrimônio do povo.

Sou uma defensora intransigente da liberdade de imprensa. Mas a consciência livre da Nação não pode aceitar que mais uma vez se divulguem falsas denúncias no meio de um processo eleitoral em que o que está em jogo é o futuro do Brasil. Os brasileiros darão sua resposta a Veja e seus cúmplices nas urnas. E eu darei a minha resposta a eles na Justiça.

 

TSE nega pedido

O pedido para retirada da reportagem publicada ontem (23) na página do Facebook foi negado nesta sexta-feira (24). Na representação, a coligação de Dilma acusa Veja de ter antecipado sua edição para sexta-feira para “tentar afetar a lisura do pleito eleitoral”. A representação diz ainda: “A matéria absurda de capa (…) imputa crime de responsabilidade à candidata Representante (…) e a mensagem ofensiva da capa da revista tem por objetivo bem delineado: agredir a imagem da candidata Representante” .

Para negar o pedido o ministro Admar Gonzaga alegou que o artigo da lei eleitoral citado na representação (Artigo 57-D, Parágrafo 3º, da Lei das Eleições) para pedir a retirada do ar não está em vigor nas eleições deste ano. Com isso, a representação foi arquivada, sem julgamento sobre o conteúdo.

“O dispositivo invocado para a suspensão da veiculação (Parágrafo 3º do art. 57-D da Lei nº 9.504/1997), consoante entendimento deste Tribunal Superior (Consulta nº 1000-75), não tem eficácia para o pleito de 2014, razão pela qual indefiro liminarmente a petição inicial e extingo o processo sem resolução do mérito, nos termos do Artigo 267, 1º, do Código de Processo Civil”, diz o despacho do ministro.

 

Nas manifestações do Rio e de SP a diferença entre os candidatos

 

Do Correio do Brasil

 

Mesmo sem a presença da candidata petista, presidenta Dilma Rousseff, e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Cinelândia, no Centro do Rio, foi tomada por um mar de bandeiras vermelhas, na noite passada. O que seria o comício de encerramento da campanha, cancelado em cima da hora pela coordenação do comitê, transformou-se em uma festa da esquerda carioca. Cerca de 20 mil pessoas, segundo os organizadores, muitas delas usando bottons, camisetas e adesivos com o número 13, tomaram o espaço em frente à Câmara dos Vereadores e do Theatro Municipal, tradicional ponto de encontros políticos na cidade. A mobilização no Rio de Janeiro constrastou com o ato produzido por cerca de 800 simpatizantes da campanha tucana, em São Paulo, que começou com protestos contra a democracia e a favor de um novo golpe militar no Brasil, e terminou em pancadaria.

No Rio, com a ausência dos principais convidados, parlamentares eleitos e líderes partidários, como o cientista Roberto Amaral, ex-presidente do PSB e dissidente da campanha de Marina Silva. Amaral foi à Cinelândia e, no carro de som, garantiu que votará em Dilma. Ao lado dele, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), entre outros parlamentares presentes ao ato público, ressaltaram a necessidade de não permitir “um retrocesso político no país”, como afirmou Amaral.

Lindbergh, em seu discurso,lembrou que o candidato tucano, Aécio Neves, recebeu salário sem trabalhar, na Câmara dos Deputados.

– Enquanto Aécio Neves era funcionário fantasma de seu pai na Arena, aqui na Cinelândia o povo resistia à ditadura militar – disse.

Julia Karam, estudante de Cinema na PUC, lança moda no ato pró-Dilma

O deputado estadual Carlos Minc (PT), que esteve com a candidata em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde realizou uma carreata à tarde, lembrou que a crise de água em São Paulo, Estado governado pelo PSDB há 20 anos, é de responsabilidade dos tucanos.

– Enquanto Lula e Dilma tiraram o Brasil do mapa da fome (da ONU), os tucanos colocaram São Paulo no mapa da sede – apontou.

Enquanto os líderes da esquerdadiscursavam, no palanque, o público socializava com amigos e pessoas que acabavam de conhecer. Na multidão, o avatar de Dilma que inunda as redes sociais, no qual a presidenta usa óculos, saiu da realidade virtual para os rostos das meninas, como a estudante de Cinema na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro Julia Karam, 21, que também se vestiu de vermelho para homenagear a candidata petista.

– Uso esses óculos porque preciso, tenho um grau avançado de miopia, mas a escolha dos óculos tem tudo a ver com o avatar da Dilma. Já vi muitas outras meninas usando. É tendência – avaliou.

 

 

Ato paulistano

Na capital paulista, simpatizantes do candidato Aécio Neves realizaram, também no final da tarde, uma passeata na Avenida Brigadeiro Faria Lima, Zona Oeste. De cima do carro de som, o deputado federal Paulinho da Força (SD), que apoiava os candidatos petistas nas últimas eleições, puxava os gritos de “fora, PT”. Ao lado dele estavam o ex-jogador Ronaldo, a cantora Wanessa Camargo, o humorista Juca Chaves e o vereador Floriano Pesaro (PSDB), único líder tucano em cima do carro de som ao longo do percurso.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apareceu durante a concentração, no largo da Batata, mas foi embora alguns minutos depois. Segundo Milton Flávio, presidente do PSDB paulistano, aquele não foi organizado pelo partido.

– Um ato convocado pela sociedade civil, que não tem ligação com nenhum partido, mas que reuniu todos aqueles que clamam por uma mudança e pedem que o Brasil volte a ser o que era – esquivou-se.

Simpatizantes de Aécio querem um novo golpe de Estado no Brasil

O que não faltou no ato público tucano foram xingamentos a Dilma Rousseff, ao PT e aos símbolos da esquerda. Até o compositor Chico Buarque, que apoia a candidata petista, transformou-se em motivo de ódio para os manifestantes:

“Chico Buarque, vai cantar Geni na m*”, gritavam.

A sede de caça aos comunistas tomou conta do ato:

– A nossa bandeira jamais será vermelha! – gritavam os integrantes da ultradireita.

Um cartaz com os dizeres “Viva a liberdade! Fora o comunismo!” foi afixado na frente do carro de som que levava as celebridades. Os simpatizantes do tucano também fizeram uma versão de “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, hino da resistência à ditadura militar. “Dilma vai embora que o Brasil não quer você / aproveita e leva embora os vagabundos do PT”.

No Largo da Batata, o clima lembrava um happy hour. Muitos vestiam roupas de grife e bebiam cerveja em garrafas long neck. Em cima do carro de som, um mestre cerimônia, um dos poucos negros no ato, tentou puxar o jingle de Aécio, inspirado na música “Festa”, de Ivete Sangalo.

“Agora é Aécio, pra mudar, o povo do gueto mandou avisar”. Sem empolgar o público, ele lamentou. “Vocês não gostaram dessa? Ninguém me acompanhou”…

Deslocado na manifestação, o recém-eleito deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), filho do também deputado federal Jair Bolsonaro, não conseguia encontrar os amigos que lhe convidaram para o protesto, chamado por ele de demonstração “contra o pessoal que tá com o PT”.

No domingo, Jair Bolsonaro foi alijado pela direção do PSDB do Rio no ato que Aécio promoveu em Copacabana, Zona Sul da capital fluminense. Sem um convite para subir no carro ou tirar fotos com o presidenciável, o deputado reclamou.

– É complicado. Ele (Aécio) aceita o apoio daquele maconheiro Eduardo Jorge (candidato à Presidência pelo PV) e rejeita o nosso, que somos representantes de três milhões de militares. Mas o Aécio querendo ou não nós e nossos eleitores vamos votar nele – disse, visivelmente chateado.

O ato terminou esvaziado, de forma melancólica, em frente ao Shopping Iguatemi, um dos mais luxuosos da cidade.