Será que a mídia investiga essa?

 

Da Maria Fro

 

Toda a rede social especialmente twitter e facebook e também a grande mídia e geeks conhecem o estudante de publicidade carioca, Jeferson Monteiro, nascido em Bonsucesso na Baixada Fluminense. Ele é o criador do perfil Dilma Bolada e das bem-humoradas sacadas que humaniza a presidenta a ponto de fazer uma montagem de Dilma fazendo selfie de camisolão no banheiro dando boa noite à nação.

Nadando contra a corrente preconceituosa e sexista das centenas de perfis criados para ofender a presidenta, o perfil Dilma Bolada sempre provocou o riso pelo caminho da humanização da primeira mulher eleita para governar o Brasil.

Confesso que a primeira vez que vi o perfil e senti sua força fiquei com medo de ser algo criado para atacar Dilma, procurei saber quem era e durante um bom tempo acompanhei as postagens do perfil. Minha preocupação era porque o perfil de fato é criativo e a ‘pegada’ dele atrai muitos seguidores. Jeferson não fala apenas para petistas e consegue unir a presidenta e Valeska Popozuda e nos fazer rir. Não aquele riso escroto do escárnio preconceituoso típico da mídia reacionária ou dos padrão ‘humor’ preconceituoso CQC.  A gente ri de uma característica forte de Dilma, quase uma Mônica de Maurício de Souza, dando bronca em ministros, em chefes de Estado como Obama, conversando com roqueiro, andando de moto, desfilando diva, rainha da nação nos chatíssimos eventos internacionais. Jeferson consegue fazer da agenda oficial da presidenta algo bem humorado. Eu acho que, sem sombra de dúvida, o perfil fictício de Dilma Bolada contribuiu mais que a SECOM inteira para positivar a imagem de Dilma nas redes sociais, que é atacada diuturnamente na mídia monopolista e reacionária que não raro usa do sexismo em suas detratações e consegue ampla reverberação de seus ataques na rede.

Sempre soube que Jeferson seria assediado para que se fizesse uso partidário de sua criação. A oposição tentou inclusive tirá-lo do ar aludindo campanha eleitoral e foi derrotada. Jeferson chegou a anunciar o fim do perfil para a tristeza de mais de um milhão de seus seguidores.

Ele foi atacado como os blogueiros progressistas são atacados diuturnamente por não se somarem ao coro reacionário contra as políticas públicas implementadas pelos governos petistas.

Foi então que ontem ele denunciou no Facebook em seu perfil pessoal que uma agência a serviço dos tucanos e intermediada por um mineiro ‘marqueteiro digital’, Pedro Guadalupe que, de acordo com Jeferson, trabalha para o PSDB e que criou um outro perfil também intitulado Dilma Bolada, mas que além do nome nada tinha a ver com o perfil criado por Jeferson e chegou a ameaçá-lo na disputa pelo nome “Dilma Bolada”.

Quem está fora das redes sociais não tem a dimensão do valor agregado que um perfil com mais de um milhão de seguidores, com crescimento orgânico (ou seja, sem uso de publicidade do Facebook para engordar seguidores e curtidas em posts) pode valer no mercado das campanhas eleitorais e de campanhas publicitárias. Não é pouco dinheiro, é dinheiro pra realizar sonhos de viagens e casa própria e sobrar alguns trocados.

Num país em que a mídia concentrada fizesse jornalismo, num país onde a Justiça Eleitoral agisse para garantir a lisura do processo, a denúncia de Jeferson Monteiro seria um escândalo e mereceria rigor na apuração. Mas, de acordo com a denúncia do criador de Dilma Bolada foi uma agência a serviço dos tucanos, então não teremos a grande mídia reacionária investigando e esclarecendo qual agência, quanto ofereceu, em que moldes se daria a compra do perfil, para quais usos, quais as provas da denúncia etc. Teremos claro, fora dos grandes meios de concentração midiática, alguns poucos jornalistas que não abandonaram o papel de comunicação social do fazer jornalístico, investigando isso.

Quanto a mídia gorda de publicidade, concentrada e reacionária, ela tem mais o que fazer, como:

~Divulgar~ um perfil cópia da criação de Jeferson em matéria de jornal quando o perfil ‘original’ Aécio Boladasso tinha uma única curtida;

 Continuar uníssona e diuturnamente na campanha #afundaBrasil, mostrando como Brasil nada presta, todas as instituições estão falidas e a ~culpa~ é sempre do PT;

Distorcer, manipular e tirar fora do contexto uma piada de Lula dita no encontro dos blogueiros, ou ainda fazer enquete com bebês para medir seu ânimo diante das apresentações no palco da Viradinha cultural…

Enfim, nossa mídia ‘séria’ está muito ocupada fazendo campanha contra os governos e lideranças petistas pra fazer jornalismo.

Abaixo a denúncia de Jeferson Monteiro

DILMA BOLADA: NÃO ESTÁ A VENDA!

Pois bem, como todos sabem há 4 anos eu criei a Dilma Bolada. Desde então minha vida mudou muito devido a isso. Conheci diversas pessoas, lugares e aprendi um monte de coisa. A minha personagem trouxe uma releitura da vida cotidiana da mulher que governa o nosso país, o tom pessoal sempre foi o mesmo, a exaltação e exacerbação da figura de poder de Dilma. Dilma essa que eu sempre admirei, ainda quando Ministra do Presidente Lula, e que resolvi lá em 2010 criar uma conta fake para assegurar o nome de usuário para que terceiro não o usassem de má fé. Bem, o resto dessa história vocês já sabem.

Tudo ocorrera muito bem até que a repercussão e a influência da Dilma Bolada começou a ganhar destaque na mídia de uma forma geral. Isso acabou atraindo a atenção de pessoas que não simpatizavam com a Dilma verdadeira, a Presidenta. Em meados do ano passado, eu tive um sério problema com uma pessoa chamada Pedro Guadalupe(que hoje trabalha para o PSDB). Pra quem não sabe, Guadalupe é um auto-intitulado “marketeiro digital” que atua em Minas Gerais(mas na verdade a especialidade dele é mesmo comprar uns bots, inflar páginas, spam, umas montagens ~engraçadas~ toscas tudo com o engajamento tendendo a zero). Ele já trabalhou para o PT e agora está com o PSDB. Pois bem, ano passado esse mesmo Pedro Guadalupe criou uma página também chamada “Dilma Bolada” e ameaçou dizendo que caso eu não me juntasse a ele e apoiasse quem ele apoiava, ele iria tomar o nome “Dilma Bolada” de mim e derrubar a minha solicitação de registro no Instituto Nacional de Propriedade Industrial(INPI), ele não apenas me mandou mensagens dizendo como expôs isso no Twitter onde todos puderam ver o caráter do sujeito. Eu, obviamente, ignorei e tudo que ele falara foi de fato um blefe.

Dito isto, vamos aos fatos:
Há algumas semanas uma agência de publicidade entrou em contato comigo para conversar. Eu naturalmente aceitei porque é normal as agências procurarem blogueiros e influenciadores para parcerias, eventos, etc. Então, um dos diretores então marcou uma reunião por videconferência e me explicou do que se tratava: a agência que administra diversas páginas aqui no Facebook disse que estava interessada em me convidar para o “casting” deles pois viam em mim um “potencial muito grande”. Primeiramente eles quiseram saber se eu estava coordenando ou tinha algum contato com a direção do PT, ao negar eles foram direto ao assunto: a agência tinha um plano de venda de apoio político das suas páginas para as Eleições Presidenciais deste ano. Ou seja, diversas páginas que todos curtem, gostam e recebem conteúdo diários, iriam fazer campanha eleitoral para o candidato que fechasse um contrato milionário com eles e iria assim difamar os opositores, praticamente um “mensalet”. Na hora que ele me disse isso, eu fiquei meio que sem reação. A naturalidade com que tudo era dito, era realmente inacreditável. Quando eu pedi para que me fosse detalhado o plano, ele me adiantou que já havia tentado fazer acordou ou reunião com a Equipe do PSB(Eduardo Campos) e PT(Dilma Rousseff) mas que não obtivera sucesso. Contudo, ele afirmou que o PSDB de Aécio Neves ficou muito interessado na transição e que havia chances de fecharem com eles. Eu concordei e disse que era bem o estilo tucano de ser e que provavelmente obteriam sucesso nas negociações.

Ao fim da conversa, ele perguntou se eu toparia fazer parte dos “talentos” dele para que fosse feita a negociação com a turma do PSDB. Para a supresa dele eu aceitei. Por sua reação ele provavelmente deu pulos de alegria. Ele não estava acreditando que já tinha o maior trunfo nas mãos: eu, com a Dilma Bolada, para o ninho tucano. (HAHAHA – SABE DE NADA INOCENTE!)

Aos finalmentes: uns dias depois, o cara me retorna o contato dizendo que falou com o Pedro Guadalupe, membro da equipe digital de Aécio Neves, que por sua vez queria falar comigo. Nem deu tempo d’eu responder: o próprio Pedro Guadalupe me enviou um e-mail ansioso se fazendo de amigo, no melhor estilo “lobo em pele de cordeiro” num cinismo sem igual e como se nunca tivesse feito nada pra mim, querendo saber se era mesmo verdade que Dilma Bolada, estava a venda para aproveitar a personagem e usar o seu “capital político/poder para mudar opiniões” dos internautas. Confirmei que eu tinha falado com a Agência e que tudo deveria ser tratado por via dela. A tal agência, por sua vez, disse que eles queriam que eu assinasse um CONTRATO DE EXCLUSIVIDADE para garantir uma amarra da Dilma Bolada a eles e que pudessem efetuar a transação com os tucanos. Eu, é claro, não assinei coisa alguma. Fui em frente, levando a coisa só pra saber até onde ia a cara de pau. Informei que só assinaria após que estivesse tudo acertado e depois que falassem de como seria de fato o tal esquema. Diante disso, na semana passada, a Agência combinou com Pedro Guadalupe uma reunião com os dirigentes responsáveis pelo veredicto final…

Pra mim foi o bastante. Eu, como vocês podem ver, não esperei o tal veredicto. Resolvi expor tudo isso aqui porque eu há mais de 1 ano venho sido constantemente atacado por pessoas dessa corja. Sujos e cínicos que têm a capacidade de inventarem mentiras absurdas que vão desde histórias de que mantenho “ligação direta com a Presidenta” até “de sou pago com o dinheiro público e recebo R$120 mil/mês” como foi dito recentemente num blog de simpatizantes tucanos. Não Pedro Guadalupe, eu não quero o dinheiro sujo de vocês. Diferentemente de você eu tenho caráter. Mas é esse o tipo de gente, que Aécio que diz com a maior cara de pau do mundo que “não vai tolerar campanha suja na internet” mantém na equipe, em contato constante com sua irmã, fazendo o possível e impossível para atacar a honra das pessoas e espalhar todo esse chorume de desinformação na internet. É lamentável que tenhamos chegado a um ponto tão baixo.

Por fim, eu queria dizer que nem todo mundo tem seu preço. E que eu e nem a minha criação estão a venda, nunca estiveram. Eu esperei ansiosamente pra escrever isso: vocês podem comprar quem quiserem mas a mim não. O que eu faço não há dinheiro no mundo que pague. Vocês deveriam ter sido um pouquinho mais espertos e terem tido o feeling pra saber que eu não sou e nunca vou ser como vocês. Lealdade não se compra e nem se vende.
RALA TUCANADA!

Ana Maria Braga socorre Alckmin!!!

 

Da Rede Brasil Atual

 

É curioso o tratamento diferenciado dado pela TV Globo para a crise de abastamento de água na grande São Paulo.

 

É curioso o tratamento diferenciado dado pela TV Globo para a crise de abastamento de água na grande São Paulo, sob a esfera de competência de um estadual governo tucano, de Geraldo Alckmin. Totalmente diferente do alarmismo e da politização que faz em torno do sistema elétrico, sob competência do governo federal petista.

A falta d’água em São Paulo é crítica, sentida pela população e empresas. Já há até multa – sob contestação na justiça – para quem não racionar de fato. E é tratada pela TV Globo como se a culpa fosse de São Pedro e do cidadão por supostamente desperdiçar água. Na linha editorial da emissora, nada se fala sobre a falta de investimentos e de planejamento da empresa estadual de águas, a Sabesp.

Na terça-feira (13), até o programa de variedades de Ana Maria Braga saiu em socorro do desgaste do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) abrindo com uma reportagem de dez minutos, fazendo campanha sóbria pelo racionamento “voluntário” de água, sem usar nenhum colar de tomates secos, como ela usou quando o preço do legume estava alto para criticar a inflação.

“Você já se antenou para a necessidade de não desperdiçar água? Parece uma conversa de tia chata… Ai, não gasta água! Mas a situação está calamitosa em São Paulo, em muitas cidades do interior e no Brasil (sic). A falta de chuva deixou os níveis dos reservatórios baixíssimos. A gente está vendo aí recordes históricos, mas recordes negativos”, disse a apresentadora.

Depois, veio uma reportagem feita de helicóptero sobre o sistema de represas da Cantareira e descrevendo a “gambiarra” de bombear a água do chamado volume morto, que garante o abastecimento por um tempo limitado. O repórter encerra a participação dizendo que assim, segundo o governo paulista, “não haverá racionamento”.

A apresentadora prosseguiu: “O governador Geraldo Alckmin tomou uma medida para evitar o desperdício. Você será multada… Para controlar este gasto da água… A multa foi criada para o morador que gastar mais do que a média atual da casa. Então, quem gastar acima da média, paga a conta 30% mais cara. Já os consumidores que conseguirem economizar 20% da conta receberão um desconto de 30% (…) Então, eu acho que é uma boa informação para os moradores de São Paulo. (…) Nessa hora, a gente tem que parar e pensar o que fazer para ajudar. Essa situação aflige agora… para ajudar o Estado de São Paulo, o pessoal de lá… Mas que você tem que entender que água é uma das coisas mais preciosas para a vida humana, né?”

E continua: “Para a vida no planeta como um todo. Então, se você não conscientizar que isso pode se estender para outras regiões do país… Que se fala que a água pode faltar neste planeta há muitos e muitos anos, mas a gente parece que não presta atenção. Fechando a torneira e o chuveiro durante algumas atividades diárias, a gente pode evitar o desperdício. (…) Apesar desta situação, o ministro das Minas e Energia, Édson Lobão, afirmou ontem, durante uma entrevista, que não há risco de falta de energia no país. Energia! E ainda descartou a necessidade de racionamento do consumo de energia em decorrência da estiagem do Sudeste. Segundo Lobão, desde 2003, a capacidade instalada de energia no país aumentou 73%, ao passo que o consumo cresce 51%. Nós vamos entender que energia é diferente de consumo de água, né? (…) Eu sugiro que nós, cidadãos, pensemos no futuro dos nossos filhos e dos nossos netos porque o planeta não é só para hoje, né?”

Uma ginástica e tanto misturar um problema localizado com o planeta e ainda incluir energia elétrica, onde não há medidas extraordinárias em curso, tais como multas extras.

Se o padrão da emissora fosse o de fazer sempre um jornalismo de serviços em momentos de anormalidade, seria mais compreensível, mas não é isso que vemos. O que se observa é que quando o governo é tucano há condescendência, poupando-o de cobranças de responsabilidades que possam levar a desgastes políticos. Quando o governo é petista, há a clara intenção de politizar, impor desgastes e apostar no quanto pior, melhor. Foi o caso do tomate, foi o caso do chamado “caos aéreo”, em que havia plantão de repórteres nos aeroportos e a toda hora entravam no ar. Para fazer um jornalismo que não tivesse dois pesos e duas medidas, teria que tratar todos os casos da mesma forma.

Lula, Serra e os metalúrgicos do ABC – por Caiubi Miranda

 

Do Luiz Nassif

do Blog Direitos Humanos no Trabalho

 

Estávamos no auge da campanha de 2002, Lula e Serra na disputa da presidência.

Eu era, então, executivo de uma grande montadora de automóveis, então com mais de 20 mil empregados. Como toda multinacional, a montadora tinha uma regra rigorosa: não se envolver, pelo menos oficialmente, nas disputas políticas dos países onde atuava.  Pragmatismo de toda multinacional: se optasse pelo lado perdedor, corria o risco de ter seus negócios prejudicados pelo lado vencedor.

Num determinado dia, fomos procurados pelo presidente do sindicato dos empregados com um “pedido-quase-ordem”: Lula estaria na cidade daí a cinco dias e queria de qualquer forma falar com os empregados da fábrica. Explicamos ao sindicalista o que ele já sabia, a política internacional da empresa, a dificuldade operacional de executar o que ele queria, o custo de parar a linha de montagem num momento em que o mercado estava aquecido…  Numa montadora, parar a linha de montagem é pecado quase mortal.

O presidente do sindicato disse que Lula estava intransigente. Ou nós organizávamos o comício do Lula dentro da fábrica, na hora da troca de turnos – 16 horas – ou ele faria o comício na porta da fábrica, do lado de fora, e o pessoal que começaria a trabalhar às 16 horas atrasaria mais ainda.

Foi um corre-corre para tomar a decisão: ligações para a matriz, viagens a Brasília, reuniões, reuniões, reuniões… Finalmente um consenso: franquearíamos a fábrica para o discurso do Lula mas, se o Serra quisesse, daríamos a mesma oportunidade a ele.

O dia marcado era uma quinta-feira e toda a fábrica já fervilhava desde cedo. Um pouco antes das 16 horas o Lula chegou acompanhado de sua equipe de campanha e dos dirigentes sindicais. Mas, conforme combinado, só iria para o local do comício no horário marcado, nem um minuto antes.

E foi o que aconteceu: às 16 em ponto fomos para a Ala 4, um enorme galpão onde funcionava a linha de montagem, já paralisada naquele momento. Esperavam quatro mil operários, dois mil do turno que saía e dois mil do turno que começaria. A entrada do Lula foi triunfal: aplausos, vivas…

Lula subiu numa empilhadeira já previamente preparada e equipada com o sistema de som do sindicato e começou seu discurso: “Companheiros…” Fez uma retrospectiva rápida da vida dele como militante do sindicato, lado a lado com aquelas pessoas que o estavam ouvindo. As greves, as vitórias conseguidas… vez por outra reconhecia um operário no meio da multidão, o apontava e o chamava pelo nome: “Eu lembro que o Quinzito, que está ali, veio me procurar e me pediu para ir falar com a mãe dele. Ela estava com medo que ele perdesse o emprego por causa da greve…” O Quinzito era, então, ovacionado por todos.

À medida que o Lula falava, a emoção crescia no ambiente. Ao meu lado, muitos operários já estavam com os olhos marejados.  A voz do próprio Lula também começou a ficar embargada e, de repente, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. A última frase que ele conseguiu falar foi: “E agora eu serei presidente do Brasil por causa de vocês…” e cobriu as faces com as mãos, chorando convulsivamente. Ele e as 4 mil pessoas que estavam ali, todos chorando de emoção. Inclusive eu e os outros diretores da fábrica.

Mesmo que viva 100 anos, acho que nunca vou sentir uma emoção tão forte como a que senti naquele momento. Aqueles quatro mil operários emocionados, chorando, gritando vivas…

E o evento terminou ali. Da empilhadeira, Lula foi para os ombros dos operários que cantavam o jingle da campanha: olê, olé, olá… Lula-lá.

Meia hora depois, a linha de montagem foi ligada e tudo voltou ao normal.

Ah! Sim.  Na semana seguinte os assessores do Serra foram até a fábrica para organizar a visita dele. Chamamos os diretores do sindicato para participar da reunião e eles aconselharam que o Serra nem se aproximasse da fábrica. O conselho deles foi ouvido.

Caiubi Miranda

 

Defeitos de fábrica: as explosões da GM no Brasil

Da Rede Brasil Atual

Incêndios provocados por defeitos elétricos no Vectra deixaram ao menos cinco mortos e cinco gravemente feridos. Associação denuncia 30 casos de explosões sem motivo aparente

 

Os olhos de Lucineia Rodrigues dos Santos Silva ainda se enchem de lágrimas quando ela se lembra da explosão do Vectra GLS, cor prata, ano 1997, da General Motors do Brasil, que matou sua filha, a pequena Raíssa, com pouco mais de sete meses de vida.

Foi no dia 24 de julho de 2008 no município de Três Lagoas, a 338 quilômetros de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Lucineia, então proprietária de uma pequena confecção, voltava para casa com Raíssa e o filho mais velho, Edson, à época com 6 anos de idade. Eram 9h45 da manhã quando estacionou o carro na garagem. Desceu para abrir a porta da sala, seguida pelo filho, enquanto Raíssa dormia na cadeirinha instalada no banco traseiro do Vectra.

Não houve tempo nem de atravessar o primeiro cômodo; o estrondo, seguido dos gritos da bebê, anunciaram a tragédia. “Foi coisa de segundos. A fumaça e o fogo se espalharam muito rápido”, explica Lucineia.

Ainda assim, a mãe conseguiu abrir a porta traseira do Vectra e tirar a menina do carro. Depois, todos os vidros do automóvel estouraram e a saída principal da casa foi bloqueada pelas chamas que lambiam as vigas de madeira da garagem e alcançavam os móveis da sala.

Com Raíssa no colo e puxando Edson pela mão, ela foi até a saída dos fundos. Não encontrou a chave. Pediu socorro. Desesperada, viu os olhos da bebê fechados. “A pele se desprendia do rosto”, lembra-se.

Alguns vizinhos arrombaram a janela e levaram Lucineia e a criança ao Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, no centro da cidade. Chegaram às 10h02. “A Raíssa tinha queimaduras de 2º e 3º graus no rosto, braços, tórax e pernas. Em Três Lagoas, só havia condições de fornecer os primeiros-socorros”, conta a mãe. Para atender situação tão grave, o destino tinha que ser Campo Grande.

A ambulância com UTI só chegou às 16 horas. Foram mais três horas para chegar à Santa Casa da capital, onde a bebê foi internada no Centro de Tratamento Intensivo (CTI), à meia-noite. Nos próximos 34 dias, Lucineia mal sairá do hospital para acompanhar o tratamento extremamente doloroso da bebê. “Vi minha filha fazer raspagens e enxertos de pele sem sequer poder colocar a mão nela. E eu ainda a amamentava no peito”, recorda.

Com o organismo fragilizado pelas queimaduras e pela toxicidade da fumaça inalada durante a explosão, a bebê não resistiu a uma forte infecção. Na madrugada do dia 28 de agosto de 2008, o médico Carlos Eduardo Trindade do Amaral trouxe a notícia do falecimento de Raíssa Izabelly Rodrigues dos Santos, aos 7 meses e 14 dias de idade.

“Eu, como mãe, senti culpa”, revela Lucineia.

O trauma a paralisou por dias, mas a revolta foi mais forte do que a depressão, principalmente depois de ver a perícia do Núcleo de Criminalística Regional da Polícia Civil, que apontava como causa da explosão um incêndio na parte traseira do Vectra, provocado por defeito elétrico do carro.

De posse do laudo de número 10.985, concluído em 22 de agosto de 2008, a família de Raíssa entrou com uma ação judicial na 4a Vara Cível de Três Lagoas, responsabilizando a General Motors do Brasil pela morte da bebê. A conclusão da perícia, realizada logo após o incêndio, é o principal fundamento do processo, que também se baseia em outros casos de Vectras que pegaram fogo ou explodiram no país.

O que Lucineia e Edson dos Santos, pai de Raíssa, não imaginavam é que a paralisia da justiça fosse maior do que aquela causada pelo horror que viveram. Quase cinco anos depois de entrar com a ação, a família ainda não conseguiu nem mesmo uma audiência entre as partes.

“Não houve avanços. A GM protela e tenta enganar a justiça. Usa argumentos infundados para encher o processo e dificultar o encaminhamento. Alegou que o carro teria sido convertido a gás, o que nunca aconteceu (o veículo era a gasolina). Até ‘bituca’ de cigarro entrando na grade dianteira, com acesso ao motor, eles disseram que poderia ser. O fogo veio de trás do veículo. Como poderia?”, questiona a advogada da família, Keyla Lisboa Sorelli.

Um fato estranho

As complicações do processo movido pela família de Raíssa começaram com a não aceitação do laudo do Núcleo de Criminalística por parte da GM do Brasil que, no dia 28 de janeiro de 2011, pediu uma nova perícia para “garantir o direito à ampla defesa”. No dia 12 de abril do mesmo ano, o juiz Márcio Rogério Alves concedeu o pedido da montadora e indicou a empresa VCP – Consultoria e Perícias LTDA para realizar o trabalho.

Em 13 de fevereiro de 2012, três anos e oito meses depois da explosão que matou Raíssa, a empresa encarregada descobriu que a nova perícia não poderia ser feita, pois o Vectra havia simplesmente desaparecido do pátio Auto Guincho Dori, localizado na avenida Clodoaldo Garcia, bairro Santos Dumont, para onde teria sido levado pelos policiais do 3º Distrito Policial. “O 3º DP confirmou o destino do automóvel para lá”, garante Lucineia, explicando que o Auto Guincho Dori havia sido designado como fiel depositário do veículo.

Os responsáveis pelo pátio alegam que receberam autuação da Vigilância Sanitária do município e precisaram enviar veículos a um ferro velho, onde teria sido prensado sem a retirada de nenhum componente. Isso, embora aResolução 331 de 2009 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) determine que “qualquer veículo à disposição de autoridade policial não pode, sequer, ser levado a leilão”. Também o ferro velho não tem nenhuma documentação sobre o carro, apesar de ser obrigado pelo Código de Trânsito Brasileiro a possuir livros de registros com data de entrada do veículo, nome, endereço e identidade do proprietário ou vendedor.

Ao tomar conhecimento do sumiço do carro, os advogados da GM alegaram que, sem o automóvel ou os componentes, não se pode tirar conclusões definitivas a respeito da causa da explosão. Argumento utilizado apesar do laudo do Núcleo de Criminalística que, de acordo com o responsável, o perito Milton César Fúrio, traz provas suficientes de que foi o defeito elétrico do carro que provocou a explosão e a morte de Raíssa.

Na ação, a GM ainda acusa os pais de negligência pela não conservação da prova material. “Não sou advogada, mas foi a polícia, o Estado, que fez a perícia. Agora, além do sofrimento, somos cobrados por não guardar o carro? O Estado não teria que ter responsabilidade nisso? O Vectra sumiu muito rápido. Nunca entendemos o motivo”, revolta-se Lucineia.

De acordo com Christian Printes, advogado do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Lucineia tem o direito, inclusive, de exigir que a GM prove que não foi o defeito do carro que provocou a explosão que matou a menina. A possibilidade de inversão do ônus da prova está prevista no artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor: “Se existe segredo no produto, sobre a tecnologia dele, algo inacessível ao consumidor, a justiça pode determinar que o fornecedor comprove que aquele produto não causa lesões. É dever dos fornecedores não colocar produtos no mercado de consumo que apresentem riscos à saúde e a segurança dos consumidores. Caso isso não seja realizado ou seja realizado a destempo, ocasionando acidentes de consumo relacionados com um mesmo modelo, série ou marca, os órgãos de proteção ao consumidor podem adotar sanções e impor a ordem de chamamento aos veículos (recall) que trazem riscos à saúde e segurança dos consumidores, com base no artigo 10º do CDC ePortaria 487/2012 do Ministério da Justiça”, observa.

A tragédia abalou a família profundamente. O casal se separou. O menino Edson, hoje com 12 anos, não consegue esquecer o horror que viveu. Lucineia foi morar com ele e a outra filha, Larissa, de 14 anos, na casa da mãe, em Santo Antônio da Platina, pequena cidade no norte do Paraná, a uma distância de 445 quilômetros do município onde ocorreu a explosão. E continua a lutar para que a justiça seja feita. “Minha filha deveria estar aqui. Foi o carro que a matou. Quero que a justiça tome medidas e que a GM seja punida. A Raíssa não volta, mas muitas pessoas podem estar passando pelo mesmo que nós”, diz Lucineia.

Rafael, outra vítima

Rafael Bonadiman Bisse sempre foi um rapaz tímido, mas se fechou completamente para o mundo depois da explosão que o deixou com queimaduras de 2º e 3º graus em 70% do corpo, incluindo o rosto. Aos 25 anos, ele não exerce qualquer ofício. Não estuda. Mal sai de casa e não se relaciona com ninguém. “Antes da explosão, ele tinha uma vida normal. Trabalhava, tinha amigos, saía, namorava. Era como todos os outros jovens na idade dele”, relata Andresa Adelmo, a tia que encampa a luta de Rafael pela recuperação da saúde e por justiça.

O acontecimento que marcou sua vida deu-se no dia 8 de maio de 2009, quando viajava com quatro amigos, jovens como ele, pela rodovia ES-060, no Espírito Santo (que liga as cidades de Piúma e Anchieta). Eram 8 horas da noite e os rapazes iam para uma festa, mas, depois de rodar alguns quilômetros, um forte cheiro de gasolina tomou conta do carro. Os que estavam no banco traseiro perceberam mais rápido o que ocorria: “Senti um forte calor nas pernas vindo da parte debaixo do carro”, recorda Antonio Mulinari, outro passageiro. “Vi o fogo começar no banco traseiro. Tinha uma chama ao meu lado. Gritei que o carro estava pegando fogo.”

A explosão veio em seguida. O estofado pegou fogo, as chamas chegaram até o teto e varreram a cabine. O motorista, Charles William Nicolini, saltou do veículo em movimento, assim como o passageiro do banco da frente, Bruno Ferreira Mulinari.
Os últimos a saírem do carro foram Mateus Gomes Alves e Rafael, que só conseguiu escapar quando o veículo incendiado colidiu com um mourão. “Foi tudo muito rápido, como uma bomba. Começou a esquentar e, em segundos, o carro estava todo tomado por fogo e fumaça. Um dos ocupantes do carro me tirou”, lembra Rafael.

Com queimaduras no rosto, braços e pernas, Charles, Bruno e Antônio foram internados em Anchieta. O primeiro por 11 dias. Os demais, quase um mês. Já Rafael e Mateus Gomes Alves ficaram um ano e meio no Centro de Queimados do Hospital Dório Silva, na cidade de Serra.

Para Rafael, curativos e enxertos de pele viraram rotina. Uma infecção o obrigou a amputar a perna esquerda, acima da coxa. O rapaz de 20 anos passava 24 horas por dia deitado. As dores fortíssimas o levavam a desmaios. Entrou três vezes em coma. “Não tinha vontade de me alimentar e queria morrer para não passar por aquele sofrimento”, relembra hoje, ainda sem conseguir retomar a vida normal.

A família entrou com processo contra a GM do Brasil em dezembro de 2011. Já são dois anos e meio de espera e a ação não foi julgada nem em 1ª instância. Segundo a família, a empresa não buscou nenhum diálogo com as vítimas. “Para eles, se não tivesse um processo judicial aberto, o caso nem existia. Não ligaram nem para saber se ele está vivo”, destaca Andresa.

Cicatrizes da explosão

Bruno Ferreira Mulinari, 24 anos, traz cicatrizes da mesma explosão que feriu Rafael. No tórax, nas pernas e, principalmente, nos braços. “Não são só as marcas físicas. Fica um trauma, um medo, até vergonha. Existe preconceito com quem é queimado”, diz o ex-ajudante de pedreiro.

Hoje, ele tem um lava-rápido em Piúma (ES) e tenta reconstruir a vida. “Deixei de fazer tudo na vida por muito tempo. Faz um ano que retomei um ritmo mais ou menos normal, mas não esqueço o terror. Era final de semana de Dia das Mães quando o Vectra explodiu. Não pude nem ver a minha mãe”, conta ele, que também processa a montadora.

Mateus Gomes Alves, que viajava com Rafael no banco traseiro do Vectra, teve, como o amigo, 70% do corpo queimado. Chegou a ser “desenganado” pelos médicos. No rosto, teve queimaduras de 2º e 3º graus, que também atingiram membros superiores e inferiores. As mãos direita e esquerda, devido a sequelas, ficaram quase incapacitadas.
Atualmente, aos 23 anos, está preso no Espírito Santo, acusado de tráfico de drogas. “Ele era um rapaz forte, bonito, cheio de energia. No estado que ficou, perdeu a cabeça, se envolveu com coisas que não devia”, avalia Bruno.

Dos outros ocupantes do veículo no terrível dia 8 de maio de 2009, Charles William Nicollini se mudou para o Nordeste do país. Mora na região metropolitana de Recife (PE) e evita o assunto. Antonio Mullinari teve poucas sequelas e segue no Espírito Santo.

A advogada Janine Vieira Paraíso, que representa as vítimas do caso do Espírito Santo, reclama da extrema lentidão dos processos. “Não houve nenhuma audiência de instrução. Houve perícia realizada pela GM logo após o acidente, a qual, obviamente, excluiu a culpa da montadora. Aguardamos nova perícia, indicada pelo Estado, desde outubro de 2012.”

Na época do incêndio, os familiares dos rapazes buscaram a contratação de um engenheiro mecânico perito em análise de defeitos veiculares. Ele fez uma avaliação e identificou problemas elétricos no Vectra, mas não realizou o laudo pericial por que as vítimas não tiveram condições de pagar pelo serviço.

Caso emblemático

“Sem fotos nem filmagem”, diz Edda Pedemonte Araújo à reportagem. O tom não chega a ser autoritário. Ao contrário. O pedido é feito em voz baixa, gentil. E é compreensível por vir de uma senhora de 75 anos de idade, envolvida há 15 anos na luta contra um gigante do setor automotivo.

Ela ainda sofre ao lembrar a tarde do dia 17 de agosto de 1999, quando viajava pela BR-070, de Cuiabá, capital do Mato Grosso, para a interiorana Barra do Garças, onde possuía uma casa de veraneio. Estava no carro de um amigo, atrás do Vectra da família, quando viu a cena aterradora minutos depois da explosão: corpos consumidos pelas chamas, entre eles o do pai, Heronides de Aquino Araújo, da mãe, Ítala Pedemonte Araújo, e do irmão, Antonio Salvino Pedemonte Araújo. Meia hora antes, ela mesma estava no automóvel recém-adquirido pela família.

“Coisa de 30 minutos. Meu irmão era quem dirigia. Ele era cuidadoso, essencialmente com nossos pais. Pediu para eu descer, queria diminuir o peso. Como tínhamos um amigo vindo logo atrás, em outro carro, troquei”, conta.

Heronides Araújo e Maria Domitila Pinto Gusmão, a enfermeira que cuidava dele, morreram dentro do Vectra, que explodiu com apenas sete meses de uso. Antonio e Ítala conseguiram saltar do automóvel, mas morreram na pista, envolvidos pelo fogo. O calor foi tanto que todos os corpos tiveram queimaduras de até 4º grau.

Em 2001, a família acionou a GM na Justiça. Seguiu-se uma verdadeira guerra jurídica, iniciada com um fato curioso. Segundo Heronides Filho, irmão de Edda, “logo após a ocorrência, a GM sumiu com o carro. Isso, depois de levá-lo para o pátio da montadora, em Barra do Garças”.

E ali foi feita a primeira perícia – realizada pela equipe da Coordenadoria de Criminalística da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Mato Grosso – que atribuía a explosão a uma peça de freio de caminhão perdida na estrada. Esse laudo, porém, foi duramente questionado pela juíza Amini Haddad Campos, da 9ª Vara Cível de Cuiabá: “Estamos ou não estamos falando de uma perícia oficial? Que perícia foi essa realizada no pátio da concessionária da GM?, registrou no processo.

A magistrada ainda qualificou como “imprestável” a perícia “visto que sequer estiveram no local da ocorrência, nada descreveram do local do incidente, nem sequer há informativos quanto à campana de caminhão (sequer uma medição), e esta, ainda, foi tão-somente apresentada na concessionária GM dois dias após o evento danoso”, aponta na sentença.

Por ordem da justiça, outra perícia foi realizada pelo engenheiro mecânico Durval Bertoldo da Silva, com conclusão divergente da primeira: “A explosão do salvado (carro) se deu no compartimento interno do veículo, acima do tanque de combustível e abaixo do banco traseiro, proporcionado por gases e vapores desprendidos através de vazamento na bomba de combustível.”

Em 11 de julho de 2008, familiares das vítimas conseguiram a condenação da empresa. A justiça matogrossense determinou indenização de R$ 6 milhões, sendo R$ 500 mil destinados a cada um dos 12 autores do processo. A sentença determinou também que a GM teria que emitir um comunicado público sobre os riscos ocultos no veículo Vectra e convocar o recall, enfatizando a necessidade de dar publicidade ao fato ”em decorrência dos interesses difusos e coletivos resultantes das constatações verificadas”, e intimando a montadora a cumprir o dever da comunicação do defeito ao consumidor, “na forma vinculativa do art. 10 e parágrafos do CDC, com prazo de permanência publicitária de 30 dias, às suas expensas, junto aos meios de comunicação impressos, sonoros e televisivos (jornal, rádio e tv)”.

A GM entrou com recurso no Tribunal de Justiça de Mato Grosso e foi novamente condenada, em 2010, por 2 votos a 1, Os desembargadores, no entanto, reduziram a indenização para R$ 200 mil a cada autor da ação e suspenderam o pedido da juíza para que fosse feita a comunicação pública. Finalmente, no ano passado, no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, as partes chegaram a um acordo. A empresa aceitou pagar R$ 6 milhões no total.

Um valor baixo diante das circunstâncias, segundo o advogado da família, André de Paiva Pinto: “Morreram quatro pessoas de forma violenta e o valor ganho individualmente por autor corresponde a menos de 20 minutos, num período de um ano, do faturamento da GM. Isso, considerando só o parque industrial de São Caetano do Sul”, enfatiza.

Na opinião do advogado, a indenização acaba por causar efeito contrário ao que deveria: “Em vez de estimular o fornecedor a que busque mecanismos de controle para que o vício no produto ou serviço não se repita, sob pena de abalar a saúde financeira do negócio, a indenização é de proporção inexpressiva. Diante dos custos de correção do vício, se mostra mais vantajoso para a empresa pagar indenizações, o que perpetua o desrespeito ao consumidor sob a lógica financeira do empresário”, diz.

Para Edda Pedemonte Araújo, o mais grave foi a não comunicação do defeito. “Queremos um recall para reparar todos os Vectras com esse defeito e evitar que outros percam a família de forma tão horrível”, exige.

Documento da GM cita defeito

Durante a pesquisa realizada para embasar o processo de Mato Grosso, o advogado André e os familiares das vítimas levantaram 59 casos em que carros do modelo Vectra, fabricados principalmente entre 1996 e 1999, explodiram, sendo 30 sem sofrer colisão, nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Foi quando decidiram fundar a Associação Brasileira de Consumidores Automotivos (ABCAuto) e tiveram acesso a um boletim de informação técnica sobre o Vectra, datado de fevereiro de 1998. O documento, de autoria da General Motors do Brasil, foi distribuído a revendedoras e oficinas autorizadas para alertar sobre um problema no chicote da bomba de combustível do veículo. “A peça, em decorrência do comprimento dos cabos e do balanço do comburente, pode tocar os terminais elétricos, provocando o derretimento da proteção e, consequentemente, falha”, descreve.

Leia o documento:

 

RBABoletimtcnicodaGMdefeitobombacombustvelfrente.jpg
Boletim da GM para as concessionárias: conhecimento de causa

“Em outras palavras, eles estão dizendo que pode ocorrer um curto-circuito dentro do tanque de combustível. O resultado disso é óbvio. Vapores e gases de combustível em contato com faíscas dão em explosão”, esclarece João Valentim Bin, engenheiro mecânico especializado em desenvolvimento e testes de motores a combustão interna e combustíveis alternativos, e ex- supervisor na Engenharia de Testes e Desenvolvimento da Detroit Diesel Allison do Brasil, divisão da General Motors para desenvolvimento de motores.

A recomendação do boletim era para que, caso os veículos dessem entrada com problema de queima de fusível da bomba de combustível, o chicote deveria ser verificado. No verso, há uma ilustração do procedimento para a correção do defeito e um aviso para que sejam atendidos apenas veículos dentro do período de garantia (PDF do documento).

O boletim técnico estava com o Ministério Público em São Paulo, já que diversas denúncias contra a montadora haviam sido feitas pela Associação Nacional das Vítimas das Empresas Montadoras e Concessionárias Automotivas (Anvemca), sediada em Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo.

Para o advogado André de Paiva Pinto, o documento é uma prova da omissão da GM. “Até hoje, a GM se nega a dar explicações sobre os casos de explosões dos Vectras, além de ter omitido o boletim. Com ele, o vício de concepção do veículo está escancarado. Há problemas gravíssimos na bomba de combustível do Vectra e a montadora conhecia o defeito há pelo menos 18 meses antes do sinistro de Mato Grosso e mais de dez anos antes das ocorrências do Mato Grosso do Sul e do Espírito Santo. Por que não foi obrigada a fazer o recall?”, indaga.

Em 20 de março de 2006, o Ministério Público Federal de São Paulo (MPF-SP) emitiu a Recomendação 11/2006 para que o Ministério da Justiça notificasse as montadoras de todo o território nacional sobre a emissão desse tipo de documento sigiloso: as “ações de oficina”, “campanhas de serviço”, “operações de campo”, “orientações de serviço para revisão” e “boletins de informação técnica”.

De acordo com a recomendação, o reconhecimento dos defeitos por parte das empresas ocorre somente “por comunicação direta das montadoras às concessionárias sem qualquer controle, seja pelo poder público, seja por entidade representativa dos consumidores”. Ou seja, quase ninguém fica sabendo.

Assinada pela procuradora da República Cristina Marelim Vianna, a medida ainda exige das montadoras que depositem documentos como os boletins de informação técnica na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) – na época, chamada de Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor – e diz que os órgãos públicos devem fiscalizar o material e ordenar a imediata realização do recall.

Recall e omissão

Em tradução livre, recall significa “chamada de volta”. O Código de Defesa do Consumidor, de 1990, prevê que produtos defeituosos ou que contenham vícios ocultos, podendo colocar em risco a segurança e a saúde dos cidadãos, devem receber convocações para checar e consertar eventuais problemas.

A omissão diante do caso Vectra é chocante. O documento interno da GM chegou a vários órgãos públicos fiscalizadores. A Senacon, ligada ao Ministério da Justiça, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados foram informados e também receberam relatórios de explosões e de vítimas de todas as regiões do Brasil. Mesmo assim, nada aconteceu.

A Senacon está há cinco anos em estágio de “averiguação preliminar” – o que serviu de justificativa para negar à reportagem o acesso aos documentos sobre o caso, mesmo após dois pedidos feitos pela Lei de Acesso à Informação. A secretaria também se recusou a dar informações ou entrevistas via assessoria de imprensa.

“Em 2008, a Senacon já apurava a situação. Como podem alegar estágio de averiguação preliminar em 2014?”, pergunta o advogado André de Paiva Pinto, que também teve negado o acesso ao procedimento completo.

Jaílton de Jesus Silva, fundador e presidente da Anvemca, explica que os boletins técnicos são procedimentos repassados aos prepostos, ou seja, às concessionárias e oficinas. “Elas ‘passam em branco’ defeitos que chamamos de ‘vícios ocultos ou defeitos surpresa’, de difícil visualização pelo consumidor. Por isso, damos o nome de recall branco a esse expediente. Nesses casos, só as concessionárias e oficinas são informadas dos defeitos e não há campanha de recall de verdade. Os consumidores não recebem chamado algum. Não são atendidos os requisitos previstos no CDC. Portanto, é crime”, esclarece.

O Código de Defesa do Consumidor, nesse sentido, é claro. No artigo 10º, o texto observa que o fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que “sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança”. Quanto à descoberta posterior do defeito, o texto completa que “o fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários”. A lei prevê multa e prisão de seis meses a dois anos a quem deixar de comunicar a nocividade ou periculosidade de produtos que estão no mercado.

Quem resolve?

Em 2008, o engenheiro mecânico João Valentim Bin foi chamado para fazer o laudo sobre o desprendimento da roda traseira de um Fiat Stilo de Brasília, no que ficou conhecido como “caso Carla Barbosa”, nome da proprietária do carro que capotou depois de perder a peça. Tratava-se de uma falha no componente conhecido como “cubo da roda”. Bin teve papel fundamental para que saísse o recall de mais de 52 mil unidades do Stilo, em 2010, o que não ocorreu sem dificuldades. A perícia elaborada por ele embasou as ações de consumidores na Senacon e na justiça.

Para o engenheiro, com larga experiência em recalls, a existência do boletim de informação técnica, das explosões já ocorridas e os indícios que as relacionam deveriam ser suficientes para a Senacon obrigar a GM a convocar o recall. “O que mais é preciso? Outras mortes?”, questiona.

Bin também critica os moldes em que é feito o recall no setor automobilístico brasileiro. Para começar, a responsabilidade pelo tema é partilhada por três entidades de dois ministérios diferentes – Contran e Denatran, do Ministério das Cidades, e Senacon, do Ministério da Justiça – que não têm competência técnica para cuidar de um assunto tão complexo. “Não existe infraestrutura laboratorial para avaliar defeitos como esse. Deveria haver um centro de inteligência automobilística nacional e público, com peritos que analisassem dados de acidentes. Eles poderiam, por exemplo, ser enviados pelas polícias rodoviárias, Polícia Militar, departamentos que cuidam de trânsito e seguradoras. Precisaria também de um campo de testes financiado pelo governo, para que as vítimas não tenham que pagar por perícias”, analisa.

Um exemplo de trabalho de prevenção baseado em indícios vem da própria General Motors, mas na Austrália. Em janeiro de 2008, a GM Holden, filial australiana da montadora, anunciou um recall de 86 mil veículos vendidos no Oriente Médio, Nova Zelândia, Austrália e, inclusive, no Brasil. O modelo era o Ômega, anos 2006 e 2007, que, assim como o Vectra, é um sedã de luxo da linha Chevrolet. A convocação foi feita por haver risco de vazamento de combustível do motor, o que poderia causar incêndios provocados pelo atrito com uma mangueira do sistema. Naquela época, o porta-voz do grupo, John Lindsay, afirmou que a chamada era preventiva, pois a possibilidade de incêndio seria baixa. “As chances disso acontecer são muito baixas, mas, obviamente, estamos optando pelo excesso de precaução”, observou. Em solo brasileiro, foram 784 as unidades convocadas para reparos.

Normalmente, porém, no Brasil, o Denatran e a Senacon agem apenas se provocados. “São as vítimas das montadoras que precisam levar indícios de vícios e defeitos aos órgãos. As vítimas, além de sofrer com as perdas, até com mortes, têm que gastar com peritos e fazer investigações próprias”, relata João Bin.

No caso do Vectra, o Denatran reconheceu em nota que “desenvolveu estudo sobre os casos de incêndio dos veículos por demanda da Senacon”, mas não revelou as conclusões à reportagem da Pública e da RBA: “O estudo final está em poder do Ministério da Justiça e, por envolver vítimas fatais, só a Senacon pode fornecer informações sobre a matéria. Na abrangência do Denatran, o assunto foi concluído com a finalização da investigação realizada pelo Cesvi (Centro de Experimentação e Segurança Viária, empresa contratada para a apuração)”.

Obtido pela reportagem, o estudo de 151 páginas não chega a conclusões. Depois de discorrer longamente sobre a “história do Vectra no Brasil” e explicar como ocorre um incêndio, o Cesvi alega não ter conseguido quase nenhum contato com vítimas ou automóveis envolvidos nas explosões e menciona “falta de veículos acidentados”. Entre os 12 casos avaliados, poucos têm relação com as denúncias da ABCAuto que estão na Senacon e, em quase todos, as observações são evasivas: “não existem condições técnicas para analisar adequadamente o acidente”, “fica impossível levantar uma hipótese confiável sobre o motivo do incêndio”, “não é possível precisar exatamente o ocorrido”.

O Cesvi admite, ainda, que teve acesso a apenas um carro “para análise mais detalhada”. Nesse caso, o relatório indica como provável causa de curto-circuito uma lâmpada “mais potente” trocada nos faróis, o que, segundo a empresa, “compromete a análise de prováveis defeitos originais do veículo que possam ocasionar incêndios”. No final do relato, a sugestão aos órgãos públicos é pela “continuidade das avaliações”.

André de Paiva Pinto, porém, afirma que o Cesvi poderia ter feito um estudo mais completo se quisesse: “Eu mesmo passei ao Cesvi dados das explosões. Houve casos em que passei contatos das vítimas. Eles não foram atrás e produziram um estudo de um absurdo completo, unilateral. Não tiveram a curiosidade de escutar as vítimas. Fizeram análises a distância e de casos que nem tinham relação com as denúncias”, conta o advogado.

A reportagem procurou, por telefone e email, a General Motors do Brasil para escutar a posição sobre as denúncias envolvendo o Vectra. Depois de um mês de tentativas, a assessoria de imprensa afirmou, por telefone: “Não temos interesse nessa pauta”. Por email, foi prometido um retorno, nunca cumprido.

Audiência aprovada, mas jamais realizada

Em 2009, a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, em Brasília, recebeu da ABCAuto o pedido de audiência pública para analisar os casos de explosões do Vectra. Ele foi acolhido pelo vice-presidente da Comissão à época, o deputado federal Filipe Pereira (PSC-RJ) após o recebimento de um relatório da entidade que continha a descrição de 40 casos (hoje, a ABCAuto afirma ter registro de 59 explosões do modelo Vectra). “Diante das informações apresentadas, faz-se necessário a atenção da Comissão de Defesa do Consumidor”, afirmou o parlamentar, ao pedir a audiência pública.

Entretanto, o ex-deputado Celso Russomanno, conhecido por defender os direitos do consumidor – bandeira que o projetou politicamente – se posicionou contra o relatório. Disse que fez um levantamento sozinho e só encontrou dois casos reais e que a proposta parecia uma “tentativa de desmoralização da GM”.

Mesmo assim, a comissão aprovou, numa reunião deliberativa ordinária, a realização da audiência. A ata com a aprovação do requerimento é de 29 de abril de 2009. Contudo a data jamais foi definida.

Desde então, o requerimento perdeu a validade. A secretaria da comissão alega que o documento deve ser refeito, já que só seria válido para aquele ano legislativo. Dessa forma, é necessário que um deputado integrante da atual formação do órgão reapresente a solicitação, o que permitiria a realização da audiência.

Nos EUA, GM foi acusada de esconder defeitos

Desde fevereiro deste ano, a matriz da General Motors, localizada nos Estados Unidos, está em crise. A montadora anunciou um recall envolvendo pelo menos 2,6 milhões de veículos por falhas no controle de ignição que podem afetar o circuito elétrico e desativar airbags. Todos os veículos são produzidos nos EUA e vendidos na América do Norte. De acordo com denúncias apuradas por órgãos reguladores de segurança, dois comitês do Congresso norte-americano e o Departamento de Justiça, a GM esperou 13 anos para trocar as peças: a empresa detectou o problema no ano de 2001, mas só tomou providências de correção em 2014.

Os órgãos públicos já admitem ao menos 13 mortes, ocorridas em 32 casos que envolvem diversos modelos da marca. Contudo, um levantamento feito pela Friedman Research Corporation, empresa norte-americana que analisa dados de segurança veicular e que enviou informações à agência reguladora National Highway Traffic Safety Adminstratiom (NHTSA), menciona 303 mortos.

O recall foi dirigido a donos de veículos esportivos utilitários, dos modelos Buick Enclave e GMC Acadia – fabricados entre 2008 e 2013 – Chevrolet Traverse, dos anos de 2009 a 2013, Saturn Outlook, de 2008 a 2010, Chevrolet Express e GMC Savana, produzidos desde 2009, bem como Cadillac XTS, fabricado entre 2013 e este ano.

Convocada ao Senado dos EUA para uma audiência de mais de duas horas no último dia 1º de abril, Mary Barra, atual CEO da empresa, insistiu que a cultura da montadora estava mudando: “Isto (a audiência) começa com minhas sinceras desculpas a cada um que tenha sido afetado por este recall. Estou muito aflita. A GM de hoje fará o que for correto”, garantiu, diante de uma comissão do Comitê de Energia e Comércio da Câmara de Representantes, em Washington. No entanto, quando questionada pelos senadores, ela foi evasiva e alegou não ter informações suficientes para responder a várias perguntas, até mesmo se a GM indenizaria as vítimas. Mary Barra disse que a fabricante “ainda não havia decidido”.

Quando indagada a respeito dos documentos internos de 2001, que segundo o senadores revelam que a General Motors decidiu não substituir as peças com defeito por que a operação teria alto custo, Mary disse que isso “não é algo aceitável”, mas não explicou o que aconteceu: “Não posso dizer por que levou anos para anunciarem um defeito de segurança, mas vamos investigar”.

Não é a primeira vez que a matriz enfrenta uma crise por defeitos de fábrica. Em 1999, na Califórnia, foi condenada a pagar uma indenização histórica por um acidente sofrido por Patricia Anderson, seus quatro filhos e um amigo, às vésperas do Natal de 1993. Eles estavam numa picape Chevrolet Malibu, que pegou fogo. Não houve mortes, mas todos os passageiros sofreram queimaduras graves.

A justiça concedeu aos seis, inicialmente, U$S 4,9 bilhões como reparação pelos danos físicos e emocionais sofridos. Mais tarde, em instância superior, o valor foi reduzido para U$S 1,2 bilhão. Ainda assim, considerado um recorde.

Alguns boletins internos da GM (semelhantes ao do caso Vectra no Brasil e aos da atual crise na matriz da empresa nos EUA) auxiliaram na comprovação da tese de acusação. Dentre as tecnologias disponíveis, a montadora escolheu economizar de US$ 4 a US$ 12 por veículo, tornando os tanques de combustível menos resistentes.

Outro documento que incentivou a sentença foi o “Memorando Ivey”. Elaborado nos EUA em 1973 pelo engenheiro projetista da multinacional Edward C. Ivey, o memorando demonstrava à empresa que a economia feita nos projetos de milhões de unidades compensaria o gasto com possíveis indenizações. Revelado em 1999, ele foi divulgado pela mídia norte-americana, inclusive com a transcrição publicada.

Além de estar sujeita a arcar com grandes indenizações por descasos nas relações de consumo, a GM enfrenta crises em sequência no próprio quintal, inclusive econômicas, como a de 2008/2009, que levou a empresa a pedir concordata e socorro financeiro bilionário ao governo dos EUA. Já no Brasil, a situação caminha no sentido oposto. A fabricante do Vectra vê as vendas crescerem ano a ano no país, como mostra o infográfico. Ou seja: dinheiro tem.

Vendas da GM azul.jpg

Faces Ocultas – 17 anos!

Tive o privilégio de assistir ontem o espetáculo em comemoração aos 17 anos da Cia. de Danças Faces Ocultas.

Simplesmente deslumbrante!

Não só pelo prazer de ver seus bailarinos maravilhosos se apresentando, mas também pelo que significam 17 anos de uma companhia de dança.

Sobre a apresentação, a Cia. parece um bom vinho: quanto mais anos se passam, melhor fica. Seus bailarinos aprimoram suas técnicas a cada espetáculo e isso é visível para os mais leigos no conhecimento da técnica da dança, como eu. Desde aqueles que estão a mais tempo na cia. e são considerados os principais até os mais recentes, observa-se uma aplicação e disciplina invejáveis.

Foi muito bom rever as três coreografias (parte delas) que foram criadas para comemorar os cinco – POEMAS BRASILEIROS – os dez – RUBRAS FACES – e os quinze – CARMEM – anos da cia. Bom também poder relembrar, quando saboreava estas, de todos os marcantes trabalhos do Faces Ocultas. FOLCLOREANDO, ELIS, 1964, VELA PRA QUALQUER SANTO, AFRICA EM NÓS, são trabalhos marcantes e inesquecíveis. Lembro-me de quando secretário da educação solicitava diversas dessas apresentações para os eventos da educação e eles sempre solícitos me atendiam e embebedavam de alegria e prazer àqueles que os assistiam. E na apresentação de ontem essas lembranças foram rememoradas e me senti bem, pois foram momentos que marcaram minha vida e a vida de muitos que tiveram esse privilégio.

O novo trabalho – CASA VAZIA – trouxe em si toda a técnica aprimorada e refinada de seus bailarinos. Uma coreografia intensa onde cada gesto e cada peça apresentada, juntas ou separadas, levavam a questionamentos e reflexões intensas e internas. Como diz uma parte do texto de apresentação: “…as coisas não conhecem começo nem fim, não chegam a acontecer de fato e, justamente por isso, estão sempre recomeçando.” “As coisas….que não chegam a acontecer de fato…sempre recomeçando”. Parece um pouco o processo da vida, quando desejamos que “as coisas” aconteçam, lutamos por elas, mas elas “…não chegam a acontecer de fato”…por isso a insistência do recomeço, uma qualidade humana que nos leva sempre para frente, apesar de as vezes acharmos que estamos como caranguejos, andando de lado.

E essa parece ser a tônica do Faces Ocultas. Sempre recomeçar para sempre acontecer!

No intervalo das apresentações conversava com Ismenia e ela me dizia: 17 anos de uma cia. de dança particular, sem incentivo público ou particular permanente é um feito que pouquíssimos grupos atingem. E frisava: não só no Brasil, mas no mundo. Normalmente, dizia ela, as companhias particulares são montadas a partir de um espetáculo ou dois e depois disso deixam de existir. A exceção está naquelas que conseguem investimentos consistentes e permanentes e que acabam ou sendo públicas, como o Balé Cidade de São Paulo, ou sendo de uma empresa, como algumas que conhecemos de expressão nacional.

Esse com certeza é a maior qualidade do Faces Ocultas: a persistência e a permanência. Conduzidos pelo “Ari” (Arilton Assunção) desde seu início, tem no firme e único propósito de dançar a base de sua sustentação. E para isso não mede esforços. Para isso luta diuturna e incansavelmente, junto com seus “fiéis escudeiros”.

Sem dúvida, muito mais do que comemorar um aniversário, a Cia. Faces Ocultas comemora a consolidação de um objetivo, de uma ideia, de um eterno recomeço, iniciado há 17 anos atrás e consolidado em cada trabalho realizado.

Parabéns queridas e queridos bailarinos do Faces Ocultas. Parabéns Ari e seus escudeiros. Tenho muito orgulho de poder dizer que os conheço e conheço suas histórias. Tenho muito orgulho de poder dizer que vocês são da minha querida terrinha. Tenho muito orgulho de poder acompanhar a evolução de seus trabalhos e a repercussão mundial deles.

PARABÉNS!!!!

P.S. – Como gostei muito da coreografia “1964”, que na dança mostrou os horrores da ditadura implantada a partir daquela data, não poderia deixar de destacar uma pequenina falha no texto do fôlder de apresentação, onde chama o golpe de 1964 de “revolução”, coisa que sabemos não ter havido.