O TAC das creches

Hoje, como faço normalmente todos os sábados pela manhã, antes de ir até o Prefeitura no Bairro que acontece no Bela Vista (CEMUS I), li nosso jornal bi semanal. Já nas manchetes algo chamava a atenção: um destaque a argumentações do ex-prefeito a respeito das afirmações feitas pelo prefeito Juvenil na coletiva de 15 dias atrás.

Continuei a leitura, observando novamente o editorial tecendo suas críticas à administração, as notícias todas veiculadas, com destaque para a conquista – a ser anunciada na segunda-feira – de duas novas creches com recursos do governo do estado. Nessa notícia, uma peculiaridade: a afirmação do prefeito e do governo do estado que essas creches foram em atendimento a reivindicações da atual administração, contrastada com a afirmação do assessor de um deputado estadual de que seria ele o responsável pelos pedidos agora atendidos.

Até que cheguei ao tal destaque da fala do ex prefeito. A primeira coisa a chamar a atenção foi o espaço dado a essa argumentação: duas colunas ocupando grande parte de uma de suas páginas. No conteúdo o esforço do ex prefeito em justificar o injustificável: de que seria possível sim atender o TAC no prazo definido nele. Argumentos e mais argumentos que não se sustentam na prática. O mais complexo é o “ajuste” que ele pensou para o prédio da antiga Abadia para “abrigar” 700 crianças em um só espaço. E o mais interessante disso foi dizer que com $ 300.000,00 faria o tal ajuste. Argumentos de quem realmente não conhece a estrutura e o dia a dia de uma creche, infelizmente. Tive a oportunidade de participar da construção de algumas creches na cidade, e o valor que o ex prefeito afirma para o “ajuste” na antiga Abadia, era mais ou menos o que se investia em equipamentos para uma creche que em média atendem 120 crianças. Outra coisa: como será que eles pensaram administrar um local com 700 crianças reunidas diariamente? Lembrando que estamos falando de crianças de até três anos de idade. Não acredito que seja impossível. Todavia a complexidade da gestão e o número de funcionários seria algo imenso. Para se ter uma ideia as creches que citei trabalham com cerca de 30 servidores. Usando a proporção, estamos falando de cerca de 175 funcionários no mesmo local. Mais: a logística de alimentação, de recreação e de outras atividades inerentes a uma creche, seriam imensas. Nada contra a ideia. O que questiono é sua praticidade e seu alto custo para o município.

Ai, a grande surpresa: no final da “notícia” o ex prefeito cita meu nome, dizendo que a negociação com o Ministério Público começou na época em que eu era secretário da educação. Bom, se começou, esqueceram de me avisar. Nem no dia em que fui demitido tocaram nesse assunto. Poderão alguns perguntar: mas você não sabia das ações do Ministério Público? Sabia sim. Até porque não é uma coisa exclusiva de Salto, e eu sempre acompanhei o que acontecia em todos os campos. Por várias vezes em minha função de secretário, alertei a administração dos problemas vividos por conta das pressões dos órgãos de justiça. Deixei (e só agora começam a ser usados) vários projetos de novas construções a serem executadas na cidade. Inscrevi Salto por duas vezes, no mínimo, no programa Pro Infância do governo federal que já financiou uma creche (Santa Marta) e agora financiará mais duas. Pedi inúmeras vezes que alguma coisa fosse feita com o advogado que abocanhava as sentenças que obrigavam o atendimento de crianças fora da fila de espera (só agora que Dr. Amilton está fazendo alguma coisa). O TAC, ex prefeito, tive conhecimento depois que ele foi assinado, e ai já não estava mais na secretaria.

Como diz nosso jornal o sr. é um homem de boas intenções, sem maldades e correto. Se isso realmente é verdade espero que reveja essa fala infeliz, tentando transferir para outros o que esses outros não fizeram e sequer participaram. Com a pequena experiência que adquiri trabalhando por sete anos na secretaria da educação, jamais assumiria esse absurdo de dobrar as vagas em creche em menos de dois anos. E tenho certeza, caro ex prefeito, que toda a estrutura da secretaria, caso fosse ouvida, teria a mesma opinião, porque os profissionais que conheci e que respeito muito não seriam tão irresponsáveis. E mais: depois que voltamos para a prefeitura, observar obras de creche paralisadas por falta de habilidade em negociar e em fazer as coisas acontecerem nos deram mais motivos ainda para procurar renegociar o TAC.

Minha postura, e tenho certeza que de todo o atual governo, não é a de ficar debatendo problemas passados. Mas infelizmente fui citado nominalmente. Não chamarei de calúnia, por hora. Chamarei de descuido, de falta de cuidado. Mas não poderia ficar calado sem, pelo menos em meu espaço, tentar esclarecer o que realmente aconteceu. Conversarei com meus amigos e companheiros para verificar outras possíveis ações. Por enquanto limito-me a me posicionar por aqui.

“O ocaso de Gurgel”

 

Da Carta Capital

por Maurício Dias

 

Por decisão do Supremo Tribunal Federal, Roberto Gurgel está forçado a levantar o manto de proteção mantido em torno da gestão dele na Procuradoria-Geral da República (PGR). A decisão do STF resulta das insistentes negativas aos ofícios de Luiz Moreira, do Conselho Nacional do Ministério Público. Gurgel tentou bloquear o pedido no STF. Perdeu. Agora terá de explicar decisões administrativas que vão dos pregões para compra de veículos até a avaliação das coberturas indevidas do Programa de Saúde Assistencial.

 

É uma faxina. Não se sabe quanta poeira levantará. Isso ocorre a poucos dias do fim do reinado de Gurgel. A presidenta Dilma Rousseff, até o momento, não anunciou o substituto dele. E tudo indica que só em agosto o nome será conhecido.

Dilma não tem sido apressada nessas decisões. Foi assim com as escolhas para o STF. É assim também com a indicação do novo procurador-geral. O comportamento igual não implica, porém, motivação semelhante. O caso agora é outro.

O semestre judiciário começará de fato no dia 5 de agosto. Mesmo que a presidenta escolha de imediato o nome do substituto, o tempo entre a indicação e a sabatina no Senado irá além do dia 13, último dia de Gurgel no poder. O resultado disso é que ele não dará posse ao sucessor. É uma amarga despedida. Explicável.

 

Gurgel fez da PGR uma frente de judicialização da política, caracterizada por ações contra o governo e contra o PT. É o caso da peça acusatória da Ação 470, popularizada como “mensalão”, apresentada no STF com transmissão ao vivo pela televisão. O teor, preparado por Gurgel, facilitou o desempenho de alguns dos ministros da Corte: a partir dali, disseminaram pelo País o que o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (www.ocafezinho.com) chamou de Discurso do Ódio: “Designam insultos contra indivíduos e grupos com o objetivo de provocar o ódio contra eles, e eventual violência, simplesmente porque são quem são”.

Ousado, com trânsito livre e eco forte na mídia conservadora – “de direita”, corrigiria Joaquim Barbosa –, além de amizades sólidas no Congresso, notadamente José Sarney, tentou bloquear a ascensão de Renan Calheiros à presidência do Senado. Perdeu mais uma vez. Gurgel, no ocaso, coleciona derrotas.

Ele fez esforço para barrar o retorno de Luiz Moreira ao Conselho Nacional do Ministério Público. Era uma indicação da Câmara, com aprovação de todos os líderes partidários. O bloqueio foi derrubado no Senado. O procurador-geral perdeu mais uma vez. Assim como perdeu com o veto do Senado a Vladimir Aras, indicado por Gurgel para a diretoria da Associação Nacional dos Procuradores da República.

Dilma também deixou marca no ocaso do procurador-geral.

Após as manifestações nas ruas, ela ouviu os representantes do mundo jurídico sobre o movimento: STF, TSE, OAB. A PGR (Gurgel) ficou de fora.

 

Manifestação pacífica e surpreendente

 

Do Correio do Brasil

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

Manifestante, amparado para chegar até a altura da placa, cola o adesivo com o nome de Leonel Brizola sobre a placa da Rua Irineu Marinho

Manifestante, amparado para chegar até a altura da placa, cola o adesivo com o nome de Leonel Brizola sobre a placa da Rua Irineu Marinho

O alerta na redação do diário conservador carioca O Globo soou por volta das 14h da sexta-feira. As pesadas portas de ferro na saída para a Rua Irineu Marinho, Centro do Rio, seriam fechadas, pontualmente, às 15h, como avisava o boletim interno distribuído aos funcionários. Ninguém mais entrou ou saiu das garagens após às 15h30. Estava decretado o pavor na sede de uma das organizações mais visadas desde o início das manifestações que tomaram conta das ruas, nas principais cidades brasileiras. Entre os repórteres, redatores e editores do jornal, uma ponta de apreensão, pois imaginavam – diante das cenas de pura revolta, no Leblon, noite passada – que uma turba mascarada, saída das marchas contra o governador do Estado do Rio, Sérgio Cabral Filho, adentraria o ambiente refrigerado da redação, pronta a quebrar terminais de computadores, aquários de blindex e até as preciosas máquinas de café. Estas, com certeza, produzem um resultado menos amargo do que as denúncias, do site O Cafezinho, do jornalista Miguel do Rosário, sobre uma fraude bilionária de seus patrões ao fisco.

A direção precaveu-se. Mandou blindar as vidraças com tapumes, lacrar as entradas e usou do costumeiro prestígio com as forças estatais de repressão para convocar o Batalhão de Choque da Polícia Militar. No final da tarde, um contingente de mais de 100 homens posicionou-se, estrategicamente, nos pontos de acesso às preciosas placas da rua que, horas depois, passaram a homenagear a memória do governador gaúcho e carioca, Leonel de Moura Brizola. Munidos de cacetetes longos, escudos blindados, capacetes e couraças; armados de bombas de efeito moral, gás de pimenta e muita bala de borracha, os PMs estavam prontos a proteger a propriedade da terceira geração do titular daquele logradouro público de apenas cento e poucos metros de extensão, mas longo o suficiente para para cruzar décadas de colaboração com o regime militar que o tornou o maior império de comunicação da América Latina. Um dos maiores do mundo.

Àquela altura, no meio da tarde, o adiantamento da edição de domingo já estava tumultuado. A manifestação fora confirmada pelas redes sociais e no Correio do Brasil, primeiro diário a publicarque a Rua Irineu Marinho, a partir da noite passada, passaria a se chamar Rua Leonel Brizola, por força das redes sociais e dos manifestantes. Ainda que por um breve momento, tão curto quanto a rua que seu nome batizou, o velho Briza novamente desafiaria o poderio das Organizações Globo e as colocaria, mais uma vez, em xeque perante a opinião pública brasileira.

A bandinha do Sindicato dos Petroleiros, engalanada, estava a postos em frente ao edifício Balança mas não cai, na esquina da Rua de Santana com a Avenida Presidente Vargas. Um sistema de projeção passava imagens do governador do Rio, na década de 80, nas paredes que encontrava disponíveis, em tamanho gigante, como se fluíssem da memoria dos manifestantes que, aos poucos, chegavam ao ponto de encontro. A retreta estava animada, mas o público tardava a chegar. Os organizadores do ato público, a começar por Alexandre Cesar Costa Teixeira, editor do blog Megacidadania; Theófilo Rodrigues, cientista social e dirigente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé; e coordenadores do movimento Frente Ampla pela Liberdade de Expressão (FALE-Rio), resolveram partir assim mesmo. O grupo era pequeno, mas animado.

No início da marcha, pela contramão da Rua de Santana, havia perto de três PMs para cada manifestante e, naquele momento, o comandante do grupamento começara a perceber o fiasco a que o setor de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública o obrigara a passar. Ainda assim, coordenaram o trânsito e postaram meia-dúzia de batedores no final do séquito até a chegada ao primeiro alvo: a placa afixada no prédio ganhou o adesivo com o nome de Brizola e o aplauso, agora, por uma multidão um pouco maior, ecoou para os edifícios em volta, de onde surgiram moradores acenando com panos na janela, em sinal de apoio. Mas havia outras surpresas guardadas para os policiais do Choque, ainda incrédulos diante daquele pequeno e organizado grupo de manifestantes. Possibilidade zero de haver confrontos, quebra-quebras e cenas de violência generalizada contra a sede do império midiático. O ato seguinte do protesto, então, seria ainda mais surrealista, tanto para o aparato truculento convocado pelas Organizações Globo, quanto para as dezenas de funcionários da casa, que se amontoavam na passarela que liga a redação às antigas oficinas do jornal.Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois e bolas de papel gigantes voaram na direção do logotipo do Globo, para lembrar a armação desvendada pela blogosfera na campanha de 2010, quando o então candidato José Serra (PSDB) foi atingido por um objeto na cabeça, durante caminhada no subúrbio carioca. Não passava de uma bolinha de papel, mas o representante tucano chegou a gastar uma ressonância magnética e horas de trabalho de um perito contratado para provar que o incidente seria quase que um atentado à vida do representante das forças da direita. A fraude, uma vez desvendada, custou-lhe preciosos votos e a memória eterna de seus adversários acerca da patifaria.

Jogadas as bolinhas de papel, colados os adesivos sobre as placas da “antiga” Rua Irineu Marinho, teve início a leitura dramática do mais mais célebre direito de resposta já imposto à Rede Globo:

“Todo sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui, citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro. Ontem, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar o editorial de O Globo, fui acusado na minha honra e, pior, chamado de senil.

Tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que use para si. Não reconheço na Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e, basta, para isso, olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura que por 20 anos dominou o nosso país.

Todos sabem que critico, há muito tempo, a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou ontem, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípio. É apenas o temor de perder negócio bilionário que para ela representa a transmissão do carnaval. Dinheiro, acima de tudo.

Em 83, quando construí a Passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar, de todas as forma, o ponto alto do carnaval carioca. Também aí, não tem autoridade moral para questionar-me. E mais: reagi contra a Globo em defesa do Estado e do povo do Rio de Janeiro que, por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior. E isto é o que não perdoarão nunca.

Até mesmo a pesquisa mostrada ontem revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado.

Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria, antes, um dever para qualquer órgão de imprensa. Dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção. Quando ela diz que denuncia os maus administradores, deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante de seu poder. Se eu tivesse pretensões eleitoreiras de que tentam me acusar não estaria, aqui, lutando contra um gigante como a Rede Globo. Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado.

Quando me insultam por minhas relações administrativas com o Governo Federal, ao qual faço oposição política, a Globo vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível. Quem sempre viveu de concessões e favores do poder público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesmo.

Que o povo brasileiro faça seu julgamento, e, na sua consciência lúcida e honrada, separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis e gananciosos”.

Diante do término iminente do ato público, sem nenhuma confirmação das previsões catastróficas, discretamente, o aparato militar começava a ser desfeito e o sorriso nos semblantes dos soldados, armados até os dentes, demonstrava a incredulidade diante do ato público que, de acordo com os organizadores, foi “a mais bem sucedida ação pública contra o gigante midiático que lidera a concentração dos meios de comunicação do país”, segundo o jornalista Marcos Pereira, também coordenador do Barão de Itararé.

– Mais importante do que o número de pessoas na manifestação foi o seu peso simbólico. Hoje, as Organizações Globo temem a população. Mais do que nunca, sabem que já não são mais capazes de manipular as notícias, na tentativa de enganar os brasileiros. Hoje, vamos às ruas para mostrar que os tempos mudaram e é preciso acabar com o cartel que tenta impedir a democratização da comunicação no país – afirmou, enquanto um grupo puxava slogans como “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” e “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”.

“E ainda apoia”.

Gilberto de Souza é editor-chefe do Correio do Brasil.

 

“Neofascismo coxinha tenta virar ideologia”

 

Do O Cafezinho

 

Francisco Bosco, que talvez anseie se tornar uma espécie de Sartre dos coxinhas, publicou a seguinte mensagem em seu Facebook:

A PM pergunta: “Quem está tentando saquear lojas está reivindicando um país melhor?” No contexto político presente, sim, está. Passar ao real é o último recurso para transformar uma realidade que se especializou em frustrar todos os demais recursos (“política”, nas democracias contemporâneas, virou isso). Assim como, nessas condições, a política depende do real para realizar-se, por outro lado a única atitude que pode tirar as pessoas das ruas e acabar com essas passagens ao real é uma atitude efetiva, vinda do Estado, na realidade. Ou seja: ações, não apenas discursivas, mas concretas, por meio das quais o Estado reconheça sua responsabilidade pela revolta popular e comece a fazer política verdadeira, servindo à população. Mas, em vez disso, temos um governador a quem falta qualquer senso de realidade e uma polícia que sabe apenas passar ao real. Pois bem, não vai ser no registro do real que tudo isso será resolvido, mas no registro da realidade. E os manifestantes, mesmo aqueles que passam ao real (os “vândalos”) na verdade não querem isso, não querem falar a “linguagem” da PM. Esse é apenas o último recurso que resta quando os recursos da realidade são todos falseados. Portanto, respondendo novamente à pergunta da PM, quem está tentando saquear lojas está, precisamente, reivindicando um país melhor. E eles nos representam. São os únicos que realmente nos representam.

Bem, vou repetir a frase que o próprio Bosco repetiu:

quem está tentando saquear lojas está, precisamente, reivindicando um país melhor. E eles nos representam. São os únicos que realmente nos representam.

Esse é o nível dos colunistas do Jornal O Globo. Defensores do terrorismo coxinha, disfarçado sempre de “manifestações pacíficas”. Um bando de idiotas mascarados quebrando e saqueando lojas, inclusive a fachada da Globo, incendiando carros de reportagem, depredando patrimônio público.

E tudo para fazer uma revolução? Para defender uma lei de herança? Para defender uma reforma urbana que contenha uma tributação adequada para evitar que uma pessoa tenha excesso de imóveis – situação que gera o aumento no preço dos aluguéis por deixar milhares de apartamentos em mãos de um cartel imobiliário? Para criação de um forte imposto sobre o carro que deveria ser usado para construção de metrôs?

Infelizmente, não.

Quebram tudo para protestar contra a corrupção, contra a Copa (!) ou contra a “privatização” do Maracanã…

 

Recebi este vídeo pelas redes sociais, falando da organização de uma grande manifestação no dia 7 de setembro. É assustador. É contra tudo e todos, petistas e tucanos, numa estratégia maquiavélica para não se associar a nenhum partido ou ideologia, mas a principal bandeira é contra “os impostos”. Ou seja, há sim interesses ultraconservadores por trás do que está acontecendo no Brasil. Há forças obscuras se movimentando para estancar o crescimento nacional. A quem interessa um país em chamas, desorganizado, com tudo sendo exibido pelo tweetcasting?

Que espécie de idiotia coletiva é esta que acha bonito ver mauricinhos saqueando lojas? E se a moda pega? Vamos bater palma assistindo o povo brasileiro aderir a esta loucura coletiva e sair saqueando estabelecimentos comerciais pelo país afora? Vamos copiar modelos de guerra civil africana?

É evidente que o resultado será um violento retrocesso conservador. Esta loucura tem de ser combatida na raíz. Os coxinhas já produziram a sua milícia, os mascarados vândalos, e agora começam a pipocar oportunistas querendo faturar intelectualmente. Daqui a pouco estarão dando palestras nos clubes militares, que aliás já declararam apoio entusiástico às manifestações da turma danoninho.

O lado bom – se é possível achar que existe um lado bom nisto – é que este nascimento do neofascismo coxinha obriga todos a ficarem acordados: o sindicalismo adormecido, a militância partidária preguiçosa e as pessoas cujo bom senso não foi destruído por colunistas de jornal. Manifestações são positivas quando tem propósitos objetivos, democráticos e populares, e não usam métodos que visam destruir e desestabilizar o país.

 

Lula no New York Times: “Novas vozes no Brasil”

 

Da Rede Brasil Atual

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal The New York Times e traduzido pelo Instituto Lula.

Parecia mais fácil explicar as razões de tais protestos quando eles aconteciam em países sem democracia, como o Egito e a Tunísia em 2011, ou onde a crise econômica levou o desemprego juvenil a níveis assustadores, como na Espanha e na Grécia, por exemplo. Mas a chegada dessa onda a países com governos democráticos e populares, como o Brasil, quando temos as menores taxas de desemprego da nossa história e uma inédita expansão dos direitos econômicos e sociais, exige de todos nós, líderes políticos, uma reflexão mais profunda.

Muitos acham que esses movimentos significam a negação da política. Eu acho que é justamente o contrario: eles indicam a necessidade de se ampliar ainda mais a democracia e a participação cidadã. De renovar a política, aproximando-a das pessoas e de suas aspirações cotidianas.

Eu só posso falar com mais propriedade sobre o Brasil. Há uma ávida nova geração no país, e eu creio que os movimentos recentes são, em larga medida, resultado das conquistas sociais, econômicas e políticas obtidas nos últimos anos. O Brasil conseguiu na última década mais que dobrar o número de estudantes universitários, muitos deles vindos de famílias pobres. Reduzimos fortemente a pobreza e a desigualdade. São grandes feitos, mas é também absolutamente natural que os jovens, especialmente aqueles que estão obtendo o que seus pais nunca tiveram, desejem mais.

Estes jovens tinham 8, 10,12 anos quando o partido que eu ajudei a criar, o PT, junto com seus aliados, chegou ao poder. Não viveram a repressão da ditadura nos anos 60 e 70. Não viveram a inflação dos anos 80, quando a primeira coisa que fazíamos ao receber um salário era correr para um supermercado e comprar tudo o que fosse possível antes que os preços subissem no dia seguinte. Também têm poucas lembranças dos anos 90, quando a estagnação e o desemprego deprimiam o nosso país.

Eles querem mais. E é compreensível que seja assim. Tiveram acesso ao ensino superior, e agora querem empregos qualificados, onde possam aplicar o que aprenderam nas universidades. Passaram a contar com serviços públicos de que antes não dispunham, e agora querem melhorar a sua qualidade. Milhões de brasileiros, inclusive das classes populares, puderam comprar o seu primeiro carro e hoje também viajam de avião. A contrapartida, no entanto, deve ser um transporte público eficiente e digno, que facilite a mobilidade urbana, tornando menos penosa e estressante a vida nas grandes cidades.

Os anseios dos jovens, por outro lado, não são apenas materiais. Também querem maior acesso ao lazer e à cultura. E, sobretudo, reclamam instituições políticas mais transparentes e limpas, sem as distorções do anacrônico sistema partidário e eleitoral brasileiro, que até hoje não se conseguiu reformar. É impossível negar a legitimidade de tais demandas, mesmo que não seja viável atendê-las todas de imediato. É preciso encontrar fontes de financiamento, estabelecer metas e planejar como elas serão gradativamente alcançadas.

A democracia não é um pacto de silêncio. É a sociedade em movimento, discutindo e definindo suas prioridades e desafios, almejando sempre novas conquistas. E a minha fé é que somente na democracia, com muito diálogo e construção coletiva, esses objetivos podem ser alcançados. Só na democracia um índio poderia ser eleito presidente da Bolívia, e um negro presidente dos Estados Unidos. Só na democracia um operário e uma mulher poderiam tornar-se presidentes do Brasil.

A história mostra que, sempre que se negou a política e os partidos, e se buscou uma solução de força, os resultados foram desastrosos: guerras, ditaduras e perseguições de minorias. Todos sabemos que, sem partidos, não pode haver verdadeira democracia. Mas cada vez fica mais evidente que as nossas populações não querem apenas votar de quatro em quatro anos, delegando o seu destino aos governantes. Querem interagir no dia a dia com os governos, tanto locais quanto nacionais, participando da definição das políticas públicas, opinando sobre as principais decisões que lhes dizem respeito.

Em suma: não querem apenas votar, querem ser ouvidas. E isso constitui um tremendo desafio para os partidos e os lideres políticos. Supõe ampliar as formas de escuta e de consulta, e os partidos precisam dialogar permanentemente com a sociedade, nas redes e nas ruas, nos locais de trabalho e de estudo, reforçando a sua interlocução com as organizações dos trabalhadores, as entidades civis, os intelectuais e os dirigentes comunitários, mas também com os setores ditos desorganizados, que nem por isso têm carências e desejos menos respeitáveis.

E não só em períodos eleitorais. Já se disse, e com razão, que a sociedade entrou na era digital e a política permaneceu analógica. Se as instituições democráticas souberem utilizar criativamente as novas tecnologias de comunicação, como instrumentos de diálogo e participação, e não de mera propaganda, poderão oxigenar – e muito – o seu funcionamento, sintonizando-se de modo mais efetivo com a juventude e todos os setores sociais.

No caso do PT, que tanto contribuiu para modernizar e democratizar a política brasileira e que há dez anos governa o país, estou convencido de que ele também precisa renovar-se profundamente, recuperando seu vínculo cotidiano com os movimentos sociais. Dando respostas novas a problemas novos. E sem tratar os jovens com paternalismo.

A boa notícia é que os jovens não são conformistas, apáticos, indiferentes à vida pública. Mesmo aqueles que hoje acham que odeiam a política, estão começando a fazer política muito antes do que eu comecei. Na idade deles, não imaginava tornar-me um militante político. E acabamos criando um partido, quando descobrimos que no Congresso Nacional praticamente não havia representantes dos trabalhadores.

Inicialmente não pensava em me candidatar a nada. E terminei sendo Presidente da República. Conseguimos, pela política, reconquistar a democracia, consolidar a estabilidade econômica, retomar o crescimento, criar milhões de novos empregos e reduzir a desigualdade no meu país. Mas claro que ainda há muito a ser feito. E que bom que os jovens queiram lutar para que a mudança social continue e num ritmo mais intenso.

Outra boa notícia é que a presidenta Dilma Rousseff soube ouvir a voz das ruas e deu respostas corajosas e inovadoras aos seus anseios. Propôs, antes de mais nada, a convocação de um plebiscito popular para fazer a tão necessária reforma política. E lançou um pacto nacional pela educação, a saúde e o transporte público, no qual o governo federal dará grande apoio financeiro e técnico aos estados e municípios.

Quando falo com a juventude brasileira e de outros países, costumo dizer a cada jovem: mesmo quando você estiver irritado com a situação da sua cidade, do seu estado, do seu país, desanimado de tudo e de todos, não negue a política. Ao contrário, participe! Porque o político que você deseja, se não estiver nos outros, pode estar dentro de você.