Desemprego: menor taxa da série histórica

Flávia Villela
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – A taxa de desemprego do país ficou em 4,6% em dezembro e fechou o ano de 2012 em 5,5%, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados foram divulgados hoje (31) e mostram que o índice anual é o mais baixo da série histórica iniciada em março de 2002. Antes disso, a taxa de 2011 havia sido a menor da série, ao ficar em 6%.

O resultado de dezembro do ano passado também é o menor da série histórica. O recorde anterior havia sido registrado em dezembro de 2011 (4,7%). Em novembro de 2012, o índice ficou em 4,9%.

O IBGE iniciou a série histórica da pesquisa em março de 2002, por isso não há dado consolidado para aquele ano.

Em dezembro de 2012, o Brasil tinha 1,1 milhão de desocupados, 6% a menos do que em novembro, ou menos 72 mil pessoas. Em 2012, os desocupados somaram, em média, cerca de 1,3 milhão de pessoas, 6,1% a menos que em 2011 (1,4 milhão). Na comparação com 2003 (2,6 milhões de desempregados), o contingente de desocupados caiu 48,7%.

A população ocupada, que somou 23,4 milhões em dezembro, ficou estável em relação a novembro e representou aumento de 3,1% em relação a dezembro de 2011.

Já o rendimento médio real do trabalhador caiu 0,9% em dezembro na comparação com novembro e ficou em R$ 1.805. Em relação a om dezembro de 2011, no entanto, o rendimento real cresceu 3,2%.

Edição: Juliana Andrade

 

As versões que interessam

Do Correio do Brasil

Grande mídia faz com a questão da geração de energia no Brasil o mesmo que a rainha Vitória fez com a Bolívia: após o embaixador britânico ter sido humilhado no país, e na impossibilidade de a marinha real lançar suas bombas, simplesmente se decidiu riscar, com uma caneta imperial, a Bolívia do mapa-mundi.

O escritor Euclides da Cunha concede apenas duas linhas para o último capítulo de “Os Sertões”. Diz ele em sua grande obra: “É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades”. Euclides pretendia coroar seu incomparável livro com a citação de uma espécie de unanimidade da psiquiatria de época; mas quase ninguém sabe hoje quem foi Henry Maudsley (1835-1918).

Em suas obras, ele afirmava que a criminalidade e o seu sucedâneo – a loucura – ou vice-versa eram não só explicáveis, mas previsíveis pelo que se conhecia do desenvolvimento da psiquiatria de então. Era um dos muitos enganos, convalidados pela ideologia cientificista da época – mas que continua, pelo menos como ideologia. Quase todos os cronistas da grande imprensa contemporânea pensam ter a chave da história ao apostarem nos consensos das classes dominantes. Parece terem adquirido o hábito de insistirem que a casa não caiu, embora os escombros demonstrem exatamente o contrário.

Talvez fosse o caso de se pensar que se Maudsley (ou Freud, ou Young, ou Lacan, sabe-se lá) valesse alguma coisa permanente para o futuro, ele talvez explicasse não só a loucura das nacionalidades, mas dos jornais, das revistas, da TV, do rádio e principalmente dos cronistas brasileiros, econômicos ou não: eles garantiram que os reservatórios das hidrelétricas ficariam secos, justamente na época das chuvas, e, como São Pedro não foi avisado, eles aduziram – para se contraporem às contraditórias cheias das represas – que as contas do governo não batem para que sua promessa de reduzir as tarifas de energia elétrica sejam, afinal, factíveis.

Há, inclusive, um velho físico de plantão, ex-ministro, ex-secretário de meio ambiente de São Paulo, ex quase tudo, que todos os anos repete o bordão: as reservas das hidrelétricas estão esgotadas. O Brasil da presidenta Dilma repetirá o fiasco do apagão do governo Fernando Henrique Cardoso. Como nada disso acontece, os pauteiros dos jornalões e da TV acabam se esquecendo de pedir ao velho físico seus palpites sobre a meteorologia, ou do resultado do próximo jogo entre o Brasil e a Inglaterra.

Talvez exista, sim, um dia um Maudsley que explique a frustração dos pauteiros e cronistas políticos que, há anos, vêm prevendo o pior para o Brasil, já que o país não se emenda e continua a votar no PT e nos partidos de esquerda. No fundo, constata-se, como dizem os gaúchos, que “é dura a lida de campo”. Ou seja, já que a realidade não se amolda aos desejos da grande imprensa, abaixo oreal.

Contam os historiadores britânicos que a rainha Vitória nunca se convenceu de que a toda poderosa Marinha de Sua Majestade não podia bombardear a Bolívia. O pequeno país latino-americano tinha dado alguns pontapés no embaixador britânico, humilhando publicamente um representante do mais poderoso império do século XIX. Em quaisquer outros países com as costas para o mar, a marinha inglesa teria reduzido a entulhos as sedes do governo, se é que pouparia o próprio país como um todo das represálias pesadas a uma humilhação do gênero.

Ocorre que, para castigar exemplarmente a Bolívia, as forças britânicas teriam de atravessar alguns países, como o Chile, o Peru e até o Brasil. Haveriam que pedir licença, o que dificilmente lhes seria concedida; ou declarar guerra à América Latina como um todo para atingir a Bolívia. Não havia, em suma, como reagir à altura. Conta-se então que a rainha Vitória teria pedido um mapa-mundi e, com caneta imperial, riscou a Bolívia do mapa das Américas. Dali em diante a Bolívia não existiria.

Mutatis mutandis, como dizem os egrégios juízes do Supremo Tribunal Federal, não se sabe o que farão os grandes jornais e redes de TV diante da realidade de que, de fato, a presidenta não apenas está cortando os juros e as contas das elétricas, ao contrário do que eles e seus cálculos previam, mas está com um decidido apoio popular. Não se cogita de que risquem o Brasil real do mapa.

Na verdade, parece já estarem tentando fazer isso, desde que o país não vem se amoldando a suas previsões catastróficas. Como, porém, tudo continua funcionando a contento – a despeito de seus desejos, ou melhor, apesar dos desejos de seus patrões –, a cada momento se assistem a novas matérias em que a hecatombe é o mínimo esperado.

Dias atrás, a Globo anunciou que as obras para os jogos da Copa das Confederações não ficariam prontas a tempo. As linhas de transmissão de energia para os respectivos estádios não estavam sendo construída – estariam atrasadas. E, segundo os cálculos de uma agência reguladora, havia o perigo iminente de que as coisas fossem de mal a pior, para a humilhação do Brasil.

À medida que a matéria corria no Jornal Nacional, porém, nada da manchete se confirmava. Dito com outras palavras: a própria matéria, anunciada com manchetes catastrofistas, deixava claro que não era nada daquilo que se dizia; que as obras corriam a contento e que, para todos os efeitos, elas estavam prestes a ser instaladas. Em suma: a matéria contrariava a manchete, ou se quisermos, a manchete contrariava a matéria.

Pouco a acrescentar. Mas fica curiosidade sobre a cabeça dos coleguinhas a inventar histórias que não se confirmam. Devem ser pessoas felizes. Cogita-se que seus salários compensem, à larga, as invenções que eles, mais que todos sabem serem meras invencionices, que não têm nada a ver com jornalismo.

A sua sorte é que não estão sozinhos no mundo. É assim na França, nos EUA e na Espanha. Confirma-se um pouco, a sua moda, a idéia do grande Euclides da Cunha: é que não existe ainda um Maudsly que explique loucuras e os crimes, não só das nacionalidades, mas dos jornalistas e de seus queridíssimos patrões.

Que fazer? A Bolívia não existe e pronto.

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

 

Midia estremece com encontro

Do Correio do Brasil

O tom desesperado dos editoriais da mídia conservadora, que embasa a representação entregue na véspera pelo PSDB à Procuradoria-Geral da República contra a presidente Dilma Rousseff, não encontrará eco na Corte Suprema. A previsão é do ministro Luis Inácio Adams, da Advocacia-Geral da União. Em conversa com jornalistas, na manhã desta quarta-feira, ele afirmou que a tendência é a do procurador-geral arquivar a medida.

– Não tem nenhum fundamento, nenhuma substância jurídica – disse Adams.

O que os tucanos pedem é uma investigação sobre o pronunciamento da presidenta, transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão na última quarta-feira, que teria sido uma peça de propaganda política, na visão dos conservadores de direita,expressa no ódio com que a mídia conservadora se refere ao governo da presidenta Dilma. Segundo afirma o documento, o anúncio de que a conta de luz ficará menor tratou-se de uma “cristalina promoção da presidente da República”, uma antecipação da campanha pela sua reeleição.

– Não estamos em período eleitoral, o pronunciamento não faz referência a partidos, entidades, nada – afirma.

Em seu discurso, Dilma críticou, sim, mas os “pessimistas” ao anunciar a redução na tarifa de energia. Para o senador tucano Aécio Neves (MG), ela falou como um partido, e não como presidenta. Em defesa de Dilma, o advogado-geral da União afirma que ainda não analisou a representação e que Dilma não está “nem um pouco” preocupada com ela. Ainda não foi definido se a AGU irá se antecipar a um eventual pedido do Ministério Público em defesa da presidente. Ele afirmou que é permitido por lei que o presidente da República faça pronunciamentos quando há fatos relevantes a serem anunciados.

Visita de Franklin Martins

A má vontade dos diários conservadores paulistas e cariocas, que servem como únicos pilares à representação conta Dilma, cristaliza-se de forma a evidenciar, segundo analistas políticos ouvidos pelo Correio do Brasil, a existência de um cartel formado com o objetivo de atuar como um partido político não convencional. Para tratar da questão da mídia, Dilma chamou nesta manhã, ao Palácio do Planalto, o ex-ministro da secretaria de Comunicação Social da Presidência da República,Franklin Martins, que defende a edição de marcos reguladores para o setor.

Em recente pronunciamento, o PT apontou a intenção de a mídia conservadora promover, no país, um ambiente de conflagração, a exemplo daquele havido na época dos estadistas Getúliio Vargas e João Goulart. Segundo o partido, ambos foram vítimas de uma “insidiosa campanha de forças políticas” para desestabilizar seus governos e que o país, atualmente, vive processo semelhante, desde 2003, para desmoralizar o ex-presidente petista e o seu legado.

“A partir de 2003, de forma intermitente, tratou-se de anular os notórios êxitos do governo, com campanhas que procuravam ou desconstruir as realizações do governo Lula ou tachá-lo de ‘incapaz’ e ‘corrupto’ (…). Sabe-se que denúncias de corrupção sempre foram utilizadas pelos conservadores no Brasil para desestabilizar governos populares, como os já citados casos de Vargas e Goulart”, afirma o documento.

Franklin editou um projeto-de-lei que determina parâmetros para que a concentração de poder neste segmento, no país, não seja alvo de novos escândalos, como aquele noticiado pela organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, que aponta a existência, no Brasil, de 30 berlusconis, referindo-se ao capo da mídia italiana.

Segundo o relatório da RSF, divulgado na semana passada, o Brasil é “o país dos 30 Berlusconis”, numa crítica à concentração dos veículos de comunicação do país em poucas mãos. “O Brasil apresenta um nível de concentração de mídia que contrasta totalmente com o potencial de seu território e a extrema diversidade de sua sociedade civil”, analisa a ONG de defesa da liberdade de imprensa. “O colosso parece ter permanecido impávido no que diz respeito ao pluralismo, um quarto de século depois da volta da democracia”, destaca a RSF.

O relatório foi composto após visitas de membros da ONG a Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo o RSF, “a topografia midiática do país que vai receber a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 pouco mudou nas três décadas que sucederam a ditadura militar de 1964-1985″. O documento destaca que as 10 maiores companhias de mídia do país estão baseadas em São Paulo ou Rio de Janeiro, o que “enfraquece a mídia regional”.

“A independência editorial da mídia impressa e transmitida e minada pela pesada dependência de propaganda do governo e suas agências”, analisa o relatório, que destaca que, em 2012, houve 11 jornalistas mortos no país. Segundo a ONG, um dos problemas endêmicos do setor da informação no Brasil é a figura do magnata da imprensa, que “está na origem da grande dependência da mídia em relação aos centros de poder”. “Dez principais grupos econômicos, de origem familiar, continuam repartindo o mercado da comunicação de massas”, lamenta a RSF.

Soluções

Segundo a ONG, outro problema no Brasil é a censura na internet, com denúncias que levaram ao fechamento de blogs durante as eleições municipais de 2012. O documento cita o caso do diretor do Google Brasil, Fábio José Silva Coelho, que ficou preso brevemente por não retirar do YouTube um vídeo que teoricamente atacava um candidato a prefeito. Coelho foi preso pela Polícia Federal em setembro passado a pedido do candidato a prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal.

Para reequilibrar o cenário da mídia brasileira, a Repórteres Sem Fronteiras recomenda reformar a legislação sobre a propriedade de grandes grupos e seu financiamento com publicidade oficial. Além disso, a ONG sugere a melhoria da atribuição de frequências audiovisuais, para favorecer os meios de comunicação, e um novo sistema de sanções que não inclua o fechamento de mídias ou páginas, entre outras medidas.

 

Singelas posições

Nesta triste manhã de domingo quando nos deparamos com uma tragédia horrenda no interior do Rio Grande do Sul, onde mais de 180 pessoas morreram no incêndio de uma boate, quero expressar alguns pensamentos que ocuparam minha mente nos últimos dias.

Estamos chegando ao final do primeiro mês da administração Juvenil e Jussara com muitas esperanças de realizações e várias ações que apontam para esse caminho. Entretanto o que gostaria de refletir é sobre o estilo de governo e um pouco das heranças recebidas. Um dos comentários que mais observo é: “o Juvenil foi vice por oito anos… deveria saber tudo o que estava acontecendo lá…”. Esse é um comentário que enseja uma série de reflexões por si só.

É verdade: Juvenil foi vice-prefeito por oito anos. Fomos secretários desse mesmo governo por sete anos, até o desfecho conhecido por todos. Todavia, o que muitos não querem admitir (e cada um tem seus motivos) é que vivíamos um governo de coalizão, onde grupos distintos administravam a cidade, a ponto de nas vésperas das eleições o ex-prefeito optar por um deles. Isso quer dizer uma coisa bastante simples: os grupos mantinham seus objetivos e ações a partir daquilo que acreditavam sem a interferência e/ou ingerência dos outros grupos. Por conta disso fica mais simples de entender o fato de muitas das heranças recebidas não serem do conhecimento dos que agora estão no comando. E é sempre bom destacar que os maiores poderes de decisão estavam nas mãos do grupo que teve o apoio do ex-prefeito. Disso, creio, não existe dúvida alguma.

Os que cobram do atual prefeito um conhecimento amplo daquilo que aconteceu no governo anterior talvez não tenham a dimensão do que é uma administração pública, que movimenta um orçamento de mais de duzentos milhões de reais e um contingente de mais de 2500 pessoas. Não existe a menor possibilidade de alguém saber ou acompanhar todos os procedimentos que isso envolve. Por isso o sentido de equipe é fundamental. Esse conceito, no antigo governo, era diminuido por conta dos grupos existentes. Não tínhamos e nunca fomos ouvidos no que diz respeito a gestão de recursos ou mesmo a gestão de materiais e contratos, o que em si já denota um imenso volume de trabalho.

Outros, como também já li, afirmam que “houve uma transição tranquila, como todos declararam… como agora ‘aparecem’ coisas que não se sabia?”. Sou testemunha de que a transição foi tranquila. Ninguém tem dúvida disso. Aliás um marco na história de nossa cidade: a civilidade nas questões políticas. Entretanto, da tranquilidade para a transparência total existe um longo caminho.  O que pedimos e solicitamos tivemos sempre em mãos, não resta dúvida. Todavia, em alguns casos (pequenos mas estratégicos), as informações tiveram problemas conceituais, como o caso da dívida ou não dívida (que certamente será objeto de análises externas).

Tranquilidade não quer dizer perfeição.

Outra reflexão é em relação ao estilo do novo governo: democrático, transparente, aberto, voltado para as pessoas, preocupado com a periferia da cidade e com seus servidores. Não é possível uma comparação rasa entre o atual governo e o anterior nesse aspecto. O último governo teve muitas qualidades, não resta nenhuma dúvida. Mas pecou pela falta de transparência, pelo descuido com a periferia e com seus servidores. Aspectos que internamente sempre foram motivos de tensão entre os grupos então existentes.

O projeto da PREFEITURA NOS BAIRROS, sem dúvida alguma será o grande referencial e o diferencial com todos os governos que até agora passaram pela nossa prefeitura. No próximo final de semana teremos o primeiro local recebendo esse projeto: o Jd. Marília, que não foi escolhido a esmo. É sem dúvida alguma uma das regiões mais carentes e esquecidas de nossa cidade. E um governo que se preocupa com sua gente e com sua periferia não poderia deixar de estar lá.

Outras ações farão muita diferença em relação aos governos anteriores, como a Comissão Permanente de Negociação com os servidores, as audiências públicas, as conferências e tantos outros instrumentos e referenciais a serem vividos.

O que não podemos é nos levar por análises superficiais e singelas que não percebem os contextos políticos e de gestão nos diferentes governos que existiram em nossa cidade. A continuidade existirá sim naquilo que foi bom e positivo para a cidade. Todavia o governo é outro, com objetivos muito claros para a cidade. Objetivos que ouso dizer ainda não fizeram parte da história de Salto.

A cidade de São Paulo e a cultura renovada

Do Luis Nassif

 

Haddad e a Cidade: Novos Ventos da Renovação Cultural

Artigo de Hamilton Faria

O discurso de posse do prefeito Fernando Haddad parece ter ido além das intenções e do seu significado simbólico. A ênfase que deu a cultura não tem paralelo na história recente na cidade. Luiza Erundina não acentuou tanto o desenvolvimento cultural em sua posse e nos seus discursos oficiais, mesmo se levarmos em conta que Marilena Chauí foi a mais destacada secretária de cultura da cidade de São Paulo após a ditadura.

Relembremos o que diz Haddad em seu discurso de posse, no dia 1 de janeiro de 2013:
“Eu sei que as tarefas não são tão simples. Há muitas outras a serem citadas. Eu falei da produção de conhecimento, da produção de cultura, como essência da própria cidade, a cidade não funciona, não apenas sem os empreendimentos que são conhecidos de todos, mas sem produção de conhecimento e cultura. Nós temos que patrocinar um ambiente favorável para que isso floresça cada vez mais, para que a força de São Paulo se expresse na produção científica, na produção cultural. E muito fará a Prefeitura de São Paulo se seguir o seu caminho de promover a cidadania no âmbito da cultura e da ciência. Nós somos, além de um centro produtor de serviços, financeiros inclusive, além da capital financeira do país, nós somos um centro irradiador de cultura e de conhecimento para o Brasil e para o mundo. Temos em nosso território a maior universidade da América Latina. Não falta inteligência disponível nem criatividade disponível na cidade de São Paulo. Muitas vezes falta articulação, e aí também cabe ao poder público convocar as lideranças científicas e artísticas para promover o bemestar.

A cidade é, sobretudo o gozo, o encontro, o prazer da convivência, e a cultura e a ciência são ingredientes fundamentais desses eventos que tanto prazer causa a cada um de nós.

Eu sou daqueles que acredita não apenas que haja amor em São Paulo. Eu acredito que esse amor está pronto para se manifestar com cada vez mais força, com cada vez mais presença em nossa cidade.”

Praticamente dez por cento do seu discurso é dedicado à cultura. Algumas questões chamam a atenção de imediato: a primeira delas é o reconhecimento de que São Paulo é um centro produtor não apenas de serviços, de empreendimentos, mas que dispõe de inteligência e criatividade coletivas que podem levá-la ainda mais longe. Ora, nos últimos anos, o Estado não esteve na vanguarda de muitas iniciativas culturais relevantes. Estas estiveram com o SESC e com os institutos culturais dos bancos privados. Uma estrutura funcional defasada, equipamentos quase sem presença de equipamentos ativos nos bairros, a Lei Cultural que atende a poucos eleitos, que precisa urgentemente ser substituída, explica o quadro de a cultura estar em um lugar menor entre as políticas públicas, mesmo com a Virada Cultural, degrande visibilidade, mas de pequena expressão no campo do desenvolvimento cultural.

Mas Haddad deseja que a prefeitura crie um ambiente favorável para que a cultura floresça na cidade. Bravo! Este é o verdadeiro papel do Estado, que já se sabe, não é criador de cultura, mas facilitador de situações, de ambientes favoráveis, através dos incentivos, das políticas públicas e da ação cultural. Nesse sentido, torna-se mais que necessário pensar em uma lei não apenas de mercado, que sirva verdadeiramente à produção cultural da cidade e novos concursos para agentes culturais, principalmente destinados a trabalhar nas extensas e carentes periferias . Também ampliar o programa VAI – centuplicar o seu alcance, e Pontos de Cultura em cada ambiente vital da diversidade. Criar um ambiente cultural includente é também exigir das subprefeituras linhas de desenvolvimento cultural local que fortaleçam o protagonismo e a autonomia dos grupos, gerando a construção de diversidades a partir da localidade.

O secretário Juca Ferreira, pela qualidade de sua passagem no Ministério da Cultura, poderá ser o gestor com essa visão – a de “culturalizar” a diversidade dos bairros. Mais: o poder público, segundo o discurso de posse, convocará as lideranças científicas e artísticas para promover o bem-estar. Isto não é pouco em se tratando de São Paulo; aqui temos um poder público com baixa capacidade de convocação, aliás, a convocação não tem sido o forte da gestão estadual e municipal dos últimos anos. E isto significa acreditar no debate público, nas oportunidades de diálogo, na ação descentralizada, no conselho municipal de cultura, nas conferências, nas auscultas socioculturais etc.

O Manifesto 2000 da UNESCO – Por uma Cultura de Paz e Não-Violência afirma que devemos “Ouvir para Compreender”. Portanto, a escuta deve compor o rol das ações e políticas públicas e a sustentabilidade democrática. Por falar em sustentabilidade, a ação da Secretaria de Cultura deverá alinhar-se a um conceito amplo de cultura e não apenas à cultura-arte, à cultura- É vento!, à cultura-erudição – mas ampliar o seu conceito para o desenvolvimento humano e sustentável, estimulando diálogos com outros segmentos, com a natureza e a comunidade dos seres vivos.

O que está em questão não é apenas o desenvolvimento das artes, mas uma ética sensível da vida, composta pela linguagem e o imaginário e os modos de sensibilidade da arte. Desenvolver a arte é também desenvolver a nossa capacidade de criar imaginação, emoção e pensamento. Como diz o prefeito eleito – não faltam nem criatividade e nem inteligências disponíveis para a construção da cultura como cidadania. E ele sintetiza muito bem: cultura é “a essência da própria cidade”. Sem cultura e conhecimento a “cidade não funciona”.

Vamos além: o papel da cultura não é apenas tornar mais vivos o pensamento e o imaginário, mas construir sanidade, restaurando o tecido social degradado por um modo de vida insustentável; a corrupção na política revela a corrupção que grassa nas ações cotidianas dos cidadãos, quando buscam soluções fáceis para a convivência. Trata-se de construir uma saúde plena – da nossa vida diária de sobrevivência aos pontos mais altos do imaginário, considerando que numa sociedade que não deseja tocar em suas zonas de conforto, desregramento também é saúde. Assim, é saudável a nossa dose de loucura criativa. Está cada vez mais claro que a cultura, além de elevar o espírito, tem a capacidade de curar. Nesta chave – a cultura cura.

Parece que estamos diante de um ponto de inflexão e de novos alinhamentos institucionais: é o momento de aproveitarmos a oportunidade para se pensar culturalmente a cidade e não apenas fortalecer grupos de interesse presentes nas ações de “clientelismo cultural”. A Prefeitura, através do secretário Juca Ferreira deve estar atenta para os novos diálogos públicos, sua transparência e legitimidade, fugindo das pressões corporativas que levam em conta segmentos e não a diversidade ou a universalização dos direitos culturais.

Reencantar a cidade, criar ambientes favoráveis ao sensível, a novos paradigmas emergentes, a outros pensares fora das linhas da “normose cultural”, a cidade como um campo permanente de criatividade, enfim, formar mundos poeticamente habitáveis por seus cidadãos e todos os que possam fruir da sua magia – parece constituir o verdadeiro desafio da nossa urbanidade doentia.

Assim, pode-se acreditar mais na presença do Amor, desejo alvissareiro do novo prefeito, como uma poderosa força de coesão cultural da diversidade.

Ao que parece, a renovação cultural já começou com a eleição do novo prefeito.

Hamilton Faria é poeta, especialista em desenvolvimento cultural sustentável